“Assassinos da Lua das Flores” — Cobiça, morte e reparação

 

Lily Gladstone, Leonardo DiCaprio e Robert De Niro estrelam “Assassinos da Lua das Flores”, novo filme de Martin Scorsese, em cartaz em Campos

 

Felipe Fernandes, filmmaker publicitário e crítico de cinema

Cobiça, morte e reparação

Por Felipe Fernandes

 

A trágica história da Nação Osage tem diversas similaridades com histórias de extermínio de outros povos originários em países colonizados ao longo da história. Porém, é uma história com um acontecimento singular que mudou tudo. Um povo que se tornou nômade para fugir da ganância do homem branco e ao acaso acabou em terras repletas de petróleo, situação que os transformou em um dos povos mais ricos do planeta.

Naturalmente, todo esse dinheiro atraiu todo o tipo de gente gananciosa que se aproximou daquelas terras exalando boa vontade, se aproximaram dos indígenas e buscando sua própria fatia daquela riqueza, situação que gerou uma série de mortes dos indígenas. É dentro desse contexto que o diretor e roteirista Martin Scorsese narra seu novo longa, em uma história poderosa, que funciona como cinema e como resgate histórico de uma trágica e pouco lembrada parte da história estadunidense.

Baseado no livro homônimo de David Grann, o longa se afasta da proposta do livro, que é focar na investigação do caso e na formação do FBI. Scorsese e o experiente Eric Roth constroem uma narrativa em torno da violência vivida pelos indígenas, agregando a investigação em sua segunda metade, mas sempre focando em seus personagens e nos horrores vividos naquele período.

A história se passa no início da década de 1920, após a Primeira Guerra Mundial e Scorsese usa o artifício de registros da época como fotos e como o próprio cinema. Que funciona para introduzir a nova realidade dos Osage, enquanto traz essa sensação de resgate histórico e posteriormente de denúncia, dois dos elementos mais importantes do longa.

Dentro desse contexto, Scorsese costura de forma muito efetiva a situação em um aspecto geral, mostrando os diversos assassinatos e posteriormente os ligando a dramas pessoais. É um filme que trabalha suas consequências e como cada morte afeta diferentes personagens de diferentes maneiras. E, conforme vamos conhecendo alguns deles, tudo vai ficando ainda mais assustador.

Essa relação direta mostra nos detalhes todo esse processo em que esses homens se utilizavam da lei e da impunidade para tomar de forma sórdida e violenta o que era de direito dos Osage. O filme traz algumas cenas bem violentas, mas que trabalhadas de forma pontual e nos momentos certos, causa um impacto forte, nunca soando gratuito, exaltando a natureza violenta daquela situação.

O filme tem um ritmo contínuo que funciona e sua longa duração permite que uma história repleta de personagens e acontecimentos seja abordada de forma eficiente e bem construída. Os personagens e suas relações, a escala de violência que culmina na investigação e suas consequências, é tudo muito bem construído e desenvolvido.

O filme traz um homem branco como protagonista, uma escolha aparentemente problemática, que se prova um estudo de personagem muito interessante, trazendo o olhar do explorador, um protagonista ambicioso e pouco inteligente, que apresenta diferentes camadas, que voltou da guerra para algo ainda pior. O filme busca humanizar o personagem, mesmo que nunca busque justificar suas ações e nem uma redenção.

Em um elenco com grandes atuações, o destaque fica para Lily Gladstone, que interpreta uma personagem difícil. Dentro da fragilidade da situação, seja física, emocional ou social, a atriz demonstra uma altivez que mostram a força da personagem e funciona como representante da força e da tragédia pela qual passa seu povo.

Interessante como o filme trabalha elementos da crença Osage, cenas geralmente ligadas a finitude da vida. O filme também aborda muito da cultura, seja através dos figurinos, do design de produção, do elenco ou até mesmo do uso da língua nativa, demonstrando um respeito importante, que engrandece o filme e sua proposta.

“Assassinos da lua das flores” é um filme importante por resgatar uma história trágica, apontando com detalhes toda a crueldade de tudo o que sofreu a Nação Osage. É um filme maduro, ao trazer um olhar diferente e entender seu lugar dentro daquela equação, conseguindo denunciar sem ser panfletário e profundamente respeitoso com o povo que busca representar.

Um épico trágico, em todos os sentidos, fruto do cinema inigualável de um dos diretores mais apaixonados pela sétima arte. E por tudo que cada um de seus filmes representa.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.