Casa do Povo na briga pelo poder e o povo com fome

 

O povo de Campos, representado no menino do conjunto habitacional de Donana, na situação de vulnerabilidade em que vivem mais de um entre cada quatro campistas, e a “Casa do Povo” alheia a quem deveria representar, em suas brigas do poder pelo poder (Fotos: Genilson Pessanha e Rodrigo Silveira/montagem: Eliabe de Souza o Cássio Jr.)

 

 

Folha adiantou crise da Câmara

Em matéria de 29 de maio de 2021, a Folha advertiu: “Era 13 de dezembro de 2019, quando oito vereadores decidiram romper com o governo Rafael Diniz (Cidadania) e barraram seus oito projetos de austeridade. Na semana até aqui mais tensa do governo Wladimir Garotinho (hoje, sem partido), este conseguiu aprovar 12 dos 13 projetos de austeridade. Mas teve que tirar da pauta a alteração do Código Tributário, porque perderia os votos dos vereadores Fred Machado (Cidadania), Raphael Thuin (PTB) e Bruno Vianna (hoje, PSD). O que com Rafael demorou quase três anos para acontecer, não esperou cinco meses com Wladimir”.

 

 

Da eleição aos fuzis

Pouco mais de 10 meses depois, o que era já lembrava os piores momentos de Rafael, se tornou ainda mais grave. Dividida entre os grupos dos Garotinho e dos Bacellar, a Câmara hoje está há dois meses paralisada. Em suas sessões, tem recorrido a galerias vazias e ao reforço de PMs armados de fuzil para que algo ainda pior não aconteça. Político já experiente, o atual presidente da Câmara, Fábio Ribeiro (PSD), cometeu erro primário. Marcou a eleição da nova Mesa Diretora para 15 de fevereiro, que tinha até dezembro para pautar. E perdeu de saída. Mais oposicionista dos 25 edis, Marquinho Bacellar se elegeu presidente por 13 votos a 12.

 

Traição após “depuração da base”

Fábio chegou a anunciar o resultado. Desastroso ao governo porque o presidente ignorou um político ainda mais experiente, o ex-governador Anthony Garotinho (União). Ele aconselhou a só marcar a eleição com 15 votos. Fábio arriscou com o mínimo de 13. Foi traído por Maicon Cruz (PSC), que assinou termo de compromisso pela reeleição do presidente, mas votou em Marquinho. Na hora, partiram para cima o vereador Juninho Virgílio (atual União) e seu primo, o ex-vereador Thiago Virgílio. Foram os mesmos que lá atrás cobraram “depuração da base”. Para perderem os votos de Fred, Thuin e Bruno.

 

Eremildo, o Idiota, personagem do jornalista Elio Gaspari

Eremildo, o Idiota (I)

Quem conhece um pouco da política goitacá, sabe que Fábio e os Virgílio sempre foram mais ligados a Garotinho do que a Wladimir. Só Eremildo, o Idiota criado pelo jornalista Elio Gaspari, é capaz de acreditar que, após ter seu conselho ignorado, Garotinho não esteja fungando no cangote de Fábio, para parir alternativas à derrota. A discussão do voto do edil Nildo Cardoso (União), da anulação da eleição a presidente e da mais recente ameaça de perda de mandato, por falta, dos 13 vereadores de oposição, pertence aos juristas. Mas, entre os leigos, só o Eremildo não enxerga a causa real. Como o método: aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei.

 

Eremildo, o Idiota (II)

O governo está longe de ser o único culpado. A oposição errou ao esticar a corda. Só o Eremildo levaria a sério a tentativa de tentar impor a voz na Câmara com um megafone. Falando sério, sem precisar gritar, há juristas que apontam erros técnicos também nos dois mandados de segurança da oposição recusados pela Justiça. Como qualquer leigo é capaz de ver o erro, primário como o de Fábio, de quem só agora, com o mandato ameaçado, alega obstrução legal às faltas que antes tentou justificar. Uma coisa é certa: até aqui fora dessa celeuma, o Judiciário vai agir se 13 edis, investidos pelo voto popular, forem deste subtraídos.

 

Cientista políticos George Gomes Coutinho, Hugo Borsani, Hamilton Garcia e o historiador Marcelo Gantos (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Reprovação da academia

Doutores com doutorado, quatro professores da academia goitacá, um da UFF, três da Uenf, analisaram no Folha no Ar de quinta (14) a crise da Câmara: “É uma bomba atômica”, definiu o cientista político George Gomes Coutinho a ameaça aos mandatos da oposição. “Está se olhando o umbigo nesse conflito”, focou o cientista político Hugo Borsani. “Enquanto alguns legislativos locais (de Rio das Ostras e Macaé) dão mostras de responsabilidade social, de democracia, aqui a gente se perde na luta pelo poder”, comparou o cientista político Hamilton Garcia. “Já não é uma novela, é uma tragédia”, classificou o historiador Marcelo Gantos.

 

Edmundo Siqueira, servidor federal e blogueiro do Folha1

Casa da Vergonha

No domingo (17), em seu blog hospedado no Folha1, o servidor federal Edmundo Siqueira, que tem acompanhado de perto o caso, usou os bustos de grandes personalidades históricas da cidade, reunidos no corredor cultural da Câmara, em metáfora que hoje a resume: “os vultos campistas, que estão posicionados de forma a olhar para o Parlamento, se envergonham do momento que a Casa atravessa (…) Difícil é conseguir definir qual dos lados — situação ou oposição — tem mais responsabilidade pela guerra que se tornou a Casa de Leis. Talvez seja mais justo dizer que estão errados os dois — ou os 25 vereadores”.

 

Casa do Povo?

Na “Casa do Povo”, hoje todo mundo grita e ninguém tem razão. Mas, diferente do dito popular, não é por falta de pão a nenhum dos 25 edis. Que deveriam arder a cara de vergonha pelo que estão fazendo. Enquanto, como mostrou a Folha no último sábado (16), em matéria do jornalista Ícaro Barbosa: “Em Campos, a miséria é cada vez mais evidente em cada esquina, em cada rua. Estatisticamente, 28,9% dos campistas — pouco mais de uma a cada quatro pessoas — vivem na pobreza ou extrema-pobreza, com uma renda per capita que varia entre R$89,00 e R$178,00. A visão de pessoas catando comida nas lixeiras é cada vez mais comum”.

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã.

 

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