Datafolha de maio: Lula bate Bolsonaro no 1º turno?

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Lula (PT) pode fechar a fatura presidencial no primeiro turno de 2 de outubro, daqui a exatos 127 dias? Foi isso que indicou a aguardada pesquisa Datafolha, feita entre as últimas quarta (25) e quinta (26), divulgada neste mesmo dia. Nela Lula teve 48% de intenções de voto, contra 27% do presidente Jair Bolsonaro (PL), 7% do ex-ministro Ciro Gomes (PDT), 2% da senadora Simone Tebet (MDB), 2% do deputado federal André Janones (Avante), 1% da socióloga Vera Lúcia (PSTU) e 1% do influenciador digital Pablo Marçal (Pros). Os presidenciáveis Felipe d’Avila (Novo), Sofia Manzano (PCB), Leonardo Péricles (UP), Eymael (DC), Luciano Bivar (União) e o General Santos Cruz (Podemos) não pontuaram. Excetuados os 7% que declararam votar branco e nulo, se a eleição fosse hoje, Lula a venceria em turno único, com 54% dos votos válidos. Bolsonaro teria 30%. A margem de erro é de dois pontos para mais ou menos.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Em um universo eleitoral de quase 150 milhões de brasileiros aptos a votar, Lula tem hoje 21 pontos de vantagem na corrida presidencial sobre Bolsonaro, ou 31,5 milhões de eleitores. Maior colégio eleitoral do país, o estado de São Paulo tem 32,6 milhões de eleitores. Sem Lula, Bolsonaro e os demais presidenciáveis têm juntos 40% de intenções de voto. Com 48%, Lula tem sobre todos os demais somados oito pontos de vantagem, ou 12 milhões de eleitores. Segundo maior colégio eleitoral do país, o estado de Minas Gerais tem 15,6 milhões de eleitores. Lula tem quase um estado de São Paulo de vantagem sobre Bolsonaro. Como tem quase uma Minas Gerais de vantagem sobre o presidente e os demais presidenciáveis juntos.

 

Com a faixa presidencial, Fernando Henrique Cardoso assume a presidência da República de Itamar Franco, em 1º de janeiro de 1995, entre a esposa, a antropóloga Ruth Cardoso, que implantou no Governo Federal o Bolsa Escola, depois transformado pelo PT em Bolsa Família, e seu vice, Marco Maciel

 

Histórico das vitórias presidenciais no primeiro turno — Das projeções do futuro próximo do país aos seus fatos consumados, desde que a instituição do segundo turno foi adotada no Brasil, a partir da eleição presidencial de 1989, só Fernando Henrique Cardoso (PSDB) chegou ao Palácio do Planalto em turno único. A reboque da estabilização econômica do país com o Plano Real que capitaneou como ministro da Fazenda do governo Itamar Franco (então, PMDB). O tucano se elegeu presidente ao bater, em 1994 e 1998, Lula no primeiro turno. Que o sucedeu em 2002, ao bater José Serra (PSDB) no segundo. Em 2006, mesmo com o governo avaliado como ótimo ou bom por 52% da população brasileira, em pesquisa Datafolha de 13 de dezembro daquele ano, o petista teve antes que passar outra vez pelo segundo turno para se reeleger. O fez ao derrotar o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (atual PSB), seu vice em 2022. Sem colocar pesquisas em dúvida, como sempre fazem os derrotados nas urnas, a história recente do Brasil recomenda a precaução do apóstolo Tomé: ver para crer.

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em Estatísticas do Setor Público, da População e do Território na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do IBGE

— Bolsonaro não cumpriu a expectativa de entregar um país melhor do que o que recebeu do Michel Temer (MDB). A segurança pública não melhorou. A economia, mesmo descontando o choque da pandemia e da aceleração inflacionária internacional, está pior. A saúde ficará marcada na história pela luta contra a máscara e a vacina, que matou centenas de milhares de brasileiros sem necessidade durante a pandemia. O resultado é a pesquisa Datafolha, de maior credibilidade no mercado, apontando 48% de intenções de voto para Lula, contra 27% para Bolsonaro. Criado em 1983, com 39 anos de existência, o Datafolha é o instituto de pesquisa com maior percentual de acertos, tendo errado em apenas 1% o resultado da eleição presidencial de 2018, se considerada a pesquisa boca de urna. O Datafolha usa a metodologia mais sofisticada, só trabalha com pesquisas presenciais, é a de maior credibilidade, e se utiliza de uma equipe permanente de entrevistadores. Por trabalharem continuamente para a empresa, também vão acumulando expertise, o que é fundamental à garantia da qualidade das respostas e, consequentemente, da credibilidade dos dados e resultados — explicou o geógrafo William Passos, com especialização doutoral em Estatísticas do Setor Público, da População e do Território na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do IBGE.

Simulações de segundo turno — Se a possibilidade de definição da eleição presidencial no primeiro turno não se confirmar nas urnas de 2 de outubro, as simulações da Datafolha ao segundo turno também são muito favoráveis a Lula. O ex-presidente derrotaria Bolsonaro por 58% a 33%, com 8% de brancos e nulos, mais 1% que não sabe em quem votaria. Seriam 25 pontos de vantagem do petista sobre o capitão, ou 37,5 milhões de eleitores. É mais que todo o estado de São Paulo. Na projeção de segundo turno contra o terceiro colocado em todas as pesquisas, Bolsonaro também perderia: 52% a 35% para Ciro Gomes, com 10% de brancos e nulos, mais 2% que não sabem em quem votariam. Seriam 17 pontos de vantagem do ex-governador do Ceará sobre o atual presidente, ou 25,5 milhões de eleitores. É bem mais que todas as Minas Gerais. No eventual segundo turno entre Lula e Ciro, o ex-presidente venceria por 55% a 29%, com 15% de brancos e nulos, mais 1% que não sabe em quem votaria. Seriam 26 pontos de vantagem do petista sobre o pedetista, ou 39 milhões de eleitores. É a soma dos estados de São Paulo e Ceará — este, com seus 6,4 milhões de eleitores.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O que explica a projeção de derrota para Bolsonaro no segundo turno contra Lula ou Ciro é a rejeição. O segundo turno só existe para que o candidato vencedor alcance o mínimo de 50% mais um dos votos válidos. Para passar pelo primeiro turno, valem as intenções de voto. Aos dois que chegam ao segundo turno, vale a rejeição. É ela que fixa o teto de crescimento dessas mesmas intenções de voto entre os dois turnos. Pela Datafolha, Bolsonaro tem hoje 54% de brasileiros que não votariam nele de maneira nenhuma, contra 33% de Lula e 19% de Ciro. Para quem tem 54% de rejeição, como Bolsonaro tem, é aritmeticamente impossível alcançar 50% mais um dos votos. Entre os analistas do mundo, o limite prudencial para um candidato vencer uma eleição em dois turnos é 35% de rejeição.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Embora seja menos considerada tão perto da eleição, a pesquisa espontânea Datafolha traz dados reveladores sobre a polarização cristalizada entre Lula e Bolsonaro. Sem que sejam apresentadas as opções de candidatos ao eleitor, este, por sua própria iniciativa, dá a Lula 38% de intenções de voto, contra 22% de Bolsonaro, 2% de Ciro, 1% de Simone Tebet e 3% de todos os outros candidatos somados. Na última Datafolha de março, Lula tinha 30% na espontânea. Cresceu oito pontos nos últimos dois meses. Bolsonaro tinha 23% na espontânea de março. Na margem de erro, o capitão patinou nos últimos dois meses. Ciro tinha e manteve os mesmos 2% de intenções espontâneas de voto.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O voto de Lula — Em 2018, Bolsonaro se elegeu presidente ganhando em quatro das cinco regiões brasileiras, à exceção do Nordeste, tradicional bastião do PT. Hoje, só ganharia no Centro Oeste, tradicional bastião do agronegócio. Mas no empate técnico: 42% contra 40% de Lula. Que bate o capitão por grande vantagem no populoso Sudeste, por 42% a 29%. No ex-bolsonarista Sul, por 47% a 30%. E no Norte, por 44% a 31%. No Nordeste, a lavada de sempre: 62% do ex-presidente, contra 17% do atual. Além de nordestino, o voto majoritário de Lula fica bem definido em outros recortes: é de mulheres (49% contra os 23% de Bolsonaro), pretas (57% contra os 23% de Bolsonaro), de 16 a 24 anos (58% contra os 21% de Bolsonaro), ganham até dois salários mínimos (56% contra os 20% de Bolsonaro), têm ensino fundamental (57% contra os 21% de Bolsonaro) e são católicas (54% contra os 23% de Bolsonaro).

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Entre os evangélicos, outro tradicional bastião bolsonarista, o presidente ainda continua ganhando. Mas em outro empate técnico: 39% contra 36% de Lula. Nos outros recortes, hoje o capitão está atrás do petista também entre os homens (32% a 47%), pardos (27% a 49%) e brancos (32% a 40%), todas as demais faixas etárias (com menor diferença, de 30% a 47%, entre os 60 anos ou mais), com ensino médio (30% a 46%) ou superior (30% a 40%), espíritas e kardecistas (33% a 46%) e quem ganha de 2 a 5 salários mínimos (34% a 41%). Já entre quem ganha de 5 a 10 salários mínimos, há o empate exato entre os dois líderes da corrida presidencial: 37% a 37%.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O voto e o obstáculo de Bolsonaro — Fora da margem de erro, Bolsonaro só está à frente de Lula em duas faixas: entre quem ganha mais de 10 salários mínimos (por 42% a 31%) e os empresários (por 56% a 23%). Se contassem apenas os votos dos ricos, o presidente seria reeleito. Para o país que vive sua maior inflação nos últimos 26 anos, com 1/4 da sua população, ou 52,7 milhões de brasileiros, na pobreza ou extrema pobreza, a contabilidade da reeleição do capitão se complica. Considerada sua última cartada entre os pobres, o Auxílio Brasil não surtiu até aqui o resultado esperado. Lula leva de 59% a 20%, quase o triplo, entre quem recebe o antigo Bolsa Família.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

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