Bruno Dauaire: Carla Machado saiu em seu pior momento

 

Por Aluysio Abreu Barbosa, Cláudio Nogueira e Aldir Sales

 

“A renúncia de Carla Machado (que saiu do PP da base do presidente Jair Bolsonaro em 31 de março, para voltar no 1º de abril ao PT do ex-presidente Lula) surpreendeu porque ela vivia o pior momento político dos seus quatro mandatos à frente da Prefeitura de São João da Barra”. Foi o que disse no início da manhã de ontem ao Folha no Ar, na Folha FM 98,3, o deputado estadual Bruno Dauaire (União Brasil). Ele é o representante do mais tradicional clã político sanjoanense, nos últimos 17 anos marcado pelo enfrentamento ao domínio da política do município por Carla. Que, em 2 de abril, renunciou para se tornar pré-candidata a deputada estadual em outubro. Bruno condenou a política carlista no município, embora tenha admitido ser exitosa eleitoralmente, de fazer caixa nos três primeiros anos de administração, para abrir as torneiras no ano eleitoral. “Não é uma lógica que ajuda a população, tanto é que hoje ela (Carla) sofre com o desgaste imenso. Que pesou muito na decisão de renunciar para tentar a sua sobrevivência política”, analisou Bruno. Pré-candidato ao terceiro mandato na Alerj em 2022, em eleição que deve disputar mais uma vez contra Carla, ele também pregou o diálogo e a união para 2024 com o vereador Elísio Rodrigues (PL), atual presidente da Câmara de SJB.

 

Bruno Dauaire (Foto: Divulgação)

 

Reação à renúncia de Carla — Na verdade, como todos, fui pego de surpresa. Já havia um burburinho de que no último dia da janela, um dia antes da própria renúncia, que isso poderia acontecer. Mas pelo momento político que a ex-prefeita vivia, eu achava que seria isso difícil porque ela vivia o seu pior momento dentro dos seus (quatro) mandatos à frente da Prefeitura de São João da Barra. Por isso que pegou de surpresa ela não tentar a sua recuperação durante o restante do mandato de prefeita. Se ausentar, nesse momento, da Prefeitura para concorrer em uma eleição regional. Ela está mal politicamente, mal administrativamente não fez nenhum tipo de entrega à população, as ruas completamente esburacadas, falta de iluminação, problema para todo lado. Mas aí somado ao problema da derrota política na Câmara (a oposição levou a eleição da Mesa Diretora em 23 de março). Eu achei que, pelo perfil da própria prefeita, pelo que a gente conhece um pouquinho da sua trajetória na vida pública, que ela fosse tentar recuperar a sua imagem durante esses próximos três anos de mandato. Quem anda por São João da Barra e seus distritos, percebe claramente a insatisfação da população com a prefeita. Desde da sua assunção ao (terceiro) mandato, depois de Neco (MDB), e na sua reeleição, ela tem deixado muito a desejar.

Derrota na eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal — Acredito que a prefeita se inviabilizou politicamente diante das suas ações à frente da Prefeitura. Isso refletiu na eleição da Mesa. Não é de hoje que os vereadores, tanto aqueles que são independentes, quanto aqueles que são de oposição, já haviam criticado a falta de ações da prefeita. A gente podia dizer hoje que era uma surpresa, mas previsível porque a prefeita estava inviabilizada politicamente e administrativamente. Está claro, a prefeita não conseguia governar ou não queria governar. Fica muito evidente a falta de vontade da própria prefeita em tocar o município. Mas eu tenho, obviamente, a opinião de que a eleição da Mesa, com a sua derrota, tenha acelerado sua desistência de governar para povo de São João da Barra.

Inação e “saída honrosa” — O Governo do Estado, pelo menos nos (mais de cinco) anos que eu estive como deputado estadual, nunca teve um cofre tão recheado, podendo fazer investimentos importantes nos municípios. Eu não via e a Prefeitura de São João da Barra, muito menos a ex-prefeita Carla Machado, colocar a cidade para receber esses investimentos. Nas secretarias (estaduais) que eu batia, perguntando sobre as nossas indicações para várias obras inacabadas, perguntava se havia algum projeto da Prefeitura para realização de obras de infraestrutura como acontece no município de Campos. E os secretários e diretores das secretarias me diziam que não, que São João da Barra estava muito aquém na apresentação desses projetos. Para estar à frente do município, tem que ter vontade de governar. E parecia que ela não tinha vontade de governar mais São João da Barra. Acabou saindo achando uma saída, podemos dizer, honrosa. Para que ela não continue governando o município e tente aí um mandato de deputada estadual.

Com arrecadação 3,6 maior que Campos, para onde vai o dinheiro de SJB? – É muito dinheiro. São João da Barra, per capita, recebe 3,6 vezes mais que Campos. São João da Barra não é um município grande, extenso, e as dificuldades de se administrar esse município são menores do que as de São Francisco de Itabapoana e de Campos. Queremos ver o município se desenvolver. Sempre digo que o município cresceu, mas não se desenvolveu. Hoje, São João da Barra investe menos de 1% do seu orçamento. A gente não vê obra de infraestrutura, a gente não vê um modelo administrativo que reverbere isso em qualidade de vida para população, em aumento do potencial de compra do seu cidadão, para que isso gere consequência no comércio, gere empregos fora da realidade do Porto do Açu. O que a gente vê é um modelo de anos que funciona no município, onde se muda o prefeito, mas não se muda o grupo político. E a realidade é muito clara, a prefeita disse que deixou dinheiro em caixa. Deixou mais de R$ 250 milhões (R$ 259 milhões). E dinheiro público, com todo respeito, não é para fazer poupança quando a população precisa de investimento e de entrega. Conversando ontem com o meu pai, o ex-prefeito Betinho Dauaire, sobre administração, chegamos à conclusão muito interessante. Qual pai de família ou mãe de família e que tenha lá dinheiro em caixa, mas está sem comida na dispensa, com encanamento furado, com vazamento, com o chão todo quebrado? Ele não é um bom administrador. Ele está sem vontade de tocar as coisas dentro da sua casa, dentro da sua Prefeitura. O município em situação precária faz com que a gente entenda que não existia mais vontade de se governar.

“Imagem de boa gestora acabou” — No mandato passado (de Carla) muitos comparavam ao mandato ao então prefeito de Campos Rafael Diniz (Cidadania). Então, se tiravam algumas conclusões. Mas tudo foi por água abaixo diante dos números e da realidade da população sanjoanense, que hoje não vê nenhum tipo de investimento público. Aquela imagem da prefeita de São João da Barra, de boa gestora, acabou. Acabou. É muito triste, lamentável que a gente chegue a esse ponto, mas eu repito aqui: a prefeita deixa o município de São João da Barra não com os números que deixou quando foi candidata a deputada estadual (em 2014, após os dois primeiros mandatos de prefeita), quando teve 30% da votação no município. Hoje, a realidade é completamente diferente, vide a eleição da Câmara, que há algum tempo atrás era inimaginável.

Modelo de governo desgastado? — A lógica do modelo administrativo que foca apenas em tornar a Prefeitura uma máquina eleitoral para que a própria prefeita ou os seus indicados ganhem as eleições, sempre se perpetuou nas administrações Carla Machado. E quando a gente fala que a Prefeitura ficou hoje com mais de R$ 250 milhões, isso só reforça a nossa tese desse modelo administrativo. Como que em cinco, seis anos de gestão, a gente tenha dinheiro e não se veja investimento no município? É óbvio que ela estava esperando chegar próximo ao período eleitoral para que ela pudesse começar a investir no município. Obviamente um ou outro milhão desse com uma verba carimbada, mas nós sabemos que a maioria desse dinheiro, não. Então, poderia ter projetos, poderia se investir em infraestrutura, em qualidade de vida para população. É óbvio que ela esperava o período eleitoral para poder colocar tudo isso na rua. Esse ponto, a gente consegue ligar e entender. Não é um ponto que eu estou dizendo agora. Eu sempre digo isso. É uma análise minha em relação ao modelo administrativo que a ex-prefeita Carla Machado implementa quando assume os seus mandatos, de fazer ali o arroz com feijão durante três anos e no último ano do seu governo colocar para fora esses recursos. Não é uma lógica que ajuda a população, tanto é que hoje ela (Carla) sofre com o desgaste imenso. Que pesou muito na decisão de renunciar para tentar a sua sobrevivência política. Essa lógica eleitoral engoliu a ex-prefeita Carla Machado e engoliu também o seu indicado Neco, que disse à época que pegou a Prefeitura com milhões de dívida e inúmeras obras inacabadas. E a ex-prefeita Carla Machado depois vem candidata contra o indicado dela e com álibi de consertar e voltar com as obras, equilibrar o município, voltar com as obras que o ex-prefeito Neco não deu continuidade, ou não fez. Isso é predatório para população do município.

Outubro e desenvolvimento de SJB — Tenho um desafio ainda aí pela frente, que é outubro. A hora de buscar a prestação de contas e tentar buscar um novo mandato. Eu acho que essa é minha prioridade hoje. Minha prioridade hoje é mostrar um pouquinho do que a gente fez durante esses anos para que a gente possa, no momento certo, poder disputar as eleições proporcionais de deputado estadual. Mas, obviamente, a vontade de ver o município de São João da Barra se desenvolver, de ver os investimentos acontecendo, os programas acontecendo, tanto os programas sociais, como outros, para o município se desenvolver, com a melhora na qualidade de vida do cidadão sanjoanense. Aquele que que viveu desde lá de trás, quando São João da Barra sequer arrecadava royalties de petróleo. Esse cidadão, o filho dessa geração, o neto dessa geração precisa ser absorvido pelos investimentos do poder público de São João da Barra. Não pode ficar só à mercê do investimento privado, que também é muito importante.

Elísio ou Bruno a prefeito? — Acho que nenhum tipo de vaidade pode atrapalhar um projeto para município de São João da Barra. Tenho o carinho e o respeito muito grande pelo ex-presidente da Câmara, Elísio, que tem, sim, a vontade de concorrer à Prefeitura de São João da Barra. Eu acho que tem tudo para que os nossos projetos coincidam lá na frente. É óbvio que cada um desenha um projeto para o município, mas a verdade é que o atual modelo não pode mais se perpetuar. Acredito que, no momento certo, os nossos projetos vão coincidir. E teremos um disputando as eleições municipais. Desde que a gente tenha certeza que o verdadeiro projeto é cuidar do povo de São João da Barra. O presidente da Câmara tem todo o meu carinho, meu respeito. A gente conversa sobre política, não temos barreira para dialogar sobre São João da Barra. Então cada um deve tocar o seu projeto. E eu espero que lá na frente essas forças coincidam pelo bem do município. Se for da vontade da população, a gente vai ter um disputando uma chapa majoritária, com programa voltado para a qualidade de vida da população sanjoanense, o fortalecimento do comércio e geração de emprego. Mas também não descarto, de maneira alguma, poder apresentar nosso projeto, que a gente desenha há tanto tempo.

Elísio com os Bacellar e Bruno com os Garotinho? — É óbvio que, para quem faz uma análise agora de uma eleição em 2024, não seria interessante ver oposição dividida. Isso favorece, sem sombra de dúvidas, o lado governista. Que é o lado que nós precisamos livrar da história recente política do município de São João da Barra. Mas acredito que, se for possível coincidir os projetos políticos, não vejo nenhum tipo de problema de compor uma chapa, como também não vejo nenhum tipo de problema de apresentar os projetos. Obviamente, cada um liderando o seu grupo, mas não seria interessante dividir. Não é inteligente para que esse governo seja derrotado, até porque não é uma Prefeitura sem dinheiro. É um modelo que funciona bem para as eleições. Então, dividir esse palanque da oposição, ao meu ver não seria interessante para que a gente pudesse colocar para fora, de uma vez por todas, esse modelo predatório que a ex-prefeita vem implantando com seu grupo político em São João da Barra.

Como unir a oposição? — Olha, eu sou um homem público de muito diálogo. Obviamente, firmando minhas posições, que são claras, sinceramente não vejo nenhum tipo de problema fazer qualquer tipo de união com figuras públicas consideradas independentes no município de São João da Barra. Até porque o próprio presidente da Câmara, mais alguns outros vereadores, foram base do governo da ex-prefeita Carla Machado. Mas eu não tenho nenhum problema em fazer algum tipo de composição. E acredito que o Elísio, pela maturidade política que eu conheço, também não tem nenhum tipo de barreira que possa obstar uma união. A gente tem que é deixar as vaidades de lado para poder pensar o bem de São João da Barra. E aí, as pessoas que me conhecem sabem do meu perfil político de diálogo, compreensão e pacificação. E o Elísio também tem um perfil muito parecido.

Negacionismo na campanha de Lula? – Primeiro, evidenciar essa incoerência muito grande desse negacionismo que foi amplamente divulgado pelos veículos de comunicação em relação à vacinação infantil no município de São João da Barra. E todo o atraso relacionado a essa vacinação no município que ganhou destaque nacionalmente com as declarações da ex-prefeita (Carla declarou em live de 19 de janeiro: “se eu tivesse filhos, não vacinaria”). É difícil entender como que ela vai driblar, como que ela vai fazer essa engenharia para poder criticar Bolsonaro e defender o Lula (ex-prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá disse que Carla, de volta ao partido, vai coordenar a campanha presidencial de Lula na região). Até porque o Bolsonaro tem uma posição muito clara em relação à vacinação e a esquerda, obviamente, tem uma outra posição, também muito clara. Então, essa incoerência é o primeiro obstáculo no discurso da prefeita no apoio ao ex-presidente Lula.

Especulação que Carla poderia ser vice na chapa de Marcelo Freixo a governador — Não acredito que a ex-prefeita vá compor uma chapa majoritária, justamente por não acreditar que alguém colocaria uma pessoa que vive um mau momento político no seu próprio município depois de ter ganhado as eleições com 70% dos votos. Acredito também que a ex-prefeita não possui essa densidade eleitoral aqui na região. Apesar, como eu disse na época, comparadas às administrações de Campos a São João da Barra à do ex-prefeito Rafael, que ela tenha tido uma avaliação um pouco mais positiva. Mas isso cai por terra depois que se percebe a falta de investimento e que o município de São João da Barra não caminhava como se imaginava.

Disputa com Carla a deputado estadual em 2014 — Eu acredito que a prefeita vai tentar essa saída honrosa de ser uma parlamentar estadual. Já tentou uma vez, em 2014. A gente disputou as eleições juntos e, embora ela tenha sido a mais votada em São João da Barra, como é uma campanha estadual e regional, ela não conseguiu obter a votação para se eleger deputada estadual e a gente teve esse êxito. Nas eleições de 2022, eu acredito que ela vá, até pelo projeto político que a gente entende dentro desse novo contexto de polarização nacional, ser candidata a deputada estadual para ajudar justamente o candidato pré-candidato Marcelo Freixo (PSB) aqui no interior.

 

Confira abaixo, em vídeo, a íntegra da entrevista de Bruno Dauaire ao Folha no Ar de terça (05) sobre a renúncia de Carla Machado e suas consequências em São João da Barra:

 

 

Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

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