Mendonça no STF — Preconceito é problema de quem o alimenta

 

André Mendonça (Foto: Agência Brasil)

 

Elio Gaspari, jornalista e escritor

A intolerância persegue André Mendonça

Por Elio Gaspari

 

O advogado André Mendonça assumirá sua cadeira no Supremo Tribunal Federal depois de ter comido o pão que Asmodeu amassou. Ele é acompanhado pela pecha de suspeição que Jair Bolsonaro lhe atribuiu ao dizer que escolheria um ministro “terrivelmente evangélico”.

Mendonça é pastor de uma igreja, aceitou o rótulo e foi apoiado pela bancada evangélica, que se mobilizou em sua defesa. O doutor fez carreira no serviço público, foi um correto advogado-geral da União e um medíocre ministro da Justiça. Sua retórica é pedestre e áulica. Já chamou Jair Bolsonaro de “profeta” e foi buscar na frase do astronauta Neil Armstrong ao pisar na Lua a imagem de sua chegada à Corte: “É um passo para o homem e um salto para os evangélicos”. Menos, doutor.

Na caminhada para o Supremo, Mendonça alimentou um tempero teatral em torno da sua fé. Quando isso poderia lhe custar o voto de alguns senadores, passou pela sabatina com respostas de advogado.

Foi um exagero deixá-lo na geladeira por quatro meses. Currículo por currículo, o seu está na média das indicações para o tribunal. Exagero maior tem sido a desvalorização de um servidor por ser evangélico. Quem botou a fé nessa roda foi Bolsonaro. Mesmo assim, é má ideia acompanhar a lógica do capitão.

O Supremo Tribunal já teve bons e falsos católicos. Luiz Fux é judeu, e sua fé nunca se tornou critério para julgá-lo como profissional do Direito. As malfeitorias de alguns pastores tisnam o conjunto dos evangélicos. Felizmente, os malfeitos de alguns padres não produzem o mesmo efeito sobre o catolicismo. No fundo, o que há é intolerância.

Na Suprema Corte dos Estados Unidos, historicamente composta de protestantes, havia um discreto preconceito contra juízes católicos. Eles eram vistos como conservadores, até que brilhou a estrela do católico conservador Antonin Scalia. Ele era tudo isso e também brilhante. Maior foi o preconceito contra os judeus até metade do século passado.

Em 1916, o presidente Woodrow Wilson nomeou para a Suprema Corte o judeu Louis Brandeis. Ele era um ativista e foi um dos grandes juízes do tribunal. Seu colega James McReynolds, um americanão de vitrine da época, recusava-se a dirigir a palavra ao colega e a posar para uma fotografia da Corte porque ficaria a seu lado. Ele dizia que os judeus eram como as pulgas dos cachorros. Esses preconceitos nunca andam sozinhos. McReynolds deu as costas numa sessão em que falava um advogado negro. Solteirão, também se recusava a ouvir sustentações de mulheres. Passou o tempo, e ele é considerado um dos piores juízes que estiveram na Suprema Corte.

A teatralidade recente de André Mendonça alimenta o preconceito contra os evangélicos. Sem ela, seu colega Kassio Nunes Marques é tratado com mais tolerância, porque é um mestre do silêncio. Ganha um fim de semana às margens do Rio Jordão quem souber o que é um juiz “terrivelmente evangélico”. Seria um magistrado que reza pela cartilha conservadora? Nesse caso, seria alguém parecido com Scalia, que era católico. McReynolds pertencia à denominação protestante dos DiscípAndrulos de Cristo.

A fé de um juiz não quer dizer nada. O preconceito contra judeus, católicos e evangélicos, negros e mulheres é um problema de quem o alimenta.

 

Publicado hoje em O Globo.

 

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