Opiniões

Ação policial no Jacarezinho e segurança pública de Campos no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Joseli Mathias)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (12), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o delegado de Polícia Civil Pedro Emílio Braga, titular da 146ª DP de Guarus. Ele falará da ação da Polícia Civil da última quinta (6) na comunidade carioca do Jacarezinho, que deixou o saldo de 28 mortos, inclusive o policial André Frias, e ganhou grande repercussão nacional e internacional. Ele também analisará as acusações de “ativismo” do Supremo Tribunal Federal (STF) e os danos da politização da políticas de segurança pública. Por fim, o delegado fará um balanço das ações policiais em Guarus e Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Crítica da ciência, governo Wladimir e Câmara no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Joseli Mathias)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (11), o entrevistado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, será o vereador Beto Abençoado (SD). Ele comentará as críticas que sofreu por sua declaração sobre a pandemia da Covid, na análise feita por seis especialistas da ciência (confira aqui). Ele falará também das relações entre os grupos políticos dos Garotinho e dos Bacellar. E avaliará os 130 dias do governo Wladimir (PSD) e da nova Câmara Municipal.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Comando do combate à Covid em Campos fala sobre falta da vacina Coronavac

No último sábado (1º), intitulado “Entre Getúlio e Juscelino, travestis e generais, Covid do Brasil a Campos”, um meu artigo publicado na Folha da Manhã fazia um apanhado da pandemia da Covid-19 no país. Em muito agravada pelo negacionismo do governo Jair Bolsonaro (sem partido) e sua seita, o texto de opinião trazia críticas também à não reserva da segunda dose da vacina chinesa Coronavac em Campos.

Como jornalismo e a própria vida só existem com contraditório, o espaço para se manifestarem sobre a crítica foi aberto e ofertado aos médicos infectologistas Charbell Kury e Rodrigo Carneiro, que comandam o combate ao coronavírus em Campos. Como a posição deles só chegou no final da noite de sexta (07), foi impossível a publicação no mesmo espaço do jornal impresso de ontem (08). Mas segue hoje (09) abaixo, neste blog. Que renova sua aposta na capacidade e comprometimento dos dois profissionais de saúde:

 

Charbell Kury e Rodrigo Carneiro lideram o combate à pandemia da Covid em Campos (Arte: Eliabe de Souza / montagem: Joseli Mathias)

— A pandemia por Covid-19 em Campos dos Goytacazes tem em suas linhas epidemiológicas de crescimento de casos, óbitos e pressão na rede assistencial uma reflexão fidedigna da epidemiologia da grande maioria dos estados e municípios brasileiros. Assim, verificamos diversos momentos em que houve crescimento de casos, óbitos e ocupação de leitos desde 2020, mas consideramos os meses de março e abril de 2021 os piores momentos da epidemia no Brasil. A maior prova desta teoria se deve à constatação de que o número de óbitos em 2021 já é maior do que todo ano de 2020. De forma mais amiúde, Campos dos Goytacazes teve iniciado o pior momento da infecção na semana de 17 a 24 de março. Quando da sinalização da equipe de vigilância/estatística através do sistema de algoritmo de previsão de atraso que demonstrava o crescimento exponencial de casos nas próximas semanas, culminando com a elevação em uma semana do escore de gravidade do amarelo para o vermelho, permanecendo assim por 5 semanas.

Nesse período, diversas intervenções foram utilizadas, tais como restrições/lockdown; aumento do número de leitos clínicos e de UTI, bem como a aceleração da vacinação. Sobre este último tema, o ministério da Saúde, em seu último documento técnico, já recomendava a utilização da 2ª dose da vacina Coronavac como 1ª dose para assim alcançarmos o maior número de pessoas protegidas. Estudos chilenos com a vacina Coronavac demonstram que a 1ª dose já demonstra alguma proteção, mas é ideal termos as duas doses. Entretanto atraso na remessa do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) da China levou a atraso na programação da 2ª dose em metade dos municípios do Brasil que adotaram a antecipação de doses. Ocorre que neste período os óbitos se reduziram, os casos e as ocupações de leitos também e no, dia 7 de maio, foi alcançada a marca de 100.000 pessoas vacinadas em Campos, 1/5 de nossa população protegida com uma dose, enquanto aguardamos a chegada da Coronavac para completarmos a 2ª dose.

Estamos perseguindo a vacinação para o maior número de pessoas, pois acreditamos ser este o melhor caminho para a proteção e eliminação do vírus.

 

Dr. Charbell Miguel Haddad Kury, subsecretário de Atenção Básica, Vigilância e Promoção da Saúde, médico infectologista pediátrico 

 

Dr. Rodrigo da Costa Carneiro, diretor de Atenção Básica, médico infectologista

 

Crítica da ciência, Lagoa de Cima e governo Wladimir no Folha no Ar desta 2ª

 

(Arte: Joseli Mathias)

 

A partir das 7h da manhã desta segunda, o vereador Anderson de Matos (Republicanos), também pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, abrirá semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3. Ele comentará as críticas que sofreu por sua declaração sobre a pandemia da Covid, na análise feita por seis especialistas da ciência (confira aqui) em matéria da Folha da Manhã.

Anderson também falará sobre a polêmica envolvendo seu projeto turístico para Lagoa de Cima, acusado por ambientalistas (confira aqui, aqui, aqui e aqui) de tentar reduzir a área de proteção da margem da lagoa. Por fim, o vereador fará uma análise dos 130 dias do governo Wladimir Garotinho (PSD) e da nova Câmara Municipal.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Arthur Soffiati — Três lagoas de Campos e o turismo

 

Lagoa de Cima (Foto: Wellington Cordeiro)

 

Arthur Soffiati, eco-historiador, professor e escritor

Três lagoas de Campos e o turismo

Por Arthur Soffiati

 

Um documento redigido em 1995 por Mônica Miranda Falcão e Verônica da Matta, pesquisadoras da extinta Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (SERLA) mostra que o estado do Rio de Janeiro conta com o total de 105 lagoas, das quais 67 se encontram no recorte que recebeu sucessivamente os nomes de Distrito dos Campos Goytacazes, Comarca de Campos e Região Norte-Noroeste Fluminense (Relação das lagoas do estado do Rio de Janeiro. Superintendência Estadual de Rios de Lagoas, 1995). Embora tenha sido um levantamento superficial, pois baseado apenas na Carta do Brasil 1:50.000, lançada em 1968, e sem confirmação no terreno, trata-se de um levantamento pioneiro que confirmou o norte fluminense como a verdadeira Região dos Lagos. Um levantamento histórico revelaria número maior de lagoas, extintas por drenagem e por aterro.

Provavelmente, não existem mais essas 67 lagoas. Várias já devem ter sido drenadas nos 25 anos que se passaram desde o levantamento das duas pesquisadores. Dentre as lagoas levantadas, pelo menos três apresentam ou apresentavam atrativos turísticos. Entre elas, não está a grande lagoa Feia, que sempre impressionou por suas dimensões, mas não por sua beleza, embora seja bela aos olhos de estudiosos. A mais famosa lagoa com potencial turístico é, sem dúvida, a lagoa de Cima, desde o século XVIII elogiada por sua encanto. Com a serra do Imbé ao fundo e com águas aparentemente cristalinas, a lagoa de Cima fascina.

Em 1992, o prefeito Anthony Garotinho sancionou uma lei que a transformou em Área de Proteção Ambiental (APA), mas ele mesmo favoreceu dois hoteleiros a iniciarem a construção de um hotel em área proibida às margens da lagoa. A iniciativa não foi adiante por pressão dos ambientalistas. Recentemente, o subsecretário de meio ambiente de Campos anunciou que vai encaminhar o plano de manejo da APA da lagoa para debate e aprovação. Quase 32 anos após a criação da APA por lei, ainda não existe um plano de manejo em vigor. Enquanto isso, a faixa marginal de proteção com largura de 300 metros foi invadida por pobres e ricos, que, no interior dela, consolidaram suas edificações.

Agora, um vereador de Campos empenha-se em revogar uma lei estadual através de um deputado do seu partido a fim de reduzir essa faixa para 50 metros. Tomando como base os 30 metros definidos genericamente pelo Código Florestal para todo o Brasil, ele ainda se gaba de aumentar essa faixa mínima em 20 metros. Basta uma enchente igual, menor ou maior que a de 2008-9 para afogar todas as casas construídas numa faixa de 50 metros.

A intenção do vereador é promover o turismo com a permissão de construção de hotéis próximos à lagoa. Segundo ele, Campos não pode desperdiçar a oportunidade de auferir rendas com o turismo, já que a situação econômica e financeira do município é crítica. De fato, Campos perdeu a oportunidade de caminhar com as próprias pernas, montando uma estrutura econômica que lhe desse autonomia quando os recursos dos royalties do petróleo jorravam pelas torneiras. O desperdício foi irresponsável. Foi atitude de um novo-rico que não sabe o que fazer com o dinheiro.

Diante da nova situação, não há de ser a lagoa de Cima nem a atividade turística que vão salvar ou atenuar a situação financeira de Campos. Como já dissemos no artigo da semana passada, a região não apresenta atrativos turísticos que tragam pessoas de outras regiões para cá. A região não tem sequer a capacidade de reunir os governantes municipais para traçar um plano de turismo voltado para o turismo interno regional. Dentro da região, quem tem dinheiro e mora em Campos não sairá de sua casa para se hospedar num hotel às margens da lagoa de Cima. Quem mora em outros municípios da região, visitará a lagoa de Cima e se hospedará num hotel da cidade. Quem é pobre e mora longe vai se contentar com algum atrativo no seu município. O pobre que mora em Campos dispõe, no máximo, de recursos para chegar à lagoa de Cima de ônibus. Hospedar-se em hotel é inviável para ele.

Assim, reduzir a faixa de proteção para atrair hoteleiros é um salto no escuro. Construir hotéis na orla da lagoa é um risco financeiro duplo: o hotel pode ser atingido por uma enchente ou falir por falta de hóspedes.

A segunda lagoa é a do Vigário, a mais conhecida lagoa de tabuleiros de Campos. O plano urbanístico Coimbra Bueno, de 1944, pretendia transformá-la num parque para os moradores da cidade de Campos pelo menos. Para tanto, o escritório de urbanismo previu a sua proteção com um anel rodoviário ligando as margens direita e esquerda do rio Paraíba do Sul. Mas o prefeito José Carlos Vieira Barbosa cortou-a ao meio com um aterro para ligar as duas margens por meio da avenida Salo Brandt, hoje Tancredo Neves. Brandt foi prefeito interventor de Campos e, na sua gestão, foi concebido o Plano Coimbra Bueno.

Hoje, a lagoa foi densamente ocupada por edificações e perdeu qualquer atrativo turístico, por mais que a prefeita Rosinha Garotinho tenha maquiado metade do rosto dela para a recreação local. Faltou falar do Lagamar, mas também faltou espaço.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

Com críticas ao PT, criador do Bolsa Família prega união contra Bolsonaro

 

Engenheiro, economista, primeiro reitor da Universidade de Brasília (UNB) eleito após a nossa última ditadura militar (1964/1985), ex-governador do Distrito Federal pelo PT, no qual implantou o Bolsa Escola em 1995, depois adotado no governo federal Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e ampliado como Bolsa Família no carro chefe dos 13 anos petistas no comando do país, Cristovam Buarque foi também ministro da Educação de Lula. E senador duas vezes: uma pelo PT e reeleito pelo PDT, pelo qual disputou a presidência da República em 2006. Como educador e político, é um currículo nacional de destaque. Que se aproxima de Campos nesta sexta (14), no debate virtual “A política econômica do desenvolvimento: de Vargas aos nossos dias”, entre 16h e 19h, promovido pela Fundação Astrojildo Pereira e com transmissão ao vivo pela Folha FM 98,3 e Plena TV. Nesta entrevista, Cristovam falou do seu rompimento com o PT, que o levou a votar como senador pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. De quem reafirma a prática de crime de responsabilidade, contrária à narrativa de “golpe”. Progressista, criticou uma “esquerda brasileira (que) nunca lutou pelo fim das mordomias, privilégios, desperdícios”. A classificou de “exquerda” e acusou de “negacionista” no “vício de considerar o Tesouro como ilimitado”. Ainda assim, prega a aliança entre as forças de oposição contra o que considera o objetivo principal em 2022: “vencer Bolsonaro”.

 

(Foto: Divulgação)

 

Folha da Manhã – Governador de Brasília, quando ainda estava no PT, o senhor implantou o Bolsa Escola em 1995, que seria adotado em 2001 pelo governo federal Fernando Henrique Cardoso. Em 2003, no governo Lula, o programa foi incorporado a outros no Bolsa Família, carro-chefe dos 13 anos do PT no poder. Que saldo faz do programa?

Cristovam Buarque – O Lula não acreditava no Bolsa Escola, tanto que não aceitou colocá-lo como proposta no documento “Educação Já”, publicado em nome dele e meu, em 1990, como produto do governo paralelo (ao do presidente Fernando Collor de Mello, eleito em 1989, batendo Lula no segundo turno). Quando assumiu o governo (federal, em 2003), eu disse (a Lula) que o Fome Zero não era necessário. Bastava espalhar e ampliar o valor do Bolsa Escola Federal que o FHC tinha criado, cinco anos depois de Brasília e por muita insistência minha. Quando percebeu a importância da ideia, por influência do Duda Mendonça (publicitário que criou o “Lulinha Paz e Amor” vencedor da eleição de 2002), Lula agarrou-a como seu grande programa, coisa que FHC nunca fez, como se sentisse vergonha diante do mundo de que o Brasil precisasse pagar para as crianças estudarem. Apesar disto, em sua autobiografia (“Minha Vida”, lançado em 2004), Bill Clinton (ex-presidente dos EUA) fez elogios, mantendo o nome Bolsa Escola em português. Mas ao adotar o programa, Lula provocou três deformações que levaram um programa educacional a ficar assistencial. Trocou o nome, o que faz com que uma mãe receba o dinheiro pensando que é porque sua família é pobre, antes era porque seus filhos iam à escola. Tirou do MEC e colocou no ministério da Assistência Social, que se chamava Desenvolvimento Social. E misturou beneficiários de filhos na escola com todos que precisavam de ajuda. Melhorou a gestão e elevou de 4 para 12 milhões de beneficiários. Tirou o Brasil do mapa da fome, mas não fez a mudança estrutural que, graças à Bolsa Escola, a educação teria feito.

 

Folha – Primeiro ministro da Educação de Lula, o senhor foi demitido por ele por telefone em janeiro de 2004. Mas só saiu do PT em 2005, com críticas ao “desprezo” do partido pela educação. Que foi a bandeira da sua candidatura a presidente pelo PDT em 2006, ficando em 4º lugar. De lá para cá, qual o lugar da educação na agenda de desenvolvimento do país?

Cristovam – Continua menosprezada. Quando me demitiu, Lula disse que queria um ministro dedicado a aumentar o número de alunos na universidade. De fato, minha preocupação maior era com a erradicação do analfabetismo e iniciar um processo de maior cuidado federal com a educação de base. Até hoje deixamos a educação de base para os pobres entregue às prefeituras pobres e desiguais. E financiamos a universidade com dinheiro federal. Há 50 anos melhoramos a passo de tartaruga, mas ampliando três brechas: entre pobres e ricos, entre o Brasil e o resto do mundo, e entre o que ensinamos e o que é preciso ensinar. Melhoramos ficando para trás e por conta disto estamos nos tornando um país de quarta classe. Já fomos emergentes, estamos caminhando para submergentes. São muitas razões, mas o atraso e a desigualdade educacional são as principais. Pior que não podemos colocar a culpa nos portugueses ou nos escravocratas ou nos latifundiários ou na ditadura militar. Nós, democratas progressistas, ficamos 26 anos no poder, 13 deles com o PT, e não fizemos o que sempre prometemos. Deixamos o país com 35 milhões sem água, 100 milhões sem esgoto, 12 milhões de analfabetos, recessão, desemprego, recessão e corrupção.

 

Folha – Em 2010, ainda no PDT, seu partido apoiou Dilma Rousseff (PT) a presidente. Em 2014 seu apoio foi para Eduardo Campos (PSB) e, após a morte dele, para Marina Silva. Ela foi a chance eleitoralmente mais viável para um progressista romper com a polarização entre PSBD e PT?

Cristovam — Além da origem e biografia, que o Lula também tem, Marina trazia os dois compromissos centrais para o futuro: educação e meio ambiente, com responsabilidade fiscal. E era uma posição de avanço nas propostas e comportamentos dos governos do PT, sem o aparelhamento da máquina do Estado e submissão ao corporativismo de trabalhadores e de empresários.

 

Folha – Em 2014, a disputa presidencial ferveu. Dilma se disse disposta a “fazer o diabo” para se reeleger, Lula chamou Aécio e o PSDB de “nazistas”, e a campanha do PT contra a ex-petista Marina seria classificada de fake news, termo criado em 2016, pelo presidente do TSE, ministro Luiz Fux. Se não era novidade, o “nós contra eles” radicalizou demais a partir dali?

Cristovam – A esquerda tem tendência a esta divisão com respeito à democracia, Bolsonaro radicaliza nesta posição, sem respeito à democracia. Mas a esquerda tende a se sentir dona da verdade e única defensora dos interesses populares, não aceita facilmente a alternância no poder. A derrota eleitoral é vista como derrota histórica. Por isto os partidos comunistas se perpetuam. Evo Morales tentou quatro mandatos sucessivos e tentaria o quinto, Chávez e Maduro nem sabemos quantos. Verdade que vencendo eleições, mas, como disse a Dilma, fazendo o diabo, porque a derrota do partido é vista como escravidão para o povo e derrocada do país. Some-se a isto o gosto de muitos pelo poder e pela fortuna.

 

Folha – O senhor é até hoje criticado pelos ex-companheiros petistas por ter votado, após trocar o PDT pelo PPS (atual Cidadania), pelo impeachment de Dilma no Senado. Assim como a favor da PEC do Teto dos Gastos Públicos e da proposta de reforma trabalhista do governo Michel Temer (MDB). Se pudesse voltar atrás, mudaria algo? Por quê?

Cristovam – Quanto à PEC do Teto e reforma trabalhista, não tenho a menor dúvida que eram necessidades. Não sou negacionista e acredito que 2 mais 2 é igual a 4 também nas finanças. Vejo que a inflação sempre empobrece ainda mais os pobres. E que o vício brasileiro de considerar o Tesouro como ilimitado, da mesma maneira que as florestas, tem servido para esmorecer as forças progressistas que reivindicam novos direitos sem cortar velhos privilégios. A esquerda brasileira nunca lutou pelo fim das mordomias, privilégios, desperdícios, subsídios. Prefere reivindicar a lutar, aumentando os déficits públicos, comemorando vitórias e deixando o povo pagar a conta com inflação e juros altos. Também não sou negacionista na realidade dos avanços técnicos e suas consequências nas relações entre capital e trabalho nos tempos atuais, comparados com o tempo da CLT. Naquele tempo não havia nem elevador sem ascensorista, hoje tem avião sem piloto. Não votei a lei da reforma previdenciária porque estava fora do Senado, mas afirmo que nisto também não sou negacionista: nascem menos crianças, os velhos vivem mais e o Estado se esgotou. Teria votado a favor. Quanto ao impeachment, a resposta é mais complicada. Foi um erro lógico diante do que perdi e sofri. Até netas minhas de menos de 10 anos foram atacadas por cartazes em Brasília. Não foi um voto inteligente e lamento ter sido obrigado a votar para manter minha coerência. Foi um voto decidido por razões morais. Passei dois anos alertando a presidente Dilma do crime de responsabilidade que ela cometia e das trágicas consequências de recessão e desemprego e inflação. Votar contra seria inteligente, mas não seria coerente. Fui prisioneiro de minha biografia moral, que arranhou bastante minha biografia política, porque meus eleitores, leitores e amigos se afastaram. Fiquei só com minha consciência e a sensação de ter sido corajoso e coerente. Eu continuei de esquerda, mas para ser de esquerda você não pode ser negacionista, nem covarde e tem que ser contemporâneo da contemporaneidade. Nossa esquerda ficou saudosista e não vê a história passar. Por isto chamo de “exquerda”.

 

Folha – Apontado em 2018 como alternativa progressista ao PT e à extrema-direita de Jair Bolsonaro (então, PSL), Ciro Gomes também sofreu críticas suas. Em 2015, quando se disse “rifado” do PDT, o senhor falou do cearense: “Não é um quadro que me entusiasme. O PDT está tão ruim, que nem a entrada do Ciro consegue piorar”. Qual era a opção em 2018?

Cristovam – Eu pensei ser o candidato à presidência pelo PPS, repetir a candidatura de 2006 pelo PDT. Mas Roberto Freire (presidente do PPS, hoje Cidadania) não quis e eu, recém ingressado no partido, abri mão em uma reunião do diretório. Ele queria apoiar (Geraldo) Alckmin (PSDB). Os deputados (Arnaldo) Jordy e Rubens Bueno até hoje reclamam dessa minha posição. O PPS apoiou Alckmin que nem ao menos apoiou minha candidatura ao Senado no DF (na qual ficou em terceiro lugar e não se reelegeu ao terceiro mandato). Eu explicitei que meu apoio era outra vez a Marina Silva, como tinha sido em 2014, depois da morte de Eduardo Campos.

 

Folha – Após o plenário do STF anular as condenações de Lula na Lava Jato de Curitiba, ele voltou com força ao tabuleiro eleitoral de 2022, no qual vem liderando todas as pesquisas ao primeiro turno e batendo Bolsonaro nas projeções do segundo. Como os 30% de intenções de voto de ambos podem ser alcançados por uma terceira via, a menos de 17 meses da urna?

Cristovam – Nossa tragédia é que acho difícil qualquer um chegar ao segundo turno sem apoio do PT e Lula, mas o PT poderá ter dificuldade no segundo turno para vencer Bolsonaro na disputa para ver quem tem menos rejeição. Além disto, a disputa no primeiro turno gera muito antagonismo, que é levado ao segundo. Temo que a luta entre os antibolsonaristas no primeiro turno leve muitos democratas a anularem o voto, viajarem, votarem em branco e o Bolsonaro vença da mesma forma que venceu ao Haddad, um candidato muito melhor e mais qualificado, técnica e moralmente. Tenho defendido que os candidatos atuais se unam logo no primeiro turno, e o eleito se comprometa a ficar um único mandato. Os outros candidatos de hoje adiariam a disputa para 2026. O ideal seria que o PT ajudasse a escolher um candidato sem rejeição. Mas se o PT não perceber que o momento deve colocar o Brasil e a democracia na frente, se não encontrarmos um candidato que unifique, melhor ir com o PT do que o suicídio nacional com um Bolsonaro reeleito, formando o “seu” exército oficial ou não oficial das milícias. Nem Lula, nem Ciro, nem (Luciano) Huck (sem partido), nem (João) Doria (PSDB), nem Tasso (Jereissati, PSDB) tem o direito de abrir caminho para este suicídio. Melhor que abram mão de suas candidaturas e escolham um deles em um esforço para vencer Bolsonaro. Mas parece que cada um está colocando mais a chance de ser presidente e de beneficiar seus partidos com o Fundo Partidário do que salvar o país. Uma das provas de que nossa geração não está à altura do momento é termos feito em nome de fortalecer a democracia um fundo partidário que ameaça afundar o país.

 

Folha – Os petistas têm encarado o reinício dos processos de Lula como sua inocência. Em seu livro “Por que falhamos — O Brasil de 1992 a 2019”, o senhor lista os erros da esquerda que levaram a Bolsonaro. E diz: “Nossos intelectuais toleraram de maneira subserviente a corrupção explícita”. Se essa leniência voltar ao poder, onde o Brasil pode parar?

Cristovam – Não será um bom destino, mas melhor do que Bolsonaro. Além disto, o PT e Lula devem ter aprendido com os erros. Apesar de que nunca reconhecem isto publicamente.

 

Folha – Refém do Centrão no Congresso, com mais de 100 pedidos de impeachment na Câmara, CPI da Covid no Senado, 420 mil brasileiros mortos pela pandemia, volta da inflação, desemprego e dólar em alta, e sem nenhum apoio internacional desde a derrota de Donald Trump nos EUA, Bolsonaro ainda mantém cerca de 30% de apoio popular. Collor e Dilma só caíram quando tinham 1/3 disso. O que projetar?

Cristovam – Projeto que Bolsonaro manterá seu núcleo fanatizado e os outros divididos ajudarão para que ele chegue ao segundo turno. A ideia de dois turnos é formidável: no primeiro, o eleitor escolhe o candidato mais próximo, no segundo, o menos distante. Mas em tempo de radicalismo, o primeiro turno elege os extremos que mantêm seus núcleos aguerridos. E, no segundo turno, os não extremos elegem um dos extremos com menor rejeição.

 

Folha – Quais são suas expectativas para o debate virtual “A política econômica do desenvolvimento: de Vargas aos nossos dias”, junto ao também professor e economista Bresser Pereira, que será promovido pela Fundação Astrojildo Pereira, das 16h às 19h da próxima sexta (14), com transmissão ao vivo pela Folha FM 98,3 e a Plena TV?

Cristovam – Vou me concentrar menos no que os economistas erraram e mais no que eles esqueceram: os limites ecológicos que desde os anos 60/70 já se percebiam; vetor educacional que outros países já percebiam nos anos 60/70, como mais do que um direito de cada pessoa, a alavanca do progresso econômico e da justiça social; a pobreza como um entrave ao crescimento; a perspectiva histórica que cobra a conta da modernidade apressada; e o esgotamento do Estado, fiscal, gerencial e moralmente. Qualquer que fosse o partido no poder nos últimos quase 100 anos, seus economistas não perceberam essas lacunas no pensamento econômico. Concentraram-se em caminhar rápido, sem perceber que estavam em um rumo errado.

 

Página 2 da edição de hoje (08) da Folha da Manhã

 

Campos recebe mais vacinas, mas continua sem Coronavac para 2ª dose

 

(Arte: Eliabe de Souza)

 

(Foto: Genilson Pessanha – Folha da Manhã)

Como a Folha foi a primeira a noticiar (confira aqui), Campos recebeu hoje mais 17.220 doses de vacina contra a Covid-19. Mas como foram 15.720 da AstraZeneca e apenas 1.470 da Coronavac, continua o problema de falta da última vacina para aplicar a segunda dose em pessoas que já receberam a primeira, ampliando o prazo para além do indicado ao processo de imunização. A falta de Coronavac no município a partir da última terça (27) foi alertado com exclusividade por este blog (confira aqui), desde a noite do dia anterior (26).

Prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (PSD) falou hoje sobre o problema: “No caso de Campos, precisamos de 14 mil doses de Coronavac para terminar a segunda dose e só recebemos 1.470 no dia de hoje (02)”. A causa do problema, como ressaltou o secretário estadual de Saúde, Carlos Alberto Chaves, está na aquisição e repasse de vacinas aos estados pelo governo federal Jair Bolsonaro (sem partido), bem inferior à demanda dos municípios, na ponta da linha no processo de imunização.

Confira no vídeo abaixo:

 

 

Entre Getúlio e Juscelino, travestis e generais, Covid do Brasil a Campos

 

Getúlio Vargas e Juscelino Kubistchek

A frase “Campos é o espelho do Brasil” é creditada ao ex-presidente Getúlio Vargas. E a semana foi movimentada nos dois lados do reflexo. No que é refletido, o país ultrapassou na quinta (29) os 400 mil mortos por Covid-19. É um número sem precedentes em meio milênio de História do Brasil. Enquanto esta ciência existir, morramos ou não pela pandemia, assombraremos a memória dos que souberem quem fomos. Mesmo aos cegos que vivem entre nós e ainda fingem se ver coisa melhor. E, por isso, são cúmplices do crime.

Maior conflito armado da América do Sul e nosso evento anterior mais fatal, a Guerra do Paraguai (1864/1870) demorou seis anos para matar cerca de 50 mil brasileiros. Com a primeira baixa tupiniquim em 12 de março de 2020, a Covid precisou de pouco mais de quatro meses para ultrapassar os mesmos 50 mil óbitos na Terra de Vera Cruz. Foi em 20 de junho do ano passado. Exatos 15 dias após o coronavírus ter igualado os 35 mil mortos que a gripe espanhola (1918/1920), pandemia anterior, levou dois anos para matar no país.

 

Patrono do Exército Brasileiro, Duque de Caxias só tinha negros em sua guarda pessoal na Guerra do Paraguai

 

Num piscar de olhos da História, tudo que conhecíamos como tragédias nacionais em 500 anos ficou para trás. No darwinismo social imposto por um governo federal disposto a arriscar as vidas de 211 milhões na busca da imunidade de rebanho. Com 30% deles assumindo seu papel de “gado”. Que, ruminando defesa do tratamento precoce com combate ao uso da máscara, conduziram os outros 70% do país ao abatedouro. Em 8 de agosto, chegamos aos 100 mil mortos. Naquele mês, Bolsonaro recusou a oferta de 70 milhões de doses de vacina da Pfizer.

Com as festas de final de ano, dezembro traria presentes de grego. Celeiro da pandemia com a livre circulação do vírus, o Brasil identificou naquele mês sua primeira variante. A P1 de Manaus teria sua carga viral até 10 vezes maior depois confirmada. Dezembro traria ainda o primeiro caso brasileiro de reinfecção da doença. Que erodiu o mito da imunidade de rebanho do “mito”. Se adquiridas por ele em agosto, as vacinas da Pfizer chegariam em dezembro. Ao todo, foram 11 ofertas de imunizantes recusadas. No jogo do bicho, 11 é dezena do burro.

Sem vacinas e com a expansão da P1 rápida e mortal, como Sharon Stone no auge, chegamos aos 200 mil mortos em 7 de janeiro. A primeira brasileira só seria vacinada 10 dias depois, com a Coronavac. Foi um triunfo político do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), na parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac. Antes recusada seis vezes por Bolsonaro, foi por ele chamada de “vachina”. Assim como por seu rebanho imune apenas aos fatos, “valentes” das redes sociais que na vida real correram como “maricas” para tomá-la.

Em 23 de janeiro seriam vacinados os primeiros brasileiros com a AstraZeneca, fruto do consórcio da Oxford com a Fiocruz. Mas sem o lockdown nacional adotado pela maioria dos países junto à imunização, levaríamos só 76 dias para pular dos 200 mil aos 300 mil mortos de 24 de março. Foi um dia após batermos 3 mil mortos em apenas 24 horas. Treze dias depois, em 6 de abril, ultrapassaríamos pela primeira vez a marca dos 4 mil mortos em um único dia. Ao todo, foram apenas 36 dias para pularmos dos 300 mil aos 401 mil mortos de quinta.

Na mesma quinta, o general da reserva Eduardo José Barbosa divulgou uma carta como presidente do Clube Militar do Rio de Janeiro. Na qual pregou usar o controvertido Art. 142 da Constituição para um golpe militar no Brasil. Tentou refletir um leão, urrando contra a convocação do general Eduardo Pazuello como ex-ministro da Saúde para depor na CPI da Covid, instalada no Senado na terça (27). Como vai lá nesta quarta (05) na condição de testemunha, se mentir, vai preso. CPI não é um tribunal, onde se tem a prerrogativa de não produzir prova contra si.

Do outro lado do espelho, a manifestação antidemocrática miava como gatinho. Refletiu o governo se borrando de medo na caixinha de areia. Após mostrar sua incompetência política na série de derrotas na CPI. Na qual tudo tentou, sem conseguir nada, para impedir Renan Calheiros (MDB/AL) de assumir a relatoria. O presidente do Clube Militar reflete melhor outro general do governo, Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Casa Civil. Apelidado de “Maria Fofoca” pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo “Passando a Boiada” Salles, Ramos foi flagrado dizendo a verdade. Em reunião na mesma terça em que a CPI era instalada:

 

 

— Tomei (a vacina) escondido porque a orientação (do governo) era não criar caso, mas vazou. Mas tomei mesmo, não tenho vergonha não. Eu tomei e vou ser sincero porque eu, como qualquer ser humano, eu quero viver. Eu tenho dois netos maravilhosos, eu tenho uma mulher linda, eu tenho sonhos ainda. Então, eu quero viver, pô. E se a ciência, a medicina, fala que é a vacina, quem sou eu para me contrapor? (…) E tenho tentado convencer o presidente de que essa cepa, eu tive Covid em outubro do ano passado, ela é uma variante muito violenta que está ceifando vidas e próximas da gente.

Pela toada da manifestação do presidente do Clube Militar, difícil considerá-la além do pastiche de pastor neopentecostal: “O Brasil é a pátria do evangelho! Natural, portanto, que o poder das trevas queira destruir nossa nação (…) bastou a eleição de um presidente que acredita em Deus para que todo o inferno se levantasse contra ele”. Mas, se fosse o caso de levar a sério, bom lembrar o editorial do jornal Washington Post de 2 de abril. Que dificilmente faria a advertência sem saber como pensa quem hoje comanda a Casa Branca:

 

 

— As democracias dos Estados Unidos e da América Latina devem prestar atenção à medida que as eleições (presidenciais do Brasil) do próximo ano se aproximam. E deixar claro para Bolsonaro que uma interrupção da democracia seria intolerável. O presidente brasileiro já contribuiu muito para o agravamento da pandemia da Covid-19 em seu próprio país e, por meio da disseminação da variante brasileira, pelo mundo. Ele não deve ter permissão para destruir uma das maiores democracias do mundo também.

 

 

Na sentença imortalizada por Pazuello, que será posta à prova na próxima quarta: “Um manda e o outro obedece”. Sobre o desespero do governo refletido nas “ameaças” do Clube Militar do Rio, é como cantou Cazuza. Foi nos anos 1980 da redemocratização do país, ao final de uma ditadura que só se sustentou enquanto durou o apoio dos EUA. Ao final da Guerra Fria que só continua a existir para quem crê em ameaça comunista, cloroquina e Saci Pererê: “Copacabana, você não me engana/ Com seus travestis e generais de pijama”.

 

Em 14 de maio de 2019, em Dallas, no Texas, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro bate continência à bandeira dos EUA (Foto: Reporudução de vídeo)

 

Enquanto isso, pela desorganização do governo federal, Campos está desde a terça da CPI sem aplicar a Coronavac. No comando do combate à Covid no município, os médicos infectologistas Charbell Kury e Rodrigo Carneiro têm serviços prestados à saúde pública. Mas talvez não devessem levar tão a sério as promessas do ministério da Saúde. Como em todos os demais municípios em que a “vachina” teve a segunda dose reservada. Medicina, como qualquer ciência e a própria democracia, é feita de tentativa e erro. Outro ex-presidente, Juscelino Kubistchek aconselharia: “Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro”.

 

Publicado hoje (01) na Folha da Manhã

 

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