Edmundo Siqueira — Só o primeiro passo do Asilo do Carmo

 

(Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

Edmundo Siqueira, jornalista, servidor federal e blogueiro do Folha1

Asilo do Carmo — Apenas o primeiro passo

Por Edmundo Siqueira

 

Típica construção solarenga do período de maior prosperidade campista, relacionada à cana-de-açúcar, o Solar Santo Antônio — hoje conhecido como Asilo do Carmo — é um dos objetos do novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal. O programa promete aportar recursos em ações ligadas à educação, esporte, saúde e cultura.

Para o Asilo do Carmo está previsto algo na ordem de R$ 32 milhões. O trâmite, que não será rápido, se iniciou com o envio pela prefeitura de um projeto que envolvia o Solar e seu entorno, o que foi aprovado pelo PAC. A partir dessa aprovação, a prefeitura, em convênio com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), receberá os recursos repassados para cada etapa do projeto.

A primeira e fundamental etapa após a aprovação pelo PAC é fazer cumprir o edital que possibilitará a contratação do projeto que definirá como será feito o restauro e qual será o uso do Solar Santo Antônio e seu entorno.

Não restam dúvidas que o Asilo do Carmo é um patrimônio histórico essencial para entendermos a história de Campos e da região. O tombamento federal feito pelo Iphan comprova essa importância. Porém, o prédio é utilizado por uma instituição que tem por finalidade dar proteção social a idosos. E isso deixa ainda mais sensível qualquer intervenção no solar.

Construído em 1846 por Joaquim Pinto Neto dos Reis, o Barão de Carapebus, o prédio abriga pessoas idosas desde os primeiros anos do século XX. O uso dos seus salões e fachada para festas da sociedade campista deram uma sobrevida ao Asilo do Carmo por um tempo, mas logo a deterioração do patrimônio foi mais forte. A prefeitura, ao longo dos anos, não dedicou a devida atenção, tanto ao prédio, quanto à função assistencialista e humanitária que o local exerce.

Na situação que o Asilo do Carmo se encontra hoje, ele não serve adequadamente e plenamente como patrimônio histórico-cultural, tampouco como instituição de proteção aos idosos. Assim como outras tantas construções de valor arquitetônico e cultural de Campos, carece de manutenção, zelo, pertencimento e conhecimento do poder público e da população campista.

 

Recursos, mas e o uso?

Os recursos que estão prometidos pelo PAC são motivo de comemoração. É uma grande vitória em meio a tanta batalha perdida no patrimônio campista. Mas pela importância do bem e pelos assuntos sensíveis que permeiam o Asilo do Carmo, a definição do que vai ser desse patrimônio é tão fundamental quanto o dinheiro.

Outras intervenções já foram feitas em patrimônios importantes de Campos. O Solar dos Airizes já teve seu telhado reformado, o Olavo Cardoso recebeu intervenções pontuais e o Solar do Colégio, que hoje abriga o Arquivo Público, foi restaurado pela Uenf antes de um novo abandono, e de uma mudança de rumo que possibilitou o uso arquivístico. E, com exceção do Arquivo, esses patrimônios correm sério risco.

Um patrimônio histórico e cultural só se mantém, e se justifica como tal, se dois fatores andarem juntos: pertencimento e uso. Como qualquer construção antiga, uma reforma ou um restauro são sobrevidas, respiros. Mas não se sustentam quando abandonados novamente.

Não se trata de um olhar pessimista sobre o PAC, ou mesmo da iniciativa louvável do governo municipal atual em propor projetos nessa área. São iniciativas dignas de aplausos. Mas é preciso que a definição do uso, para além da necessária questão assistencialista, seja o mais aberta e participativa possível, para que os recursos aplicados deixem legados que se sustentem.

O Asilo do Carmo é um exemplo gritante de descaso, e de como Campos vem tratando seus patrimônios. O PAC é um alento, mas apenas restaurar não é uma solução definitiva, ou pelo menos sustentável. É preciso dar uso, e um uso que se sustente no tempo e dê aos campistas e ao turista, que precisa ser construído na cidade, algo para se orgulhar e frequentar.

Apresentar Campos aos campistas sempre foi essencial, mas nos últimos anos se mostra emergencial, sob pena de perdermos o que restou do descaso do passado e do presente. Que o PAC acelere também o pertencimento.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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