Arthur Soffiati — A invasão da Ucrânia

 

Mulher ferida em explosão de edifício durante ofensiva militar russa em Chuguiv, no leste da Ucrânia, na manhã de quinta (Wolfgan Schwan/Anadolu Agence via Getty Images)

 

Arthur Soffiati, historiador

A invasão da Ucrânia

Por Arthur Soffiati

 

Não sei bem se por ter sido professor de história durante 40 anos ou por me intrometer publicamente em assuntos que me interessam, algumas pessoas estão solicitando minha posição sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Esclareço, para decepção dos que me procuraram, que ficarei em cima do muro. Apenas farei considerações para que as pessoas interessadas em se posicionar diante do conflito possam contar com mais base. Creio que essas considerações revelarão, de alguma forma, a minha posição para os que tiverem olhos de ver e ouvidos de ouvir. Não se trata de um postura covarde, mas de respeito às duas posições mais fáceis: sim ou não.

Em 1625, o jurista holandês Hugo de Grotius publicou “O direito da guerra e da paz”, lançando as bases do direito internacional atual. Até então, a guerra se definia por razões pragmáticas, de forma maquiavelista, embora Maquiavel fosse um ilustre desconhecido dos governantes. Não havia regras que norteassem invasões e guerras. Não havia claros motivos ideológicos. A guerra era uma arte exercida por reis e comandantes. As bases do direito internacional também não foram levadas em consideração. Grotius não passou de mais um pensador relegado a plano inferior.

Os motivos ideológicos começaram a se definir no século XVIII, principalmente com a Independência das 13 Colônias da América do Norte, que deu origem aos Estados Unidos, e com a Revolução Francesa, de 1789. Os campos conservador, liberal, progressista e anarquista começaram a ser definidos. A independência das Treze Colônias não era mais um questão do mais forte e sim o direito de uma Inglaterra fora da Europa a se tornar independente livrando-se da monarquia (ainda que a caminho do parlamentarismo) e adotando uma república com base nas ideias do europeu John Locke. A Revolução Francesa consagrava o  direito do povo de proclamar uma república progressista contra uma aristocracia monarquista retrógrada.

As guerras do século XIX na Europa assim com as guerras de conquista colonial não invocavam o direito do mais forte, mas razões ideológicas. Invocava-se o progressismo contra o conservadorismo e a civilização contra a barbárie. A conquista de uma colônia era justificada pelo dever de civilizar o bárbaro. A Primeira Guerra Mundial foi a última guerra europeia com repercussões extra-europeias. Ela foi travada por dois blocos. Inglaterra e França consideravam-se países liberais e progressistas, vendo Rússia, Alemanha e Áustria como países atrasados, ainda ligados ao Antigo Regime europeu. O Império Otomano, então, era um país atrasadíssimo por nem sequer ser europeu, mas muçulmano. Era um homem doente. O Acordo de Sikes-Picot, que dividiu o Império Otomano entre Inglaterra e França antes mesmo do fim da guerra, e a Declaração Balfour, que reconheceu o direito dos judeus a um lar nacional na Palestina, justificavam-se por expressarem o moderno contra o atraso.

A Revolução Russa de 1917 usou como justificava tratar-se de uma luta do comunismo contra o capitalismo e o imperialismo. Havia grande sinceridade nos revolucionários, mas logo percebeu-se que não seria fácil livrar-se do capitalismo. Daí a política leninista de um passo atrás para dar dois passos à frente e a política estalinista dos planos quinquenais para tornar a União Soviética competitiva num mundo capitalista. Hitler também se posicionou contra o capitalismo liberal em seu livro “Mina luta” e em seus discursos. Trata-se de criar uma nação forte, até mesmo um império em que empresários, políticos e operários se unissem contra a opressão e a exploração do capitalismo. Tudo indica que havia sinceridade em Hitler na sua luta “revolucionária”. A caracterização do nazismo e do fascismo como regimes reacionários e direitas foi desenhado posteriormente. Edgar Morin, comunista e militante durante a Segunda Guerra, escreve em “Lições de um século de vida”, que a resistência marxista chegou a acreditar que Hitler se estabilizaria na criação do seu espaço vital e terminaria a guerra. Ele escreveu que foi um grande erro da sua parte e que dele se arrepende até hoje.

O pacto nazi-soviético de 1939, dividindo a Polônia entre os dois países, assim como a invasão da União Soviética por Hitler em 1941 foram ideologicamente justificados. Jorge Amado e Joel da Silveira defenderam o pacto. Os Estados Unidos defenderam o lançamento de duas bombas atômicas sobre cidades japonesas em 1945. A Guerra Fria foi justificada por Estados Unidos e União Soviética. Atos indefensáveis contam sempre com justificativas ideológicas.

Geralmente, são mentirosas. Se vale argumentar que a Ucrânia é parte histórica da Rússia, o mesmo país pode reivindicar o Alasca. O Brasil pode reivindicar a Uruguai e a Guiana, pois são países que já integraram o país. As nações colonialistas da Europa Ocidental podem reivindicar suas ex-colônias na África. Por outro lado, podemos condenar a existência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) porque ele foi criado durante a Guerra Fria, que não existe (ia) mais. Alega-se que a organização é o órgão de defesa da União Europeia. Neste caso, Estados Unidos e Canadá deveriam ser excluídos.

Argumenta-se também que, em pleno século XXI (como se tempo fosse argumento sólidos), não cabe mais uma guerra convencional, com invasão de um país por outro. Pode não caber na Europa, mas cabe ainda no Oriente Médio, o maior campo de guerra dos últimos cem anos. França, Inglaterra, União Soviética e Estados Unidos não hesitaram em invadir países do Oriente Médio, considerando uma área atrasada do mundo em que invasões e guerras são justificáveis. Iraque, Afeganistão, Iêmen, Síria, Líbano e Palestina podem ser invadidos e bombardeados. Já Israel, não, por se tratar de um país europeu fora da Europa.

A esquerda sente nostalgia pela União Soviética. Afinal, foi a entidade política que prometeu acabar com o capitalismo e implantar o comunismo mundial. Não conseguiu nem o comunismo num só país. Assim, fica difícil para a esquerda nostálgica admitir que Putin é um político autocrata, conservador e moralista. Fica fácil colocar o selo de nazista no presidente da Ucrânia. A simplificação é uma operação mental que facilita posicionamentos.

Com base nesses argumentos, tenho condição de me posicionar, mas não o farei.

 

fb-share-icon0
20
Pin Share20

Deixe um comentário