Entenda a crise da invasão da Rússia de Putin à Ucrânia

 

O mapa da ex-república soviética da Ucrânia sob o avanço da Rússia de Vladimir Putin (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Entenda a crise da Ucrânia (I)

Vladimir Putin abriu a semana na segunda (21) com o discurso de um líder russo ao Ocidente mais duro há mais de 30 anos, desde que chegaram ao fim a Guerra Fria e a comunista União Soviética. Saudoso desta, na qual serviu como agente da polícia política da KGB, Putin disse não reconhecer a existência da Ucrânia como nação independente da Rússia. Mas reconheceu a independência das regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk, que já eram parcialmente ocupadas por forças pró-russas, dando início à invasão militar do leste do país vizinho. No poder há 22 anos, Putin já tinha anexado em 2014 a península da Criméia, no sul da Ucrânia.

 

Entenda a crise da Ucrânia (II)

Putin está certo na origem comum dos dois países. Mas errado ao creditar a criação da Ucrânia ao líder da Revolução Russa de 1917, Vladimir Lenin. Mais de mil anos antes de Lenin viver, o nome Rússia surgiu entre Europa e Ásia na Idade Média do século 9, juntando eslavos e vikings suecos, quando foi chamada de Rússia de Quieve — e Kiev é, até hoje, a capital da Ucrânia. A partir do século 16 se tornaria o Império Russo dos czares, com a transferência da sede do poder a Moscou e São Petesburgo. E, a partir da Revolução de 1917, União Soviética. Que chegou ao fim justamente quando Ucrânia e Rússia decretaram suas independências em 1991.

 

Ucrânia e Rússia de hoje nasceram juntas na Rússia de Quieve, juntando eslavos orientais e vikings suecos na Idade Média do século 9 (Mapa: Wikipédia Brasil)

 

Entenda a crise da Ucrânia (III)

Com 12 séculos de história comum, Putin também não está errado ao afirmar que a maior parte da população das regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk são de etnia e cultura russas, como também na Criméia. Mas o mesmo não ocorre no centro e no oeste do país, fisicamente mais próximos às democracias da Europa Ocidental. Com as quais a maioria da população da Ucrânia deseja se alinhar, deixando para trás as ditaduras dos czares, da União Soviética e de Putin. Que, apesar de incensado por parte da esquerda latino-americana, hoje tornou impossível a uma mulher prestar queixa na Rússia se sofrer agressão física do marido.

 

Entenda a crise da Ucrânia (IV)

(Infográfico: BBC Brasil)

Abaixo só dos EUA, a Rússia tem as Forças Armadas mais poderosas do mundo, com seis mil ogivas nucleares. E o histórico de quem já pôs para correr, à bala, as até então imbatíveis França de Napoleão Bonaparte e Alemanha de Adolf Hitler, respectivamente, nos séculos 19 e 20. No 21, EUA e Europa Ocidental não enviarão forças militares se a invasão for restrita à Ucrânia. Mas a coisa mudará se a Rússia quiser depois avançar também sobre outras ex-repúblicas soviéticas, como as bálticas Letônia, Lituânia e Estônia, todas hoje na Otan. Como a maioria da Ucrânia deseja ser, contra a palavra empenhada pelos EUA em 1990, e Putin não admite.

 

Napoleão Bonaparte em retirada com as tropas da França após ser derrotado na Rússia em 1812 (Óleo sobre tela de Adolph Northen)

 

Entenda a crise da Ucrânia (V)

(Infográfico: BBC Brasil)

Putin é um autocrata amoral, frio e calculista, capaz de matar dissidentes russos envenenados até na Inglaterra. Na idealização da “Grande Mãe Rússia” do passado czarista e soviético, refez a aliança do Estado com a Igreja Católica Ortodoxa, herança dos gregos bizantinos, e os valores da “família tradicional”. O que o faz ser também admirado pela neodireita mundial do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, e o atual do Brasil, Jair Bolsonaro (PL). Governa com mão de ferro um país exportador de petróleo e gás, com que aquece a Europa Ocidental no inverno. E só canta de galo quando essas commodities estão em alta. Como em 2014 e agora.

 

Entenda a crise da Ucrânia (VI)

Potência militar, mas não econômica, a Rússia se escora nas suas boas relações com a China, cujo capitalismo de Estado faz frente aos EUA. O adiamento da invasão da Ucrânia para esta semana não se deve aos delírios bolsonaristas pela visita do presidente do Brasil à Rússia na semana passada. Foi só para esperar que a China encerrasse as Olimpíadas de Inverno de Pequim, no último domingo. Na segunda, Putin partiu para o ataque. E se preparou antes de fazê-lo. Esperando as sanções econômicas anunciadas ontem pelos EUA e União Europeia, acumulou munição para a guerra. Em reservas cambiais recorde de US$ 630 bilhões.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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