Campos/RJ/Brasil nas urnas de outubro pela ciência política

 

Por Aluysio Abreu Barbosa, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel

 

Embora a eleição de outubro, daqui a exatos a 57 dias, não seja municipal, as consequências das suas alianças ameaçam redesenhar a relação acirrada entre oposição e governo em Campos. Como foi encarado o giro de 180º do ex-governador Anthony Garotinho (União) no último domingo (31), quando declarou seu apoio à reeleição do governador Cláudio Castro (PL), a quem vinha dirigindo “críticas bastante ferozes”. A definição é do cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos. No Folha no Ar do início da manhã de ontem (5), ele e o também cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf, foram entrevistados. E fizeram ressalvas à pacificação da política goitacá, entre Garotinhos e Bacellar, a partir do realinhamento estadual. Mas analisaram essa correlação, assim como a eleição a governador e senador do RJ, além das candidaturas a deputado federal e estadual da região. Na eleição presidencial, com intenções de votos polarizadas e cristalizadas entre o ex-presidente Lula (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL), George lembrou episódios de pleitos anteriores para manter a disputa aberta ao imponderável. Já Hamilton cravou: “Você também nunca teve uma eleição onde o presidente da República ameaça dar um golpe. Isso é ponderável”.

 

George Gomes Coutinho e Hamilton Garcia diante do apresentador do Folha no Ar, Cláudio Nogueira (Foto: Genilson Pessanha/Folha da Manhã)

 

 

Folha da Manhã – Crê na pacificação entre oposição e governo em Campos, a partir do apoio do ex-governador Anthony Garotinho (União) à reeleição do governador Cláudio Castro (PL)?

George – Garotinho adere à campanha do governador Cláudio Castro, com um histórico de críticas bastante ferozes. E nós, que conhecemos bastante o repertório do Garotinho, sabemos o quão ferozes podem ser. Nesse momento em que ele adere, se isso vai arrefecer a disputa local? Talvez não. Embora, neste momento, na disputa eleitoral do estado do Rio de Janeiro, você possa ter uma convergência dos Bacellar e do Garotinho em torno do Cláudio Castro, não quer dizer que necessariamente os ânimos vão se acalmar em âmbito local. Por que esta minha perspectiva? Você nota que há uma proximidade, em diferentes pesquisas, do primeiro lugar, que é o Cláudio Castro, e o segundo lugar, que é o Marcelo Freixo. O Freixo, neste momento, ele ameaça e parece que chega ao segundo turno. Então, o que o Cláudio Castro, o homem da máquina, está fazendo? Ele tem tentado ampliar as suas possibilidades de aliança no estado. Neste sentido, ele pode trazer, inclusive, para o campo de aliança dele inimigos mortais locais. Tem que se olhar a perspectiva do Cláudio Castro, não a disputa local. Na perspectiva do Cláudio Castro, é coerente ele ter como apoio Garotinho e Bacellar, porque, neste momento, ele está vivendo uma disputa muito acirrada. Agora, isso vai traduzir a um reset da disputa local? Não consigo vislumbrar essa possibilidade. Acompanhando as discussões dos grupos em disputa no âmbito local, fico bastante constrangido com os termos que têm sido utilizados: um nível de debate padrão 12 anos de idade. Não estou me referindo a ninguém específico, mas às vezes tenho a impressão de que vai chegar a dizer: “Você é cara de melão”. O nível é muito baixo. A questão da disputa para o Governo do Estado pode, de repente, se traduzir numa paz eleitoral momentânea. Mas não mais do que isso.

Hamilton – Creio que cada grupo está fazendo o seu cálculo de modo a utilizar a disputa local e se inserindo na disputa regional. Isso, aliás, está acontecendo também na esfera da candidatura presidencial, com a disputa entre o PT e o PSB no Rio de Janeiro. Cada um faz o seu cálculo do que é melhor para ele na disputa maior para alavancar o seu público, seu eleitorado, e se cacifar nas eleições, quer no Senado ou nas disputas locais. Mesmo no caso de Campos, que é um município empoderado por rendas petrolíferas, que no passado até desdenhava dessas conexões. Mas o fato é que a crise veio e Campos teve que restaurar essas conexões entre o local, o estadual e o federal. Agora, acho que isso se dá num contexto da democratização que o país está vivendo desde 1984, que é a do aumento do protagonismo do Legislativo. Mas os municípios também não estão refletindo esse avanço do Legislativo sobre o orçamento público. Não é só a discussão do quanto de liberdade tem o prefeito. É o avanço mesmo de verbas, de emendas impositivas que começam a aparecer nos legislativos estaduais e locais. Alguns prefeitos da região, inclusive, se referem às câmaras dos vereadores como câmaras de extorsão. Não é uma coalisão legislativa programática que resolve engessar o orçamento e dar uma liberdade exígua ao prefeito. O protagonismo do Legislativo tem se dado mais ou menos em torno da questão de distribuir dinheiro. Isso é uma coisa meio ao acaso, não tem planejamento. Isso representa muito mais a capacidade desses agentes legislativos de fidelizarem o voto popular, o que é uma corrupção da democracia. Porque, na democracia, o que se espera é que o eleitor seja o árbitro das disputas, dizendo quem tem maioria e quem não vai ter maioria. Mas o que acontece é que os agentes políticos se empoderam de recursos para corromper o voto popular, e aí neutralizam o poder da população de arbitrar. Não é uma exclusividade do Legislativo, não é uma novidade. Essa é uma política que o Executivo já fazia, mas agora o Legislativo faz de maneira mais ativa. O orçamento está sendo disputado para sufocar, e não tem uma conexão com a sociedade. É uma degradação generalizada, embora em cada município isso vai aparecer de uma forma. Aqui, a disputa é entre duas oligarquias muito fortes, que conseguem fidelizar o voto popular e vão estar aí nas eleições. Parece que a disputa aqui vai se dar no interior de um mesmo bloco que está se organizando para a disputa regional, porque são duas oligarquias que não vão ser apaziguar. Eles estão disputando o voto à próxima eleição municipal. O problema é o que está por trás disso: no nosso caso, nada. A não ser interesses particularistas de grupos às vezes inconfessos e até inconfessáveis.

George – Como ainda é fato recente, e eu acho também que a gente pode falar isso sem ferir suscetibilidades: é uma aproximação tanto envergonhada. Eu acho que, num primeiro momento, o que nós vimos foram trocas de farpas entre os Bacellar, o grupo que está gravitando em torno dos Bacellar, e os Garotinho. Mas, não sei se nós vamos ter uma prorrogação dessa discussão em termos de beligerância nos próximos tempos. Mais uma vez, a gente tem que olhar um pouco pela perspectiva do Cláudio Castro. É um cara que é situação no Governo do Estado neste momento, tem máquina, o Ceperj que o diga. E, nesse momento, numa disputa quente para o Governo do Estado, o que o Cláudio Castro fez ao se aproximar de grupos que estão em disputa no âmbito local, acho que se trata de garantir os dois palanques, garantir a possibilidade de dialogar com os eleitores, sejam dos Bacellar ou sejam dos Garotinho. O fogo agora são as eleições. E o próprio Garotinho tem que cuidar da campanha dele para deputado federal também. Então, talvez continue esse clima de Guerra Fria, beirando a quente. Mas creio que, agora, há um trabalho de concentração dos agentes que estão na disputa eleitoral. As próximas semanas serão decisivas para definir resultados, saber se determinadas campanhas serão bem-sucedidas; pode poder disputar espaço, inclusive, dentro do partido. Acho que tende a arrefecer um pouco o tom da disputa local, que, sem dúvida alguma, não é das mais civilizadas.

 

Folha – E a eleição de deputado federal e estadual na região, e a senador no RJ?

Hamilton – Existe uma certa perspectiva de partido regional, de você tentar maximizar uma representação dentro desse sistema que a gente tem do voto proporcional com lista aberta, que o eleitor escolhe quem botar. Todo mundo vem aqui para conseguir voto. O partido regional tem que se organizar para limitar um pouco o número de concorrentes em cada uma dessas esferas para maximizar as chances de uma representação regional. Isso parece que não é possível, em função das disputas. O que eu perguntaria a quem conhece mais essa realidade do é o risco de, com nomes fortes, você acabar fragmentando o voto e beneficiar quem vem pescar de fora e que tem outras fontes de voto para além da região. Eu acho também que em Campos, acontece também aqui, para a questão do voto regional, o fato de que a disputa local está muito degradada. Campos, de fato, está perdendo a oportunidade de ser um polo de liderança política do Norte Fluminense. Eu vejo, neste momento, um protagonismo maior de Macaé, que tem conseguido projetar mais em termos de política, em termos de debate de aperfeiçoamento institucional. Então, as dificuldades econômicas e políticas de Campos, e a pulverização de candidatos competitivos, podem ter um efeito negativo para a representação local. Em relação ao voto a senador, e essa observação talvez sirva em alguma medida para deputado, é a presença dos currais eleitorais no Rio de Janeiro. Isso deforma muito qualquer previsibilidade. O voto do senador é um voto majoritário, é um pouco impreciso. Tem umas incertezas, sobretudo na disputa para o Senado, tanto em termos programáticos, porque vão pesar de fato os programas de cada senador, como também o curral eleitoral: em que medida essa distorção do curral eleitoral, seja por traficante, seja por miliciano, impactam no voto para senador e também para deputado. Na minha lógica, talvez a questão que seja decisiva é o quanto de curral eleitoral Ceciliano (PT) vai conseguir fechar para concorrer com Romário (PL). Esse pode acabar sendo o fator decisivo na disputa entre eles, e aí eu acho que o Molon (PSB) fica um pouco em desvantagem, porque o Molon só vai entrar nas áreas libertas.

George – Quando a gente está falando sobre curral, é sobre capital eleitoral, ou seja, como você vai construir capital eleitoral numa perspectiva de ter domínio geográfico do território. Acho que a discussão sobre o Senado, pelo menos neste momento, está muito matizado pela questão da disputa nacional. Você vê isso nitidamente na atual polêmica entre a centro-esquerda, entre o André Ceciliano e o Alessandro Molon. A discussão é menos pragmática, talvez, e mais de quem talvez representaria melhor, no campo da centro-esquerda ou em certos grupos de uma direita democrática; quem seria o melhor nome anti-Bolsonaro. Porque o Romário aderiu com os dois pés ao bolsonarismo. Então, a disputa ao Senado está muito saturada na disputa nacional, além dessa questão da manutenção ou não de capital eleitoral pelos currais. Para discussão sobre o voto proporcional, seja para a Alerj ou seja para a Câmara dos Deputados, a região tem vários nomes relevantes a nível regional. Há alguns nomes que são nomes relevantes na política atual nesta conjuntura, vide inclusive (Rodrigo) Bacellar, Garotinho também. Mas, como eu avalio essa disputa? Eu acho que não é uma disputa do voto proporcional como foram as anteriores, o que dificulta as campanhas menores. Acho que há um entendimento na formulação das nominatas para poder concorrer tanto à Câmara quando às assembleias legislativas estaduais. Está se apostando muito em nomes puxadores de voto, tanto no campo da direita quanto no campo da esquerda. Isso faz com que nomes que não têm tanta projeção estadual ou nacional, digo os postulantes que estão saindo aqui na região: eles estão lidando com uma disputa desigual que lhes é desvantajosa. Esses outros nomes muito populares são puxadores de voto, eles vão capitalizar a atenção do eleitor; e as pequenas candidaturas vão, no máximo, acrescentar, levar votos para seus partidos, mas não vão conseguir muito além disso. Não me parece que nomes pouco conhecidos nesse momento das eleições das redes sociais vão ser bem-sucedidos na concorrência eleitoral. Eu acho que a situação das pequenas candidaturas regionais é muito dramática se se pretende que sejam eleitas. Não estou discutindo a qualidade dos nomes, mas o quanto eles podem bem-sucedidos nessa disputa.

 

Folha – E a eleição a presidente, polarizada em todas as pesquisas entre Lula e Bolsonaro, e talvez a com a intenção de voto mais cristalizada desde 1989?

George – Se fizer a linha histórica das pesquisas para a presidência, há mais ou menos uma regularidade. E há, no geral, uma perspectiva de que parece que tudo mais constante, algo mais ou menos consolidado. A grande questão é que sempre tem o imponderável. Nós já tivemos, nas últimas campanhas a presidente, tentativa de assassinato (com Bolsonaro em 2018); tivemos acidente de avião (com Eduardo Campos, em 2014). Os imponderáveis podem modificar cenários que estão consolidados. O que explica essa estabilidade, inclusive quando você faz pesquisa espontânea, são dois personagens absolutamente populares. Lula e Bolsonaro são políticos extremamente populares, tão conhecidos quanto nota de R$ 2. Todo mundo sabe quem são ambos. Inclusive, é o que ajuda a explicar o grau de rejeição também elevado de ambos. Às vezes acho engraçado quando fulano de tal fala: “Fulano de tal tem baixíssima rejeição”. Mas é claro, ninguém conhece. Nós temos uma cultura política bastante antipolítica. A perspectiva popular sobre a política no Brasil é muito negativa. Então, esses nomes também têm esse grau de rejeição por conta justamente de uma rejeição importante da opinião pública brasileira. Nesse momento, ainda, tudo bem que tem a expansão do Auxílio Brasil, que os mais críticos chamam de auxílio eleição. Quanto o Auxílio Brasil vai acelerar a diminuição da rejeição ao Bolsonaro é uma discussão. Neste momento, ainda há uma expectativa do eleitor, sobretudo do eleitor que vive neste momento uma situação mais periclitante, do quanto esse Auxílio Brasil pode mudar para melhor a vida dele. A questão é que esse Auxílio Brasil vai entrar, está entrando agora em (9 de) agosto. Esse auxílio vai atender à expectativa do eleitor de modo a reverter a tendência de rejeição de Bolsonaro? Não necessariamente o auxílio vai se traduzir numa reversão do segundo colocado da pesquisa para primeiro lugar. Mas ainda há os imponderáveis. Há um dado da última pesquisa Genial/Quaest: uma parte importante do eleitorado hoje, quase 1/3, se informa sobre política por rede social e WhatsApp. Ou seja, a modulação da intenção de voto e a percepção de mundo desse eleitor vai se dar das formas mais tresloucadas possíveis.

Hamilton – É uma eleição que expressa a polarização social. Minhas análises anteriores eram de que havia um espaço, sobretudo na centro-direita, na fragilidade da candidatura Bolsonaro. Mas, essa possibilidade se fechou, porque a única figura que poderia ser o antídoto ao Bolsonaro seria o Sérgio Moro (União), por ser uma figura que emergiu na esfera pública não pela política, mas pelo sistema de Justiça. Esse seria o remédio à antipolítica do Bolsonaro. Me parecia que o estelionato eleitoral praticado pelo Bolsonaro o colocaria numa situação difícil na eleição, mas isso dependeria de ter uma alternativa a ele, que seria o Sérgio Moro. O fato é que o espaço está muito difícil de ser mudado. O Ciro sempre me pareceu, embora seja um candidato que tenha feito críticas muito coerentes e contundentes ao lulopetismo, me parece que ele perdeu o tempo. Ele começou a fazer essa crítica muito tarde. Por isso, sempre considerei que, pelo lado do Ciro, seria muito difícil abrir brecha. Para não falar na solidez partidária. O PT, apesar da sua degeneração, é o único partido moderno e organizado que a gente tem na sociedade brasileira. Então, me parecia sempre que a despolarização da sociedade em torno desses dois mitos dependeria da oferta de alternativas. No caso do Ciro, do meu ponto de vista, o tempo foi perdido quando ele defendeu Dilma e defendeu Lula (em 2016) na esperança de ser o candidato desse campo. Quando o Lula, na prisão, lançou o Haddad, caiu a ficha, mas acho que caiu tarde para a imagem que ficou dele, diante da opinião pública de esquerda. Então, este é o quadro que nós temos, que me parece irreversível. Existe o imponderável, mas também existe o ponderável. A Nova República (de 1985 até o presente) nunca teve uma eleição com um presidente da República e um ex-presidente. Você também nunca teve uma eleição onde o presidente da República ameaça dar um golpe. Isso é ponderável. Isso está colocado como uma variável dessa disputa. Inclusive, eu diria que esse é o plano A do Bolsonaro. Olhando a campanha do Bolsonaro, a impressão que dá para quem está de fora, como analista, é de que quem se empenha pela candidatura do Bolsonaro é o Centrão; o filho dele Flávio Bolsonaro, os empresários bolsonaristas, os evangélicos. A sociedade civil bolsonarista se empenha, mas o plano A do Bolsonaro e do núcleo duro do bolsonarismo é dar um golpe.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

 

Confira em vídeo, nos dois blocos abaixo, a íntegra da entrevista dos cientistas políticos George Gomes Coutinho e Hamilton Garcia ao Folha no Ar de sexta:

 

 

 

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