O que esperar do Brasil com Lula e na Copa do Qatar?

 

Treino é treino, jogo é jogo — O que esperar do Brasil com Lula e na Copa?

 

O que esperar do Brasil no novo governo Lula e na Copa do Mundo de futebol masculino no Qatar? Antes de a bola rolar, tudo serão só prognósticos. Aqueles feitos com conhecimento de causa e pautados pela razão, a despeito da torcida a favor ou contra, sempre terão mais chance de êxito. Mas garantia, em um caso e no outro também, só a do Mestre Didi, campista, maior meia direita da história do futebol e, mesmo ao lado de Pelé e Garrincha, o grande craque do nosso primeiro Mundial, em 1958, na Suécia: “treino é treino, jogo é jogo”.

Ainda na fase de treino, Lula participou esta semana da 27ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP27), no Egito. Onde já chegou na terça (15) metendo lençol nos quatro anos de solidão geopolítica do governo Jair Bolsonaro (PL), ao se reunir com Xie Zhenhua, da China, e John Kerry, dos EUA, representantes das duas maiores economias e poluidores da Terra.

 

Lula com John Kerr, dos EUA, e com Xie Zhenhua, da China, no Egito

 

Osvaldo Aranha

Na quarta (16), Lula foi ovacionado pela imprensa internacional ao propor uma aliança para combater a fome no planeta e cobrar dos países ricos recursos para enfrentamento das mudanças climáticas nos países mais pobres. E, para enterrar ainda respirando por aparelhos um governo que chegou a se orgulhar em proclamar “que sejamos pária”, com o ex-chanceler olavista Ernesto Araújo, o presidente eleito ressuscitou o orgulho do país de Osvaldo Aranha ao afirmar: “O Brasil está de volta”. E ouviu de volta o coro do mundo: “O Brasil voltou”.

 

 

Foi na mesma quarta em que, do lado de cá do oceano Atlântico, o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), entregou ao Congresso a PEC da Transição. No qual propôs deixar o Bolsa Família, rebatizado por Bolsonaro de Auxílio Brasil na tentativa fracassada de se reeleger, fora do teto de gastos. O que implicaria em gasto extra de R$ 175 bilhões em 2023, para manter o benefício federal de R$ 600,00 aos brasileiros pobres. Os mesmos que pegaram o dinheiro de Bolsonaro com uma mão e votaram em Lula com a outra. O motivo? No país em que o primeiro negava existir fome, 33 milhões de pessoas passavam e ainda passam fome.

 

 

Com a ameaça ao teto de gastos, o mercado reagiu imediatamente com queda da Bolsa de Valores e o aumento do dólar. É o mesmo mercado que apoiou majoritariamente o primeiro presidente da História do Brasil a perder uma reeleição, após ter reservado R$ 19 bilhões ao Orçamento Secreto em 2023, tirando dinheiro da merenda escolar e do tratamento de brasileiros com câncer. Instituído pelo governo Michel Temer (MDB) em 2016, o teto de gastos foi arrombado pela dupla Paulo Guedes/Bolsonaro em R$ 795 bilhões entre 2019 e 2022. Sem correção pelo IPCA, foram quase R$ 200 bilhões por ano, mais que os R$ 175 bilhões pedidos a 2023. E ruidoso com Lula, o mercado fez, literalmente, ouvidos de mercador com Bolsonaro.

Na quinta (17), ainda no Egito, Lula reagiu também ruidosamente aos dois pesos e duas medidas do mercado entre ele e um Bolsonaro agora calado: “Ah, mas se eu falar isso vai cair a bolsa, vai aumentar o dólar? Paciência! Porque o dólar não aumenta e a bolsa não cai por conta das pessoas sérias, mas por conta dos especuladores que vivem especulando todo santo dia. Nós vamos cumprir meta de inflação, sim. Mas nós temos que ter meta de crescimento. Como vamos fazer que a riqueza seja distribuída”.

 

 

O mercado reagiu imediatamente no Brasil, com mais queda da Bolsa e alta do dólar. Que recuaram ao final do dia, após a ação sempre diligente e equilibrada de Alckmin. E o desligamento de Guido Mantega da equipe de transição. Onde nunca deveria ter estado, após conduzir o Brasil à maior recessão da sua história como ministro da Fazenda do governo Dilma Rousseff (PT), tão desastroso economicamente quanto Guedes/Bolsonaro.

 

Dupla Dilma Rousseff e Guido Mantega produziu entre 2011 e 2015 a maior recessão econômica da História do Brasil

 

Christiano Abreu Barbosa

Contra quem crê nas fake news que afirmam o contrário sobre os ex-condutores ainda em exercício da economia do país, é comum se apelar à falácia da pandemia da Covid. Sobre o que observou didaticamente o empresário Christiano Abreu Barbosa, como a explicar que a Terra é redonda: “Entre 24 países emergentes, o Brasil ficará em 18º em desempenho de PIB no período do atual governo. A pandemia valeu para todos. A tal decolagem de Guedes/Bolsonaro nunca aconteceu. Perderia até para os antecessores do 14 Bis”.

 

Em 1906, o brasileiro Alberto Santos Dumont espanta o mundo ao conseguir decolar há poucos metros do chão de Paris com o seu 14 Bis

 

“Natural que o mercado reaja com desconfiança, que a Bolsa caia, que o dólar suba. Até agora não se sabe qual será a direção da economia no governo Lula. Ele continua soltando bravatas e seus eleitores, trocando de posição com os de Bolsonaro, agora passam pano. Os de Bolsonaro, que antes passavam pano, agora atacam as declarações do presidente”, também analisou corretamente Christiano. Ele só esqueceu de dizer que as críticas às bravatas de Lula não vieram só “dos especuladores que vivem especulando todo santo dia”. Mas de nomes do mercado que criaram o Plano Real a partir de 1994, maior conquista econômica do Brasil desde a sua redemocratização em 1985. E que, após verem sua obra ao país erodida por Mantega/Dilma e Guedes/Bolsonaro, declararam apoio a Lula no 2º turno de 2022.

 

Pais do Real, Armínio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan

 

“Caro presidente eleito Lula, assistimos a sua fala nesta quinta cedo na COP27, no Egito. Acredite que compartilhamos de suas preocupações sociais e civilizatórias, a sua razão de viver. Não dá para conviver com tanta pobreza, desigualdade e fome aqui no Brasil. O desafio é tomar providências que não criem problemas maiores do que os que queremos resolver. A alta do dólar e a queda da Bolsa não são produto da ação de um grupo de especuladores mal-intencionados. A responsabilidade fiscal não é um obstáculo ao nobre anseio de responsabilidade social (…) dólar alto significa arrocho salarial, causado pela inflação que vem a reboque (…) São todos sintomas da perda de confiança na moeda nacional, cuja manifestação mais extrema é a escalada da inflação. Quando o governo perde o seu crédito, a economia se arrebenta. Quando isso acontece, quem perde mais? Os pobres! (…) O crédito público no Brasil está evaporando. Hora de tomar providências, sob pena de o povo outra vez tomar na cabeça”, assinaram em carta aberta os economistas Armínio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan, ex-integrantes do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). E, como este, eleitores de Lula no último dia 30 de outubro.

Na sexta (18), já em Portugal, saudado também na Europa pelo retorno do Brasil ao mundo, Lula parece ter entendido o “puxão de orelhas”. Não ao seu objetivo social, mas à necessária modulação do seu discurso. Ao lado do primeiro-ministro português António Costa, o petista disse: “Eu queria dizer da minha alegria de ter uma carta, de pessoas importantes, ex-ministros, me alertando dos problemas econômicos e aconselhando. Eu sou um cara muito humilde e gosto de conselho. Se o conselho for bom, pode ter certeza que eu sigo”. Confirmou promessas de campanha e ressalvou: “Vou voltar a aumentar o salário todo ano, a gerar emprego nesse país e nós vamos voltar a ser responsáveis do ponto de vista fiscal, sem precisar atender tudo que o sistema financeiro quer”.

 

 

E o Brasil na Copa do Qatar, que se inicia neste domingo? Sem a cerveja de Lula proibida pela teocracia islâmica, como a que sonham implantar aqui alguns evangélicos cristãos, o Brasil tem chances? Tem! Basta vencer uma seleção europeia em jogo eliminatório. O que não faz em Copa do Mundo desde a final em que bateu a Alemanha por 2 a 0. Foi há 20 anos.

Fã de futebol, Lula já disse que, quando jovem, gostava de jogar com a camisa 8 por causa de Didi. Que estava certo: treino é treino, jogo é jogo. E o treino foi forte esta semana.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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