Morre o historiador João Monteiro Pessôa, professor do IFF

 

João Monteiro Pessôa, historiador e professor do IFF-Guarus (Foto: Raquel Azevedo)

 

Morreu no início da madrugada de hoje, de complicações de um câncer de intestino, o historiador João Monteiro Pessôa, professor do IFF-Guarus. Ele tinha apenas 43 anos, não tinha filhos, e deixa o pai Wagner, a mãe Verônica, a irmã Mariana e a namorada Raquel. Seu corpo será velado no Campo da Paz, a partir do meio-dia, e sepultado às 16h de hoje.

Apesar da pouca idade, João era um dos mais brilhantes historiadores de Campos. Tinha conhecimento profundo de geopolítica e história militar, da Antiguidade à Idade Contemporânea. Ele descobriu o câncer no início deste ano. E lutou por sua vida, na guerra pessoal contra a doença, com a mesma coragem dos mais bravos personagens que conheceu nos livros. Submeteu-se a três cirurgias e vinha fazendo sessões de quimioterapia. Ele morreu por volta da 0h de hoje, em sua casa, onde tinha montado uma estrutura de homecare.

Jefferson Manhães de Azevedo

— Todos nós estamos muito abalados no Instituto, especialmente o nosso campus Guarus, todos nós que tivemos a oportunidade de conviver com o professor João, um destacado professor, muito comprometido com a educação. Tem uma família que também faz parte da nossa instituição, seja o seu pai, o professor Wagner, ou seja a sua irmã, a bibliotecária Mariana. Todos estamos muito sentidos. É uma perda muito precoce. E, neste momento, o que temos que fazer é estar solidários a todos os amigos e familiares por essa dor profunda — disse o professor Jefferson Manhães de Azevedo, reitor do IFF.

 

Minha história com o historiador João

Conheci o João há cerca de 10 anos, quando ele apresentou o filme “Dien Bien Phu” (1992), de Pierre Schoendoerffer, no Cineclube Goitacá. O filme era homônimo da última batalha da Guerra da Indochina (1946/1954), na qual os colonizadores franceses foram expulsos à bala do sudeste da Ásia. Foi o prelúdio da Guerra do Vietnã (1955/1975), na qual outra potência militar do Ocidente, os EUA, acabariam também derrotados.

No debate após a exibição do filme, João estava falando do fracasso da Ofensiva de Tet, em 1968. Quando as forças comunistas do Vietnã do Norte e as da guerrilha vietcong do capitalista Vietnã do Sul surpreenderam ao tomar neste várias cidades, que não conseguiram manter. Fui me meter a besta de contestar, dizendo que a Ofensiva de Tet, embora tenha sido um fracasso tático, foi um sucesso estratégico, no sentido de provar ao mundo que os EUA poderiam ser derrotados. E recebi uma aula de João, de quem reconheci os conhecimentos superiores no assunto, me rendendo como os franceses em Dien Bien Phu.

Tempos depois, na eleição de 2018, numa das matérias que fiz sobre as pesquisas presidenciais que indicavam a vantagem de Jair Bolsonaro na disputa, foi João quem me questionou nas redes sociais. E, desta vez, creio ter sido eu a demonstrar conhecimentos superiores na cobertura jornalística de pesquisas eleitorais. Que muitos eleitores convertidos em torcedores, a favor ou contra um candidato, confundem com simpatia pessoal do jornalista por quem é apontado como favorito na frieza dos números. Veio a palavra final das urnas e Bolsonaro, confirmando as pesquisas, se elegeu presidente.

Mais algum tempo se passou quando, em janeiro de 2020, resolvi criar um grupo de WhatsApp para o blog Opiniões e o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3. E dado o gosto de João pelo debate, bem como por seu conhecimento enciclopédico de História, o adicionei logo na primeira leva de convidados. E, confirmando minhas previsões, ele se tornou um dos debatedores mais brilhantes do grupo.

Quando alguém, que não ele, puxava no grupo um assunto sobre História, particularmente sobre a II Guerra Mundial (1939/1945), tema que dominava como poucos, ficava a pensar: “Lá vem o João, descendo a ladeira”. Tê-lo no grupo era também um desafio pessoal. Em qualquer debate, tenho a mesma tática dialética: em caso de dificuldade, puxo o assunto para a História. E, diante de João, puxar para a História era perder o debate de antemão. Debater com ele me forçou a novos caminhos retóricos.

Um desses debates, que se desenrolou no grupo entre João, o servidor federal Edmundo Siqueira, o advogado Hanania Monjin e mim, acabou convertido em crônica. Passando por integralismo, nazifascismo, Bolsonaro, Lula e FHC, foi publicada na Folha da Manhã e neste blog em 9 de outubro de 2021. João também brilhou como o entrevistado duas vezes no Folha no Ar, em 20 de janeiro de 2021 e 22 de fevereiro deste ano. Quando passeou, com a mesma aguda capacidade de análise, da planície goitacá à geopolítica do mundo.

Sempre quando saio de férias, me desligo de grupos de trabalho, retomando-os só ao retornar à lida. Em abril deste ano, quando voltei das minhas últimas férias, notei que João havia saído do grupo. E, como sempre faço na saída de alguém, indaguei no particular do motivo da decisão. Foi quando João me revelou a descoberta do câncer no intestino e de como estava completamente focado na sua luta contra ele.

Passamos a nos falar com regularidade quinzenal, por telefone. Acompanhando seu caso, tentei ajudar como podia. Com a experiência de quem já acompanhou de perto outras pessoas em luta contra o câncer, posso testemunhar a coragem e a dedicação com que João lutou. Nunca demonstrou revolta com a sua situação. Até que, a manhã de hoje, por sua cunhada Gedaias, soube da sua morte.

A última conversa que tivemos foi no sábado do dia 9. Após falarmos longamente durante a tarde daquele dia, estendemos o papo pela noite, em troca de mensagens de WhatsApp. Mandei-lhe um poema da minha autoria. E pedi que não mostrasse a ninguém, por ainda não ter sido publicado. Ao que ele respondeu:

— Fica entre nós e obrigado por compartilhar comigo. De qualquer experiência, por pior que seja, a gente sempre pode tirar coisas boas. Posso dizer com toda sinceridade que uma delas tem sido descobrir seu carinho, boa vontade e solidariedade comigo. Algo pelo qual serei sempre grato. Espero poder, parafraseando o policial francês em Casablanca, dizer que isso pode ser o começo de uma bela amizade. Obrigado por tudo meu amigo, e um grande abraço.

Ao lado do professor Arthur Soffiati, João foi o mais brilhante historiador que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente. Tinha um que de polemista, mas também de gentileza. Conhecedor dos campos de batalha da História, encarou o seu com força de caráter incomum. Foi-se cedo demais, mas lutou o bom combate em várias frentes.

Nunca comungamos o chope que vivíamos adiando. E que, agora, fica para a próxima. Reserve o lugar na mesa, amigo. Na daqui, o seu lugar precocemente vazio é saudade.

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Ao querido Pessôa,
    Parece ontem que eu te vi nos braços de minha irmã Verônica e sua avó, nossa querida Ruth.
    Querido sobrinho, a Morte não é o antônimo de Vida.
    Ela faz parte do ciclo vital e é inexorável para todos…
    O antônimo de Vida é Ódio!
    E você é fruto de Amor!
    Viveu num lar de Amor!
    Estudou com Amor!
    Ensinou com Amor!
    Onde há Amor a “mais indesejada das gentes” no dizer de Vieira, não prevalece!
    “Oh morte, onde está o teu aguilhão? Onde está a tua vitória?” (1 Co 15:55)!
    A Vida foi vitoriosa Pessôa, por que você amou…
    Tio Flávio

  2. João Monteiro Pessoa; grande homem, grande amigo,grande profissional,dono de uma inteligência ímpar, um caráter invejável…Serei eternamente sua fã, e agradeço a Deus por ter me dado a honra de ter te conhecido um dia. Você se foi ,mas viverá eternamente em meu coração! Qualquer dia amigo, a gente volta a se encontrar! Muito céu pra você!

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