Brasil de Bolsonaro, Rússia de Putin e Hungria entre Orbán e Puskás

 

Jair Bolsonaro com os autocratas Vladimir Putin, na Rússia, e Viktor Orbán, na Hungria do craque Ferenc Puskás (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

— E Bolsonaro na Rússia de Putin e na Hungria de Orbán? — abriu os trabalhos Paulo, antes de molhar a palavra com um gole de Original gelada, na mesa do boteco.

— Foi tentar espelhar Lula na Alemanha, na França, na Espanha e no Parlamento Europeu, na Bélgica, em novembro do ano passado — lembrou Aníbal, garganta já umedecida pela cerveja.

Lula em suas visitas de novembro à Alemanha do chanceler Olaf Scholz, à França do presidente Emmanuel Macron e à Espanha do primeiro-ministro Pedro Sánchez (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

— Mas tem duas diferenças básicas. A primeira, Bolsonaro ainda é chefe de Estado. Lula, embora recebido como se fosse, já não é há mais de uma década. Além do que, Alemanha, França e Espanha são democracias. A Rússia e a Hungria, não.

— A Rússia é um caso à parte. Enclave europeu na Ásia, na mistura de povos eslavos com os vikings e os mongóis na Idade Média, saiu da ditadura czarista para a comunista, com a Revolução de 1917. O breve período deles de democracia, nos anos 1990, se deu com a derrama dos oligarcas assumindo os serviços do Estado. E Boris Yeltsin humilhando o país aos olhos do mundo, em suas constantes aparições completamente bêbado. Assim como suas Forças Armadas, temidas durante a II Guerra Mundial e a Guerra Fria, foram humilhadas na república separatista da Chechênia. Tanto que, ao assumir a Rússia no início do milênio, após servir à comunista União Soviética como agente da KGB, Putin logo tratou de colocar alguns oligarcas não alinhados na cadeia e ir às forras na Chechênia.

— É um bom resumo da ópera de Tchaikovsky. Mas você não está defendendo o Putin, está?

— Vladimir Putin é um canalha amoral, capaz de matar envenenados dissidentes russos até na Inglaterra. Mas é também uma águia da geopolítica. Nos 22 anos da sua ditadura mal disfarçada na Rússia, reafirmou o poder do país na Europa, que não passa de um promontório da Ásia. A única líder europeia capaz de lhe fazer frente durante esse tempo foi Angela Merkel, que não comanda mais a Alemanha. Mas nem ela foi capaz de achar alternativa ao dilema: se Putin fechar o gasoduto da Rússia que aquece a Europa durante o inverno rigoroso deles, os demais europeus teriam que queimar lenha para não morrerem de frio.

— E essa celeuma com a Ucrânia?

— A Ucrânia está para a Rússia como a Bahia ao Brasil. Foi lá que tudo começou. Putin está certo ao cobrar a palavra empenhada em 1990, em nome dos EUA, pelo seu então secretário de Estado, James Baker, do governo George Bush pai. A promessa era de que a Otan não avançaria sobre o Leste Europeu, na área de influência da União Soviética, comandada à época por Mikhail Gorbatchov. Assim como a Ucrânia, ex-república soviética independente há mais de 30 anos, está certa ao querer fazer valer a vontade da maioria da sua população, que deseja a entrada do país na Otan. Para ficar mais próxima das democracias europeias do que das ditaduras de Putin na Rússia, ou do seu aliado Aleksandr Lukashenko, na Bielorrússia. Sem paixões, os dois lados têm as suas razões.

— A Otan é um restolho da Guerra Fria, para selar a aliança militar dos EUA com a Europa Ocidental, após a II Guerra, e tentar conter a expansão comunista da União Soviética. Com o fim desta, desde 1991, a Otan talvez tenha perdido o sentido de existir.

— A Otan, como o Pacto de Varsóvia feito pela União Soviética em resposta, têm o mesmo princípio da jihad islâmica. Em árabe, jihad significa “esforço”, não “guerra santa”, como volta e meia é mal traduzido. Parte do pressuposto de que se eu sou muçulmano e tenho dois vizinhos, você, que também é muçulmano, e outro que não é, se este o agredir, eu tenho obrigação de me aliar a você contra ele. É o mesmo princípio da sororidade feminina.

— Só que, vou repetir: a União Soviética, o Pacto de Varsóvia e a ameaça comunista não existem há mais de 30 anos.

— Só não pode contar isso aos bolsonaristas, pois acordar sonâmbulo é sempre perigoso. Mas, sim, a ameaça à hegemonia dos EUA vem muito mais da pujança econômica do capitalismo de estado da China do que do arsenal nuclear da Rússia. Putin ameaça mais o Ocidente com sua guerra cibernética, que em 2016 ajudou a eleger Donald Trump presidente dos EUA e a Grã-Bretanha a sair da União Europeia com o Brexit, do que com o poder dos seus exércitos.

— Sim, por isso o Carluxo foi junto. Foi afinar contato com os hackers russos e com o Telegram para a eleição de outubro. Mas e o papai chamando Viktor Orbán de “irmão”?

 

Vereador carioca e gerente do “gabinete do ódio” do pai presidente, o que Carlos Bolsonaro foi fazer na Rússia? (Foto: Reprodução da CNN)

 

— Orbán é na Hungria o que Bolsonaro queria ser, no Brasil. E não conseguiu por conta da reação das nossas instituições democráticas. Contra o Congresso, o capitão arregou. No lugar de enfrentá-lo, preferiu comprá-lo com os bilhões do Orçamento Secreto, para fazer do Mensalão do PT uma gorjeta e refazer seus laços desde sempre com o Centrão. O mesmo que, na campanha de 2018, era sinônimo de “ladrão” na voz desafinada do general Augusto Heleno. O embate de Bolsonaro agora é com o Supremo e o TSE, que têm no ministro Luís Roberto Barroso um dos grandes vultos da história recente da República. Tudo para tentar emplacar a narrativa mentirosa de fraude na urna eletrônica.

 

 

— Sim, como o próprio Barroso definiu, a ladainha contra a urna eletrônica é a “repetição mambembe de Trump”, com o voto pelos Correios nos EUA. Mas os dois têm utilidade. Servem como aquele termômetro do peru de Natal, que nos EUA é mais consumido no dia de Ação de Graças: quanto mais a narrativa subir, maior será a certeza da derrota.

— A liderança isolada de Lula em todas as pesquisas também é, até aqui, uma certeza. O que não está certo, mas também é uma possibilidade, é Orbán perder as eleições legislativas da Hungria em abril, e com ela o cargo de primeiro-ministro, após 12 anos. A ver.

— Será que as coincidências entre Brasil e Hungria chegarão a tanto?

— A maior semelhança entre Brasil e Hungria está no futebol mágico que ambos praticaram nos anos 1950. O canhoto Ferenc Puskás, que hoje batiza o prêmio da Fifa ao gol mais bonito marcado no mundo todo ano, é o nosso verdadeiro irmão húngaro. Não Orbán.

 

 

— E ainda temos o romance “Budapeste”, de Chico Buarque, inspirado também na admiração dele pelo futebol de Puskás e da grande Hungria de 1954. Mas e Bolsonaro?

— Começou o governo batendo continência à bandeira dos EUA. E vai terminar após levar flores, em Moscou, ao túmulo do soldado desconhecido do comunista Exército Vermelho, morto contra o nazifascismo na II Guerra. Para depois ecoar na Hungria o lema “Deus, pátria e família” do integralismo, “repetição mambembe” do nazifascismo no Brasil dos anos 1930.

 

Bolsonaro bate continência à bandeira dos EUA em Houston, no Texas, em 16 de maio de 2019, para depois homenagear o túmulo do soldado desconhecido do comunista Exército Vermelho, em Moscou, na última quarta-feira (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

— Como, na Campos de 2022, os apoiadores do presidente colocaram outdoor com o slogan “Uma nação, um povo, um líder”, copiado de ninguém menos que Adolf Hitler.

 

Adolf Hitler e seu slogan “Ein Nation, ein Volk, ein Führer” (“Uma nação, um povo, um líder”) copiado em plena av. 28 de Março, em campanha eleitoral extemporânea e ilegal, pelos bolsonaristas de Campos dos Goytacazes (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

— Bolsonaro e o bolsonarismo são o cachorro que morde próprio rabo. E ainda não percebeu que já chegou ao cotoco — sentenciou Aníbal, antes do gole longo de cerveja e de bater o copo esvaziado sobre a mesa do botequim, como martelo de magistrado.

 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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