Minha história e a de Campos com o cineasta Geraldo Sarno

 

Geraldo Sarno na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em 2020 (Foto: Leo Lara/Universo Produção)

 

“Eu sou baiano. Lógico que também adoro Castro Alves. Mas não dá para escrever poesia, como os românticos do século 19, à beira do século 21. Você tem que ler o João Cabral, tem que ler o João Cabral. Aqui, aqui, pegue e leia, pegue e leia”. Naquela primeira metade dos anos 1990, foi o que me disse o cineasta Geraldo Sarno, em seu apartamento no edifício Salete, tomado por prateleiras de livros até nos banheiros. Falou com seu acento baiano e repetindo as palavras, como fazia quando queria reforçar a importância do que dizia, enquanto me dava para ler, página do livro aberta, o poema “O Cão Sem Plumas”, do mestre pernambucano João Cabral de Melo Neto. Foi meu primeiro contato com o grande poeta modernista brasileiro. Depois do qual meus versos e minha vida, então com pouco mais de 20 anos, nunca mais seriam os mesmos.

 

Poetas baiano Castro Alves e pernambucano João Cabral de Melo Neto (Montagem; Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Glauber Rocha, diretor de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964)

Soube na manhã de hoje pela imprensa nacional que Geraldo morreu na noite de ontem (23) aos 83 anos, por complicações de Covid, no Hospital Copa D’Or, no Rio. Amigo, conterrâneo, contemporâneo e camarada em armas de Glauber Rocha, a quem considerava o único gênio que conheceu em vida, era ele mesmo considerado o maior cineasta documentarista do Cinema Novo, movimento dos anos 1960 e 1970 que, influenciado pelo neorrealismo italiano de a Nouvelle Vague francesa, buscava romper com a influência do cinema comercial de Hollywood para retratar e discutir nas telas as abissais diferenças socioeconômicas do Brasil. Em uma entrevista, o diretor Héctor Babenco, argentino naturalizado brasileiro, revelou que decidiu sair da Argentina ao Brasil após assistir ao curta de documentário “Viramundo” (1965), de Geraldo, que trata da migração dos nordestinos como ele ao centro-sul do país.

Confira abaixo “Viramundo”, com direção e narração de Geraldo Sarno:

 

 

Darcy Ribeiro, antropólogo e idealizador da Uenf

Enquanto trabalhou na Uenf, de 1993 a 1998, Geraldo também marcou a história recente de Campos. E, talvez irrelevante, a minha. Ele meio que meio que me “adotou” como filho quando trabalhamos juntos na Uenf. Pouco depois que a universidade idealizada pelo antropólogo Darcy Ribeiro se instalou em Campos, prestei concurso para auxiliar de fonoteca naqueles tempos pré-Spotfy, para a Casa de Cultura Villa Maria. Cinéfilo, minha intenção era, uma vez dentro, tentar me aproximar do projeto do Escola Brasileira de Cinema e Televisão (EBCTV). Do qual Geraldo era figura de proa e ao qual o Solar do Colégio, primeira construção de Campos, no século 17, pelos jesuítas, seria reformado no governo estadual Marcello Alencar (PSDB). A ideia era reproduzir aqui o modelo de internato da Escola de Cinema de Cuba. Muito antes de abrigar o Arquivo Público Municipal, estive presente na inauguração da reforma do prédio histórico. Como teria a chance de visitá-lo em várias outras oportunidades.

 

Arquivo Público de Campos, instalado no Solar do Colégio, construído pelos jesuítas no séc. 17 e reformado nos anos 1990 para abrigar a Escola Brasileira de Cinema e Televisão (EBCTV) da Uenf (Foto: Folha da Manhã)

 

Joca Muylaert, jornalista e ex-diretor da Villa Maria

Dos canaviais cubanos aos campistas, eram três vagas incialmente. E fiquei em quarto lugar, entre algumas centenas de candidatos. Alguns meses depois, cruzei por acaso com o hoje falecido jornalista e amigo Joca Muylaert no Oásis, numa parada entre Campos e o Rio de Janeiro. Diretor à época da Villa Maria e sabendo que eu havia prestado o concurso, raspando na aprovação, ele me disse que estava pensando em reconvocar mais pessoas para trabalhar. O que se cumpriu pouco depois, facultando minha entrada na Uenf.

Orlando Senna, cineasta, ex-diretor da Escola de Cinema de Cuba e da EBCTV

Aproximei-me do Geraldo, que frequentava a Villa Maria. Por coincidência, ele estava buscando realizar lá vários cursos preparatórios aos candidatos campistas para a vinda da Escola de Cinema, em áreas como direção, produção, roteiro, montagem, iluminação, fotografia, interpretação. Para os quais trouxe a Campos várias referências dessas áreas no Brasil e na América Latina. Colei com Geraldo e fui me integrando às suas atividades, ao lado também do produtor cubano Alfredo Calvino e da diretora argentina Patricia Martin. Quem estava à frente do projeto era outro cineasta baiano, Orlando Senna, amigo já de longa data de Geraldo e ex-diretor da Escola de Cinema de Cuba.

 

Cena do documentário “O Homem de Aran”, de Robert Flaherty

 

Apesar de feito como filme de propaganda nazista, “Olympia”, de Leni Riefenstahl, imortaliza o herói da Olimpíadas de 1936 em Berlim, o negro dos EUA Jesse Owens, que conquistou quatro medalhas de ouro

Além de Cabral na poesia, lida a que sempre me estimulou, Geraldo me apresentou outros mestres, que ampliariam muito a minha visão ainda juvenil do mundo. Na sua especialidade, que era o cinema documentário, me apresentou o mestre estadunidense Robert Flaherty, cuja obra prima “O Homem de Aran” (1934), sobre a vida dura de pescadores dos gigantescos tubarões Basking numa ilha irlandesa, seguramente está até hoje entre os 10 melhores filmes que assisti. Também me apresentou à estética revolucionária dos filmes de propaganda nazista da mestra alemã Leni Riefenstahl, nos documentários “Triunfo da Vontade” (1935), sobre o Congresso do Partido Nazista de 1934 na cidade de Nuremberg, e “Olympia” (1938), sobre as Olimpíadas de Berlim de 1936. Seu cineasta preferido era o mestre soviético (hoje, letão) da ficção Serguei Eisenstein, do qual já conhecia o aclamado “Encouraçado Potemkin” (1925). Mas Geraldo me mostrou também “Outubro” (1927), refilmagem 10 anos depois da revolução Russa de 1917, com os mesmos protagonistas do fato real.

 

“Outubro”, de Serguei Eisenstein, diretor preferido de Geraldo Sarno, filmado em 1927 para celebrar os 10 anos da Revolução Russa de 1917, com seus atores reais

 

Alberto Salvá, diretor de “A Menina do Lado”, sucesso brasileiro de 1987

Entre um filme e outro, um livro e outro, uma dica sobre a arte e a vida aqui e ali, Geraldo me propiciou também outros encontros. Nos cursos preparatórios gratuitos na Villa Maria para a vinda da EBCTV, lembro de uma conversa longa que mantive com o hoje falecido cineasta Alberto Salvá, espanhol radicado no Brasil, diretor do grande sucesso “A Menina do Lado” (1987), com Reginaldo Faria e que lançaria Flávia Monteiro, musa “Lolita” dos anos 1980 e 1990. Salvá conferia a exibição do filme que tinha preparado para ministrar o curso, com várias cenas marcantes do cinema. Na escolhida por ele do clássico musical “Cantando na Chuva” (1952), de Stanley Dolan e Gene Kelly, no lugar da cena icônica com o canto e a dança de Kelly que batiza o filme, ele optou por outra. Após alguns segundos de exibição, no início da melodia, cravei: “‘Make ‘Em Laugh’ (“Faça-os Rir”), com Donald O’Connor”. Impressionado, Salvá aprovou: “Você também é um cinéfilo!”. Algumas horas depois, no meio do curso, ele reforçou meu orgulho quando contou a história a todos os presentes ao exibir a cena. Quando o diretor morreu, em 2011, já com as facilidades do YouTube, coloquei a cena de O’Connor para lembrar daquele feliz encontro, quase 20 anos antes, na Villa. E, no lugar de chorar sozinho pelo que tinha ficado para trás, ri.

 

 

Tito Almejeiras, ator e produtor argentino

Lembro também que era uma noite de 1993, novamente no apartamento de Geraldo no Salete, porque assistíamos na TV da sala, em sua primeira exibição naquele ano, a minissérie da Rede Globo “Agosto”, ficção sobre o entorno do suicídio de Getúlio Vargas baseada no romance homônimo de Rubem Fonseca. Estávamos Geraldo, eu e um amigo dele, o produtor e ator argentino Tito Almejeiras, que tinha vindo a Campos dar um curso de produção na Villa. Mesmo sendo os dois de uma geração que, com o Cinema Novo, rompeu com a influência anterior de Hollywood nas populares chanchadas brasileiras da Atlântida, da qual Carlos Manga, produtor da minissérie global, era egresso, Geraldo exclamou sobre ele, enquanto observava atento a TV: “O velho está afiado!”. Ao que Tito concordou, no braço geracional a torcer: “É verdade!”.

Com a deixa, provoquei os dois, afirmando que o mestre John Ford, ao estabelecer a mitologia dos EUA com seus westerns, tinha marcado mais o cinema do que o marxismo também genial de Eisenstein. Geraldo era zen e não comprou a briga. Mas Tito reagiu em seu portunhol: “John Ford glorificou a matança sangrenta dos índios nos EUA”. Ao que respondi: “Se é para falar de derramamento de sangue, não há ninguém melhor que os espanhóis”. O descendente de espanhóis baixou a guarda e aquiesceu, reflexivo, com o mesmo: “É verdade!”.

 

Gênios do cinema da União Soviética e dos Estados Unidos, respectivamente, Serguei Eisenstein e John Ford (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

“Perfume de Gardênia”, de Guilherme de Almeida Prado, lançado pelo diretor no antigo Cinema Goitacá

No auge daqueles cursos preparatórios para a EBCTV, todos amarrados por Geraldo com seus contatos no mundo do cinema, chegamos a realizar o lançamento em Campos do filme “Perfume de Gardênia” (1992), de Guilherme de Almeida Prado, no já então decadente Cinema Goitacá, antes de ser convertido como cristão novo à heresia de se tornar templo da Igreja Universal do Reino de Deus. Como a exorcizar sem consciência o futuro daquele espaço, eu e Guilherme saímos juntos após a exibição do seu filme, prestigiado com casa lotada, para lhe apresentar a noite campista, até quase o nascer do dia.

“Rocco e Seus Irmãos”, clássico do neorrealismo italiano do mestre Luchino Visconti

Bem mais suave era a sensibilidade de Geraldo. Um dia chegou à casa que eu tinha alugado para sair da casa dos meus pais e morar sozinho numa Atafona pré-Porto do Açu, e me gritou do portão. Como estava treinando boxe no saco de pancadas, nos fundos, gritei que ele poderia ir entrando. Atraído pelo barulho dos murros sucessivos no saco, ele chegou observou e nada disse, aparentemente indiferente, voltando para me esperar na sala. Na sua visita seguinte à minha casa, ele trouxe de presente uma fita de VHS. Era “Rocco e seus Irmãos” (1960), clássico do neorrealismo italiano do mestre Luchino Visconti, com o galã francês Alain Delon ainda jovem como boxeador, que pude assistir pela primeira vez. O carinho paternal de Geraldo se sobressaía mesmo em meio à aparente violência. Como podia ser também sintetizado no livro “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, do filósofo alemão Eugen Herrigel, com que ele era invocado e também fez questão de me presentear.

 

“A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen” livro do filósofo alemão Eugen Herrigel

 

Um final de semana alongado por feriado, que não me lembro qual, Geraldo convidou a mim e a minha namorada de então para irmos com ele e sua esposa à época, Helô, ao sítio dele na área rural de Friburgo. Tomamos vinho, comemos fondue de carne e conversamos bastante. Num passeio pela propriedade, caminhamos pelo curso do riacho de águas transparentes que o cortava até uma piscina rasa que ele tinha instalado, sem interromper o curso d’água. E me contou, como se revelasse um grande segredo, que a função era de bebedouro aos animais silvestres que habitavam aquele pedaço preservado de mata atlântica. Depois, caminhando entre as árvores já altas que ele também tinha plantado, me disse: “Eu plantei elas ainda mudas. Hoje são árvores. Quando eu passeio entre elas, me olham de cima para baixo e conversam: ‘Olha Deus caminhando lá em embaixo. Olha como ele é pequeno e careca!’”, disse, rindo como criança.

Vitor Sendra, produtor e diretor de TV

Pelas dificuldades de adaptação do Solar dos Jesuítas, espaço tombado pelo Iphan, para instalação de um sistema de hotelaria que permitisse um regime de internato como a Escola de Cinema de Cuba, além de disputas internas por equipamento com o curso de cinema já existente na UFF-Niterói, o projeto de EBCTV acabaria abandonado. Quando percebi isso, fiz o que achava digno fazer: pedi exoneração do cargo público e voltei ao jornalismo, que nunca havia abandonado de todo. Depois de mim, Geraldo “adotaria” outro filho campista, o produtor e diretor de TV Vitor Sendra, filho da grande literata e dramaturga Arlete Sendra. Os dois trabalhariam juntos no Laboratório de Pesquisa e Tecnologia da Imagem do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Uenf e, depois, no Projeto Rede Escola, junto à secretaria estadual de Educação e a TVE, produzindo conteúdos para teleducação.

“Tudo Isto Me Parece um Sonho” (2008), filme que deu a Geraldo Sarno o prêmio de melhor diretor no Festival de Brasília

No final dos anos 1990, com Geraldo já fora da Uenf, ele me chamou para um almoço na sua casa no Rio, na rua do Píer da Barra da Tijuca. Não pude ficar muito tempo, mas deu para bater um papo, mais ouvindo que falando, como o diretor cearense Zelito Viana, irmão do grande Chico Anysio e pai do ator Marcos Palmeira. Após, me despedi de Geraldo, que estava ocupado, dando atenção a outros convidados. Em 2008, soube e fiquei muito feliz com sua premiação como melhor diretor no Festival de Brasília, pelo filme “Tudo Isto Me Parece Um Sonho”, sobre a história do general pernambucano Ignácio Abreu e Lima, que lutou ao lado de Simon Bolívar, nas guerras de batalhas de libertação da Colômbia, da Venezuela e do Peru, da Coroa Espanhola no século 19. Seu último filme foi outra ficção, “Sertânia” (2020), que roteirizou, dirigiu e montou, com sua história não linear sobre os delírios do jagunço Antão.

Na última fase formativa da minha vida, quando iniciava a vida adulta, Geraldo foi para mim um mestre. Sem condescendência, sempre instigando o meu próprio olhar crítico, ensinou o que ler e como ler, o que ver e como ver, enquanto tentava apontar possíveis obstáculos e atalhos. Entre os que tive chance de conviver, talvez só o historiador Arthur Soffiati e o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa tiveram tanta influência intelectual e sensitiva sobre o homem que me tornei. Curioso é que Aluysio parecia saber disso. E, no lugar de ciúme, sempre demonstrou gratidão a quem serviu ao seu filho durante um tempo como “pai”.

Meu último encontro com Geraldo, com meu próprio filho já nascido, de quem lhe mostrei a foto, foi nos anos 2000. Entre um chope e outro, passamos a tarde conversando num bar à beira-mar de Copacabana. Em certa altura do papo, já mais soltos pelos chopes, ele parou num daqueles transes zen de quando se abstraía em pensamento. Após uns segundos, olhou por cima dos óculos de grau, observando o zoológico humano que desfilava na avenida Atlântica, entre nós e o oceano. E me indagou, em nosso último diálogo que guardo na memória:

— Está vendo todas essas pessoas, Aluysio? Está vendo todas essas pessoas indo pra lá e pra cá?

— Estou vendo, Geraldo. O que é que tem?

— São todos ovelhas, entende? São todos ovelhas balindo “bé”, balindo “bé, bééé”, entende? São ovelhas que seguem e balem felizes, a maioria sem saber, ao abate no matadouro!

— Pô, Geraldo. Isso não é muito fatalista?

— Pode ser. Só não seja você uma ovelha!

 

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