Com nova maioria, governo negocia acordo com oposição

 

Nildo Cardoso, que se aproximou com Abdu Neme do governo Wladimir, confirmou ontem o que a oposição reivindicava: Trabalho e Renda, Meio Ambiente e Fundação dos Esportes (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

 

O que a oposição quer do governo?

Antagonistas como seus pais, o clima parece pacificado entre o presidente da Alerj, deputado estadual Rodrigo Bacellar (PL), e o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (sem partido). Há quem diga que se, hoje, alguém falar mal de Rodrigo perto de Wladimir, arrumará briga com este. E vice-versa. O último impedimento à pacificação seria a relação do governo com a Câmara Municipal comandada por Marquinho Bacellar (SD), eleito presidente pela oposição.  Que, enquanto perdia a maioria, estaria reivindicando três pastas do prefeito para consumar o acordo: Trabalho e Renda, Meio Ambiente e Fundação dos Esportes.

 

O que já tem o prefeito?

Como a sessão de ontem (28) provou, Wladimir já tem maioria mínima na Câmara: 13 a 12. Vereadores experientes da Legislatura, Nildo Cardoso (União) e Abdu Neme (Avante) — como dizia o ex-governador Leonel Brizola (PDT) —  “costearam o alambrado”. Raposas da política, os dois driblaram a oposição comandada por Marquinho. E fizeram sua aproximação própria com o governo Wladimir. Que foi costurada pelo vice-prefeito, Frederico Paes (MDB). Nildo emplacou o psicólogo Hans Muylaert e o empresário Alfredo Dieguez, respectivamente, na presidência e vice da Emhab. E, ontem, disse que as indicações seriam também de Abdu.

 

Pacificação e por trás dela

Todos esses movimentos foram antecipados pelo jornalista Rodrigo Gonçalves nesta coluna, no blog “Caminhos”, em matérias na Folha da Manhã e no Folha1. Assim como a resistência de quem já era governo em ceder espaço a quem o cobra para deixar de ser oposição, e virar “independente”, na Câmara. Fato é que, dos dois lados, há quem lucre com a briga. Como há quem receie o que a pacificação vá custar no fortalecimento das nominatas adversárias a vereador em 2024. Até aqui, a aposta ainda majoritária entre os campistas é que o acordo é laticínio: teria prazo de validade. Mas tem fiador de peso: o governador Cláudio Castro (PL).

 

Wladimir e Rodrigo: momentos e metas

A um ano e oito meses da urna de 2024, até um tsunami pode passar embaixo da ponte. Mas, se o curso das águas se mantiver, Wladimir hoje é favorito à reeleição a prefeito. Como sua mãe, Rosinha, foi em 2012. Rodrigo Bacellar sabe disso e tem outros objetivos. Com capacidade de articulação endossada na ascensão meteórica na política fluminense, presidente da Alerj em apenas dois mandatos de deputado, poderá subir o sarrafo para 2026. Ainda faltam três anos e oito meses, mas como a reeleição não poderá ser tentada por Castro e como este provou em 2022, quem tem a máquina do RJ sai na frente para se manter com ela.

 

Paes e Caio

O prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) mira há mais tempo a eleição a governador. Tentou em 2018, quando foi engolido no segundo turno pelo ex-juiz Wilson Witzel, eleito com o então desconhecido Castro como vice, no tsunami do bolsonarismo. Paes pode fazer com que Caio Vianna (PSD), eleito terceiro suplente de deputado federal em 2022, assuma mandato em Brasília. Para ganhar visibilidade e disputar a Prefeitura de Campos em 2024. Mas, sem o apoio de Bacellar, com quem se aliou e rachou na eleição a prefeito de 2020, o filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT) teria menos chance. Wladimir só não se elegeu no primeiro turno de 2020, tendo que disputar o segundo com Caio, porque Rodrigo lançou Dr. Bruno Calil.

 

Thiago e Jefferson

Ex-vereador e hoje colega de Rodrigo na Alerj, à qual se elegeu em sua primeira tentativa, o deputado Thiago Rangel (Podemos) também sonha disputar a Prefeitura no ano que vem. Na qual, como Caio, também precisaria do apoio dos Bacellar. Quem não conta nem com o apoio deles, nem dos Garotinho, mas pode apresentar candidato próprio a prefeito de Campos em 2020, é o PT. Com Lula de novo presidente, a executiva municipal do partido se reúne neste mês de março para debater isso. O objetivo principal, como alertam lideranças petistas jovens e mais experientes da planície, é voltar a montar uma nominata capaz de eleger um vereador.

 

Momento e meta do PT

Em um município que deu a Bolsonaro 63,14% dos votos válidos no segundo turno presidencial de 2022, contra 36,86% de Lula, um prefeitável do PT não parece ter chance contra. Sobretudo contra o favoritismo hoje de Wladimir, ou a força estadual de Rodrigo. No entanto, reitor do IFF, o professor Jefferson Manhães de Azevedo sai do cargo em 2024. Tem experiência exitosa na administração pública, com a qual poderia qualificar o debate. E um perfil que poderia furar a bolha de esquerda para tentar penetrar na “pedra” bolsonarista da cidade. O que já seria uma vitória tática do PT. E estratégia individual para disputar a deputado em 2026.

 

Carla, Natália e Sérgio

Outro nome petista, a deputada estadual Carla Machado já foi lembrada no passado, como o reitor do IFF, para disputar a Prefeitura de Campos. Mas após deixar a de SJB antes da metade do seu quarto e mais questionado mandato, o melhor momento para essa migração pode ter passado. Revelação da eleição de 2020, na qual quase superou o então prefeito Rafael Diniz (Cidadania), a professora Natália Soares (Psol) vê pessoalmente com simpatia a possibilidade da candidatura de Jefferson pelo PT. Ex-prefeito, Sérgio Mendes (Cidadania) fala em disputar novamente o cargo. Para tentar passar a limpo o seu bom governo, entre 1993 e 1996.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.