
Morreu hoje o cineasta, jornalista e escritor Arnaldo Jabor. Tinha 81 anos e estava internado desde dezembro passado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, após um acidente vascular cerebral (AVC).




— Vou dar para um homem muito melhor que você. Vou dar pra Tom Jobim!
Jabor migraria do cinema ao jornalismo a partir dos anos 1990, quando o então presidente Fernando Collor de Mello (hoje, senador do Pros por Alagoas) extinguiu a Embrafilme e feriu quase de morte o cinema nacional. Provocador e sem dogmas ideológicos, Jabor estrearia como articulista de O Globo em 1995. Depois, estenderia sua atuação jornalística à rádio CBN, aos jornais Folha de S. Paulo e Estadão. E, na Rede Globo, ao Jornal Nacional, Jornal da Globo, Bom Dia Brasil, Jornal Hoje e Fantástico.
Vindo da esquerda, como o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, criticou aquela por ressentimento aos governos deste, quando foi erradicada a inflação hoje de volta ao país. Como questionou os governos petistas de Lula — no qual sempre reconheceu, no entanto, a grande inteligência política — e, sobretudo, ao desastre de Dilma Rousseff. No plano estadual, também sempre foi crítico severo do ex-governador campista Anthony Garotinho (hoje, sem partido), ao qual comparava ao ex-ditador venezuelano Hugo Chávez.

Como articulista, empreendia por vezes criativos diálogos com Nelson Rodrigues, com quem falava através de um imaginário telefone de galalite preto. Do que li, foi de Jabor a melhor definição do mundo ainda estupefato pelos atentados às Torres Gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001. Nele, o descendente de judeus-libaneses educado em colégio de padres viu no ato terrorista do fundamentalismo islâmico do Al-Qaeda um alerta ao Ocidente pós-iluminista. Que, com o filósofo alemão Nietzsche, tinha “matado” Deus no século 19. Naquele início de século 21, o jornalista advertiu ao final do seu texto:
— Deus está vivo. E se chama Alá.
Como escritor, Jabor deixa os livros “Os canibais estão na sala de jantar” (1993), “Sanduíches de Realidade” (1997), “A invasão das Salsichas Gigantes” (2001), “Amor É Prosa, Sexo É Poesia” (2004) — que rendeu música em parceria com Rita Lee —, “Pornopolítica” (2006), “Eu Sei Que Vou Te Amar” (2007), “Amigos Ouvintes” (Editora Globo, 2009) e o “O Malabarista – Os Melhores Textos de Arnaldo Jabor” (2014). Vários deles se tornaram best-sellers, alguns desde o lançamento.

Assim como seu assumido mestre Nelson Rodrigues, Jabor foi um crítico mordaz da família burguesa de classe média, da qual ele mesmo era fruto. Nunca foi de fazer concessões, nem veio ao mundo para concorrer a prêmio de simpatia. Como os títulos de vários dos seus filmes e livros indicam, tinha obsessão pelo amor entre mulher e homem. Sem atenuar dessa relação os conflitos. É mais do que se pode dizer da mediocridade reinante — contra a qual apontou o dedo sem dó, mas sempre com compaixão — que deixa para trás.