Ronaldo Junior e os 70 anos do modernismo na poesia goitacá

 

Revista “Horizonte 22” marcou o lançamento do modernismo na poesia de Campos, há 70 anos (Foto: Reprodução)

 

Ronaldo Junior, poeta e presidente da Academia Campista de Letras (ACL) 

70 ANOS DO MODERNISMO CAMPISTA

Por Ronaldo Junior

 

Nesta quarta-feira, 27 de março, comemoramos um marco histórico da nossa literatura: 70 anos do Clube de Poesia de Campos, instituição fundada em março de 1954 por um “pequeno grupo de pessoas”, como diz Genaro de Vasconcelos, secretário do Clube, ao apresentar o primeiro número da Revista Horizonte 22, publicada no final daquele ano.

Esse pequeno grupo tinha como membros Mário Newton Filho (Presidente), Lourdes Borges Judice (Vice-presidente), Genaro de Vasconcelos (Secretário Geral), Marly Santos de Oliveira, A. Barcellos Sobral, Joadelívio de Paula Codeço, Vilmar Ferreira Rangel, Adolfo Schweitzer, Bruno Gargiulo e Oswaldo Peixoto Martins.

Ao fundar o Clube com o intuito de debater, produzir e divulgar a poesia moderna, os poetas acabaram por criar um movimento num município marcado pela tradição literária, pelo verso métrico, pelas formas fixas e por um passadismo literário que, naquela altura, estava coberto por poeira.

Passados mais de 30 anos do principal marco do Modernismo no Brasil — a Semana de 1922 —, Campos ainda professava ideais poéticos que remetiam ao século XIX, os quais possuem valor cultural e beleza, mas certamente estavam descolados de seu tempo.

Como se pode ver no “Programa”, texto de Mário Newton Filho sobre o Clube de Poesia de Campos, já não cabia mais uma poesia automática “no intervalo de duas guerras”. Era preciso que a literatura refletisse o espírito da época, com debates sociais engajados e críticos.

Apesar de tardio, esse movimento repercute até os dias de hoje. Vilmar Rangel, membro fundador do Clube de Poesia de Campos, nos prova isso com sua poesia repleta de beleza, mas incapaz de deixar de lado o mundo real.

Os poetas campistas contemporâneos, sucessores do grupo de 1954, devem muito aos poetas que reviraram a nossa literatura e questionaram hábitos, pensamentos e criações.

O ápice do Clube de Poesia de Campos, sem dúvidas, foi a Revista Horizonte 22, que teve seis edições entre os anos de 1954 e 1956. A primeira publicação é datada de novembro de 1954 e, como você pode imaginar, pode ser encontrada na biblioteca do Doutor Welligton Paes.

Há cerca de cinco anos, quando a revista estava em exposição no Museu Histórico de Campos, tive a oportunidade de fotografar as páginas dos seis exemplares e organizar em arquivos digitais para que mais pessoas tivessem acesso. O código QR para acessar essas publicações pode ser encontrado no final deste texto.

Ao passar as páginas da revista, antes mesmo de ler os textos, você poderá observar que a diagramação e as artes do Diretor Artístico Oswaldo Peixoto Martins já demonstram a proposta editorial da revista. A assimetria com que os textos foram organizados e as ilustrações marcadas por curvas e traços que não buscam qualquer perfeição formal são uma expressão visual da literatura produzida por aquele grupo.

Naquela ocasião, em novembro de 1954, a revista Horizonte 22 — nomeada, como se pode ver, em referência ao grupo Modernista de 1922 — causou um barulho tão significativo que gerou uma publicação em resposta: a revista Paralelo 38, publicada em edição única no mesmo mês de novembro de 1954, com proposta de contrapor o grupo Modernista e marcar posição quanto à tradição poética do município.

Tal qual ocorreu nacionalmente, o Modernismo Campista encontrou resistência entre os nossos poetas. Isso fica demonstrado na publicação da Paralelo 38, mas também na tradição — ainda hoje lembrada — dos Salões Campistas de Trovas, por exemplo. Atualmente, como é próprio da literatura contemporânea, os diferentes estilos dialogam entre si, existindo espaço para a tradição e para a vanguarda, expressões da nossa cultura e da criação literária local.

Fato é que a poesia moderna em Campos tem sua história contada a partir do Clube de Poesia de Campos, grupo que primeiro idealizou uma publicação declaradamente modernista no município e abriu caminho para outros grandes movimentos da segunda metade do século XX na nossa literatura, os quais reverberam e influenciam escritores e escritoras ainda hoje.

Este ensaio, que compila relatos e informações extraídas da revista Horizonte 22, é uma homenagem ao grupo de poetas que deixou uma mensagem ainda hoje atual: “o mundo moderno necessita de poesia”.

Abaixo, na íntegra, você pode ler o texto de apresentação do Clube de Poesia de Campos escrito por seu presidente, Mário Newton Filho, no primeiro número da Revista Horizonte 22:

 

 

 

PROGRAMA

Não somos apenas sonhadores, mas, também, práticos e objetivos. O mundo moderno necessita de poesia. Não se sabe até que ponto irá a insânia dos que querem brutalizar o ambiente, através do furor guerreiro e da valorização da estupidez. O homem atual se perde entre a lascívia, a cobiça e o pavor da bomba de hidrogênio. Tem-se a impressão de que são loucos furiosos os que governam o mundo.

 Poesia é realidade. Não a triste realidade dêsse primeiro plano de ódios e desavenças, mas outra, elevada e transcendente, e se situa nos altiplanos do espírito.

 Poesia é mistério, cujo véu se entreabre, e deixa ver, ao que por ela é tocado, uma nova região de beleza e harmonia, muito além da palavra escrita e do próprio pensamento comum.

 A poesia não tem fronteiras; possuem-nas as nossas inteligências limitadas. Os poetas modernos descobriram esta verdade.

 A poesia é una e indivisível: essência e palavra, inteligência e sensibilidade, na sua fórma apreensível. O modo de expressão é peculiar a cada época; o de hoje, convencionou-se chamá-lo de moderno, e não se póde desmerecer, nem repudiar, em sã consciência, sob pena de retroagirmos, aquilo que está integrado no espírito de nosso tempo.

 Sob o prisma dêsse conceito, fundou-se nesta cidade, o CLUBE DE POESIA DE CAMPOS, que se propõe a divulgar a bôa poesia e dedicar-se ao debate e á pesquisa de seus assuntos estéticos. Não é uma entidade onde se cultiva o jacobinismo artístico e literário; nem suas portas se acham fechadas aos valores da inteligência que queiram se integrar nesta ação sensibilizante e civilizadora.

 O mundo moderno necessita de poesia. Não se deve admitir que o homem, dia a dia, se transforme no autômato sem instantes de devaneio; no joguête de ódios e paixões desvairadas; na máquina pura e simples de comer, dormir e ganhar dinheiro, no intervalo de duas guerras.

 O CLUBE DE POESIA DE CAMPOS é apenas um pequeno reduto da resistência contra essa degradação da pessôa humana. Não possúi ação nem côr política; nem tem programas de salvação pública. Eis alguns de seus objetivos:

     1 – Divulgar a bôa poesia, antiga ou moderna;

     2 – debater, pesquisar e transmitir ao povo os problemas estéticos da poesia;

     3 – editar, nesta cidade, uma revista especializada no assunto, de alto teôr artístico e literário, tanto quanto possível;

     4 – realizar conferências locais de livre entrada, e um ou mais Congressos Fluminenses de Poesia;

     5 – manter intercâmbio com entidades congêneres ou pessoas interessadas na arte poética;

     6 – manter “Cursos de Poesia”, bibliotéca e arquivos sôbre Poesia;

     7 – editar, de uma só vez ou em séries, a “Antologia de Poetas Modernos de Campos”;

     8 – criar, por todos os meios, nesta cidade, um clima propício ao estudo do fenômeno poético, bem como á sua manifestação, através do incentivo aos valores novos.

 

Folha Letras da edição de hoje da Folha da Manhã

 

fb-share-icon0
Tweet 20
Pin Share20

Deixe um comentário