Bolsonaro flagrado por câmera dentro da sede da Polícia Federal de Brasília no domingo, onde está preso desde sábado, após tentar violar sua tornozeleira eletrônica com um ferro de solda (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Bolsonaro da preventiva ao início da pena
Preso preventivamente no início da manhã de sábado (22), após confessamente tentar violar sua tornozeleira eletrônica, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi transferido no mesmo dia da sua casa à Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Onde, desde ontem (25), passou a cumprir sua pena de 27 anos e 3 meses de prisão, por tentativa de golpe de Estado.
O questionável e o inquestionável
Há questionamentos legítimos (confira aqui, aqui, aqui e aqui) à condução do julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que condenou Bolsonaro (confira aqui) em 11 de setembro. Mas nenhum dos réus e advogados negaram no processo que a tentativa de golpe existiu. E a prisão preventiva de um condenado em prisão domiciliar, monitorado por tornozeleira eletrônica e que tenta violá-la, é inquestionável.
Histórico golpista do Brasil
Para além da parte jurídica, há questões históricas maiores. A primeira? Do golpe militar de Estado que fundou a República em 15 novembro de 1889 à Invasão da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro 2023, o Brasil teve sete golpes consumados e 16 tentativas. O que dá ao país, em 134 anos de República, a média de um golpe de Estado ou tentativa a cada 5,8 anos.
Inédito à República
Incluído Bolsonaro, capitão da reserva do Exército, 17 militares já foram condenados (confira aqui) na tentativa de golpe de Estado: um almirante da Marinha, três generais, três coronéis, seis tenentes-coronéis, dois majores e um subtenente do Exército. Na primeira vez que militares pagam por seus crimes contra a democracia no Brasil. É um didatismo inédito à República.
Generais Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira e o almirante Almir Garnier foram presos ontem
Três generais e almirante presos
Ontem, com a conclusão do processo no STF, também foram presos os generais Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira e o almirante Almir Garnier, respectivamente, ex-ministros do GSI, da Defesa e ex-comandante da Marinha. O general Braga Netto já estava preso desde 14 de dezembro. São as mais altas patentes presas por tentativa de golpe na História do Brasil.
Jair Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, Michel Temer e Fernando Collor de Mello, quatro presidentes do Brasil presos nos últimos 7 anos e meio (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Quatro ex-presidentes presos em 7 anos
Há uma segunda questão histórica que deveria pesar sobre as jurídicas e a torcida política pessoal. Nos últimos 7 anos e meio, desde que Lula (PT) foi preso em 7 de abril de 2018, após ter habeas corpus negado pelo STF, Bolsonaro foi o 4º ex-presidente encarcerado. O que dá uma média de um a cada 1 ano e 8 meses.
Além de Bolsonaro e Lula, Temer e Collor
Completam a lista os ex-presidentes Michel Temer (MDB), preso em 21 de março de 2019, pelo hoje compulsoriamente aposentado juiz federal de 1ª instância Marcelo Bretas, e solto 4 dias depois. E Fernando Collor (sem partido), preso em 25 de abril deste ano pelo STF e posto em prisão domiciliar em 1º de maio, na qual se encontra. E sinaliza o rumo futuro a Bolsonaro.
Quem elegeu os quatro presidentes presos?
Em qualquer democracia representativa da Terra em que quatro ex-presidentes sejam presos em 7 anos e meio, o problema demanda foco histórico. Está muito mais no conjunto da sociedade que os elegeu por voto popular (incluído o vice, que assumiu após impeachment com apoio das ruas) do que em indivíduos apeados do poder e seus eventuais “mal feitos”.
Pedagogia necessária, mas dia triste
Além dos remédios para tentar justificar um alegado surto contra a tornozeleira, o Brasil parece demandar tratamento político à base de lítio e de mudanças no estilo de vida. Sempre recomendáveis a transtorno bipolar. A despeito da necessária pedagogia antigolpista do “quem tem, tem medo”, a prisão de Bolsonaro no sábado foi um dia triste à República.
Reproduzida para abrir hoje a coluna, parte do texto acima foi publicada (confira aqui) segunda (24) no blog Opiniões. No dia seguinte (25), o Estadão trouxe a mesma linha de análise no artigo (confira aqui ou aqui) “A prisão de Bolsonaro é um sintoma de um problema muito maior”, do jornalista Rodrigo da Silva. Em que ele também coloca como nossa instabilidade política custa caro na economia.
Rodrigo da Silva, jornalista e articulista do Estadão
O custo econômico de derrubar governantes
“Quando os economistas medem quantas vezes um país troca abruptamente de governo, eles percebem que isso cobra um preço bem alto no crescimento. Se um país derruba governantes com frequência (Collor sofreu impeachment em 1992 e Dilma Rousseff, em 2016), cada troca está associada à queda de 2,4% de crescimento no PIB per capita”, revelou Rodrigo da Silva.
Bagunça política vira bagunça econômica
“Isso acontece, em parte, porque quando o país está preso a um clima de tensão, com greves, protestos e ameaças de golpe e impeachment, quem tem dinheiro fica com medo do futuro, e com isso adia os investimentos, cancela projetos e manda o dinheiro para fora do país. A bagunça política vira bagunça econômica”, seguiu o jornalista.
Prisão de Bolsonaro é só mais um capítulo
“No fim, é isso que a prisão de Bolsonaro escancara. O nome mais popular da direita brasileira está atrás das grades. E este é só mais um capítulo de uma longa história de instabilidade institucional que atravessa fronteiras, séculos e regimes. Uma história que parece longe de acabar”, concluiu o texto do Rodrigo da Silva no Estadão.
Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema
Frankenstein — Entre o belo e o grotesco
Por Felipe Fernandes
Considerada por muitos como a primeira ficção científica da história, “Frankenstein” foi escrito pela britânica Marry Shelley e publicado no ano de 1818, quando ela tinha apenas 19 anos. O livro se tornou um clássico da literatura mundial, sendo muito influente na literatura e na cultura ocidental, influência que cresceu com o advento do cinema, tendo sua versão mais famosa lançada em 1931, em um filme que consolidou de vez a figura da criatura no imaginário popular. E fez do livro uma das obras mais adaptadas para a sétima arte, além de constantemente referenciada em todo o tipo de situação. É o tipo de história que mesmo que você nunca tenha lido o livro ou assistido algumas das várias adaptações, você vai reconhecer algumas de suas referências.
Eu confesso que adoro o livro e sou aficionado pela história, talvez por isso, sempre eu lia ou via uma entrevista do cineasta mexicano Guillermo Del Toro falando de seus sonho de criança em levar às telas sua versão da obra, eu ficasse tão animado. Além da paixão pelo material original, as características do cinema de Del Toro, que começou no cinema de horror e sempre soube misturar muito bem horror com fantasia, me fizeram acreditar que um filme dirigido por ele, tinha potencial para ser uma das grandes versões do livro lançado a mais de 200 anos.
Escrito pelo próprio cineasta, o longa abre com uma estrutura similar ao material original, mas posteriormente se divide entre dois capítulos, um narrado pelo cientista Victor Frankenstein (Oscar Isaac) e outro pela criatura (Jacob Elordi). Me chamou a atenção como Del Toro reforça a ligação do protagonista ainda criança com seu pai. A ligação afetiva com a mãe é um dos pontos cruciais da obra e está diretamente ligada à obsessão do personagem de lutar contra a morte. Já seu relacionamento com o pai ganha espaço, o pai de Victor é retratado como uma figura rígida, controladora e emocionalmente abusiva, que força o filho a seguir seu caminho na profissão de médico, algo que vai ganhar consequências posteriores na história e na relação de Victor com sua criação.
A criação do monstro é retratada em uma parte considerável da história. Provavelmente na busca por uma espécie de realismo, um mal do cinema mainstream moderno, o filme busca explicar toda a situação. Victor deixa de ter um mentor científico e passa a ter um investidor, um personagem original interpretado por Christopher Waltz, que é um magnata armamentista que vê no experimento de Victor uma oportunidade e passa a financiá-lo. É da interação entre eles que surgem as explicações, buscando uma espécie de validação científica.
Nessa mistura de horror com fantasia, Del Toro deixa de lado o aspecto grotesco da obra e aposta em um visual mais estilizado, ainda que os elementos góticos estejam presentes, todo o processo da criação do monstro acontece em um cenário bonito, com objetos simbólicos, é tudo muito grandioso, com cores intensas, quebrando a sensação degradante do experimento. Estamos falando da construção de uma criatura que é formada pela mistura de diferentes corpos. É uma criatura que deveria ser toda retalhada, em um experimento que desafia as leis naturais, quesitos que ficam em segundo plano em função de uma beleza estética que me pareceu estranha, esvaziando emocionalmente um momento muito marcante da narrativa.
Essas características também estão presentes no visual da criatura. Como mencionei, o monstro é uma criatura assustadora, cuja mera imagem causa desconforto e repulsa a quem o encontra. Ao menos, deveria ser assim. A nova versão do monstro passa longe dessa descrição. O personagem interpretado por Elordi parece um boneco anatômico estilizado. Um personagem de visual muito pobre, vindo de um autor reconhecido por sua criatividade visual, é uma escolha que surpreende negativamente. É um monstro de corpo simétrico, expressivo, sem falar em outras mudanças, que deixam o personagens com características sobre-humanas, que também contribuem para o enfraquecimento dramático do personagem.
Um ponto positivo, é a relação de Victor com a criatura, algo bem explorado pelo filme, que resgata elementos da relação abusiva de Victor com o pai para mais que justificar, mas esclarecer a forma como o personagem lida com sua criação. Todos os cuidados que Victor precisa ter com o monstro, passando pelo processo de aprendizagem, são características de uma relação entre pai e filho e Victor nunca vê a criatura dessa forma. Ela é o resultado de um experimento que foi bem sucedido. Victor queria criar vida através da morte e ele consegue. O que fazer com essa vida depois, não é algo que fazia parte do plano.
Outra personagem que sofre muitas alterações e perde espaço é Elizabeth (Mia Goth). Aqui ela se torna o foco do amor impossível para criador e criatura, mas diferente de Victor, ela não tem interesse pela morte. Ela vê beleza na vida. Por isso seu encantamento com a criatura e com toda sua ingenuidade e pureza. É uma personagem com mais personalidade que no material original, porém, com menos relevância para a trama.
O filme tem um sério problema de ritmo. Se a construção da criatura e até mesmo sua parte de aprendizado na fazenda, que é o grande ponto fraco do livro e de todas as adaptações que eu vi, aqui não é diferente: após um determinado despertar da criatura, o filme fica corrido. Toda a parte final da história é apressada, o que torna difícil aceitar determinadas decisões narrativas.
Acredito que a decisão de tornar o monstro mais bonito e expressivo, tenha a ver com o fato de Del Toro buscar construir uma versão que busque sentimentos diferentes e eu, particularmente, respeito isso. Ele busca pela construção de uma criatura mais emocionalmente complexa, que busca mais que vingança por seu criador. O horror filosófico dá lugar a um drama existencial que está presente no cerne da história, mas aqui aponta para um lado sentimental que soa contraditório com muito do que acompanhamos até ali.
“Frankenstein” é uma grande tragédia em sua essência e se muito dela vem do sentimento de solidão perante ao mundo. Para Del Toro esse abandono está presente no abandono emocional. O desfecho aqui traz sensações conflitantes, sentimentos de reconciliação e aceitação, de um monstro que insiste em escolher a vida, mesmo após conhecer o pior lado da humanidade. É um final emotivo, de esperança, quase um novo renascimento.
O caminho escolhido por Del Toro é o de um cineasta que escolheu olhar uma história sombria sobre um prisma mais leve. Essa humanização de monstros é recorrente no cinema do diretor, que aqui foi mais fiel às suas convicções que a obra original, uma decisão coerente e admirável, que para o bem ou para o mal, traz um diferencial para a adaptação.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
Confira o trailer do filme, disponível na Netflix:
Bolsonaro em prisão domiciliar com a famosa tornozeleira eletrônica (Foto: Reprodução)
Há questionamentos legítimos à condução do julgamento (confira aqui, aqui, aqui e aqui) do Supremo Tribunal Federal (STF) que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 11 de setembro (confira aqui) por tentativa de golpe de Estado. Mas a prisão preventiva de um condenado, em prisão domiciliar, monitorado por tornozeleira eletrônica e que confessamente tenta violar este equipamento, é juridicamente inquestionável.
Para além da parte jurídica, há questões históricas maiores. A primeira? Do golpe militar de Estado que fundou a República em 15 novembro de 1889 à Invasão da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro 2023, o Brasil teve sete golpes consumados e 16 tentativas. O que dá ao país, em 134 anos de República, a média de um golpe de Estado ou tentativa a cada 5,8 anos.
Incluído Bolsonaro, capitão da reserva do Exército, 17 militares já foram condenados (confira aqui) na tentativa de golpe de Estado: um almirante da Marinha, três generais, três coronéis, seis tenentes-coronéis, dois majores e um subtenente do Exército. Na primeira vez que militares pagam por seus crimes contra a democracia no Brasil. É um didatismo inédito à República.
Mas há uma segunda questão histórica que deveria pesar sobre as jurídicas e a torcida política pessoal. Nos últimos 7 anos e meio, desde que Lula (PT) foi preso em 7 de abril de 2018, após ter habeas corpus negado pelo STF, Bolsonaro foi o 4º ex-presidente encarcerado. O que dá uma média de um a cada 1 ano e 8 meses.
Completam a lista os ex-presidentes Michel Temer (MDB), preso em 21 de março de 2019, pelo hoje compulsoriamente aposentado juiz federal de 1ª instância Marcelo Bretas, e solto 4 dias depois. E Fernando Collor (sem partido), preso em 25 de abril deste ano pelo STF e posto em prisão domiciliar em 1º de maio, na qual se encontra. E sinaliza o rumo futuro a Bolsonaro.
Em qualquer democracia representativa da Terra em que quatro ex-presidentes sejam presos em 7 anos e meio, o problema demanda foco histórico. Está muito mais no conjunto da sociedade que os elegeu por voto popular (incluído o vice, que assumiu após impeachment com apoio das ruas) do que em indivíduos apeados do poder e seus eventuais “mal feitos”.
Além dos remédios para tentar justificar um alegado surto contra a tornozeleira, o Brasil parece demandar tratamento político à base de lítio e de mudanças no estilo de vida. Sempre recomendáveis a transtorno bipolar. A despeito da necessária pedagogia antigolpista do “quem tem, tem medo”, a prisão de Bolsonaro no sábado (22) foi (confira aqui) um dia triste à República.
Lucas Rodrigues Barbosa, crítico de cinema e graduando em Letras no IFF
The Secret Agent
Por Lucas Rodrigues Barbosa
Acabou que “O Agente Secreto” se tornou meu filme favorito do Kleber Mendonça Filho (KMF). Fica evidente como suas influências vastas em diversos tipos de cinema se misturam em uma coisa muito original, e que ainda consegue brincar com noções de cinema de gênero (como ele já havia feito em “Bacurau”) de uma forma bem diferente do convencional. Ao mesmo tempo em que remete a muitas coisas, nunca soa derivativo, mas sim como homenagens ao cinema, incluindo enquanto espaço físico, mas principalmente enquanto memória.
A memória é o principal foco de interesse do KMF. A memória é fundamental, mas ao mesmo tempo anticlimática e sem glamour se dentro da realidade. Por isso, o final do filme, que pode gerar sentimentos conflitantes, faz total sentido com a proposta narrativa, temática e formal do longa.
Não se trata de uma tentativa de heroificar uma figura, mas de levantar uma preocupação sobre a manutenção dessa memória. Ele faz isso brincando com a estruturação que nos lembra que estamos assistindo a um filme. Essa constante quebra, que só funciona pela ambientação criada, funciona como um jogo com nossas sensações e sentimentos, tanto em relação a memória quanto em relação a filmes.
Diferente de “Ainda estou aqui”, cujo problema principal era justamente essa quebra temporal que me retirou da imersão ao fim da narrativa, em “O Agente Secreto” essa quebra é proposital. Cria esse questionamento de como lidamos com nosso investimento emocional em filmes e em memórias, mas, principalmente, na junção de ambas as coisas, ou seja, em narrativas.
Toda a trama da perna, ou o constante retorno para os jornais e na investigação as garotas do tempo presente, acabam por fazer essa junção da realidade com a verdade fílmica. Trabalha ativamente para construção de uma narrativa palpável, mas que mesmo assim gera estranhamentos, ou melhor, desconfortos propositais.
Esses desconfortos operam nas arestas, onde a realidade fílmica se constrói, como, por exemplo, no jogo de câmera/olhares que constrói toda a tensão da cena inicial. A tensão se faz no não-dito. Sendo assim, essas sensações, mesmo que fictícias, são reais no espectador.
Acaba por ser um jogo muito bem construído de representação gerada pela memória física (as fitas de áudio) com a memória inventada, mítica, que não temos acesso. Assim, a quebra final tira todo glamour que poderia ser dado ao protagonista, produzindo a sensação de frustração que tem ecos na realidade.
Outro ponto que remete a uma preocupação com o real está no retrato da ditadura militar. Forças estatais reprimindo e caçando pessoas, mas sem ignorar que essas forças estatais agiam em serviço dos interesses privados. Interesses privados que agiam contra a pesquisa em universidades públicas, contra a produção de conhecimento fora do eixo Rio de Janeiro/São Paulo.
A trama da perna sintetiza tudo dito ao longo do texto. Uma perna, que muito provavelmente era de uma vítima da ditadura, encontrada dentro de um tubarão. O não-dito é ficcionalizado, mitificado em histórias sobre uma perna assassina, mas, retirado o glamour, é só uma perna, cuja presença e significação geram inquietação que se traduz no folclore, na tensão do ar. Mas, no fim, é só uma perna sem corpo. Uma perna sem memória.
Lula, Davi Alcolumbre e Jorge Messias (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Edmundo Siqueira, servidor federal, jornalista e blogueiro do Folha1
Um amigo no Supremo? A indicação de Jorge Messias
Por Edmundo Siqueira
O gesto presidencial de escolher um nome para o Supremo Tribunal Federal (STF) é sempre, por definição, uma operação de poder, mesmo que tenha verniz de solenidade. Quando Lula anunciou Jorge Messias — o atual Advogado-Geral da União — para a vaga deixada por Luís Roberto Barroso, a avaliação primeira não foge à questão técnica, mas é carregada de simbolismo, cálculo e, claro, controvérsia. O problema é que não se indica um ministro do Supremo como quem escolhe um secretário de gabinete — pelo menos não se deveria fazê-lo.
A indicação de alguém para o STF deve levar em conta que essa pessoa atuará na guarda da Constituição, sendo alguém com poder suficiente, e pela força do cargo, para transformar política em Direito, e vice-versa. Em um Supremo que teima em legislar — por motivos justos e por vezes também conveniência política —, e que acumulou poder real e simbólico na última década no Brasil, passa a ser um questionamento válido: por que Messias? E por que agora?
Messias tem currículo que o sustenta na indicação. Tem formação em Direito pela UFPE, e doutorado pela UnB. E algo que poucos possuem no órgão máximo do Judiciário brasileiro, que é conhecimento amplo da máquina pública. Ocupou diversos cargos, em governos distintos, com aparente bom trânsito institucional. Todavia, isso não afasta as sombras de desconfiança de sua indicação.
Messias é figura conhecida do núcleo petista — “Bessias”, na anedota que o popularizou nos tempos turbulentos da Lava Jato — e hoje ocupa o cargo de AGU, braço jurídico direto do Executivo. A nomeação de alguém tão próximo do presidente ao Supremo suscita a mesma suspeita que teria um escritor quando nomeasse o próprio editor para julgar sua obra: possibilidade de conflito, risco de confundir defesa do governo com guardião da Constituição.
Há outro aspecto, esse de cunho político-religioso: o aceno evangélico. Messias é declaradamente fiel da religião protestante e transita bem entre setores evangélicos do Congresso — um sinal que Lula obviamente lê como ponte política num país em que a população evangélica tem força eleitoral crescente. Porém, mesmo justificando-se politicamente em alguma medida, não é, em nenhuma democracia liberal que se preze, motivo de indicação à Suprema Corte. E o Brasil é uma democracia liberal, até que se prove o contrário, e um país laico.
Transformar a cadeira do Supremo numa bandeira de conciliação religiosa pode até ser estratégia; só que o Supremo, quando tudo funciona como deveria, é o espaço em que crenças pessoais devem perder o tom diante da função pública laica. Indicar um ministro com apelo confessional para “agradar” bancadas é um atalho perigoso. Confere representatividade — talvez —, mas também abre caminho para leituras de instrumentalização.
Se não bastasse, há ainda o atrito com o Senado. Tudo aponta para um choque, se não institucional diretamente, de bastidor. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre, tinha outro indicado, o ex-presidente da Casa, Rodrigo Pacheco. A indicação de Messias passa pelo Senado, como manda a Constituição, que deverá calibrar se avaliza uma escolha de governo ou se reafirma seu papel de freio e contrapeso. Caso opte pela segunda opção, será a sexta vez em 131 anos.
Não se pode, contudo, reduzir a crítica à suspeita de amizade ou à intolerância religiosa. A indicação exige análise técnica. Messias tem produção acadêmica reconhecida: sua tese sobre centro de governo e atuação da AGU está disponível em repositórios da UnB. E revela um operador do Direito que pensa o Estado como máquina complexa. Não é um marinheiro de primeira viagem.
Em tese, isso o habilita. A dúvida é outra: a experiência de um advogado-geral pautado pela defesa dos interesses do Executivo confere independência suficiente para julgar, sem ressentimentos ou deferências, processos que atinjam a administração federal? A resposta não é meramente retórica; ela vive na tensão entre a formação do magistrado e a sua lealdade instituída.
Há também um problema institucional mais profundo, que exige comparação: em países consolidados, o sistema de escolha dos juízes de cúpula segue modelos diversos, cada qual com suas vantagens e fragilidades. No Brasil, a regra é constitucionalmente simples: o presidente escolhe; o Senado sabatina e aprova por maioria. Em muitas democracias, porém, há filtros e comissões independentes que reduzem o arbítrio político. De comissões de seleção técnicas, como na Noruega e Dinamarca, a modelos de nomeação colegiada em outra parte da Europa.
Lula podia indicar um técnico de maior produção como jurista, um negro, uma mulher ou outro perfil que atendesse ao seu campo político mais à esquerda. Ou mesmo um jurista sem arestas políticas e com perfil de independência clara. Mas, preferiu Messias. É legítimo e legal? Sim. Prudente? Isso já é outra conversa.
Não se trata de patrulha sem razão. Se Messias for aprovado, caberá a ele demonstrar que a lealdade à Constituição se sobrepõe a quaisquer laços, que a fé pessoal não se transforma em doutrina pública e que a amizade com o chefe do Executivo não se materialize em suas sentenças. A ver.
Deputado Vitor Junior e vereador Juninho Virgílio na disputa eleitoral antecipada pelos votos de Campos (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Vitor Junior bate no SIM
Deputado estadual campista, mas que fez sua carreira política em Niterói, Vitor Junior (PDT) é pré-candidato a deputado federal. E tem buscado reforçar seus laços com Campos e Norte Fluminense. Nessa retomada, ele bateu de frente com o governo Wladimir Garotinho (PP) e a lei municipal do Serviço de Inspeção Municipal (SIM) aos produtores rurais.
No Ministério Público
“Entramos com uma representação no Ministério Público em relação à mensagem do SIM, aprovada na Câmara de Campos, sem dar oportunidade ao pequeno e médio produtor rural de debater o conteúdo da lei, apenas modificando um Código Tributário da Cidade, criando taxas, multas e penalidades ao produtor rural” disse Vitor Junior em suas redes sociais.
Juninho defende o SIM
O deputado respondeu a um vídeo do vereador Juninho Virgílio (Podemos). Em que o líder governista do Legislativo goitacá defendeu o projeto: “Não cria taxa nenhuma, até porque essa taxa já existia há anos. O que fizemos na Câmara foi atualizar e dar condições para o produtor crescer, com regras claras, transparência e possibilidade de ter o Selo de Inspeção Municipal.”
Vitor x Garotinhos a federal
Juninho é primo e maior aliado do presidente da Companhia de Desenvolvimento de Campos (Codemca), Thiago Virgílio (Podemos), pré-candidato a deputado estadual. A federal, ambos devem apoiar Wladimir, Tassiana (PL) ou o próprio ex-governador Anthony Garotinho (REP), caso algum deles se candidate ao cargo. Esse é o espaço disputado por Vitor Junior.
Disputa eleitoral antecipada
A disputa de narrativas pelo SIM é a disputa eleitoral de 2026 antecipada em Campos. Na qual Vitor já tem o apoio do ex-candidato a prefeito Bruno Calil e dos ex-candidatos a vereador Igor Abreu, Pastor Isaías, Hugo Pereira e Alonso Barbosa. Como está em tratativas pelo apoio dos edis Bruno Pezão (PP), Dandinho de Rio Preto (União), Rogério Matoso (SD) e Abdu Neme (PL).