Lívia Nunes — Doce carrinho azul

 

 

Lívia Nunes, jornalista e cronista

Doce carrinho azul

Por Lívia Nunes

 

 

Em algum lugar soava repetidamente um alerta. Era uma buzina ao longe. Aquele som repetitivo invadia minha mente com a imagem de um carrinho azul cheio de doces. Pela janela, vi o homem, já distante, a empurrar o carrinho de madeira, exatamente como imaginei. Nesse instante, fui completamente movida pelo impulso de sair e correr até os doces daquele relicário azul. Desci as escadas aos pulos, abri portas, portões e cheguei à rua.

Certamente, o moço já havia dobrado a esquina. Mesmo assim, não desisti. Corri o quanto podia e quanto mais me afastava de casa, mais me aproximava da buzina. Gritei de várias formas. Ele me ouviu, parou e aguardou. Eu já podia andar, então, com calma até chegar a mais importante das conquistas, mesmo que de um desejo sem explicação.

Olhei o mostruário de vidro e lembrei, enfim, que nunca havia comido nenhum daqueles doces. Não conhecia nada ali. É verdade! Durante toda a infância, observei, em silêncio, o passar do moço, o carrinho e os doces. Se experimentei, acho possível que não tenha gostado. Lembro de algodão doce ser bom; maçã do amor, uma decepção; mas não conheço os doces do carrinho que passava diariamente pela minha casa quando menina.

Agora, isolada há tantos dias, alguma coisa pensou por mim — talvez a criança. Constrangida, perguntei o que era cada doce e fui, gentilmente, apresentada. Escolhi uma cocada bonita e convidativa. Ele limpou as mãos em álcool em gel que carregava em um frasco de plástico e meu coração disparou. Lembrei o motivo de estar isolada. Uma grande crise, pandemia, germes, vírus, mortes, estar na rua, comprar alimento de mão a mão, ansiedade. Mas, me apeguei àquelas mãos pretas que zelavam pela venda, que zelavam por mim. Comprei o doce.

Voltei caminhando sem pressa. Ao chegar à casa, uma tempestade avassaladora desmoronou no céu, sem avisos, sem ameaças. Havia acabado de entrar, me abrigar sob meu teto e a água, do lado de fora, caiu com tanta força que parecia capaz de ferir o que tocasse e quebrar o que fosse frágil.

Na poltrona da sala, com vista para a janela, olhava as árvores, o vento, a chuva. Como uma criança, mordiscava meu doce. Fui envolvida pelo sabor açucarado da própria vida que ansiava. Mas, e o vendedor? E seu carrinho, seu álcool, seus doces de coco, goiaba, amendoim? Seguiram na rua, castigados pela mesma chuva que me entretinha. Comi a cocada pensando na mão que não segurei entre as minhas e me senti sob a chuva também. Teria um pouco de mim seguido com o carrinho de doces?

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O vendedor passou novamente pela minha casa dias depois. A buzina do carrinho azul, agora, me torturava. Aquele homem seguia com seu ritual, seus doces, seu álcool em gel e a esperança de que fosse o suficiente para sobreviver à pandemia. Com as ruas esvaziadas, provavelmente, venderia muito menos do que gostaria ou precisava, mas seguia. O chamado repetitivo do doce carrinho azul, agora, me afligia e me confrontava. Afinal, como é não ter opções?

 

Editado em 14/03/2026

 

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