Wladimir entre os Bolsonaro e o PT sob análise

 

Wladimir Garotinho, Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, André Ceciliano, George Gomes Coutinho, Gilberto Gomes e Edmundo Siqueira (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

“Programas federais em um município médio como Campos não são favor nenhum de Lula. O destaque de quem recebe a verba federal vai ser maior ou menor a partir das afinidades programáticas, políticas e partidárias que o prefeito tenha ou não com o Governo Federal. Não cabe a Wladimir (Garotinho, PP) ocultar a origem da verba, mas colocar em alto-relevo não é com ele. Campos receberia essas políticas públicas, fosse o prefeito Wladimir ou o Jefferson (de Azevedo, PT)”.

Foi o que disse ontem (1º) o cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos, sobre a crítica do PT goitacá ao fato de Wladimir ter recebido apoio político dos Bolsonaro, em visita à Brasília na semana passada, enquanto Campos recebe investimentos do governo Lula 3. Aos quais, segundo os petistas, o prefeito não daria crédito.

 

 

Na quarta da semana passada, dia 21, Wladimir divulgou dois vídeos como o senador Flávio Bolsonaro (PL). Em um, publicado em seu Instagram, agradeceu ao filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por emendas no valor de R$ 5,5 milhões para compra de equipamentos aos hospitais públicos de Campos. No outro vídeo, que só repassou por WhatsApp, o prefeito recebeu de Flávio e do PL o apoio à sua pré-candidatura à reeleição em 6 de outubro.

 

 

Na quarta (21) da semana passada, Michelle Bolsonaro e Wladimir Garotinho em Brasília (Foto: Instagram)

No mesmo dia 21, também no Instagram, Wladimir postou uma foto com a ex-primeira-dama da República Michelle Bolsonaro (PL). Por quem expressou admiração e acrescentou:

— Ser esposa de político não é tarefa fácil, muitas vezes são atacadas de maneira covarde e desrespeitosa para que seus maridos sejam prejudicados.

Na manhã do dia seguinte (22), novamente no Instagram, o prefeito postou uma foto sua com André Ceciliano (PT), ex-presidente da Alerj e secretário especial para Assuntos Federativos da secretaria de Relações Institucionais do governo Lula. E escreveu:

Na manhã de quinta (22) da semana passada, André Ceciliano e Wladimir Garotinho em Brasília

— Não poderia vir a Brasília e deixar de visitar o amigo André Ceciliano, que sempre nos recebe com muita presteza e abre as portas em vários ministérios. Na pauta de hoje as ações do PAC, a Prefeitura de Campos inscreveu diversos projetos e está na expectativa de ser contemplada.

No mesmo dia (22), o secretário de comunicação do PT de Campos, assessor parlamentar da Câmara de Deputados, pré-candidato a vereador e blogueiro do Folha 1, Gilberto Gomes, questionou em seu blog:

— Em 2023, o saldo de investimentos do governo Lula em Campos alcançou a marca histórica de pouco mais de R$ 1,3 bilhão. E pouco ou nenhum destaque foi feito pelo governo Wladimir no crédito ao Governo Federal. A apropriação de programas federais pelo governo municipal tem sido tática frequente de um prefeito intimamente ligado ao bolsonarismo, mas que se beneficia com emendas, maquinários, obras e tantos outros investimentos garantidos com a retomada dos investimentos públicos nos municípios pelo governo Lula.

Em comentário ao link do Blog do Gilberto no Instagram, Wladimir respondeu ao petista:

— Eu estou prefeito e tenho obrigação de dialogar com todos pelo bem da cidade, assim faço e assim sempre farei. Quanto ao investimento do governo federal na cidade, foram praticamente repasses obrigatórios por lei e não investimentos propriamente. Mas caso eles venham, e estou trabalhando muito para isso, darei o crédito e o mérito sempre, pois é assim que se deve agir.

Ouvido pelo blog Opiniões, o cientista político George Coutinho se manifestou pela primeira vez sobre a questão na sexta passada (23). E deu razão ao prefeito:

— Nessa discussão, o Wladimir mais uma vez soube sair da armadilha. E, sim, ele tem razão. Ele é prefeito de uma cidade média. Precisa manter um diálogo plural e adotar o pragmatismo. A grande polarização nacional talvez não seduza o eleitor comum campista, mais preocupado com seu cotidiano. O PT local tem o dever, sim, de buscar projeção na discussão pública local. Pretendem concorrer com Wladimir e estão em disputa pela atenção do eleitor. Ok. A questão é a eficiência do argumento em tela para além da militância.

Outro que se posicionou sobre o episódio foi o jornalista, servidor federal e também blogueiro do Folha1, Edmundo Siqueira. Na última quinta (29), ele disse ao blog Opiniões:

— Wladimir erra no método, mas acerta na finalidade. Um prefeito precisa deixar as portas abertas no Congresso e no Governo Federal. E atrair emendas parlamentares tem se mostrado uma das estratégias de Wladimir para administrar a cidade e tentar se reeleger. Em Brasília, conversou com bolsonaristas e se encontrou com um ministro de Lula. Em um Brasil de agressividade política, ser um político aberto ao diálogo é um ponto positivo. Mas quando decidiu dar ênfase ao encontro com Michelle e, em tom elogioso, fazer crer que ela e o ex-presidente Bolsonaro estão sendo injustiçados, coloca o governo passado em um lugar de normalidade. O comprovado ímpeto golpista de Bolsonaro e de boa parte de seu governo não pode nunca ser colocado em lugar de normalidade. Erra, portanto, no método, Wladimir.

Após George questionar os questionamentos de Gilberto, este voltou a falar ao Opiniões. O jovem petista respondeu ao cientista político:

— A minha crítica não é por Wladimir falar com um lado e o outro. A minha crítica é à forma com que o prefeito se utiliza de recursos federais que chegam na cidade e não são publicizados como recursos federais. Dei o exemplo do Mais Médicos, que é muito claro. Quando a unidade de saúde da comunidade passa a ter médico novo, ele (Wladimir) coloca como médico do município, não do Mais Médicos. A minha crítica é em como o prefeito usa esses recursos federais para manter aprovação popular alta, enquanto se anuncia como o candidato do bolsonarismo. A minha crítica é alertar os eleitores do Lula, que foram mais de 100 mil na cidade: se você votou no Lula para combater o bolsonarismo, não adianta votar em Wladimir.

Ontem, à tréplica de Gilberto, George ponderou:

— Política pública não é uma discussão de vontades ou de favores pessoais. Partir desse princípio é entrar numa discussão de baixa qualidade. O ponto que vale a pena discutir é a pertinência ou não da relação de Wladimir com os Bolsonaro. Mas que compreendo pelo pragmatismo. Diferente de Clarissa (Garotinho, União), que chegou até a votar (como deputada federal) a favor do delírio do voto impresso, Wladimir não me parece alguém que flerta com uma saída autocrática ao país. Dada a votação de Bolsonaro em Campos (63,14% dos votos válidos no segundo turno presidencial de 2022), o prefeito está fazendo um cálculo eleitoral. O que eu concordo com o Gilberto e o Edmundo é sobre a pertinência disso neste momento, dados os desafios para a democracia brasileira.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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