Johnatan França de Assis — Chacina sob aplausos

 

“Três de Maio de 1808 em Madrid — Os fuzilamentos da montanha do Príncipe Pío”, óleo sobre tela de Francisco de Goya, de 1814, que denuncia o fuzilamento de espanhóis pelas tropas de Napoleão Bonaparte durante o ocupação francesa da Espanha (Museu do Prado, Madri)

 

Johnatan França de Assis, profissional de psicologia, estudante de ciências econômicas, militante antifascista e do RUA Juventude Anticapitalista e membro da executiva municipal do Psol em Campos

Chacina sob aplausos: aonde vai o Brasil disparado da ponta do fuzil?

Por Johnatan França de Assis

 

Marielle perguntou, eu também vou perguntar:

Quantos mais têm que morrer pra essa guerra acabar?

 

O choro de uma mãe pelo suplício de um filho é uma imagem que atravessa o espírito humano, pirronicamente, suspende os juízos morais, de quem é mocinho, quem é bandido, porque no fim, com suas imperfeições, é todo mundo gente. Mas diferentemente do que pretende o sábio de Eléia, ninguém sai em ataraxia, os corpos amontoados na praça debaixo do pranto dos entes queridos não é algo que traz ausência de perturbação, é a própria perturbação, o Rio de Janeiro não é para amadores.

Sinto-me Goya retratando Napoleão enquanto a maioria da população, como Hegel, lhe planta uma árvore em homenagem. Talvez esse seja o momento de, como Magritte, colocar Hegel de férias, e de cabeça pra baixo (como fez certo filósofo), para conseguir lidar com a contradição dialética evidente. A Weltseele de hoje não vem montada a cavalo, e nem sobe o morro num camburão, a imagem da Alma do Mundo hoje é o corpo de um rapaz de 19 anos decapitado na Serra da Misericórdia.

Onde se quer chegar com isso? Sabemos de 121 histórias que nunca mais poderão ter um traçado melhor. Em menos de um dia se tem de volta todo prejuízo econômico, e nenhuma vida volta. Não sei quantas vezes o Estado falhou com Ravel, que projeções e horizontes ele tinha, mas tenho certeza que se alguém é torturado e morto pelo Bope depois de se entregar, o Estado falhou aí. Há dois meses ele tinha entrado pro tráfico e ano que vem poderia estar convertido numa igreja, ou se tornado MC, ou outra qualquer coisa que não fosse o que ele era ali. Devir interrompido.

Operações devem usar inteligência e diminuir a letalidade, não existe pena de morte legalizada no Brasil. Mas há como que legalizada aqui a espetacularização da violência e justificação do massacre. E contra a maré estão os que apontam a patente inefetividade desse tipo de ação, as facções vão recrutar mais jovens para fazer esse moedor de carne incessante. É tão difícil perceber que matar o irmão de alguém recruta um novo membro de facção aqui, ou um novo terrorista lá em Gaza? O Haiti é aqui, Gaza também é aqui.

Será que é uma posição tão radical e assustadora defender o direito à vida e um combate ao crime que reintegre, não aniquile? Por que esse gozo sádico do extermínio? Você se sente mais seguro hoje? Eu também não.

Que nesse dia de Finados, todas as pessoas que amam alguém que se foi encontrem consolo, e respeito.

Paz.

 

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Este post tem um comentário

  1. Rosana

    Uma análise perfeita é feita assim. Parabéns pelo artigo , amigo. Paz no Rio, paz no mundo

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