“No segundo turno, é preciso votar contra o Bolsonaro”

 

Dividido entre a condição de pré-candidato a deputado federal e analista político, função que desempenhará na revista Veja até o prazo legal de 30 de junho, Ricardo Rangel (Cidadania) defende a terceira via de Rodrigo Neves (PDT) a governador do Estado do Rio e da senadora Sinome Tebet (MDB) a presidente. Mas não nega as dificuldades que ambos terão em eleições até aqui polarizadas em todas as pesquisas, respectivamente, pelo governador Cláudio Castro (PL) e o deputado federal Marcelo Freixo (PSD), e pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL). Entrevistado na manhã de ontem (20) no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, Ricardo considera, inclusive, que a polarização fluminense é uma consequência negativa da polarização presidencial. Se elogiou Freixo como parlamentar, a despeito das diferenças ideológicas, lembrou suas dificuldades recorrentes em conquistar um cargo eletivo no Executivo. Como enxerga virtudes no desempenho de Castro como governador. Com muitas críticas a Lula e Bolsonaro, cuja disputa classifica como uma escolha entre os anos 1970 e o século XVII, ele não tem dúvida caso os dois passem pelas urnas de 2 de outubro: “No segundo turno, é preciso votar contra o Bolsonaro, seja lá qual for a alternativa”. Entre Brasil e Estado do Rio, também analisou a Campos dos Garotinho e Bacellar.

 

Ricardo Rangel (Foto: Divulgação)

 

Briga entre os Garotinho – Evidentemente, tenho que falar com cuidado desse assunto, porque é a política aí de Campos, que eu não acompanho no dia a dia. Mas, é uma tragédia shakespeariana ou grega, em que membros da mesma família se ameaçam. É sempre uma coisa um pouco consternadora você ver uma mãe chamar a atenção de um filho em público, ainda mais pessoas poderosas. A Rosinha foi governadora, Wladimir é prefeito e tem, obviamente, um interesse de ascensão política. É sempre uma coisa um pouco triste, dentro de uma família, uma briga desse tipo. Não sei exatamente o que está na cabeça do Garotinho pai. Nem todo pai se envaidece do sucesso do filho. Há muita ciumeira entre pai e filho, e muita competição, especialmente se estão na mesma profissão e trilhando o mesmo caminho. Obviamente, o Wladimir quer ser governador em algum momento. O pai já foi prefeito. Agora, o Wladimir precisa governar. Então, ele não pode só ficar alimentando a briga com os Bacellar que o pai quer. Ele precisa de verba do governo. Então, ele tem que se entender com o Cláudio Castro. Agora, isso é uma coisa que político entende. Então, deveria conversar e combinar na mesa do jantar, em casa, em vez de discutir isso nas redes sociais. Agora, sei lá, vamos ver para onde é que vai, porque tem a Clarissa também, a Rosinha acha que o Wladimir não apoia, porque vai apoiar outro, essas coisas.

Garotinho a governador – Eu não acredito muito nessa pré-candidatura (a governador), acho que é uma movimentação política. Acho que é uma questão de equilíbrio de poder ali com o Cláudio Castro. Não sei exatamente o que exatamente o Garotinho pretende, mas eu acho que é uma coisa ali para deixar o Cláudio Castro um pouco na defensiva. É claro que, se o Garotinho de fato for candidato, mesmo que ele retire a candidatura depois, ele tem uma capacidade de desequilibrar o jogo um pouco. Ele ainda tem um eleitorado forte. Então, ele pode atrapalhar um pouco o jogo do Cláudio Castro. Mas eu acho que é mais uma movimentação política, um posicionamento, do que uma disposição efetiva de ser candidato. Até porque, eu não eu não acho que ele consiga vencer. Isso está acontecendo porque o Bacellar está muito forte no governo Castro. Então, eu acho que é essa a briga de poder, que, no fundo, é regional. No fundo, é uma briga dessas duas famílias pelo poder e pela capacidade de influenciar o governo.

Shakespeare na política goitacá – Wladimir está nesse problema porque a Clarissa quer deixar de ser deputada federal para ser deputada estadual, e ele não está apoiando ela ou pelo menos não está apoiando com a intensidade que a família, que a Rosinha em particular, esperaria. Então, a situação ali já está um pouco difícil. Mas, o Wladimir tem que apoiar o governador. Ele precisa das verbas do Governo do Estado. Como é que ele vai arredondar essa bola, a gente vai ter que ver, mas eu acho que ele não consegue escapar de apoiar o Cláudio Castro. Se isso acontecer, ele briga com o pai mais ainda. Ele precisa fazer essas pazes rápido, senão vira Shakespeare mesmo.

Castro, pela primeira vez, passa Freixo na pesquisa a governador – O Freixo é aquele candidato que a gente diz que tem piso alto e teto baixo. Ele sempre larga bem, mas não chega lá, ele não cresce. Eu acho que isso é claro. Ele é um bom parlamentar. Ainda que eu discorde do Freixo em muita coisa, ele é um parlamentar sério, tanto na Alerj quanto na Câmara Federal. Mas, para o Executivo, ele é um colecionador de derrotas, perdeu várias vezes. E as propostas para o Executivo que ele fez no passado, sobretudo relação à Prefeitura do Rio, eram muito equivocadas. Ele queria criar banco municipal de desenvolvimento, estatizar os transportes, uma coisa irresponsável. Ele caminhou muito para o centro e está sendo apoiado por muitos liberais. O Armínio Fraga (diretor do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso), por exemplo, veio a público apoiar o Freixo. Mas, ainda assim, ele tem essa herança de alguém um pouquinho incendiário. Ele também sempre foi muito próximo ao Lula. Ele dizia que não, mas sempre estava ali no palanque do Lula. O Cláudio Castro, primeiro, ele é o candidato do Bolsonaro na eleição. Existem duas coisas. Uma é o medo da esquerda, e outra é o bolsonarismo. São duas coisas se confundem, mas não são exatamente a mesma coisa. Outra coisa é que ele (Castro) é mais competente do que as pessoas pensam. Ele deu uma entrevista outro dia ao “O Globo” perfeita, uma coisa de competência política. Então, ele está se movendo bem. Acho que a pré-campanha vai andando, e tem uma hora em que o Freixo vai ficando pelo caminho. Não me surpreende, não. Eu acho que isso era esperado.

Polarização nacional a governador e terceira via – O Cláudio Castro é o candidato do bolsonarismo, e o Freixo é o candidato do Lula. Mesmo que isso não seja exatamente verdade, é essa a percepção do eleitorado. Eu acho isso muito ruim. A polarização é muito ruim. Até porque, são dois movimentos muito diferentes que estão em oposição, mas que não trazem propostas para o Brasil; é só uma briga de que “você deve ficar comigo porque eu sou melhor do que ele”. Isso acontecer aqui no Rio é muito ruim para nós. Agora, eu acho que é inescapável. Isso está acontecendo. E, da mesma maneira em que há uma tentativa de fazer uma terceira via no plano nacional, que é, finalmente, a Simone Tebet (MDB), eu acho que aqui também há uma tendência. O Rodrigo Neves (PDT) é alguém que foi bom prefeito em Niterói, fala coisa com coisa, não está associado a essa briga de foice entre direita e esquerda, entre duas coisas que que já foram. O petismo, o Lula, já foi, a gente viu o que aconteceu. O que o Bolsonaro representa, o que ele gostaria de fazer, a gente também sabe, já foi: é a ditadura militar (1964/1985). Então, a gente precisava de alguma coisa mais nova, e o Rodrigo Neves se propõe a ser isso e é quem tem a maior chance. Tem que ver o que o Eduardo Paes (PSD) vai fazer, porque por enquanto está apoiando o Felipe Santa Cruz, que é um candidato com menos perspectivas eleitorais. Mas, de que essa polarização está acontecendo no Rio de Janeiro, não tenho dúvida. Volto a falar aqui como como pré-candidato: o Cidadania, que é o meu partido, decidiu, na executiva estadual, apoiar o Rodrigo Neves, como no plano nacional está apoiando a Simone Tebet e foi um dos principais articuladores pela candidatura da Simone. O Cidadania está se colocando muito claramente como a favor de uma terceira via, tanto no plano nacional quanto aqui no Rio, neste caso com Rodrigo Neves.

Eleição presidencial entre os anos 1970 e o século XVII – Eu acho que está muito polarizado e, como eu disse, não é bom para o Brasil. E são dois projetos antigos. O Lula parece que quer nos levar de volta para os anos 1970. E o Bolsonaro às vezes dá a impressão de que vai nos levar de volta para o século XVII. São dois projetos não vitoriosos. São projetos que não são para o futuro, que não têm proposta para levar o Brasil a algum lugar bom. E essa questão da polarização é muito difícil, porque ninguém constrói nada com ódio. E o próximo presidente, seja quem for, vai herdar a verdadeira herança maldita: crise econômica, inflação, desemprego, recessão. A gente precisa reconstruir o Brasil e reconstruir as instituições também, que estão sendo muito atacadas. Então, a gente precisa ter alguém que una o país. Houve um tempo em que a gente discutia sem brigar. O meu partido foi uma peça muito importante na negociação da candidatura da terceira via, que é a Simone Tebet. A polarização entre Lula e Bolsonaro está muito forte, mas há muita gente que não quer nenhum dos dois. Por volta de 30% da população, talvez mais, não querem nenhum dos dois, querem alguém diferente. Então, ainda que falte pouco para a eleição, a gente precisa estimular isso, precisa fazer com que isso ande para frente e dê certo. Eu espero que essa briga com João Doria (PSDB) se acerte e que todo mundo apoie a Simone como a terceira via, a figura que não é nem Lula nem Bolsonaro. Essa é a posição clara do meu partido, que foi muito importante para fazer essa aliança, e a minha, pessoal, há muito tempo, inclusive como analista. Eu acho que esse desenho que a gente tem de polarização é muito ruim para o Brasil, já digo isso desde 2018. Então, como pré-candidato, obviamente vou fazer parte desse esforço. E, estando na Câmara (Federal), vou ajudar o próximo presidente a reconstruir o país.

E Ciro Gomes? – O Moro foi muito inábil, o Doria tem as circunstâncias dele, pelas quais nunca conseguiu se viabilizar, e o Ciro nunca foi uma hipótese de terceira via real, pois é muito identificado com a esquerda. O centro e os liberais não votam no Ciro, porque ele é nacional desenvolvimentista e tem uma proposta de política econômica imprudente. E o cara que é de esquerda vota logo no Lula. Por que vai votar no Ciro? Então, o Ciro é identificado com a esquerda demais para ser essa terceira via. Tanto é que ele não se mexe. Ele está parado ali, ele é o terceiro. Não sai da terceira da terceira colocação, mas não se mexe. Com a Simone aparecendo, se ela crescer como eu espero que cresça, o Ciro fica numa situação muito difícil, porque fica claro que ele não vai. E o PDT, o partido dele, vai gastar uma fortuna num candidato a presidente que não tem a menor chance? Não é melhor gastar esse dinheiro nos deputados? Ele vai começar a sentir uma pressão para abandonar a candidatura, o que, provavelmente, é a coisa mais inteligente que ele pode fazer. Se ele abandonar a candidatura e for ser ministro da Simone, dentro de um quadro que inclua o fim da reeleição, que é uma coisa que seria benéfica e ajudaria muito a fazer uma aliança. Então, você pega um cara como o Ciro, por exemplo, com o histórico de sucesso na educação. Se ele for ministro da Educação, com alta visibilidade, ele pode ser um candidato a presidente daqui a quatro anos. A mesma coisa com o Doria. Se o Doria ficar brigando, ele vai fracassar e vai ter um desgaste tal que vai cair numa espécie de limbo, que pode destruir a carreira dele. Vamos ver se vai haver essa gravidade que atraia todo mundo para o barco da Simone. Eu acho que ela deveria anunciar logo que ela vai ser a favor do fim da reeleição.

Simone Tebet atrás de André Janones nas pesquisas presidenciais – Ninguém disse que é fácil. Mas, eu acho que o fato de não ser fácil não significa que deva ser abandonada, até porque é a única hipótese de não ser nem Lula nem Bolsonaro. Mas, dito isso, a Simone, diferentemente de todos esses outros, Moro, Daria, Ciro, ela está jogando parada e calada. Ela praticamente não fez declarações. Há pequenos avanços. Teve um momento em que o machismo da política brasileira tentou relegá-la para a vaga de vice do Eduardo Leite (PSDB). Aí, ela apareceu assim: “Não serei vice de ninguém”. Mas, ela falou muito pouco, ela apareceu muito pouco, enquanto os outros estão na mídia, em geral brigando, em geral fazendo confusão. Doria brigou muito com o seu próprio partido. O Moro, com seu próprio partido, depois brigou um pouco com o União Brasil. E a Simone, não. Nas próximas pesquisas, talvez o nome do Doria não vá aparecer. A gente vai ver o que que vai acontecer. Da mesma maneira que o Moro saiu da pesquisa e esses votos migraram para o Bolsonaro, como era esperado, o Doria saindo na pesquisa, os votos migram pra Simone. É o esperado, pelo menos. Ou é ela ou é essa polarização de Lula e Bolsonaro mesmo.

MDB de Sinome já dividido entre Lula e Bolsonaro – Em grande medida, está. E, na verdade, a gente tem que dizer que a terceira via até hoje não se viabilizou de uma maneira concreta, não é por acaso, é porque ninguém quis. O MDB tem uma parte que é Lula e a outra parte é Bolsonaro; o União Brasil, é em geral, Bolsonaro; o PSDB está cheio de Bolsonaro, a começar pelo Aécio. O PSDB é bolsonarista em vários estados brasileiros. É a questão da gravidade que o presidente exerce. É muito poder. Ele atrai para a sua órbita. Especialmente num país como o Brasil, que tem um pacto federativo em que você precisa de dinheiro, de verba federal. E, se você tem um presidente que, ainda por cima, está jogando dinheiro na mão dos políticos, orçamento secreto. A qualidade da representação política no Brasil é muito precária. É preciso melhorar. Muita gente fala: “Eu quero ficar com o Bolsonaro” ou “Se eu sou contra o Bolsonaro, vou ficar com o Lula”. Então, essa terceira via até hoje não aconteceu. Doutor Ulysses (Guimarães) tinha uma frase boa para os tempos de hoje: “Política não se faz com ódio, porque não é função hepática”. Fica todo mundo se xingando, não chegam a lugar nenhum. Precisa conversar.

Segundo turno e rejeição – Haverá segundo turno, com toda certeza, aconteça o que acontecer. A rejeição aos dois principais candidatos, Lula e Bolsonaro, é fortíssima. O Lula não ganhou no primeiro turno nem quando ele tinha 85% de aprovação. Agora, que ele tem 45% de rejeição, é que não será. E, ainda por cima, o Lula tem feito um discurso muito estranho, muito radicalizado, que não o ajuda. Ele vai continuar no mesmo lugar para as pessoas que não querem votar nele. O Bolsonaro hoje tem uma rejeição de 60%, muitíssimo maior do que tinha na última eleição. Nem Lula nem Bolsonaro tem condições de vencer no primeiro turno. A Simone, por mais espetacular que seja a arrancada dela, não tem a menor hipótese de ganhar no primeiro turno. Então, haverá um segundo turno.

Voto no segundo turno entre Lula e Bolsonaro? – Acho que tanto o Bolsonaro como o Lula são atrasos significativos para o Brasil. Agora, eu acredito que o Cidadania, assim como eu, acredita que é preciso tirar o Bolsonaro do poder. Ele está causando uma destruição institucional muito forte. Nós sabemos pela experiência de outros países. Na Hungria, em Israel, na Polônia, nas Filipinas, quando há um presidente autocrático, antidemocrático, como é o caso do Bolsonaro, é no segundo mandato que eles quebram a espinha dorsal da democracia. No começo, você tem todos esses ataques. Se ele ganha, ninguém consegue mais resistir, as pessoas não têm mais ânimo. Aí aumenta o número de ministros no Supremo, dilui, controla. O Bolsonaro já controla a Procuradoria Geral da República, já controla em grande medida a Polícia Federal, controla o Centrão, que é a metade do Congresso. Se ele controlar o Supremo também… A democracia está sob risco, está sob ataque. Então, é preciso tirar o Bolsonaro do poder. No segundo turno, é preciso votar contra o Bolsonaro, seja lá qual for a alternativa. E aí, a alternativa, depois a gente vê o que faz. Mas, é preciso impedir que o Bolsonaro tenha mais quatro anos. Oito anos disso seria muito ruim para o Brasil.

 

Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Confira abaixo, em vídeo, os três blocos com a íntegra da entrevista de Ricardo Rangel ao Folha no Ar de ontem (20):

 

 

 

 

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Este post tem 2 comentários

  1. sidney barbosa da silva

    nao tem pra nimguem Bolsonaro vi da uma lavada no primeiro turno. Quem viver vera, aguarde.

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Caro Sidney Barbosa da Silva,

      Sua afirmação, fruto do seu desejo pessoal, é totalmente descolada da realidade. Segundo todas as pesquisas, Bolsonaro chegou a crescer nas intenções de voto, herdando os eleitores da desistência de Sergio Moro, mas estancou ainda distante da liderança Lula. A única coisa em que Bolsonaro lidera nas pesquisas é na rejeição: aqueles que não votam nele de maneira nenhuma.

      Grato pela chance do esclarecimento!

      Aluysio

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