À sombra das casuarianas de Chapéu de Sol, na manhã deste domingo, Thiago Virgílio, Anthony Garotinho e Aluysio Abreu Barbosa (Foto: Juninho Virgílio)
“Vai ser complicado eu e Wladimir disputarmos juntos pelo mesmo cargo de deputado federal. Rosinha apoiaria quem: o marido ou o filho? E por que Paes, sem ter mais Bacellar na disputa a governador, precisaria de Wladimir como vice?” Foram alguns questionamentos que o ex-governador Anthony Garotinho (REP) fez na manhã de hoje (1º), entre outras coisas, em entrevista à sombra das casuarinas de Chapéu de Sol.
Garotinho passeou pela política municipal, regional, fluminense e nacional neste início de ano eleitoral de 2026. Com a entrevista constantemente interrompida por veranistas, muitas vezes em família, e até adversários políticos, que paravam para cumprimentá-lo, lembrar histórias e conversar.
A íntegra da entrevista exclusiva poderá ser conferida nesta segunda (02), no blog Opiniões e no site Folha1. Como, nesta quarta (4), bem cedo nas bancas e nas casas dos assinantes, no jornal Folha da Manhã.
Nas rodadas finais do Brasileirão de 2009, o Fluminense carregava um número que mais parecia sentença: 99% de chance de rebaixamento. Lutava contra a tabela, contra a matemática, contra a descrença geral. Ninguém acreditava. Ou quase ninguém …
Seu Alair, o morador mais rabugento do bairro, definitivamente não acreditava. Amaldiçoava o time todos os dias, em voz alta, como se quisesse que o mundo ouvisse: Turma de perna de pau! Ninguém escapava de críticas, nem jogador, nem o futebol.
Para ele, o futebol havia morrido fazia tempo — lá atrás, junto com a geração de Didi, Garrincha, Pelé, Rivelino e outros craques que ele evocava como quem rezava. O que restava agora, dizia, era um esporte em agonia, respirando por aparelhos.
Os números pareciam concordar com Seu Alair. O Fluminense somava apenas 18 pontos em 24 jogos, afundado na lanterna do campeonato, quando Cuca assumiu o time tricolor. A missão era clara e absurda: nos últimos sete jogos, seriam necessários seis vitórias e um empate. Nada menos que isso. Uma tarefa hercúlea. Daquelas que só entram para a história quando alguém resolve desafiar o impossível.
Pois bem, o impossível foi desafiado, um time de guerreiros nasceu. O Fluminense saiu do “mundo comum” para “provação máxima” em poucos meses, normalmente, os heróis vivem suas epopeias ao longo de anos, mas ali o tempo foi comprimido, cruel, implacável.
Cada rodada era uma batalha, cada acréscimo no tempo da partida era um desafio, cada penalidade marcada era um inimigo. Sem armadura ou espada, os guerreiros se feriam, sangravam e seu Alair se desesperava, mesmo com o Fluminense precisando só de um empate para não cair na última rodada, ele não conseguia crer, era um pessimista contumaz.Parte superior do formulário
A última batalha seria dificílima: jogar contra o Coritiba no
território inimigo, arquibancadas hostis, nervos à flor da pele. Não era apenas mais um jogo — era o limiar entre a queda e a permanência. Em campo, o Fluminense não jogava bonito, jogava o necessário. Cada dividida era um juramento, cada passe, um ato de fé.
O empate bastava, mas ninguém ousava confiar nisso. Empates são frágeis demais. O medo rondava como sombra, e o silêncio antes do apito inicial pesava mais que a própria bola. Seu Alair assistia ao jogo de braços cruzados, o cenho franzido, pronto para a blasfêmia. Não gritava mais — observava. Talvez porque, no fundo, também estivesse atravessando sua própria provação: admitir que ainda era possível acreditar. Quando o gol saiu, houve espanto. Ele ficou sem palavras, como se o impossível tivesse tropeçado.
Nelson Lellis, doutor em Sociologia Política pela Uenf
Fígaro e o fóbico: a armadilha do silêncio nas pautas identitárias
Por Nelson Lellis
Introdução: casos factuais
O debate público brasileiro atravessa um momento de interdição que transcende a mera polarização; vivemos a instauração de uma certa auditoria do pensamento. Esse fenômeno ficou evidente no último ano, quando a crítica de Chico Bosco a certas vertentes do feminismo contemporâneo foi recebida não com contra-argumentos, mas com um escrutínio moralizante que visava deslegitimar o interlocutor antes mesmo do debate.
Essa dinâmica confirma o diagnóstico recente de Vladimir Saflatle na revista Piauí: a universidade e a esfera pública estariam se convertendo em um “grande FMI universitário”. Para Safatle, operamos hoje sob uma lógica de ajuste estrutural das ideias, onde identidades são geridas como ativos financeiros e o pensamento crítico é substituído por uma burocracia de conformidade que decide quem pode falar e sobre o que é permitido divergir.
É nesse cenário de vigilância que a pesquisa de Beatriz Bueno acerca do conceito de “parditude” emerge como um caso paradigmático. Ao propor o reconhecimento do pardo não como um resíduo da branquitude ou uma categoria a ser subsumida automaticamente pela negritude, mas como uma ontologia mestiça com vivências, dores e complexidades próprias, a pesquisadora tocou no nervo exposto dos dogmas identitários.
A reação de setores da militância e da academia ao seu estudo — muitas vezes sendo acusada de “eugenista” ou “desmobilizadora” por ousar diferenciar a experiência parda da negra — ilustra perfeitamente a tese do “FMI” de Safatle: a diversidade é celebrada apenas até o momento em que ela desafia a cartilha hegemônica da gestão identitária.
O caso da parditude nos força a encarar o paradoxo atual: as pautas identitárias, que nasceram para dar voz a saberes silenciados (Foucault), correm o risco de instaurar novos regimes de verdade que, ao rejeitarem a complexidade do real (como a existência de uma identidade mestiça autônoma), reproduzem a exclusão que dizem combater.
Retomo nesse breve texto, portanto, a máxima de Pierre Beaumarchais em “O Casamento de Fígaro” (1778): “Sem a liberdade de criticar, não existe elogio sincero”. Se a tentativa de Beatriz Bueno de complexificar o debate racial é interditada pelo medo do cancelamento ou pela acusação automática de fobia, o que resta não é justiça social, mas um silêncio preventivo. E onde impera o silêncio, a democracia fenece.
A liberdade de criticar: do Fígaro ao fóbico
Em 1778, Pierre Beaumarchais escreveu “O Casamento de Fígaro”, uma peça que, antes mesmo da Revolução Francesa, já disparava contra os privilégios da nobreza. Nela, o protagonista imortalizou uma máxima que ecoa em nossos dias: “Sem a liberdade de criticar, não existe elogio sincero”. O raciocínio é direto: se sou proibido de discordar, meu apoio não é admiração, é medo ou obrigação. Para que o elogio tenha valor, ele precisa ser uma escolha, não uma imposição.
Ao observarmos o cenário atual, amparados por leituras como as de Yascha Mounk (A armadilha da identidade), percebemos um paradoxo perigoso. É inegável que as políticas identitárias surgiram para dar voz a saberes historicamente silenciados e desmascarar falsas universalidades (Foucault). No entanto, há uma ironia trágica na prática contemporânea: ao blindar suas pautas contra qualquer análise externa, certos ativismos instauram novos regimes de verdade, tão dogmáticos quanto os antigos.
Se a ética se constrói na coragem de dizer a verdade diante do poder — o que Foucault chamava de parrhesía —, a interdição da crítica sob o rótulo automático de fobia anula esse ato ético. O aliado que se cala por medo do cancelamento não oferece apoio real, mas uma confissão de fé performática.
A Interdição do Debate e o “Lugar de Fala”
O primeiro ponto de desgaste é a distorção do conceito de “lugar de fala”. Originalmente criado para iluminar perspectivas esquecidas, ele tem sido usado para encerrar discussões. Se um aliado não pode questionar uma tática ou postura sem ser tachado de “fóbico”, seu apoio perde a substância racional. A causa, a longo prazo, definha pela falta de oxigênio intelectual.
A Sacralização da Identidade
Do ponto de vista da sociologia da religião, notamos uma lógica sectária. A identidade tornou-se o “sagrado”. Tocar nela de forma crítica é visto como profanação. Essa barreira é visível tanto em grupos progressistas quanto conservadores: onde termina a crítica sociológica e começa a intolerância? Se não encontrarmos essa linha, o respeito será apenas uma fachada.
O Limite entre Crítica e Ódio
É preciso, contudo, um cuidado fundamental: a distinção entre crítica e discurso de ódio. Beaumarchais falava de criticar atos e ideias, jamais de desumanizar pessoas. No Brasil, infelizmente, o termo “liberdade de expressão” é frequentemente sequestrado para camuflar o racismo e a homofobia. A liberdade que defendemos aqui é a de discordar civilizadamente, pois só dela nasce o reconhecimento legítimo.
Por uma Democracia com Atrito
Movimentos sociais verdadeiramente fortes são aqueles que suportam o escrutínio. O elogio que vale a pena é aquele que reconhece a legitimidade do outro, mesmo apontando suas falhas. Uma democracia saudável precisa dessa tensão. Como na física, sem o atrito não há movimento; resta apenas a inércia de um discurso vazio.
Concluindo…
O percurso que traçamos, da interdição sofrida por Francisco Bosco à “auditoria” denunciada por Vladimir Safatle, revela que a crise do debate público brasileiro não é apenas de civilidade, mas de ontologia política. O caso da “parditude” de Beatriz Bueno serve aqui como a prova final e irrefutável de que o “Grande FMI Universitário” não tolera o excedente da realidade. Ao tentar enquadrar a complexa experiência mestiça brasileira na planilha binária de importação norte-americana, o dogmatismo identitário precisa silenciar a dissonância para manter a sua coerência interna.
Contudo, o silenciamento do dissenso cobra um preço alto: a esterilização da própria política. Quando a dúvida é convertida em fobia e a crítica em heresia, o que resta não é militância, mas liturgia. Nesse momento, a lição de Fígaro torna-se muito peculiar: a legitimidade de qualquer pauta progressista depende vitalmente da sua capacidade de suportar o contraditório. Se quisermos construir uma justiça social que não seja apenas uma gestão burocrática de ressentimentos, precisaremos resgatar urgentemente a liberdade de criticar. Pois, sem ela, todo elogio à diversidade continuará sendo, tragicamente, apenas medo disfarçado de virtude.
O principal entrave reside nessa tribalização do intelecto: no ambiente digital, a crítica raramente é recebida como um convite à reflexão, sendo imediatamente processada como um ataque à identidade do grupo. Isso gera um efeito de silenciamento preventivo, onde o medo do estigma social (a acusação de fobia ou heresia) sufoca a honestidade intelectual antes mesmo que ela se transforme em palavra. Além disso, enfrentamos o desafio da distinção semântica. Em um cenário de polarização aguda, a linha que separa o escrutínio legítimo de ideias (a liberdade de blâmer) da agressão desumanizante tornou-se perigosamente tênue.
O desafio da crítica hoje é, portanto, duplo: a) resgatar a civilidade para manter a capacidade de confrontar a ideia sem aniquilar o sujeito; b) combater o dogmatismo aceitando que a dúvida e o contraditório não são inimigos da causa, mas os únicos elementos capazes de conferir autenticidade ao apoio e à militância. Sem enfrentar esses desafios, corremos o risco de transformar o debate público em um eco de monólogos, onde a verdade é medida pelo volume da adesão, e não pela força da razão.