Campos folia
- Autor do post:Aluysio Abreu Barbosa
- Post publicado:27 de abril de 2012 - 11:00
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(“XINGU”) Os brancos europeus dominaram a África, mas hoje o continente pertence, em sua esmagadora maioria, aos negros africanos. Os brancos europeus dominaram a Ásia, mas hoje ela não só pertence aos asiáticos, como seus gigantes China e Índia, há algum tempo, têm invertido a mão na dominação econômica do resto do mundo.
Os brancos europeus dominaram também as Américas. E, hoje, para saber a quem elas pertencem, basta que você, leitor, assim como um seu igual nos EUA, ou na Argentina, ou em Cuba, se olhe no espelho antes de responder: onde estão os índios que ocupavam exatamente o seu lugar, antes de Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio darem as caras por aqui, nos sécs. XV e XVI?
Desde lá, o genocídio sistemático dos índios, pelo aço, pela pólvora, pela peste e pelo aculturamento, sempre a serviço de interesses econômicos, só começou a ser estancado e parcialmente revertido no século passado. No Brasil, desde o final do séc. 19, quando o militar Cândido Rondon, de ascendência indígena, deu início às suas pioneiras missões no Centro-Oeste e depois no Norte do país, que visavam pacificar os índios e integrá-los ao nosso modelo de civilização, trabalho que seria depois complementado pelos irmãos sertanistas Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas.
O filme dirigido por Cao Hamburguer começa com os dois irmãos mais novos, Cláudio (João Miguel, bem como sempre) e Leonardo (Caio Blat, na média), em 1943. Após largarem os empregos em São Paulo, eles buscam se misturar aos peões, via de regra analfabetos, que atenderam em massa ao recrutamento do governo federal de Getúlio Vargas para a expedição Roncador-Xingu, no Brasil Central. Integrados a ela, contatam o irmão mais velho, Orlando (Felipe Camargo, surpreendentemente convincente), que se junta a eles na busca por “terras onde nenhum homem branco pisou antes”.
E aqui o parêntese merece ser aberto à constatação de que, inicialmente, os Villas-Bôas buscavam aventura, não a defesa da causa indígena, e apenas integravam a missão, dissociados de qualquer protagonismo. O ponto de virada para os três irmãos se dá a partir do contato com os índios, como resume Orlando: “Para mim eles não eram selvagens. Eu, simplesmente estava diante de outra civilização. O encontro mudou as nossas vidas para sempre”.
A liderança se constrói de maneira natural, quando os irmãos impõem à missão o lema de Rondon, não creditado no filme: “estar disposto a morrer, mas não a matar”. Mas se, ao abrir mão do uso bélico do aço e da pólvora, os Villas-Bôas conquistam a confiança dos índios, a danação destes não deixaria de se cumprir na repetição do que aconteceu desde que o primeiro europeu pisou naquilo que depois batizaria de América: sem causar maiores danos aos homens brancos, a gripe levada por eles acaba dizimando metade da tribo sem anticorpos que os acolheu.
A partir daí, cientes do mal que, mesmo sem dolo, causaram (e que, inevitavelmente, continuariam a causar), se inicia uma mesma batalha em defesa dos índios, à qual cada irmão se entrega em frente própria: Leonardo com ingenuidade e descompromisso; Cláudio com seu idealismo radical, mas contradições reais; cabendo o pragmatismo, mas também o comprometimento político, à lida equilibrista de Orlando.
Entre erros e acertos, o fato é que a luta contra as doenças, os garimpeiros, os fazendeiros, o poder político local, os interesses militares e todos os demais paradoxos de quem tenta preservar alguém daquilo que representa (“nós somos o antídoto e o veneno”, como sentencia Cláudio), consegue ser exitosa na criação do Parque Nacional (hoje Indígena) do Xingu, em 1961, pelo então presidente Jânio Quadros. O projeto idealizado pelos irmãos Villas-Bôas, mas redigido pelo antropólogo Darcy Ribeiro, foi responsável pelo ainda hoje maior território indígena do mundo, com mais de 27 mil km2, no norte do Mato Grosso.
Todavia, nem mesmo o filme, claramente feito para louvar a vida e a obra dos Villas-Bôas, tem a pretensão de que estes tenham dado alguma solução definitiva à questão. Na última cena, em missão derradeira para salvar uma tribo ainda virgem de contato com o branco, que tentam tirar do caminho da Rodovia Transamazônica (a BR 230), obra faraônica da ditadura militar brasileira (1964/85), Orlando e Cláudio são encarados pelo índio com indagações gritadas em sua mudez e ainda hoje sem respostas.
Não é a primeira tentativa do cinema nacional de se abordar o choque entre índios e brancos, com clara pretensão de eco internacional, a reboque do sentimento de culpa politicamente correto dos dominadores.
Em obra de ficção, o cineasta argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco apostou num elenco de estrelas de Hollywood, para fracassar aqui e lá fora com seu “Brincando nos Campos do Senhor”, de 1991. Um pouco antes, em 1989, o diretor Ruy Guerra havia se apoiado num elenco de astros brasileiros para levar às telas um conhecido romance de Antônio Callado, “Kuarup”. Todavia, noves fora uma indicação à Palma de Ouro em Cannes, o filme também não foi sucesso de público ou crítica.
Mais recentemente, em 1999, o diretor Luiz Alberto Pereira levou às telas “Hans Staden”, nome do mercenário alemão que caiu prisioneiro dos canibais Tupinambá, entre o litoral do Rio e São Paulo, na hoje distante realidade do séc. XVI. Foi uma adaptação mais fiel, embora de menor impacto, do que “Como era Gostoso o meu Francês”, do mestre Nelson Pereira dos Santos, filme de 1970, indicado ao Leão de Ouro em Berlim e também baseado nos impressionantes relatos que Staden escreveu e publicou quando conseguiu regressar à Europa.
Entretanto, na busca de um paralelo com “Xingu”, o filme que melhor se presta a isso, embora retrate a realidade da América do Sul no séc. XVIII (ou pretenda retratar, já que foi acusado de cometer erros históricos), talvez venha de fora, com o britânico “A Missão”, de 1986, dirigido pelo inglês Roland Joffé e ganhador da Palma de Ouro em Cannes. Quando os acordos políticos entre os católicos e já decadentes impérios coloniais de Portugal e Espanha põem em risco as missões jesuítas no sul do continente, onde os índios eram reunidos em comunidades economicamente competitivas, dois padres da ordem assumem rumos diferentes para enfrentar a ameaça.
Entre o Grabiel interpretado pelo inglês Jeremy Irons e o ex-mercenário Rodrigo Mendoza encarnado pelo estadunidense Robert De Niro, o caminho da política eclesiástica tentado pelo primeiro e o do enfrentamento armado tomado pelo segundo se entrecruzam na defesa da mesma causa, destinados ao mesmo desfecho trágico. Equilibrado entre o pragmatismo de Orlando e o idealismo de Cláudio, pelo menos “Xingu” chega ao seu final com uma questão ainda em aberto.
Em pesquisas recentes, realizadas pelo Ibope e pelo DataFolha, a prefeita de São João da Barra, Carla Machado (PMDB), e a presidente Dilma Rousseff (PT) bateram recordes em seus índices de aprovação de governo. Enquanto Dilma, pelo DataFolha, chega a 93%, a prefeita de São João da Barra alcança os 87%, de acordo com o Ibope. Ambas as pesquisas foram realizadas em abril, tendo margem de erro de 2% e 5%, respectivamente.
Se comparados os números de aprovação dos que avaliaram tanto o governo de Carla Machado como o da presidente Dilma Rousseff como “ótimo” e “bom”, as duas governantes aparecem com “empate técnico”: se Carla tem 63% entre ótimo e bom, Dilma surge com 64%. A pesquisa realizada pelo Ibope ouviu 406 pessoas, entre os dias 12 e 14 de abril. Já a pesquisa do DataFolha, divulgada pela Folha de S. Paulo, que avaliou o governo Dilma, aconteceu entre 18 e 19 de abril e ouviu 2.588 pessoas.
De acordo com a pesquisa, 73% da população aprovam a maneira como Carla Machado vem administrando o Município. A avaliação da administração somados os números de “ótima” e “boa” atinge a marca de 63%, subindo para 87% quando inclui a avaliação de “regular”. Na pesquisa, o Ibope avaliou também o Nível de Satisfação da Qualidade de Vida da População de São João da Barra: 82% estão satisfeitos ou muito satisfeitos em relação à vida que levam.
Fonte: Secom de SJB
Para quem passou pelos anos 80 do século passado com alguma consciência do que acontecia neste planetinha azul e girante, “A Dama de Ferro” não deixa de ser um interessante revival daquela década, sobretudo em relação à Grã-Bretanha (GBR) e à bipolaridade do mundo de então, ainda dividido entre os vencedores da II Guerra Mundial (1939/45), tendo de um lado os EUA e a GBR (dois países unidos e separados pela mesma língua) e, do outro, a extinta União Soviética.
Todavia, mesmo para quem é atento aos tantos erros de avaliação já cometidos nas premiações do Oscar, inegável que, pelo menos na edição deste ano, a festa maior de Hollywood foi precisa ao entregar suas estatuetas de melhor atriz e melhor maquiagem para essa biografia cinematográfica da ex-primeira-ministra britânica (depois baronesa) Margaret Thatcher.
Apelidada de “Dama de Ferro” justamente pelo bloco soviético que ajudou a desmontar, realmente impressiona sua personificação visceral por Meryl Streep, alcançada não só pela minúcia do talento desta grande atriz, agraciada com seu terceiro Oscar, como pelo perfeito trabalho de maquiagem de Marese Lagan, ambos a endossar o generoso quinhão de artesanato cênico que ainda pode fazer a diferença nestes tempos de computação gráfica.
Como é comum em biografias, a narrativa do filme se desenvolve em flashback, já a partir da fase de ostracismo político e do quadro clínico de demência, que foi admitido publicamente pela própria família desde 2000, no qual ainda hoje (sobre)vive a velha leoa britânica. Mas, mesmo nele, assombrada pelo fantasma do marido morto (Jim Broadbent, em merecida indicação ao Oscar de coadjuvante), não deixa de continuar atenta à economia doméstica, característica que, ao ser transplantada ao governo de nações, como a personagem mesma diz em determinado momento, passou a ser conhecida como responsabilidade fiscal.
Ao tentar implantá-la na Grã-Bretanha, após vencer no mundo de homens da política, a começar em seu próprio Partido Conservador, Ms. Thatcher teve que enfrentar a ferrenha oposição dos parlamentares do Partido Trabalhista, as greves e os protestos incessantes dos sindicatos britânicos, as ações terroristas do IRA (braço armado da luta pela independência da Irlanda do Norte), inclusive contra sua própria vida, e uma guerra contra a Argentina unida sob ditadura militar fascista, na disputa por um arquipélago perdido no Atlântico Sul, que os britânicos chamam de Falklands e, nossos hermanos, de Malvinas.
Neste conflito, que igualmente marcou argentinos e ingleses, deixando feridas ainda não cicatrizadas desde aquele hoje distante 1982, na cena entre a primeira-ministra e o emissário estadunidense que tenta convencê-la a não reagir militarmente à invasão das ilhas, toda a ousadia e contundência da primeira ficam evidenciadas no pertinente paralelo feito com o ataque japonês a Pearl Habor, no arquipélago do Havaí, que motivou a entrada dos EUA na II Guerra, em 1940.
Vitoriosa em todos seus enfrentamentos, enquanto esteve à frente do governo britânico, entre 1979 e 1990, a líder britânica foi também uma figura de proa na derrocada do bloco socialista europeu, ao lado do ex-presidente dos EUA Ronald Reagan (1911/2004) e do papa João Paulo II (1920/2005). Não por outro motivo, o filme entrecorta as cenas da “Dama de Ferro”, valsando exitosa com Reagan, com as imagens reais da queda do Muro de Berlim, em 1989, ironicamente apelidado de “Cortina de Ferro” pelo outro grande ex-primeiro-ministro britânico do séc. 20, Winston Churchill (1874/1965).
Ferida de morte, a União Soviética cambalearia mais um ano após a saída de Thatcher do poder, esfacelando-se completamente em 1991.
Um pouco antes, talvez inebriada com as sucessivas vitórias diante de tantos e tão grandes desafios, o filme não esconde quando a arrogância da primeira-ministra começa a fazer inimigos em sua própria equipe de governo, que depois lhe impõem a queda, de maneira até humilhante. Entretanto, são omitidos os interesses econômicos (sempre existentes) escondidos atrás do seu projeto político, já que seu marido e grande incentivador à vida pública, no lugar de um simples comerciante de sucesso, como o filme furtivamente apresenta, era na verdade um alto executivo da indústria petrolífera.
Talvez não seja irrelevante ressaltar, por exemplo, que hoje os britânicos exploram petróleo nas Malvinas…
Entre o que é revelado e omitido na tela, relevantes são os principais contrapontos masculinos da grande mulher, além do marido, feitos também na figura marcante de seu pai, Alfred Roberts, um pregador metodista, comerciante orgulhoso e também político, e do seu filho Mark Thatcher, sempre ausente na vida adulta.
Para alguém que só aceitou seu papel de esposa e mãe, desde que sua vida não fosse consumida como uma dona de casa lavando xícaras, emblemática aquela deixada ainda suja por Lady Thatcher, dentro da pia da sua cozinha, na última do filme dirigido pela inglesa Phyllida Loyd, que já tinha feito uma parceria com Meryl Streep de sucesso comercial, no musical “Mama Mia” (de 2008).
Assim como o fato do embate de “ferro” contra “ferro”, entre uma mulher e um muro que dividia o mundo, ter sido vencido pela primeira, não deixa de ser igualmente irônico constatar que, mesmo conservadora à medula e léguas distante de qualquer esteriótipo feminista, Margaret Thatcher talvez tenha sido a mulher mais forte do séc. 20.

CARTA A PEDRO OTÁVIO
CAMPOS, 10 DE ABRIL DE 2012
Caro Pedrinho,
Aqui estamos nós te velando. Parece irreal. A sensação é a de que não aconteceu e que em alguns dias estaremos os dois sentados à mesa de um bar degustando uma “gelada” e botando a conversa em dia.
Muitos estão aqui conosco. Todos os nossos amigos e familiares estão ou estiveram aqui para as despedidas de ti.
Quão bonita, carinhosa e sensível a homenagem que te fazem com oração e canções. Ao fundo a voz de Milton Nascimento e a “Canção da América”: “Amigo é coisa para se guardar, no lado esquerdo do peito”…
E podes ter certeza que é o lugar que todos reservamos para ti. Quão bela a homenagem que nossos amigos Gilsinho e Ronaldo, voz e violão, fizeram para ti. Quanta emoção despertaram!
Fico aqui pensando se devo ou não me manifestar. Não é possível conter a emoção e assim as palavras vão por água abaixo.
Em um segundo plano, afinal o que posso eu mais a dizer a respeito, além de tudo de bom que representas. És unanimidade, destes o exemplo.
Tais pensamentos me remetem aos bancos escolares do meu curso secundário. Estudávamos literatura na disciplina de língua portuguesa. Lembrei-me então de um poema do grande Gonçalves Dias, em cuja obra enaltece a bravura do índio brasileiro. O poema chama-se canção do Tamoio, e se inicia assim:
“Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.”
Desde cedo a vida te impôs desafios. Obstáculos que com sofrimento e sacrifício, eu sei, vencestes com bravura, obstinação e dignidade. Rejeitastes a comiseração, enfrentaste a “luta renhida” e nos oferecestes a superação, certamente a tua melhor virtude e teu exemplo.
Hoje, aqui estamos para o sepultamento do teu corpo, que é carne e “ao pó voltará”, mas em cada coração aqui presente estás vivo, orgulhoso de ti mesmo pela missão cumprida. Em nossas lembranças, a tua morada.
Vai, guerreiro tamoio!
Estás agora no lugar a que fazes jus.
Enquanto estiveres vivo na minha memória, agradecerei ao Pai todos os dias, por Ele ter te colocado no meu caminho.
Com admiração e carinho, teu amigo,
Luiz Carlos Sell
Esperava que o Arthur Soffiati, alter ego do crítico de cinema Edgar Vianna de Andrade, reproduzisse em seu mural do face sua crítica sobre “O Artista”, em cartaz na tela local do Cinemagic, que foi publicada hoje, na versão impressa da Folha. Como Soffiati não o fez, peço licença a ambos para republicar virtualmente a crítica do Edgar, fazendo-o em sequência também no face…
Hollywood: homenagem ou saudosismo?
Por Edgar Vianna de Andrade
A festa do Oscar de 2012 premiou dois filmes que tratam de cinema. O grande vencedor foi “O artista”, escrito e dirigido pelo francês Michel Hazanavicius. George Valentin (Jean Dujardin), ator consagrado no cinema mudo, vê seu prestígio ameaçado com o advento do cinema falado.
O espectador desavisado não imagina quantas obras primas e quantos artistas talentosos foram produzidos e fizeram carreira nos quase trinta anos de cinema mudo. Desde os primórdios do cinema, houve várias tentativas de sincronizar som e imagem. Inserir trilha musical nos filmes não se constituiu num grande problema. A dificuldade estava em fazer as personagens falar. Mesmo assim, grandes obras foram geradas na era do cinema mudo, como os filmes de Georges Méliès, notadamente “Viagem à Lua” (1902); “O Nascimento de uma nação” (1915) e “Intolerância” (1916), ambos dirigidos por D. W. Griffith; os famosos filmes de Charles Chaplin e Buster Keaton, até hoje insuperáveis; “A queda da casa de Usher” (1929), de Jean Epstein; “O gabinete do doutor Caligari” (1920), de Robert Wiene; “Nosferatu” (1922) e “Phantom” (1022), de Friedrich Murnau; “Metrópolis” (1927), de Fritz Lang; “Um Cão Andaluz” (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dali; e “O Encouraçado Potemkin” (1925), de Serguei Eisenstein, para só mencionar alguns.
Vários artistas se tornaram ídolos do público, talvez mais até do que atualmente. Entre eles, Douglas Fairbanks, Clara Bow, Charles Chaplin, Mary Pickford, Greta Garbo e Rodolfo Valentino, este o símbolo do cinema mudo e que é homenageado em “O Artista” na figura de Georges Valentin.
Foi em 1927 que a Warner lançou “O cantor de jazz”, considerado o primeiro filme falado em algumas partes da película. O apreciador desavisado também não pode imaginar o estardalhaço que a crítica fez em torno da mudança no cinema. Uma das mais ácidas críticas ao cinema falado foi escrita pelo pensador inglês Aldous Huxley. Até o compositor de música popular Noel Rosa fez um samba descrevendo os males causados pela fala no cinema. Quando a voz sincronizada à imagem foi conseguida, houve diretores que continuaram apegados ao cinema mudo, como Charles Chaplin, em “Luzes da Cidade” (1931) e “Tempos Modernos” (1936).
“O artista” não é um filme para agradar o grande público, que, viciado em produções repletas de efeitos de imagem e de som, não consegue compreender como houve também grande público para o cinema mudo. Até se pergunta como um filme em preto e branco e mudo conseguiu ganhar tantas estatuetas do Oscar. “A invenção de Hugo Cabret”, dirigido pelo consagrado Martin Scorsese, também se reporta às origens do cinema, retratando a vida de Georges Méliès, o verdadeiro pai do cinema comercial. No entanto, por ser em cores e com muito som de fala e de trilha sonora, cativa o público de todas as idades. Por outro lado, não enfoca o grande drama que foi a passagem do cinema mudo para o cinema falado, mas sim o declínio de Méliès com a Primeira Guerra Mundial. Em outras palavras, na era do cinema mudo, operaram-se mudanças, ascensões e decadências.
O tema abordado por Michel Hazanavicius não é novo. No clássico “Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder (EUA, 1950), Norma Desmond (Gloria Swanson) é uma artista famosa do cinema mudo marginalizada pelo cinema sonoro. Wilder lança William Holden, representante da nova geração de atores, e recorre a celebridades do cinema mudo, como Cecil B. DeMille e Buster Keaton. DeMille foi um diretor que passou do cinema mudo ao cinema sonoro rapidamente e com sucesso. Gloria Swanson não teve a mesma flexibilidade. Num mundo em que o mercado manda quem não muda e se adapta está fadado à exclusão.
Se Billy Wilder mostra a decadência de uma atriz brilhante do cinema mudo, “O artista” e “A invenção de Hugo Cabret” parecem apontar para outra direção. Mais do que homenagem aos primórdios do cinema, é de se pensar se os dois filmes, conquanto ótimos, não se mostram nostálgicos numa Hollywood que parece ter esgotado sua criatividade.