Atafona perde Monica Paes, de musa a defensora dos animais

 

Grandes amigos e referências que Atafona perdeu recentemente, Monica Paes e Ronaldo Cravo, no saudoso bar deste, o “Não Me Viu” (Foto: Facebook)

 

De férias em Atafona, deixei de acompanhar o noticiário local. Ontem, após uma tarde de peixe e cerveja na ilha da Convivência, dormi cedo. Só no início da manhã de hoje, ao acordar, fui ver no WhatsApp o aviso do meu filho, o jornalista Ícaro Barbosa, da morte ontem (24) de Monica Paes. Que confirmei na sequência com o jornalista atafonense Arnaldo Neto. Aos 58 anos, ela foi encontrada em sua casa já sem vida, vítima provavelmente de um infarto. Seu corpo foi velado na capela em frente ao cemitério São João Batista, em São João da Barra, onde foi enterrado na manhã de hoje. Monica deixa a mãe, dois filhos e três netos.

Adolescente nos anos 1980, já conhecia Monica de fama, como uma das mulheres mais belas da região. Foi musa nos desfiles de carnaval sanjoanense na escola de samba O Chinês e da Turma do Brim, descoberta aos desfiles e passarelas pelo saudoso colunista José Carlos Pereira Campos, o Caquinho, à época no extinto jornal A Notícia, antes de migrar à Folha da Manhã. Monica sempre falava com um orgulho danado desses tempos em que era figurinha carimbada da redação de A Notícia, comandada pelo saudoso jornalista Dr. Hervé Salgado — mestre, entre outros, do meu pai, o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa.

Meu contato pessoal com Monica não se deu em redações, mas por conta de outra paixão comum, no início dos anos 1990. Foi quando passei num concurso público para a Uenf, saí da casa dos meus pais e passei a residir em uma Atafona pré-Porto do Açu, de aluguéis mais baratos que Campos, pelo menos fora do verão. Desde que me entendo por gente, desejava ter um cão, mas minha mãe, Diva Abreu, tem cinofobia, o medo irracional de cachorros. Como precisava de um para tomar conta da casa enquanto estava na Uenf, comprei ainda filhote um rottweiler, raça destinada à guarda. Que batizei de Rommel e com quem, seguramente, construí a relação de maior cumplicidade que tive ou terei com qualquer outro ser vivo.

Quando não estava na Uenf, passeava com Rommel por Atafona. Atraída pela beleza e imponência física do cão, assim como pela relação baseada apenas no olhar que eu mantinha com ele, Monica, também apaixonada por cachorros, se aproximou de mim no convívio atafonense. Muito simpática, articulada e boa gente, embora intransigente na defesa dos direitos dos animais, construímos ao longo desses últimos 30 anos uma relação de amizade. Nestas três décadas, que eu me lembre, nunca marcamos de nos encontrar. Mas perdi as contas de quantas vezes esbarramos num boteco ou na Festa da Penha, do profano ao sagrado, sempre comungando um papo e umas cervejas.

Lendo hoje postagem de Arnaldo sobre a morte de Monica, onde ele também transcreveu o testemunho dos tempos dela em A Notícia pela jornalista Silvinha Salgado, filha de Dr. Hervé, me veio uma analogia que nunca tinha antes me ocorrido. Marcada na juventude por sua beleza física e na idade madura pelo ativismo na defesa dos animais, não é incorreto afirmar que Monica Paes foi a nossa Brigitte Bardot, estrela do cinema francês nos anos 1950 e 1960. Com uma diferença básica, enquanto Bardot se notabilizaria como a musa de Búzios, que descobriu para o mundo em 1964, Monica foi a musa de Atafona. Praia a praia, ganhou de longe na comparação com a francesa. E quem discordar, por favor, não passe de Grussaí.

Disse acima que, nos últimos 30 anos, Monica e eu sempre nos encontramos em Atafona, sem nunca marcar. O que, percebo também só agora, não é integralmente verdade. Na última sexta (18), ela me mandou por WhatsApp o anúncio de um luau à beira-mar, no final à esquerda da rua dupla da antiga Caixa d’Água, no Erosão Bar, de outra amiga comum, a Inês Vidipó. Que foi minha professora de educação física no meu último ano de curso primário na Escola Santo Antônio, em 1982.

Quarenta anos depois, a última sexta teve noite de lua cheia, que eu já havia combinado com meu afilhado, Aquiles, passando o final de semana comigo em Atafona, de ver nascer na praia. Cumprimos o acordado e depois fomos caminhando pela noite, à beira do mar prateado, até o luau. Ironicamente, na única vez em que marcamos antes, encontrei Monica pela última vez.

Sempre sorridente e falante, tivemos nossa comunhão derradeira de papo e cerveja. Ela me contou com orgulho de um vira-latas preto abandonado que tinha encaminhado à adoção pela Inês, que passeava feliz pelo bar. Como tinha que acordar bem cedo na manhã seguinte, para agir uma caranguejada na minha casa no sábado, me demorei pouco, apesar do clima agradabilíssimo do luau.

E me despedi de Monica diante das ruínas da antiga Caixa d’Água e do Atlântico, à margem direita da foz do Paraíba do Sul, sob a lua cheia.

 

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Este post tem um comentário

  1. Idala Rizzo

    Homenagem sensacional! Perfeito ! Meus parabéns! Realmente Mônica foi um ícone, q esteja agora feliz junto aos seus bichinhos a q tanto amava!

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