Invasão ao Capitólio afastou a democracia do mundo

 

Em 7 de narço de 2020, em Mar-a-Lago, na Flórida, Jair Bolsonaro e o então presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Alan Santos/PR)

 

 

Francis Fukuyama, filósofo e economista político nipo-estadunidense, autor do livro “O Fim da História e o Último Homem”, de 1992

Ataque ao Capitólio: O dia em que o mundo se afastou de nós

Por Francis Fukuyama

 

O ataque de 6 de janeiro de 2021 contra o Capitólio, realizado por uma multidão inspirada pelo ex-presidente Donald Trump, marcou um nefasto precedente na política dos EUA. Desde a Guerra Civil (1861/1865), o país jamais havia fracassado em realizar uma transferência de poder pacífica, e nenhum candidato jamais havia contestado resultados de uma eleição diante de tanta evidência de que a votação fora livre e justa. O evento continua a reverberar, mas seu efeito não é apenas doméstico, ele também teve grande impacto global e sinaliza o declínio do poder e da influência dos EUA.

O 6 de Janeiro precisa ser visto como pano de fundo de uma crise global da democracia liberal. Segundo o relatório Liberdade no Mundo 2021, da Freedom House, a democracia está em declínio há 15 anos, com os maiores percalços enfrentados pelas duas maiores democracias do mundo, EUA e Índia. Desde que o relatório foi publicado, golpes de Estado ocorreram em Mianmar, Tunísia e Sudão, países que antes haviam dado passos promissores na direção da democracia.

O mundo havia testemunhado uma grande expansão no número de democracias, de 35, no início dos anos 70, para mais de 110, na época da crise de 2008. Os EUA foram cruciais para o que foi classificado como a “Terceira Onda” de democratização, garantindo segurança para aliados democráticos na Europa e no Leste da Ásia, liderando uma economia global cada vez mais integrada que quadruplicou sua produção no período.

Mas a democracia global estava alicerçada no sucesso e na durabilidade da democracia dos EUA — o que o cientista político Joseph Nye classifica como “poder brando”. Pessoas de todo o mundo consideravam os EUA um exemplo a ser seguido, dos estudantes da Praça Tiananmen aos manifestantes das “revoluções coloridas”, na Europa e no Oriente Médio.

O declínio da democracia é ocasionado por forças complexas. Globalização e transformação econômica deixaram muita gente para trás, e uma enorme divisão cultural emergiu entre profissionais com alto nível de formação que vivem nas grandes cidades e moradores de localidades menores, com valores mais tradicionais. O advento da internet enfraqueceu o controle das elites sobre a informação — nós sempre discordamos a respeito de valores, mas agora vivemos em universos de fato separados. E o desejo de pertencimento e a afirmação de dignidade própria são com frequência forças mais poderosas do que o autointeresse econômico.

O mundo, desta maneira, parece muito diferente que o de 30 anos atrás, quando a União Soviética acabou. Houve dois fatores-chave que subestimei naquela época — primeiro, a dificuldade de criação não apenas de uma democracia, mas também de um Estado moderno, imparcial e livre de corrupção; e em segundo lugar, a possibilidade da deterioração de democracias avançadas.

O modelo americano está se deteriorando já há algum tempo. Desde meados da década de 90, a política dos EUA tem se polarizado, sujeita a impasses contínuos que impedem o cumprimento de funções governamentais básicas, como a aprovação de orçamentos.

 

Obstáculos

Havia claros problemas com as instituições americanas — como a influência do dinheiro na política e os efeitos de um sistema eleitoral cada vez mais desalinhado com a escolha democrática. E, ainda assim, o país parecia incapaz de reformar a si mesmo. Períodos anteriores de crise, como a Guerra Civil e a Grande Depressão (1929), produziram líderes perspicazes e criadores de instituições; o que não ocorreu nas primeiras décadas do século 21, que testemunharam formuladores de políticas administrando duas catástrofes — a Guerra do Iraque e a crise do subprime — e, posteriormente, o surgimento de um demagogo de pouca visão encorajando um furioso movimento populista.

Até o 6 de Janeiro, seria possível considerar esses desdobramentos sob as lentes da política americana comum, com seus desentendimentos a respeito de temas como comércio, imigração e aborto. Mas a insurreição marcou o momento em que uma minoria mostrou-se disposta a voltar-se contra a própria democracia e utilizar violência como ferramenta para alcançar seus objetivos.

O que tornou o 6 de Janeiro uma mancha — e uma tensão — alarmante para a democracia americana foi o fato de o Partido Republicano, longe de repudiar quem iniciou e participou da insurreição, buscou normalizá-la e expurgou de seus próprios quadros aqueles que se mostraram dispostos a falar a verdade sobre a eleição de 2020.

O impacto do 6 de Janeiro ainda surte efeitos na arena internacional. Ao longo dos anos, líderes autoritários buscaram manipular resultados de eleições e negar a vontade popular, como Vladimir Putin, na Rússia, e Aleksander Lukashenko, em Belarus. Por outro lado, candidatos derrotados fizeram acusações de fraude em eleições livres e justas.

Isso aconteceu ano passado no Peru, quando Keiko Fujimori contestou sua derrota para Pedro Castillo no segundo turno. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tem estabelecido as bases para contestar a eleição deste ano atacando o funcional sistema eleitoral, da mesma maneira que Trump passou o fim de sua campanha minando a confiança na votação pelo correio.

 

Alto risco

Antes do 6 de Janeiro, esse tipo de artimanha teria sido condenada pelos americanos. Mas agora isso aconteceu nos EUA. A credibilidade do país, decorrente da manutenção de um modelo de boas práticas democráticas, foi despedaçada. Esse precedente já é ruim o suficiente, mas há consequências ainda mais perigosas.

O retrocesso da democracia tem sido liderado por dois países autoritários em ascensão, Rússia e China. Ambos possuem reivindicações sobre territórios que não lhes pertencem. Putin declarou não acreditar que a Ucrânia seja um país legitimamente independente, mas que faz parte de uma Rússia muito ampliada. Ele concentrou tropas na fronteira e tem testado respostas do Ocidente a uma possível agressão. O presidente chinês, Xi Jinping, afirma que Taiwan deve voltar a ser controlada pela China, e líderes chineses não excluem o uso de força militar.

Um fator determinante em qualquer agressão militar será o papel dos EUA, que não concederam garantias claras de segurança nem para Ucrânia nem para Taiwan, mas têm apoiado militarmente e se mostrado ideologicamente alinhados com seus esforços de tornar-se democracias verdadeiras.

Se o ímpeto de repudiar os eventos de 6 de janeiro tivesse se formado no Partido Republicano, de forma semelhante ao seu abandono de Richard Nixon, em 1974, os EUA seriam capazes de deixar para trás a era Trump. Mas isso não aconteceu, e adversários como Rússia e China estão assistindo de perto com satisfação.

Se temas como vacinação e uso de máscara tornaram-se politizados e desagregadores, imagine como uma futura decisão de ampliar o apoio militar para a Ucrânia ou Taiwan seria recebida? Trump minou o consenso que existia desde o fim dos anos 40 a respeito da forte posição dos EUA enquanto defensores da liberdade, e Biden ainda não foi capaz de restabelecê-lo.

A maior fraqueza dos EUA é relativa a suas divisões internas. Representantes do conservadorismo viajaram para a Hungria em busca de um modelo alternativo, e um número estarrecedor de republicanos considera os democratas uma ameaça maior que a Rússia.

Os EUA conservam um enorme poder econômico e militar, mas esse poder não é utilizável na ausência de consenso doméstico a respeito do papel internacional do país. Se os americanos deixarem de acreditar numa sociedade aberta, tolerante e liberal, nossa capacidade de inovar e liderar a mais importante economia do mundo também diminuirá. O 6 de Janeiro aprofundou as divisões internas e terá consequências que ecoarão por todo o planeta nos próximos anos.

 

Publicado no Estadão.

 

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