Edmundo Siqueira — De Hamlet a Garotinho e Wladimir

 

Wladimir, Garotinho, o crânio de Yorick e o Hamlet de Mel Gibson (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Edmundo Siqueira, jornalista, servidor federal e blogueiro do Folha1

Os conselhos não ouvidos nos ecos da planície

Por Edmundo Siqueira

 

Talvez não seja Campos uma tragédia, mas as famílias que comandam a política local, há algumas décadas, vem protagonizando episódios dignos das violentas brigas entre Capuleto e Montecchio, retratadas em Romeu e Julieta, de William Shakespeare.

A briga mais recente no âmago de uma dessas famílias, entre pai e filho, trouxe contornos de outra obra imortal de Shakespeare: Hamlet. Garotinho queixou-se sobre o fato de seu filho, Wladimir, o ter “excluído mais uma vez da participação política na cidade”.

O filho supostamente teria cooptado um partido político para sua base in absentia (na ausência) do pai. Garotinho — como muitos personagens das tragédias — revida com ressentimento, e cita o Livro dos Provérbios (16:18): “a soberba precede a ruína”.

Ora, estaria o filho desonrando o pai por não o ter convidado para uma negociação política da cidade? Estaria o pai, apenas alertando o filho do perigo de um dos sete pecados capitais?

Em Hamlet, o pai Polônio encontra o filho Laertes na casa de Ofélia, também sua filha, e oferece sua benção, mas o adverte sobre sua demora em seguir sua viagem, no navio que o esperava. Antes de ir, Polônio oferece oito conselhos ao filho Laertes.

Os dois primeiros conselhos seriam essenciais ao pai, na tragédia campista:

 

  1. Não dá voz ao que pensares, nem transforma em ação um pensamento tolo.
  2. Sejas amistoso, sim, jamais vulgar.

 

Já o terceiro e o quarto, o filho deveria ouvir, mesmo que o pai não pudesse jamais orientá-lo nesses quesitos:

 

  1. Os amigos que tenhas, já postos à prova, prende-os na tua alma com grampos de aço;
  2. Procura não entrar em nenhuma briga; Mas, entrando, encurrala o medo no inimigo.

 

Por fim, Polônio adverte Laertes do seguinte:

 

“Presta ouvido a muitos, tua voz a poucos; E, sobretudo, isto: seja fiel a ti mesmo.

Jamais serás falso para ninguém”.

 

Conselhos valiosos para se evitar muitas tragédias.

 

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Este post tem um comentário

  1. Flavio Mussa Tavares

    Diálogos pescados de obras clássicas de um dos maiores escritores de todos os tempos!
    Só intelectual mesmo!!!

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