Opiniões

Fabio Bottrel — Vou Caminhando

O Grito, pintura de Edvard Munch
O Grito, pintura de Edvard Munch

 

 

Querido leitor, peço que volte ao tempo comigo, poucos dias, prometo trazê-lo logo com um novo sabor para o mesmo café que tomarás.

Caminhando próximo ao IFF, soube, ao meu lado abriram uma ferida numa menina, tão grande que pele nenhuma cicatrizaria. 1 Minha respiração pediu tempo ao corpo e minha alma refúgio. À noite um jovem de 18 anos será morto a tiros enquanto conversa com um amigo sentado na calçada de Travessão. 2 Há poucas horas, a primeira das sete balas perfurava a cabeça de um adolescente de 14 anos. 3 Amanhã os jornais noticiarão, morrerá um homem no Parque Prazeres 4 enquanto outro jovem é baleado em Guarus 5, mas dessa vez não será você, caro leitor, nem eu.

Depois de amanhã morrerá o jovem, vítima do amanhã, no Hospital Ferreira Machado. 6 Não resistiu às dores desse mundo, levou as lágrimas da família, a esperança no futuro, deixou as tristezas dessa terra manchada de sangue. Mas dessa vez não foi você, leitor, nem eu.

Chegamos ao dia presente, agora, já não posso dizer, se amanhã será eu ou você. 7 Para alguns o futuro está nas mãos de Deus, que protege os homens bons daqueles que não tiveram as mesmas oportunidades, daqueles que o primeiro giz de professor foi a pólvora.

‘Abandonado aos pensamentos nascidos das aparições noturnas, quando o sono profundo cai sobre os homens, o medo apoderou-se de mim e também o tremor, que sacudiu os meus ossos… houve um silêncio e ouvi uma voz: — Será o homem mortal mais justo do que Deus?’ 8

Para outros o futuro está sendo vendido num navio sem rumo. Escravos do tempo, quem me comprou e não pagou pra ser o curativo da pele que o tempo estragou? Na veia fraca cortada pela ignorância, o sangue, a bomba, bomba, bomba, bomba, bomba…

Eu aqui, catando poesia no chão, rasgando a garganta, gritando forte antes que o coração perdoe os surdos para quem recitei, os cegos para quem apresentei num eterno pretérito prefeito, vou caminhando… até quando?

Diluídas nessas palavras estão as minhas lágrimas, precisamos lutar, leitor, precisamos mudar…

 

1 http://diarionf.com/noticia-2199/estudante-de-17-anos-violentada-a-caminho-do-iff-campus-centro

http://novosite.ururau.com.br/cidades/61729e252acd8ef7375ff4e0e5e7f62482fb8ddf_violencia__mais_um_jovem_morto_no_distrito_de_travessao

3 http://www.nfnoticias.com.br/noticia-163/menor-de-14-anos-morto-com-7-tiros-na-cabeca

4 http://www.jornalterceiravia.com.br/noticias/campos-dos-goytacazes/82936/violencia-homem-eassassinado-a-tiros-no-parque-prazeres

http://novosite.ururau.com.br/cidades/665a01d5471d4c34236961be8011a82111fecf43_jovem_vitima_de_tentativa_de_homicidio_em_custodopolis

6 http://campos24horas.com.br/portal/morrem-no-hfm-homem-e-jovem-que-foram-baleados-parqueprazeres-e-custodopolis/

7 Entenda, minha escrita é de arte e não de gramática, encontrará formas sem fórmulas.

8 Jó, IV, 13-17.

 

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Este post tem 3 comentários

  1. Prezadíssimo Amigo, colega de turma Fábio, de longe, caminho te seguindo pela NET e pelos seus escritos, maravilhosos e oportunos. Amigo, se não lutarmos para mudar tudo ficará como está e estaremos jorrando lágrimas por mais algumas perdas….ESTOU NA LUTA!

  2. Obrigado pelo texto!

  3. Caminhando fazemos o caminho e confesso tem sido duro caminhar nesses tempos coléricos, Fabio Bottrel, tempos nebulosos… Tempos onde o caminhar se torna um descortinar do perigo, onde viveremos nos desviando das balas perdidas, das facas nos dentes de quem tem um ódio atávico pela gente, Fabio, Aluysio Abreu Barbosa, aqui, ao acessar esse blog Opiniões, onde eu tenho a oportunidade de experimentar, ouvir, formar juízos de valores, valorizar o contraditório, ouvir e escutar, opiniões… E quero dizer que o texto do Fabio é um daqueles textos, que confesso publicamente, que eu gostaria de ter escrito e fiquei com uma baita de uma inveja em não tê-lo escrito. Adorei.

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