Um ano após a invasão do Capitólio a chifradas

Em 6 de janeiro de 2021, protegido por vidro à prova de balas, Trump usou a área externa da Casa Barnca para mugir sua dor de corno pela derrota nas urnas presidenciais. E foi atendido no mesmo dia por quem invadiu o Capitólio, literalmente, a chifradas (Fotos: Mandel Ngan/AFP e Win McNamee/Getty Imagens – montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Hoje, 6 de janeiro de 2022, se completa um ano da invasão do Capitólio dos EUA por militantes do então presidente Donald Trump. Ele os atiçou pessoalmente, em discurso na área externa da Casa Branca, ao atentado contra a mais longeva democracia da Terra. Atendido por quem atacou seu próprio Congresso a chifradas de bisão, Trump mugia sua dor de corno pela derrota acachapante, nas urnas presidenciais de 3 de novembro de 2020, para Joe Biden. Que venceu com a folgada vantagem de mais de 7 milhões de votos populares. E por 306 a 232 votos no colégio eleitoral — resultado que conta lá e foi antecipado aqui, por este blog, um dia antes do resto do mundo.

A invasão do Capitólio se deu no dia em que este, presidido por Mike Pence, vice-presidente de Trump, reconheceu a vitória eleitoral de Biden. Deixou saldo de cinco mortos, entre eles Brian Sicknick, um dos mais de 140 policiais feridos ao tentarem conter os “cidadãos de bem” do lado de cima do Equador. Mestre do jornalismo brasileiro, Elio Gaspari deu ontem (05) o saldo das consequências: “Cinco dias depois da invasão do Capitólio, Steven M. D’Antuono, chefe do escritório de Washington do FBI, avisou: ‘Nossos agentes vão bater na tua porta’. Até agora, bateram numas mil portas e prenderam ou indiciaram 724 pessoas de 45 estados americanos. Abriram 170 investigações e partiram da análise de 100 mil peças de comunicação digital. Sem lavajatismo, quase todo dia havia alguém sendo interrogado”.

Elio Gaspari, jornalista e escritor

Sobre quem atendeu com chifres de bisão ao mugido da dor de corno de Trump, Gaspari emblematicamente acrescentou: “O palhaço que circulou com roupa de bicho e chifres na cabeça foi alcançado três dias depois e tomou até 41 meses de prisão. Queria notoriedade, tornou-se exemplo”. Também descreveu o perfil plural dos invasores e identificou seu líder singular: “Havia de tudo naquela multidão: jovens, velhos, famílias, veteranos, pastores, policiais, alguns pastores policiais, professores e malucos fantasiados, todos movidos pela realidade paralela instigada pelo presidente Donald Trump”.

O jornalista brasileiro ressalvou que ainda falta pegar os “peixes gordos” da tentativa de um golpe de estado nos EUA: “No primeiro aniversário da insurreição, peixe gordo se protege, tentando blindar a documentação da Casa Branca relacionada com o episódio (…) Sabe-se também que Ivanka, filha de Trump, tentou chamá-lo à razão, mas ele passou horas diante dos aparelhos de televisão. Seus advogados pediram à Suprema Corte que preservasse o sigilo das movimentações na Presidência. Deve-se esperar que a Corte se pronuncie, pois o caso é constitucionalmente intrigante. O ex-presidente (Trump) quer manter o sigilo que Joe Biden, seu rival na campanha, dispensou. O FBI brilhou, mas, nos limites de sua investigação, só pegou lambaris”.

 

Joe Biden discursou hoje no Statuary Hall, no Capitólio, sobre o aniversário de 1 ano da invasão ao Capitólio por militantes de Donald Trump (Foto: Drew Angerer/Poll/Reuters)

 

Ao discursar hoje no Capitólio há um ano invadido, Biden evitou citar o nome de Trump. Ainda assim, deu nome aos bois:

— Vou dizer o óbvio: um ano atrás, exatamente, neste local sagrado, a democracia foi atacada; simplesmente atacada. A vontade do povo estava sendo ameaçada, a nossa Constituição enfrentou a maior das ameaças (…) Pela primeira vez na nossa história, um presidente não tinha apenas perdido a eleição, ele tentou impedir a transferência pacífica de poder, com uma turba violenta que chegou ao Capitólio. Mas eles falharam, eles falharam. E, neste dia de lembranças, vamos garantir que um ataque como aquele nunca mais aconteça de novo (…) Mesmo durante Guerra Civil (dos EUA, 1861/1865) isso nunca aconteceu; nunca! Mas aconteceu aqui em 2021 (…) Nós vimos um presidente, que tinha acabado de mobilizar aquela massa para atacar, sentado no Salão Oval (da Casa Branca), olhando para tudo aquilo na televisão e fazendo absolutamente nada, por horas (…) Isso foi uma insurreição armada. Eles queriam negar o desejo do povo, eles estavam querem mudar o resultado de uma eleição livre e justa, eles estavam querendo subverter a Constituição (…) O ex-presidente dos EUA criou e espalhou um monte de mentiras sobre o que aconteceu na eleição de 2020. Ele fez isso porque dá mais valor ao poder do que aos princípios (…) Antes mesmo da contagem da primeira urna, o ex-presidente já estava lançando dúvidas sobre o resultado da eleição. Ele construiu essa mentira por meses, sem estar baseado em fato algum. Ele estava só querendo uma desculpa, um pretexto, para esconder a verdade. Ele não é só um ex-presidente; ele é um ex-presidente perdedor”.

 

Em 7 de narço de 2020, em Mar-a-Lago, na Flórida, Jair Bolsonaro e o então presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Alan Santos/PR)

 

Sobretudo após a tentativa frustrada de golpe de Jair Bolsonaro em 7 de setembro de 2021, o alerta do presidente dos EUA serve ao Brasil. Que tem um presidente orgulhoso por ser conhecido como “Trump dos Trópicos”. E cuja reeleição em outubro hoje é apontada como aritmeticamente impossível por todas as pesquisas. Na dúvida do que aconteceu e ainda pode acontecer, reveja os vídeos com os resumos do 6 de janeiro de 2021, nos EUA ainda de Trump; e no 7 de setembro do mesmo ano, no Brasil ainda de Bolsonaro:

 

 

 

 

Na transcrição abaixo, o testemunho daquele 6 de janeiro de 2021, no qual a democracia dos EUA foi alvo de terroristas internos. Tanto quanto havia sido por terroristas estrangeiros, e seus próprios erros de política externa, em 11 de setembro de 2001:

 

O dia em que Trump transformou os EUA em república de bananas

 

Militantes convocados por Donald Trump invadiram o Congresso dos EUA hoje, interrompendo a sessão que reconheceria a vitória do presidente eleito Joe Biden (Foto: Reprodução)

 

Tenho 48 anos (hoje, já são 49, perto dos 50). Lembro-me dos presidentes dos EUA desde Jimmy Carter. E dos seus seis sucessores na Casa Branca. Incluindo o atual, derrotado por Joe Biden nas urnas de novembro por 306 a 232 votos do colégio eleitoral, e mais de 7 milhões de votos populares.

Vivi para ver o Congresso dos EUA ser hoje invadido por militantes de um caudilho de 5ª categoria. Para transformar a democracia mais longeva do mundo, que há 232 anos elege pelo voto seus representantes, em uma republiqueta de bananas.

Espero viver para ver o responsável ser acusado, julgado e condenado com todo o rigor da lei. Tão logo seja cumprido seu mandado de despejo do poder, daqui a apenas 14 dias. E que sirva de exemplo abaixo do Equador, ao que espera o Brasil em 2022.

 

Marcha dos camisas negras do líder fascista Benito Mussolini no Palácio Quirinal, residência real em Roma, em 31 de outubro de 1922

 

Presidente eleito dos EUA, levando também a maioria no Congresso hoje invadido, Biden disse em pronunciamento: “Isso não é protesto, é insurreição”. Qualquer semelhança com um certo putsch em Munique, ou uma marcha dos camisas negras sobre Roma, não é mera coincidência.

Como não parece ser a visita anteontem (em 4 de janeiro de 2021) do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) aos ainda ocupantes da Casa Branca.

 

Atualização às 18h14: sobre o aniversário de 1 ano da invasão do Capitólio, confira também a análise do servidor federal Edmundo Siqueira, blogueiro do Folha1.

 

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