Felipe Fernandes — “Maestro” é aposta da Netflix ao Oscar

 

Bradley Cooper, diretor e protagonista como o maestro Leonard Bernstein, e Carey Mulligan, na pele da atriz e esposa Felícia Montealegre

 

 

Felipe Fernandes, filmmaker publicitário e crítico de cinema

Arte, boemia e família

Por Felipe Fernandes

 

O segundo longa-metragem dirigido pelo também ator e roteirista Bradley Cooper tem várias similaridades com seu primeiro longa, o remake de “Nasce uma estrela” (2018). Mesmo que se tratando de universos completamente diferentes, são obras sobre músicos e principalmente sobre suas relações amorosas em conflito com sua arte ou estilo de vida.

Produzido por Martin Scorsese e Steven Spielberg (ambos chegaram a se envolver com a direção do projeto), “Maestro” é a grande aposta da Netflix para o Oscar 2024. E já chega como um forte candidato, como um longa que abraça o cinema clássico estadunidense e traz características que vão agradar a ala mais tradicional da Academia, para narrar a cinebiografia de uma figura marcante da música e do cinema no final do século passado.

O longa traz um recorte da vida do Maestro e compositor Leonard Bernstein (interpretado pelo próprio Bradley Cooper), onde começa com o protagonista sendo convocado de última hora para reger a Filarmônica de Nova York, sendo este fato reconhecido pelo mesmo como prova definitiva de reconhecimento. Sua fama cresce a partir dali, o levando a conhecer a atriz em ascensão Felícia Montealegre (Carey Mulligan) e dessa relação o filme constrói sua narrativa.

Apesar do título, o filme é sobre as duas personagens, mesmo que reconheça Bernstein como figura central, ponto que vai de encontro a relação dos dois, já que é Felícia quem abandona sua promissora carreira para acompanhar a do marido. Um ponto recorrente em uma sociedade machista, que perdura em menor grau até hoje.

O primeiro ato do longa, que retrata principalmente as décadas de 1940 e 1950, é todo em preto e branco, com um ritmo acelerado, que incorpora a energia e o estilo de vida atribulado de Bernstein, com sua vida boêmia, seus romances e seus diversos projetos em diferentes áreas. Com algumas passagens de cena bem inspiradas, esse primeiro ato é muito eficiente em mostrar os dois se apaixonando e o quanto Felícia é sugada para a vida do seu futuro marido, tratado como um gênio.

A química entre Cooper e Mulligan é forte e ambos convencem enquanto casal. Nesse sentido, é interessante o quanto Cooper dá espaço não só para a personagem, mas para a atuação de Mulligan. Que brilha mais que o próprio diretor, uma característica também encontrada em seu longa anterior.

Utilizando as diversas trilhas de Bernstein para embalar o longa, em seu segundo ato o longa ganha cores, em uma estética muito característica da década de 1970 e vivendo uma nova fase da vida do casal, o longa diminui o ritmo. Para dialogar com o novo momento do casal, mais velhos e tendo a vida boêmia de Bernstein e sua bissexualidade como agente causador da discórdia entre eles.

Esse segundo ato deixa Felícia em segundo plano, um problema grave do longa, que não consegue desenvolver a personagem, nem construir um propósito narrativo para ela. A questão só vai ser resolvida posteriormente, conforme a personagem se reaproxima do protagonista.

O filme conta com uma parte técnica de excelência, com destaque para as maquiagens que impressionam e conseguem transmitir a passagem do tempo no rosto do casal. As atuações de Cooper e Mulligan também são fundamentais para a qualidade do filme. Repleta de nuances, Cooper por exemplo muda a voz conforme seu personagem envelhece. Já Mulligan irradia um brilho, uma jovialidade, que se perde com a situação da sua personagem. Um grande mérito da atriz.

A direção de Cooper é eficiente, seja na cadência dos ritmos conforme o momento de vida do casal principal, seja ao demonstrar sensibilidade ao dar foco em diversos momentos, nem sempre ao personagem que fala, mas em muitos momentos seu foco é o ouvinte. São escolhas que intensificam a carga dramática da cena. Cooper também faz uso de planos abertos e sem cortes em várias cenas de discussão, uma escolha que traz naturalidade às cenas, além de intensificar os sentimentos dos personagens.

Já repleto de indicações e prêmios, “Maestro” é um longa que deve crescer ainda mais na temporada de premiações e pode dar a Netflix seu aguardado Oscar de Melhor filme. É a aposta mais segura da gigante do streaming nos últimos anos e mesmo em uma ano repleto de filmes com enorme potencial, a cinebiografia de um ilustre membro de Hollywood pode consagrar a plataforma e seu diretor.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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