Derrapada democrática de Lula em análises semelhantes

 

Já escrevi mais de uma vez que considero Elio Gaspari o maior jornalista brasileiro vivo. Em O Globo e na Folha de S. Paulo, seus artigos, publicados às quartas, e sua coluna de meia página, aos domingos, são sempre um farol sobre os fatos nacionais e do mundo. Sempre com estilo próprio, quase literário, cultura vastíssima e faro apurado dos fatos presentes.

Seus cinco livros “A Ditadura Envergonhada”, “A Ditadura Escancarada”, “A Ditadura Derrotada”, “A Ditadura Encurralada” e “A Ditadura Acabada” são, acima de qualquer historiador, a obra definitiva sobre a última ditadura militar do Brasil (1964/1985). Fruto de intensa pesquisa e da condição de jornalista de confiança, sem que isso signifique alinhamento político, de dois generais: o ex-presidente Ernesto Geisel e o ex-ministro da Casa Civil Golbery do Couto e Silva, maior teórico da ditadura e da redemocratização brasileiras.

Conseguir pensar sobre o Brasil junto com Elio Gaspari é motivo de orgulho para qualquer jornalista. Já tinha dado essa sorte antes duas vezes. A primeira, em 1º de maio de 2018, mesmo dia em que Gaspari e eu decretamos a morte, em vida, do governo Michel Temer (MDB), após prisões de nomes ligados ao então presidente na operação Skala. Previsão que foi confirmada até Temer passar a faixa presidencial a Jair Bolsonaro, em 1º de janeiro de 2019.

A segunda, mais recente, foi sobre a possibilidade de Bolsonaro se candidatar em 2022 a senador ou deputado federal, caso constate não ter chance real de reeleição, mas queira manter sua condição de foro privilegiado contra inevitáveis ações na Justiça. A possibilidade foi aventada no programa Folha no Ar de 21 de outubro deste ano. E escrita por Gaspari no dia 24 do mesmo mês.

A terceira consonância de visão com Gaspari se deu neste final de semana. O fato foi o tropeço democrático de Lula em entrevista ao jornal espanhol El Pais, quando tentou relativizar as ditaduras “companheiras” de Daniel Ortega, na Nicarágua; de Nicolás Maduro, na Venezuela; e de Miguel Días-Canel, em Cuba; chegando a comparar o primeiro à chanceler alemã Angela Merkel. Que foi tratado no artigo “De Ortega a Merkel, Lula ‘estava indo tão bem!’”, publicado no sábado (27) na Folha da Manhã e neste blog. E foi análise muito parecida a que o grande jornalista trouxe na abertura da sua coluna de hoje (28), intitulada “Os saltos altos do PT”, no Globo e Folha de S. Paulo.

Confira abaixo o texto do Gaspari sobre a derrapada democrática do “Nosso Guia”, como o mestre do jornalismo brasileiro se refere a Lula — Fernando Henrique Cardoso, em seus tempos de presidente, era tratado de “FFHH”. Na sequência, para desmontar as falsas alegações lulopetistas de que se tirou de contexto as palavras do seu “mito”, o vídeo com a íntegra da entrevista deste às jornalistas Pepa Bueno e Lucía Abellán, do espanhol El Pais.

 

Elio Gaspari, jornalista e escritor

 

Os saltos altos do PT

Por Elio Gaspari

 

O PT subiu num salto alto à sua maneira. Num pé calçou um modelo Sabrina, no outro, um Stiletto. Como eles têm alturas diferentes, incomodam pouco para quem joga sentado, mas atrapalham, e muito, quem tiver que se mover numa campanha eleitoral.

Em menos de um mês, o comissariado amarrou-se a uma incompreensível, porém deliberada, defesa de regimes ditatoriais ditos de esquerda. Primeiro, um comissário saudou a vitória de Daniel Ortega numa eleição que lhe rendeu o quarto mandato à custa da prisão de postulantes. A presidente do PT disse que o festejo não havia passado pelo crivo da direção.

Passaram-se semanas e Lula foi confrontado pelo caso nicaraguense por duas entrevistadoras do jornal El Pais. Numa resposta marota de palanque, bateu no cravo e acertou Ortega defendendo a alternância dos governantes no poder. Na ferradura, lembrou que Angela Merkel ficou 16 anos no poder. Adiante, repetiu o truque ao dizer que a democracia em Cuba depende do fim do bloqueio econômico dos Estados Unidos. Nenhuma das duas coisas tem a ver com a outra.

Nosso Guia foi prejudicado pela retórica de que se vale nos discursos. As repórteres Pepa Bueno e Lucía Abellán, contudo, eram entrevistadoras.

Dois dias depois, a ex-presidente Dilma Rousseff participava de um debate sobre o livro “China, o Socialismo do Século 21” e disse o seguinte: “A China representa uma luz nessa situação de absoluta decadência e escuridão que é atravessada pelas sociedades ocidentais”.

Internet censurada, partido comunista (o único) controlando empresas e roubalheiras sazonais iluminam pouca coisa, mas se a doutora gosta dessa penumbra, o problema é dela. Mais intrigante foi a contraposição que ela pôs na mesa: a “absoluta decadência e escuridão que é atravessada pelas sociedades ocidentais”.

Há sociedades ocidentais que passam por crises. Se algumas podem até estar em decadência, não são todas e, no conjunto, ela não é “absoluta”.

Desde que há Ocidente há quem o veja como decadente. Essa ideia popularizou-se a partir de 1918, quando o pensador alemão Oswald Spengler escreveu o seu “A Decadência do Ocidente”. Simplificando, ele previa a ascensão ao poder de partidos cesaristas. O doutor morreu em 1936, quando havia césares na Alemanha, Itália e União Soviética. Nove anos depois, viu-se no que deu. Nenhum dos partidos que produziram os césares de Spengler existe hoje.

Há no PT quem concorde com Dilma e Lula, e os dois podem dizer que governaram o Brasil por 13 anos sem agredir e nem mesmo ameaçar as instituições democráticas. O declínio do PT foi influenciado pelos episódios em que se lambuzou. Com poucas exceções, sua ala radical passou pessoalmente incólume pelas lambanças. Isso proporcionou-lhe uma autoridade moral nas discussões internas, mas não resultou numa linha que permita ao PT entrar numa campanha eleitoral com um pé num salto Sabrina e outro num Stiletto.

 

 

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