Tabela de Zidane e Messi a quem ama o futebol

 

Já veterano no Real Madrid, Zidane encarando o jovem Messi pelo Barcelona

 

“É uma pena que eu não tenha podido jogar contigo. Mas hoje, para mim, é o momento de dar-te um passe”. É o que o francês de origem argelina Zinédine Zidane diz antes de passar a bola e a palavra ao argentino Lionel Messi.

O papo entre os dois gênios do futebol, de audição necessária a todos que amam esse esporte, foi gravado em 29 de setembro, em Miami, onde Messi defende o clube Inter Miami. Patrocinadora de ambos, a empresa alemã Adidas promoveu o encontro.

CAMISA 10 — Os dois falaram sobre a mística da camisa 10 que ajudaram a imortalizar. Embora nunca tenha usado o número em seus quatro clubes como jogador, Zidane foi o 10 da França que conquistou a Copa do Mundo de 1998 e a Eurocopa de 2000. Na primeira vez na história do futebol que um time ganhou as duas de maneira seguida.

O francês falou com carinho também da camisa número 5, com que marcou época nos “Galácticos” do Real Madrid. Quando selou os 2 a 1 da conquista da Champions de 2002 sobre o alemão Bayer Leverkusen.

Embora tivesse a direita como melhor perna, Zidane acertou um chute de canhota, de primeira. É até hoje considerado um dos mais belos gols a decidir uma Champions. E Messi, que tinha à época 15 anos e já estava no Barcelona, mostrou se lembrar muito bem.

Notabilizado pelo camisa 10, que hoje usa no Inter Miami, Messi usou outros números em seu início na Argentina e no Barcelona. Neste, estreou como profissional aos 17 anos, em 2004, com a camisa 30. Número que, como lembrou com Zidane, retomou quando jogou no PSG.

Foi com a camisa 10 do Barcelona que Messi conquistou oito dos seus 10 Campeonatos Espanhóis, três das suas quatro Champions e seus três Mundiais de Clubes. Como foi com a 10 da Argentina que ele conquistou da Copa América de 2021 e da Copa do Mundo de 2022.

MARADONA — “Para nós, argentinos, o 10 é um número muito especial, porque automaticamente traz Maradona à cabeça. Crescendo desde meninos no futebol, queríamos ser como ele. Embora nenhum tenha conseguido ser como ele, a ilusão, o desejo era esse”, disse Messi, que viu muito pouco do ídolo, já no final de carreira, quando tinha 6 ou 7 anos.

“É para todo o mundo, não só para os argentinos. Maradona, como tu sabes, era um ídolo para todos, para todo o mundo. Sobretudo tu, falando isso, com sete Bolas de Ouro (Messi ganharia a oitava no dia seguinte), é muito bonito”, pontuou Zidane.

FRANCESCOLI — Além de reverenciarem um dos maiores camisas 10 da história, outros dois da lista lamentaram como esse tipo de jogador anda desaparecendo do futebol. Zidane lembrou do seu ídolo, o uruguaio Enzo Francescoli. Que viu jogar no Olympique de Marselha e Messi veria no River Plate.

AIMAR — “Nós, na França, normalmente víamos jogadores franceses, não havia muito estrangeiros. Quando vi Enzo, da América do Sul, vimos que era outro futebol. Ele fazia coisas com a bola, era um mágico, e eu queria fazer o mesmo”, admitiu Zidane. Enquanto Messi, abaixo de Maradona, também assumiu como referência o conterrâneo Pablo Aimar.

MESSI POR ZIDANE — “Hoje é um dia importante para mim porque posso dizer a admiração que tenho por ele. Gosto desses jogadores diferentes. Para mim é magia, pura magia. Eu quase sabia o que você iria fazer, como uma conexão. Mas quando vejo você fazer o que faz no campo, digo: é isso”, ditou Zidane sobre Messi.

ZIDANE POR MESSI — “Não é porque ele está presente aqui, porque já disse muitas vezes. Para mim, ele é um dos maiores da história. Sempre o admirei. Ele sempre foi um jogador diferente, elegante, magia, tinha tudo. E sofri também, porque ele estava em Madri e eu no Barcelona. Mas os grandes jogadores ultrapassam a camiseta e o país”, sentenciou Messi sobre Zidane.

MALDINI E THURAM — Entre conselhos aos jovens, ambos destacaram o que parece faltar a muitos dos últimos grandes jogadores brasileiros: foco! Sobre os melhores marcadores, Zidane destacou o ex-lateral-esquerdo e ex-zagueiro italiano Paolo Maldini, pela inteligência. E, pela dureza, o ex-lateral-direito e ex-zagueiro francês Lilian Thuram. Com o que Messi, rindo, concordou.

ZIDANE x RONALDO — Entre os anos 1990 e 2000, Zidane disputou a condição de melhor jogador do mundo com o ex-centroavante brasileiro Ronaldo Fenômeno. E, apesar das posições diferentes, o superou na final da Copa do Mundo de 1998 e nas quartas de final da Copa do Mundo de 2006.

MESSI x CRISTIANO RONALDO — Entre os anos 2010 e 2020, Messi disputou a condição de melhor jogador do mundo com o atacante português Cristiano Ronaldo. E, se alguém chegou a ter alguma dúvida sobre a superioridade do argentino, ela foi desfeita na sua conquista da Copa do Mundo de 2022.

APÓS PELÉ E MARADONA — Após Pelé, entre os anos 1950 e 1970, Maradona foi o grande jogador do futebol mundial dos anos 1980 e 1990. Após Don Diego, ninguém brilhou mais do que Zidane e do que Messi. Ver esses dois gênios em tabela de papo sobre futebol é quase tão encantador quanto tê-los visto jogar.

 

 

Wladimir com Caio após fim da pacificação com os Bacellar

 

Caio Vianna com Wladimir Garotinho, Bruno Vianna, Frederico Rangel, Rodrigo Bacellar, Helinho Nahim, Marquinho Bacellar, Juninho Virgílio, Carla Machado e Frederico Paes (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Wladimir com Caio

Favorito à reeleição em 2024 em todas as pesquisas de 2023 divulgadas (confira aqui), e até nas não divulgadas, como revelou (confira aqui) na última quinta (9) o deputado estadual e prefeitável Thiago Rangel (PRTB), Wladimir Garotinho (PP) fez um aceno político emblemático no início da noite de segunda (13). Quando recebeu na Prefeitura e postou um vídeo nas redes sociais (confira aqui) ao lado do deputado federal Caio Vianna (PSD). Segundo colocado nas mesmas pesquisas a prefeito que Wladimir lidera com grande vantagem, Caio anunciou emendas parlamentares suas para Campos: R$ 1 milhão para a Saúde, R$ 600 mil para a Pesca e R$ 500 mil para a Agricultura.

 

Passos da nova pacificação

A aproximação entre Wladimir e Caio não começou na segunda. Teve início numa visita do prefeito à Brasília, entre 17 e 18 de outubro. Quando ele oficializou seu ingresso ao PP, tentou negociar com as cúpulas partidárias a retirada de assinaturas de vereadores pela CPI da Educação e também se reuniu com o deputado federal. Seis dias depois, veio a primeira consequência prática desse encontro: em 24 de outubro, chegou à Câmara Municipal (confira aqui) o ofício do PSD, presidido por Caio em Campos, que destituiu o edil de oposição Bruno Vianna da liderança da bancada da legenda. Que passou a ser ocupada pelo governista Fred Rangel.

 

Oposição vê “recado a Rodrigo”

Oficializada na segunda, a pacificação entre Wladimir e Caio foi encarada como um recado ao presidente da Alerj, o deputado estadual campista Rodrigo Bacellar (União). “Qualquer emenda para Campos é importante. Mas foi visível o desconforto do vídeo, para tentar dar algum recado político ao deputado Rodrigo Bacellar. Caso se concretize o acordo com Wladimir, Caio irá para uma possível quinta derrota eleitoral. Isso parece o começo de traição do prefeito de Campos ao governador Cláudio Castro (PL) numa possível aliança com o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD)”, alfinetou o edil de oposição Helinho Nahim (Agir).

 

Ação e reação

O recado de Wladimir e Caio registrado por Helinho ao presidente da Alerj se reforça pela sucessão dos fatos. Em 10 de outubro, o fim da pacificação entre os Garotinho e os Bacellar foi decretado na Câmara (confira aqui), pelo seu presidente, Marquinho Bacellar (SD), irmão de Rodrigo. No mesmo dia ele anunciou a CPI da Educação, que acabaria barrada pela Justiça (confira aqui) no dia 8 por irregularidades formais: não tinha fato determinado nem prazo de funcionamento. A decisão liminar do juiz Leonardo Cajueiro, da 4ª Vara Cível, foi favorável a uma ação impetrada pelos edis governistas Juninho Virgílio (União), Paulo Arantes (PDT) e… Fred Rangel, do PSD de Caio.

 

Histórico de Wladimir com Caio

Não é a primeira vez que Wladimir recorre a Caio, quando as coisas com os Bacellar azedam. Na eleição da primeira Mesa Diretora da atual Legislatura goitacá, a disputa pelos cargos melou o acordo que vinha sendo costurado por Wladimir e Rodrigo. O primeiro recorreu a Caio, então no PDT. Para levar à época os três vereadores do partido que definiram a fatura. Já no PSD e deputado federal, Caio também postou na semana passada, ao som do forró “Se Acabou”, um print de matéria sobre o impedimento jurídico da deputada estadual Carla Machado (PT) em se candidatar a prefeita de Campos em 2022, como articulam os Bacellar.

 

“Pedra” no sapato dos Garotinho

Desde a primeira vez que Anthony Garotinho (hoje, União) se elegeu prefeito de Campos, em 1988, incluído seu segundo governo municipal a partir de 1997 e os dois seguidos de Rosinha (hoje, União), entre 2009 e 2016, o clã Garotinho sempre teve dificuldade na chamada “pedra”. Com o eleitor de classe média, do centro da cidade, das antigas 98ª e 99ª Zonas Eleitorais (ZEs) depois reunidas na atual 98ª ZE. Das quatro ZEs de Campos, a 98ª foi a única em que Caio venceu Wladimir no segundo turno a prefeito que os dois disputaram em 2020: 60,31% dos votos válidos contra 39,69% do prefeito. Que se elegeu no geral por 52,4% a 47,6%.

 

Vice da “pedra”

Antes de se tornar o vice-prefeito de Campos com maior papel ativo no governo, pelo menos desde a Constituição Federal de 1988, o industrial, engenheiro agrônomo e produtor rural Frederico Paes (MDB) teve na eleição o papel de atenuar o histórico antigarotismo da “pedra”. Quase três anos depois daquele segundo turno a prefeito de Campos em 2020, hoje o próprio Frederico admite que Wladimir não precisa mais dele para penetrar eleitoralmente na “pedra”. Para o seu vice, o prefeito hoje conquistou expressiva parte do eleitor campista de classe média por conta própria. O que Garotinho e Rosinha nunca conseguiram.

 

Virada na “pedra”

Para além da impressão, três pesquisas eleitorais de Campos feitas em 2023 foram divulgadas, todas pela Folha. Foram a GPP de março (confira aqui), a Iguape de julho (confira aqui) e a Prefab Future de agosto. Das três, apenas a GPP fez o recorte por regiões. Dividiu sua amostragem em quatro, não exatamente as quatro ZEs de Campos. Na Região B, equivalente à 98ª ZE, Wladimir já liderava com 43,5% das intenções de voto a prefeito na consulta estimulada, com os nomes dos candidatos. Onde venceu em 2020, Caio já perdia em março de 2023, quando ficou em 2º lugar, com 21,2% de intenções de voto a 2024. Em 3º, Marquinho Bacellar teve 4,2%.

 

Quarenta e três pontos?

Se aquela amostragem de março estiver certa, a depender da urna de 6 de outubro de 2024, daqui a pouco mais de 10 meses, Wladimir parece ter virado ao seu favor quase 43 pontos na 98ª ZE, desde sua derrota parcial nela para Caio, no segundo turno de 2020. Noves fora o número absoluto de eleitores, é um feito estatístico impressionante dentro da classe média goitacá. Não é preciso ser um observador arguto para concluir que esse crescimento de Wladimir na “pedra” se deve também à sua imagem pessoal afável e agregadora, diferente do pai. Que, no caso do filho, pode ainda se reforçar com a aliança de ocasião com Caio.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Felipe Fernandes — O assassino e seu método

 

 

 

 

Felipe Fernandes, filmmaker publicitário e crítico de cinema

O assassino e seu método

Por Felipe Fernandes

 

Após realizar um projeto bem pessoal, a cinebiografia do roteirista Herman J Mankiewicz, em um roteiro escrito por seu pai que nunca havia saído do papel, o diretor e roteirista David Fincher retorna ao gênero que o consagrou. Para narrar a história de um assassino metódico e calculista que precisa lidar com as consequências após um serviço que termina de uma maneira inesperada.

Baseado na HQ francesa homônima escrita por Alexis Nolan (conhecido como Matz) e desenhada por Luc Jacamon, “O Assassino” é um exercício narrativo que traz uma abordagem bem crua sobre o universo dos assassinos. E traz o olhar muito particular do protagonista como fio condutor.

Praticamente todas as falas do protagonista (que não tem um nome oficial) são narrações, que ora funcionam como o protagonista falando consigo mesmo, reforçando todo o seu método. E em alguns momentos parecem explicar o funcionamento de sua profissão e daquele universo. Como se ele falasse para o expectador, uma característica que remete diretamente à natureza em quadrinhos da obra original, que traz uma certa sensação de intimidade.

Metódico, frio e calculista, o ritmo do longa acompanha seu narrador, que já na primeira e longa sequência explica os pormenores da profissão, apresentando detalhes que enriquecem a imersão no tipo de trabalho. Ao mesmo tempo que mostram como o personagem lida internamente com todo o processo. E como o como seu método vai sendo afetado de acordo com os acontecimentos.

O roteiro escrito por Andrew Kevin Walker (em sua segunda parceria com Fincher, ele escreveu o roteiro de “Seven”) é bem simples e dividido em capítulos, com cada um deles se passando em um local diferente e englobando uma parte da jornada do assassino. Um artifício que funciona dentro da proposta, já que cada momento tem um alvo e um objetivo diferente.

Com suas cores frias, uma direção de arte clean, sem personalidade e o rosto inexpressivo do protagonista, o longa desconstrói qualquer sentido de espetacularização ou charme, com uma abordagem sóbria, que torna tudo muito crível. Com momentos pontuais de violência. que em muitos momentos ocorrem de forma inesperada e por isso carregam um peso maior, o longa provoca uma sensação de perigo constante.

Merece destaque a atuação de Michael Fassbender, que conduz uma narração em um tom praticamente único, mas sempre frio, sem demonstrar qualquer tipo de emoção. Ao mesmo tempo, ele realiza um trabalho corporal muito interessante, que convence da segurança do protagonista em sua profissão, com movimentos precisos e uma postura segura, que são fundamentais na construção do personagem.

Em seu segundo longa em parceria com a Netflix, Fincher constrói um thriller que funciona como um estudo de personagem em sua jornada de vingança. Não é uma história muito original, mas a forma como Fincher narra a história engrandece a narrativa, construindo um longa diferente dentro do gênero, ao desconstruir as convenções para se aprofundar em seu protagonista, seu método e suas convicções.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira abaixo o trailer do fime:

 

 

A paternidade e a literatura — Seis meses sem Ícaro

 

Na Israel de 27 de janeiro de 2023, Ícaro e Aluysio Abreu Barbosa na Eremos Grotto, gruta diante do Mar da Galiléia onde Jesus meditava e orava (Foto: Ícaro Barbosa)

 

 

A paternidade e a literatura — Seis meses sem Ícaro

Com Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Sérgio Arruda

 

Hoje se completam seis meses sem a presença física de Ícaro. Tanto para Dora, sua mãe, quanto para mim, o dia 13 de cada mês passou a ter um significado que nenhum azar poderia supor. Cuja dor da perda, por mais lancinante, tem que ser vencida. Pelos 23 anos da breve aventura de existência de um homem que, muito jovem, fez sua opção de voar perto do sol. Buscou seu brilho mais intenso, o refletiu na retina úmida de vida e, por isso, a consumiu mais precocemente.

O poeta português Fernando Pessoa teve sua vida e obra marcada pelos heterônimos, fenômeno de explicação espírita para alguns, de psiquiatria certamente mais complexa e profunda do que o simples pseudônimo. Quatro, em Pessoa, eram poetas: o próprio Fernando; Alberto Caeiro, mestre dos demais; Ricardo Reis, marcado pelo apego ao classicismo latino; e seu oposto em estilo Álvaro de Campos, o mais modernista do quarteto.

Em seu poema “Se te queres matar, por que não te queres matar?”, Álvaro de Campos verseja:

 

“A mágoa dos outros?… Tens remorso adiantado

De que te chorem?

Descansa: pouco te chorarão…

O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,

Quando não são de coisas nossas,

Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,

Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros…

 

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda

Do mistério e da falta da tua vida falada…

Depois o horror do caixão visível e material,

E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.

Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,

Lamentando a pena de teres morrido,

E tu mera causa ocasional daquela carpidação,

Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…

Muito mais morto aqui que calculas,

Mesmo que estejas muito mais vivo além…

 

(…)

 

Depois, lentamente esqueceste.

Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:

Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;

Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.

Duas vezes no ano pensam em ti.

Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,

E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

 

(…)

 

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,

Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

 

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.

És tudo para ti, porque para ti és o universo,

E o próprio universo e os outros

Satélites da tua subjetividade objetiva.

És importante para ti porque só tu és importante para ti.

E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?”

 

Pessoa não teve filhos. Nem ortonimamente, nem por nenhum de seus heterônimos. Por melhor poeta que fosse, por mais gigantesca que fosse sua sensibilidade, nunca pôde descobrir o que é deixar de ser o centro do próprio universo. Jamais trocou a condição de sol da sua vida pela de lua, satélite que passa a orbitar com gratidão e muito cuidado em torno de uma gravidade maior.

Penso em Ícaro todos os dias. Como, creio, sua mãe também. Seja nos sonhos em que ele cotidianamente nos visita, cabelos e barba longos, abertos na vereda do seu riso largo, fácil e sacana, seja no plano consciente da luz do dia. Em ambos, entra sem pedir licença. Como foi, em vida, a única pessoa que tinha prazer em receber à casa sem avisar.

Na contraposição à dureza órfã de filho de Álvaro de Campos, Ícaro sempre esteve e estará para mim como o Menino Jesus herético de Alberto Caeiro:

 

Menino Jesus e Fernando Pessoa

 

“A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

 

(…)

 

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

 

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

 

(…)

 

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

 

……

 

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.”

 

Estava ao final de tarde de sábado (11) na posse do professor da Uenf e escritor Sérgio Arruda na Academia Campista de Letras (ACL). Enquanto ele falava, como costuma acontecer por vezes e sem motivo aparente, fui tomado de uma imensa saudade de Ícaro, da angústia da sua ausência. Chorei e despertei das lágrimas à secura real do cair do dia quente, onde ecoava a voz de Sérgio sobre o fundo baixo do ar condicionado em movimento. Sem combinar, ouvi e tive consolo no que pensei ter sido escrito ao meu filho e a mim:

 

 

“Sinto o respeito aos mortos como uma atividade solene e viva. Fixados no grande e difuso painel da memória, eles, os mortos, reclamam vida — não vida de carne e osso e sangue, mas de legados.

Quando buscaram alguma glória na literatura, buscavam algo primeiro para si. E fizeram isso na palavra grafada em papel, deixando em terra de vivos insumos para a eternidade.

Não é o escritor(a) que é imortal; é a literatura.

Este mundo de escritas mantém-se vivo por esse desejo de glórias — embora sempre ameaçadas pela poeira do tempo.

Signatária de grandes propósitos no mundo, a literatura ergueu palácios de sonhos e fantasias disfarçados de choupana e palafitas sobre a maré.

Eis porque devemos tanto à literatura. Ela é anterior à própria filosofia. Ela é anterior à ciência.

Ela é anterior à teoria literária, à crítica literária.

Parece até que anterior à própria palavra.”

 

Descobri nas palavras de Sérgio que a paternidade e a literatura, pela qual Ícaro tinha paixão, são também irmãs.

 

Abaixo, o encontro de Ícaro com a ave canora no alto da Fortaleza de Massada, Canudos do povo judeu, na Israel de 3 de fevereiro de 2023:

 

 

O Botafogo de 2023 e o Garrincha de 1958

 

Garrincha na final da Copa de 1958 contra a Suécia, na Suécia, única vez em que uma seleção nacional da América do Sul conquistou o mundo dentro da Europa

“Esse campeonato, para quem tem problema de coração, dificilmente vai sobreviver até o fim do ano. É um campeonato que é diferente de todos os campeonatos que foram realizados de pontos corridos. Provavelmente, teremos cinco, seis equipes disputando o campeonato de igual para igual, até sabermos quem vai ser o campeão no final. Porque, até o final, não acredito que uma equipe vá disparar”. Foi o que disse na coletiva da noite de quinta (9) o experiente técnico Felipão, após o empate de 1 a 1 do seu Atlético Mineiro com o Corinthians.

Concluída a 33ª rodada na quinta, faltam apenas cinco para acabar o Brasileirão. Que, desde 2003, passou a ser disputado no sistema de pontos corridos. E, desde 2005, adotou a fórmula atual: 20 clubes jogando um contra o outro duas vezes, uma no seu campo e outra no do adversário, em turno e returno. Onde vence quem soma mais pontos em 38 rodadas.

Nada disso existia em 1995, quando o Botafogo foi campeão brasileiro pela última vez. Sob a pressão dos últimos 28 anos na fila de espera, hoje nenhum time representa melhor a imprevisibilidade identificada por Felipão.

Neste ano da Graça de 2023, o Botafogo fez o melhor 1º turno da história do Brasileiro de pontos corridos. Na qual colocou 13 à frente do 2º colocado. E consegue fazer agora a 2ª pior campanha do 2º turno, 14 pontos distante do melhor desempenho. Que é justamente do Atlético Mineiro de Felipão. Mas, entre turno e returno, é só o 6º entre os seis com chances matemáticas de conquistar o título. Numa disputa que ainda é liderada pelo Botafogo.

Se o Brasileirão que sempre mais conta à torcida é o atual, nunca deixa de pesar mais a impressão dos últimos jogos. E nada reflete melhor o contraste entre os desempenhos do Botafogo nos dois turnos do campeonato do que duas viradas épicas de 3 a 4. Que tomou no espaço de apenas oito dias.

Primeiro, do Palmeiras, também candidato a campeão, na quarta (1º) da semana passada. Que saiu do 1º tempo perdendo para o Botafogo por 3 a 0. E a mais recente na última quinta (9), diante do Grêmio, outro candidato ao título. Após terminar o 1º tempo vencendo por 2 a 1, o Botafogo ampliou para 3 a 1 logo ao 1º minuto do 2º tempo. Para depois assistir ao craque uruguaio e gremista Luisito Suárez anotar seu hat-trick — três gols em um só jogo.

Além de Botafogo (1º na tabela, com 59 pontos), Grêmio (2º, com 59), Palmeiras (3º, com 59) e, correndo por fora, o Atlético Mineiro (6º, com 54), também o Bragantino (4º, com 58) e o Flamengo (5º, com 56) têm chances de levar o Brasileirão. O Grêmio não o faz desde 1996. Mas conquistou a última das suas três Libertadores da América em 2017.

Já o Palmeiras levantou a última das suas três Libertadores em 2021. Sem contar o último dos seus 11 Brasileiros, em 2022. Como o Grêmio e o Palmeiras, o Flamengo tem três Libertadores, a última conquistada em 2022. Além de ter vencido o último dos seus oito Brasileiros em 2020.

Do rico interior paulista, o Bragantino tem bom time e grande patrocinador no energético Red Bull. Mas não é um clube de massas, tem pouca tradição e nenhum título relevante nacional ou internacional. Enquanto o Atlético Mineiro conquistou sua Libertadores em 2013. E o último dos seus três Brasileiros em 2021.

Reconhecido pela Fifa, o único título internacional do Botafogo é a Taça Conmebol de 1993. Precursora da Copa Sul-Americana e um ou dois patamares abaixo da Libertadores, está para a América do Sul como a Copa da Uefa à Europa, que tem a Champions como grande campeonato de clubes. O último dos dois Brasileiros botafoguenses foi, sim, o de 1995.

A maior glória do Glorioso é ter sido o clube que cedeu mais jogadores à Seleção Brasileira em Copas do Mundo. Dos botafoguenses Benedicto, Pamplona, Nilo e Carvalho, que o Brasil levou à primeira Copa do Mundo de 1930, no Uruguai, até a de 2022, no Qatar, foram 47 atletas da Estrela Solitária. Nenhum brilhou mais do que Mané Garrincha, campeão em 1958, na Suécia, e bicampeão em 1962, no Chile. Seria desta o grande destaque, posteriormente reconhecido com a mesma Bola de Ouro que Messi recebeu este ano pela oitava vez.

No lugar da ideação persecutória e da megalomania do “contra tudo e contra todos”, abraçado hoje por quem ignora que “tudo” e “todos” têm coisa mais importante a fazer do que se opor ou mesmo saber da nossa existência, o Botafogo poderia sofrer menos. Bastaria ouvir a ressalva de Garrincha, após o apito final da decisão da Copa de 1958. De quando o Brasil foi campeão do mundo pela primeira vez, ao bater a dona da casa Suécia por 5 a 2:

— Já acabou o campeonato? Que torneio mais mixuruca, não tem nem 2º turno!

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Prefeitável de Campos, Thiago Rangel vai assumir o PRTB

 

Thiago Rangel (Foto: Facebook)

O PRTB é o novo destino do deputado estadual Thiago Rangel, que deve assumir a presidência estadual da legenda em janeiro. Possível candidato a prefeito de Campos em outubro de 2024, ele estava sem partido desde 15 de junho deste ano. Foi quando recebeu (confira aqui) o aval do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) para sair do Podemos, pelo qual se elegeu à Alerj em 2022.

O objetivo do deputado campista na nova legenda é fortalecê-la no estado do Rio, para tentar eleger 35 vereadores em vários municípios fluminenses em 2024. Indagado se isso também sinaliza sua candidatura a prefeito de Campos pelo PRTB, Thiago respondeu:

—  A gente está reconstruindo o partido em nível estadual, elegendo vereadores. Obviamente, seu for para disputar a Prefeitura de Campos, eu tenho outros partidos, com tempo de televisão. Só que, no PRTB, estou indo para ser presidente estadual. Já indiquei a presidente do diretório carioca o Patrick (Weber, ex-Podemos e ex-secretário estadual de Trabalho). Tenho visto várias pesquisas de Campos, além daquelas que foram divulgadas (confira aqui), e estou bem posicionado nos números. Porém, Wladimir continua liderando; isso é inegável. Mas eu estou bem em relação aos outros nomes, como Carla (Machado, PT) e o próprio Marquinho Bacellar (SD, presidente da Câmara Municipal de Campos).

 

Futebol e política de SJB e Campos no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Ambos de São João da Barra, o radialista José Vitor Silva e o jornalista Victor de Azevedo são os convidados para fechar a semana do Folha no Ar nesta sexta (10), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Eles falarão da conquista inédita da Libertadores da América pelo Fluminense, como de Botafogo, Flamengo e Vasco nas últimas rodadas do Brasileirão.

José Vitor e Victor também analisarão a liderança folgada da prefeita de SJB, Carla Caputi (sem partido), na pesquisa Iguape de outubro (confira aqui e aqui), na tentativa natural de reeleição em 6 de outubro de 2024, daqui a pouco mais de 10 meses. Os dois sanjoanenses também avaliarão o cruzamento da política do seu município com a do vizinho Campos.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Saúde, RPAs, royalties e Carla 2024 no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Procurador de Campos, Gabriel Rangel é o convidado do Folha no Ar desta quinta (9), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele falará da Saúde Pública entre a CPI aberta na Câmara Municipal e a judicialização da área, além das TAGs dos Royalties e dos RPAs de Campos.

Ele também aprofundará a análise que fez entre outros juristas (confira aqui) para saber se a deputada estadual Carla Machado (PT) pode, ou não, concorrer a prefeita de Campos no próximo ano. E, com base nas pesquisas (confira aqui), tentará projetar as eleições municipais de 6 de outubro de 2024, daqui a pouco mais de 10 meses.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.