Lula, Bolsonaro, pesquisas e o maior escândalo de corrupção

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Este artigo é escrito antes da nova Datafolha presidencial ser divulgada, cujos resultados estão hoje detalhados na matéria do jornalista Aldir Sales, com análise do geógrafo William Passos, com especialização doutoral em estatística no IBGE. Tanto os eleitores, quanto a própria mídia, tendem a olhar só os resultados das intenções de voto na consulta estimulada. Que são importantes para apontar os dois candidatos que passarão do primeiro turno, marcado para 2 de outubro, daqui a exatos 64 dias. Mesmo sem saber os números Datafolha, não há dúvida que os dois líderes são o ex-presidente Lula (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL).

As Datafolha de maio e junho, como outros institutos nestes meses, indicaram a possibilidade de Lula fechar a eleição já no primeiro turno. Mas, antes da Datafolha de julho, todas as pesquisas do mês indicaram a eleição presidencial definida só no segundo turno de 30 de outubro. Em ordem cronológica, indicaram isso: 1) a Genial/Quaest feita de 29 de junho a 2 de julho, 2) a PoderData de 3 a 5 de julho, 3) a BTG/FSB de 8 a 10 de julho, 4) a nova PoderData de 17 a 19 de julho, 5) a Exame/Ideia de 15 a 20 de julho, 6) a XP/Ipespe de 20 a 22 de julho, e 7) a nova BTG/FSB de 22 a 24 de julho.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Todas indicam a mesma coisa: fora da margem de erro, a vantagem de Lula no primeiro turno. Como, também fora da margem e erro, o segundo turno com vitória de Lula. No primeiro turno das sete pesquisas, Lula lidera entre 41% e 45%, com Bolsonaro entre 31% e 37%. No segundo, Lula venceria entre 47% e 54%, contra Bolsonaro entre 34% e 38%. O favoritismo do petista não é novidade. Mesmo após ser preso por corrupção pela Lava Jato, em 7 de abril de 2018, ele liderava a corrida presidencial. Até ter o registro da sua candidatura indeferido em 31 de agosto. No mesmo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) hoje atacado por Bolsonaro.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na referência às duas últimas pesquisas presidenciais de 2022, Lula liderava em 2018 com vantagem maior do que tem hoje. Na Datafolha de 20 a 21 de agosto de 2018, tinha 39% das intenções de voto, contra 19% de Bolsonaro. Na BTG/FSB de 25 e 26 de agosto de 2018, tinha 35%, contra 22% de Bolsonaro. Só com Lula tirado do páreo e representado pelo preposto Fernando Haddad, o capitão se elegeu presidente no segundo turno de 2018. Para fazer do ex-juiz Sergio Moro, após condenar Lula, ministro da Justiça. Antes deste sair em abril de 2020 atirando no governo. Chamado de “rato” pelos que antes o aclamavam como “Super-Moro”.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Esse fenômeno de disrupção cognitiva, a partir do disparo em massa de mensagens de ódio e fake news nas redes sociais, transforma “heróis” em “traidores” da noite ao dia. Atinge não só os “idiotas da aldeia”, como advertia o filósofo e semiólogo italiano Umberto Eco, como idiotiza até os inteligentes. Pode ser um comerciante e formador de opinião que deforma a sua. E ecoa que os banqueiros que assinaram o manifesto lançado por juristas da USP em defesa da democracia, o teriam feito por raiva do… PIX. Que foi criado no governo Michel Temer (MDB). Cego e surdo à lógica elementar: quando Bolsonaro e quem o apoia se ressentem de um manifesto em defesa da democracia, são ressentidos contra a democracia.

 

 

Escudo do Flamengo do Piauí

De qualquer maneira, além dos banqueiros que assinaram o manifesto da Faculdade de Direito da USP, a poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) prepara o seu próprio manifesto em defesa da democracia. Que será lançado em 11 de agosto. Com a democracia no país, sem ruptura institucional e de contratos, inclusive o social, defendida até por banqueiros e pela Fiesp, o comerciante de Campos que apoia Bolsonaro e suas ameaças autoritárias gera um quadro insólito. É como se o Flamenguinho do Piauí avocasse para si o Mundial de Clubes conquistado em 1981 pelo Flamengo da Gávea. E noção de ridículo nunca fez mal a ninguém.

Do delírio à realidade, Lula não lidera a corrida presidencial só agora. O fazia até ser impedido de concorrer em 2018. E continuou a fazê-lo tão logo teve seus direitos eleitorais e políticos restituídos, em março de 2021 pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Que não inocentou Lula, como bradam os petistas em seus próprios delírios. Apenas considerou o foro do Paraná inadequado. Como, em junho, considerou parcial o julgamento de Moro. Entre os dois fatos, a Datafolha fez uma pesquisa de 11 a 12 de maio de 2021. Cuja estimulada deu Lula com 41 % das intenções de voto a presidente para 2022, seguido bem de longe por Bolsonaro, com 23%.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

“Lula ladrão!”. É o que bradam os apoiadores de Bolsonaro. Com a mesma convicção dos que, no lado oposto, esgoelam “Bolsonaro fascista! ”, “Bolsonaro homofóbico!”, “Bolsonaro racista!”, “Bolsonaro machista!”, “Bolsonaro genocida!”, “Bolsonaro miliciano!” ou “Fora Bolsonaro!”. De fato, mais do que as intenções de voto, parece ser a rejeição aos dois principais candidatos o fator determinante à definição das urnas presidenciais de outubro. Sobretudo em um eventual segundo turno, onde a rejeição tem por natureza fixar o teto de crescimento aos dois maiores pisos de voto alcançados no primeiro turno.

Bolsonaro é o líder da rejeição em todas as pesquisas. Nas duas últimas de julho, antes da Datafolha, o capitão apareceu com 58% dos brasileiros que não votam nele de maneira nenhuma na XP/Ipespe e na BTG/FSB. Instituído no Brasil com a Constituição de 1988, o segundo turno só existe para que o candidato eleito tenha o mínimo de 50% mais 1 dos votos válidos. Para quem tem 58% de rejeição, como Bolsonaro tem, a eleição é aritmeticamente impossível. Com 43% de rejeição na XP/Ipespe e 42%, na BTG/FSB, Lula também tem que se cuidar. Mas, na batalha entre antibolsonarismo e antipetismo, o primeiro hoje é mais forte.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Definido no “Lula ladrão!”, o antipetismo se justifica, sobretudo, nos escândalos comprovados do Mensalão e do Petrolão. O primeiro foi a compra de apoio de deputados federais que explodiu em 2005, no governo Lula. O segundo, os desvios na Petrobras, em esquema envolvendo partidos, políticos e empreiteiras nos governos Lula e Dilma, eviscerado a partir de 2014 na Lava Jato. O Mensalão gerou desvio de dinheiro público estimado pelo Ministério Público Federal (MPF) e Tribunal de Contas da União (TCU) de, pelo menos, R$ 101,6 milhões. Já o Petrolão causou prejuízos à Petrobras estimados pelo TCU em R$ 18 bilhões.

Criado em 2020, no auge da pandemia da Covid no Brasil, o Orçamento Secreto são emendas com dinheiro público a deputados federais e senadores, sem revelar o nome do parlamentar ou destino da verba, nem fiscalizar sua aplicação. Foi uma ideia do ministro/general Luiz Eduardo Ramos, preocupado com os já mais de 100 pedidos de impeachment contra Bolsonaro na Câmara Federal. Que teve acolhida do Centrão, ao qual Bolsonaro sempre pertenceu em 30 anos de vida parlamentar, e do deputado federal Arthur Lira (PP/AL), presidente da Câmara e aprendiz de Eduardo Cunha (hoje, PTB) que superou o mestre.

 

Eduardo Cunha e Arthur Lira em sessão da Câmara de 2015 (Foto: Luís Macedo/Câmara dos Deputados)

 

O fato é que a soma do Mensalão e do Petrolão do PT é de R$ 18,1 bilhões. O Orçamento Secreto de Bolsonaro consumiu 16,5 bilhões do dinheiro público em 2020, R$ 16,9 bilhões em 2021 e já tem reservados R$ 19 bilhões a serem gastos em 2023, também para financiar a reeleição de Lira a presidente da Câmara no próximo ano. Somadas as faturas, as já pagas e a ainda a pagar, o Orçamento Secreto custou aos cofres públicos R$ 52,4 bilhões. Na subtração simples, operação tão praticada nos governos petistas e de Bolsonaro, o PT fica R$ 34,3 bilhões atrás do governo do “acabou a mamata”, apoiado pelos “cidadãos de bem”.

Senadora e candidata a presidente da República, Simone Tebet (MDB) abriu a na terça (26) a primeira rodada de entrevistas da semana da Globo News com os presidenciáveis de outubro. Com as ausências imperdoáveis de Lula e Bolsonaro às sabatinas, a política da centro-direita democrática que não foi abduzida pela extrema-direita do país disse com conhecimento de causa de ex-candidata a presidente do Senado e para quem quisesse ouvir: “O Orçamento Secreto é o maior escândalo de corrupção da história”.

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã.

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Essa data folha,essas impresas,que se diz institutos,sao tao parcial quanto a materia aqui exposta (trecho excluído pela moderação) Bem visivel,como a maioria da imprensa,se e que tem,o desespero da beira do fracasso editorial perante a opiniao publica da massa nas redes sociais.

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Cara(o?) Mandra Moreira,

      O artigo analisa todas as pesquisas presidenciais de julho, antes da nova Datafolha. Não esta. Por favor, tente ler, antes de tentar escrever.

      Grato pela chance de ressaltar o óbvio!

      Aluysio

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