
Entre os quatro institutos que mais acertaram (confira aqui) o resultado final das eleições presidenciais do Brasil em 2022, o Quaest divulgou na quarta (11) sua pesquisa (confira aqui) de fevereiro de 2026. E, a pouco mais de 7 meses à urna de 4 de outubro, acendeu o sinal amarelo à reeleição de Lula (PT). Que, patinando em todas as métricas desde dezembro (confira aqui, aqui, aqui e aqui, aqui e aqui) viu em várias delas o crescimento real do senador Flávio Bolsonaro (PL).
Jogando parado nos últimos dois meses, Lula liderou todos os sete cenários de 1º turno da Quaest de fevereiro, feita entre os dias 5 e 9, com 2.004 eleitores e margem de erro de 2 pontos para mais ou menos. E, nela, registrou um único empate técnico já no 1º turno: 37% a 33% contra Flávio.
Lula também liderou todos os sete cenários de 2º turno da Quaest. Neles, sua menor diferença, de 5 pontos, a 1 ponto do empate técnico no limite da margem de erro, também foi contra Flávio: 43% do petista a 38%. Porém, essa diferença era de 10 pontos em dezembro: Lula 46% x 36% Flávio. Em dois meses, caiu pela metade.

Quando todas as pesquisas apontavam que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP), era o nome de oposição mais competitivo contra Lula, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ungiu, da cadeia, Flávio (confira aqui) seu candidato. Era 5 de dezembro. Na Quaest daquele mês, a escolha foi considerada um erro para 54% dos brasileiros.

Comparada com a Quaest de fevereiro, os eleitores que consideram como erro a escolha de Bolsonaro pelo filho 01 como seu candidato a presidente caíram para 42%. É uma queda de 12 pontos em Flávio como erro de Jair. Um movimento de dois dígitos em apenas dois meses, em qualquer pesquisa eleitoral do mundo, nunca é trivial.
Nenhum outro movimento na série histórica das pesquisas Quaest, entre dezembro e fevereiro, ilustra melhor o crescimento de Flávio. E sua consolidação como candidato competitivo. Sobretudo porque, entre os demais nomes de oposição testados nos cenários de 1º turno, nenhum bateu dois dígitos de intenção de voto.
Entre os nomes da 3ª via da direita e centro-direita, o governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), foi quem melhor pontuou. Testado em duas das sete simulações de 1º turno da Quaest, ele teve 8% de intenção em uma (contra 35% de Lula e 29% de Flávio) e 7% em outra (contra 37% de Lula e 31% de Flávio).
Em outras palavras, mesmo líder do bloco retardatário, Ratinho larga muito distante, mais de 20 pontos atrás, dos dois líderes adiantados da corrida presidencial. Numa extenuante maratona de largada queimada pela polarização política do país.
Os problemas de Lula não se resumem à substantiva capacidade de transferência de intenção de voto (e de rejeição) de Jair, mesmo preso, a Flávio. Como foi a de Lula, mesmo preso, a Fernando Haddad (PT), quando atropelou Ciro Gomes (hoje, PSDB) no 1º turno para fazer e perder o 2º turno presidencial contra Bolsonaro em 2018.
Na transição de 2025 a 2026, mesmo sempre líder, Lula patinou os últimos dois meses em importantes métricas. Entre dezembro e fevereiro, a desaprovação ao seu governo se manteve estática nos mesmos 49% dos brasileiros. Por outro lado, sua aprovação caiu 3 pontos no período: de 48% em dezembro a 45% em fevereiro.

À pergunta da série Quaest, “Lula merece continuar mais 4 anos como presidente?”, se deu a resposta mais dura à perspectiva de reeleição. Dos 56% dos brasileiros de dezembro aos 57% de fevereiro que disseram que não merece, se cristaliza uma maioria contrária ao Lula 4. São 18 pontos a mais que os 39% que, hoje, dizem que o presidente merece continuar.

Outra pergunta da série Quaest revela o equilíbrio da polarização política do Brasil até no temor. “O que te dá mais medo hoje: Lula continuar ou a família Bolsonaro voltar?” De dezembro a janeiro, os que tinham mais medo do retorno dos Bolsonaros foram de 46% a 44%. E os que têm mais medo de Lula continuar passaram de 40% a 41%. É um empate técnico até no pavor que um grupo no poder causa aos eleitores do outro.

Hoje, essa situação se reflete também na rejeição. Líderes nas intenções de voto em todas as 14 simulações de 1º e 2º turno, Lula e Flávio também lideram entre os brasileiros que dizem conhecê-los e não votariam. Nessa métrica, Flávio lidera numericamente a rejeição, com 55%, só 1 ponto a mais que os 54% de Lula.

Antes da polarização política, no Brasil e no mundo, a partir da metade dos anos 2010 e do algoritmo do ódio das redes sociais que faz a fortuna das Big Techs, o limite prudencial para se vencer uma eleição em dois turnos era de até 35% de rejeição. Pois é ela, a rejeição, que fixa o teto de crescimento dos dois candidatos que passam ao 2º turno.
Em qualquer eleição em dois turnos, rejeição de 50% ou mais seria a impossibilidade matemática do candidato vencer o turno final. A não ser, como a Quaest hoje revela ser com Lula e Flávio, que ambos tenham empate técnico em duas rejeições acima dos 50%. Assim, a única chance que um teria de se eleger no 2º turno seria contra o outro.
Da eleição dos governadores dos estados à do presidente da República, Lula pode ter outro problema adicional. O ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) é competitivo em todas as pesquisas (confira aqui) contra a reeleição do governador petista da Bahia, Jerônimo Rodrigues. Como, também nas pesquisas, Ciro Gomes é igualmente competitivo (confira aqui) contra a reeleição do governador petista do Ceará, Elmano Reis.
A Bahia é o maior colégio eleitoral do Nordeste, enquanto o Ceará é o 3º. Se o PT perder o Executivo nesses dois estados, por mais que o voto entre governador e presidente não seja necessariamente casado, Lula correria o sério risco de perder, em 2026, a grande vantagem que teve na região Nordeste na eleição presidencial de 2022.
Tirado da disputa presidencial na pesquisa Quaest de fevereiro, a partir da definição do nome de Flávio como candidato de Bolsonaro, Tarcísio é franco-favorito (confira aqui) nos levantamentos de todos os institutos à reeleição como governador de São Paulo, maior colégio eleitoral do Brasil.
O 2º maior colégio eleitoral do país é Minas Gerais. Que elege o presidente do Brasil há 71 anos, como foi com Lula no 2º truno de 2022, a despeito da reeleição de Romeu Zema (Novo) ainda no 1º turno daquele ano. Hoje, quem lidera as pesquisas a governador mineiro (confira aqui) para outubro de 2026 também é um conservador: o senador Cleitinho (REP).
Publicado hoje na Folha da Manhã.