Morto hoje aos 81, Arnaldo Jabor em vida e obra

 

Arnaldo Jabor (Foto: Valéria Gonçalvez/Estadão)

 

Morreu hoje o cineasta, jornalista e escritor Arnaldo Jabor. Tinha 81 anos e estava internado desde dezembro passado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, após um acidente vascular cerebral (AVC).

Era egresso da segunda geração do Cinema Novo, movimento brasileiro dos anos 1960 e 1970 com base no neorrealismo italiano e da Nouvelle Vague francesa. Que buscava intrepetar as grandes diferenças socioeconômicas do Brasil numa ruptura com a influência do cinema comercial de Hollywood. Estreou na direção de longas com o documentário “Opinião Pública” (1967), antes de se fixar na ficção, a partir de “Pindorama” (1971).

Foi na adaptação da dramaturgia de Nelson Rodrigues que Jabor alcançou sua maior resposta de público e crítico como cineasta. Com trilha sonora do argentino Astor Piazzolla, “Toda Nudez Será Castigada” (1972) teve grande bilheteria, além de conquistar os Ursos de Prata do Festival de Berlim de filme e atriz — para Darlene Glória, no papel da prostituta Geni. Seguiria na adaptação de Nelson no filme seguinte, “O Casamento” (1975), também bem recebido por crítica e público.

Seu filme seguinte, “Tudo bem” (1978), rendeu à diva Fernanda Montenegro o prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília, em grande desempenho ao lado de Paulo Gracindo. Com o filme, Jabor abriria sua “Trilogia do Apartamento”, baseada em conflitos amorosos e existenciais entre um casal. Que seria completa com “Eu Te Amo” (1980), unindo Sônia Braga e Paulo César Pereio como casal falido pelo “Milagre Econômico” da ditadura militar no Brasil; e “Eu Sei que Vou Te Amar” (1986), já na redemocratização do país.

Nesse último filme, há uma fala que nunca esqueci, por achar que diante dela nenhum homem teria alguma resposta. Protagonista feminina do filme, no meio da discussão acalorada com seu marido vivido por Thales Pan Chacon, Fernanda Torres o ameaça, na interpretação que lhe renderia a Palma de Ouro em Cannes como melhor atriz:

— Vou dar para um homem muito melhor que você. Vou dar pra Tom Jobim!

Jabor migraria do cinema ao jornalismo a partir dos anos 1990, quando o então presidente Fernando Collor de Mello (hoje, senador do Pros por Alagoas) extinguiu a Embrafilme e feriu quase de morte o cinema nacional. Provocador e sem dogmas ideológicos, Jabor estrearia como articulista de O Globo em 1995. Depois, estenderia sua atuação jornalística à rádio CBN, aos jornais Folha de S. Paulo e Estadão. E, na Rede Globo, ao Jornal Nacional, Jornal da Globo, Bom Dia Brasil, Jornal Hoje e Fantástico.

Vindo da esquerda, como o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, criticou aquela por ressentimento aos governos deste, quando foi erradicada a inflação hoje de volta ao país. Como questionou os governos petistas de Lula — no qual sempre reconheceu, no entanto, a grande inteligência política — e, sobretudo, ao desastre de Dilma Rousseff. No plano estadual, também sempre foi crítico severo do ex-governador campista Anthony Garotinho (hoje, sem partido), ao qual comparava ao ex-ditador venezuelano Hugo Chávez.

 

Atentado terrorista do fundamentalismo islâmico às Torres Gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001

 

Como articulista, empreendia por vezes criativos diálogos com Nelson Rodrigues, com quem falava através de um imaginário telefone de galalite preto. Do que li, foi de Jabor a melhor definição do mundo ainda estupefato pelos atentados às Torres Gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001. Nele, o descendente de judeus-libaneses educado em colégio de padres viu no ato terrorista do fundamentalismo islâmico do Al-Qaeda um alerta ao Ocidente pós-iluminista. Que, com o filósofo alemão Nietzsche, tinha “matado” Deus no século 19. Naquele início de século 21, o jornalista advertiu ao final do seu texto:

— Deus está vivo. E se chama Alá.

Como escritor, Jabor deixa os livros “Os canibais estão na sala de jantar” (1993), “Sanduíches de Realidade” (1997), “A invasão das Salsichas Gigantes” (2001), “Amor É Prosa, Sexo É Poesia” (2004) — que rendeu música em parceria com Rita Lee —, “Pornopolítica” (2006), “Eu Sei Que Vou Te Amar” (2007), “Amigos Ouvintes” (Editora Globo, 2009) e o “O Malabarista – Os Melhores Textos de Arnaldo Jabor” (2014). Vários deles se tornaram best-sellers, alguns desde o lançamento.

 

 

Jabor ainda voltaria ao cinema com “A Suprema Felicidade” (2010). É uma ficção biográfica da sua própria vida, a partir da perspectiva do filho de um pai oficial da Aeronáutica frustrado por não pilotar jatos, e uma dona de casa cuja alegria de vida vai cedendo às desilusões do casamento infeliz. Tudo ambientado no bucólico bairro carioca da Urca. Se não chegou a ser um grande filme, é um honesto acerto de contas do cineasta consigo mesmo.

Assim como seu assumido mestre Nelson Rodrigues, Jabor foi um crítico mordaz da família burguesa de classe média, da qual ele mesmo era fruto. Nunca foi de fazer concessões, nem veio ao mundo para concorrer a prêmio de simpatia. Como os títulos de vários dos seus filmes e livros indicam, tinha obsessão pelo amor entre mulher e homem. Sem atenuar dessa relação os conflitos. É mais do que se pode dizer da mediocridade reinante — contra a qual apontou o dedo sem dó, mas sempre com compaixão — que deixa para trás.

 

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