Pesquisa confirma vantagem de Lula, mas 2º turno apertado

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Lula lidera, mas nem tanto?

Outra pesquisa, do instituto Paraná, com 2.020 eleitores e margem de erro de 2,2 pontos para mais ou menos, confirmou em parte a boa fase de Lula (PT). Mas, se ele venceu as quatro projeções de 1º turno acima da margem de erro, não passou no empate técnico em três das quatro simulações de 2º turno.

 

Fora da margem de erro no 1º turno

No 1º turno, Lula bateria o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), inelegível até 2060, por 37,0% a 31,0%. Como a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro (PL), por 37,3% a 28,0%; o governador paulistano Tarcísio de Freitas (REP), por 37,4% a 21,6%; e o senador Flávio Bolsonaro (PL), por 37,6% a 19,2%.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Três empates técnico no 2º turno

Já no 2º turno, Lula bateria numericamente Bolsonaro por 44,9% a 41,6% (3,3 pontos). Como Michelle, por 44,7% a 41,6% (3,1 pontos); Tarcísio, por 44,9% a 40,9% (4 pontos); e Flávio, por 46,7% a 37,0% (9,7 pontos). Só contra este, Lula se reelegeria no 2º turno, pela pesquisa Paraná, além da margem de erro.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Paraná x AtlasIntel e Quaest

Embora confirme a liderança numérica de Lula contra todos os possíveis concorrentes na urna de 4 de outubro, daqui a pouco mais de 11 meses, a pesquisa Paraná deu ao presidente uma vantagem menos folgada que as pesquisas anteriores AtlasIntel e Quaest. Sobretudo em um eventual 2º turno.

 

Última Quaest

Na última Quaest, feita de 2 a 5 de outubro com 2.004 eleitores, e margem de erro de 2 pontos para mais ou menos, Lula venceu acima dela (confira aqui) todos os oito cenários pesquisados de 1º turno. Como os nove de 2º turno.

 

Última AtlasIntel

Na última AtlasIntel, feita de 15 a 19 de outubro com 14.063 eleitores, e margem de erro de 1 ponto para mais ou menos, Lula venceu acima dela (confira aqui) todos os quatro cenários pesquisados de 1º turno. Como os seis de 2º turno.

 

Histórico de acertos no Brasil e EUA

Paraná, Quaest e AtlasIntel são institutos diferentes, com metodologias diferentes. Os dois primeiros estiveram entre os quatro que mais acertaram (confira aqui) o 2º turno a presidente do Brasil em 2022. Enquanto o AtlasIntel foi o que mais acertou (confira aqui) o resultado da eleição de Donald Trump a presidente dos EUA em 2024.

 

Passado e presente

Entre os lulopetistas, é lembrado que o instituto Paraná Pesquisas, sediado em Curitiba, prestou serviços ao governo Bolsonaro. Mas, se motivo técnico houver para a diferença entre a sua consulta, na comparação com a Quaest e AtlasIntel, pode estar o fato que a Paraná foi a campo até o dia 24.

 

Nova besteira de Lula

O que houve no dia 24? Em Jacarta, na Indonésia, Lula disse: “Toda vez que a gente fala de combater drogas, possivelmente, fosse mais fácil combater os nossos viciados. Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também”. A declaração gerou grande repercussão negativa.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Lei de banheiro por sexo de nascimento em Campos é natimorta

 

Manifestação do coletivo Trans Goitacá na fachada da Câmara Municipal no último dia 24 (Foto: Divulgação)

 

 

Banheiro por sexo de nascimento

Aprovada e promulgada pela Câmara Municipal de Campos, a lei 9.604/2025, que determina a separação de banheiros públicos pelo sexo de nascimento, é inconstitucional. E será facilmente derrubada, como já ocorreu com leis semelhantes nos Tribunais de Justiça (TJs) de São Paulo (confira aqui) e Minas Gerais (confira aqui).

 

Por quê?

Por que, então, foi proposta pelo vereador Anderson de Mattos (REP)? Por que foi aprovada por seus pares, com votos discordantes só de Maicon Cruz (PSD) e Thamires Rangel (PMB)? Por que, sem que o prefeito Wladimir Garotinho (PP) tenha se manifestado, foi promulgada pelo presidente Fred Rangel (PP)?

 

Populismo pragmático

A resposta é simples: populismo! Pastor da Igreja Universal, que por isso se elegeu e reelegeu vereador, Anderson foi também pragmático. Corre sabendo que não vai chegar. Mas cristaliza sua base eleitoral conservadora em torno da guerra cultural entre fundamentalismo neopentecostal e identitarismo.

 

Juízo popular

O mesmo populismo pragmático vale aos vereadores que aprovaram a lei inconstitucional. Não só porque Campos deu a Jair Bolsonaro (PL) 63,14% dos seus votos válidos no 2º turno presidencial de 2022, como pela certeza: se posta em plebiscito, na cidade ou no país, a lei seria aprovada.

 

Cara e números da polarização

Pesquisa More in Common, feita com 10.002 brasileiros de 22 de janeiro a 12 de fevereiro, deu cara e números à polarização política do país. Dividida em seis grupos: “progressistas militantes”, “esquerda tradicional”, “desengajados”, “cautelosos”, “conservadores tradicionais” e “patriotas indignados”.

 

Como descarga de banheiro

Os “progressistas militantes” são só 5% da população. No extremo oposto da guerra cultural, os “patriotas indignados” são apenas 6%. Essa minoria ruidosa e radicalizada de 11% se retroalimenta de lado a lado na polarização. E puxa, como numa descarga de banheiro, a imensa maioria de 89% dos brasileiros.

 

Com ou sem espelho

É atribuída ao ex-presidente Getúlio Vargas a frase: “Campos é o espelho do Brasil”. Tenham espelho ou não, os banheiros públicos, os vereadores e as leis inconstitucionais de Campos parecem confirmar a máxima.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Nelson Lellis — Bancada Cristã e o que realmente importa aos cristãos

 

(Foto: Cristiano Mariz)

 

 

Nelson Lellis, doutor em sociologia política, mestre em ciência das religiões, professor da Uenf e escritor

Bancada cristã: O que realmente importa aos cristãos no Brasil?

Por Nelson Lellis

 

No dia 22, a Câmara dos Deputados aprovou regime de urgência ao Projeto de Resolução 71/25 com o objetivo de criar a Bancada Cristã. Trata-se de formalizar a união das já existentes Frentes Parlamentares Evangélica (FPE) e Católica. Tais Frentes funcionam como associações informais, de caráter suprapartidário, sem prerrogativas regimentais de liderança. No entanto, conseguem se articular como grupos políticos para pressão diante de determinados temas.

Essa junção permite que o grupo, com todas as garantias regimentais, tenha mais visibilidade e força para votação diante de pautas que lhe são comuns. A Bancada Cristã tem, nesse caso, o interesse em se tornar uma entidade com reconhecimento para exercer as prerrogativas no âmbito do Regimento Interno da Câmara dos Deputados.

Sendo aprovada, poderá impactar diretamente na articulação política a partir de alguns fatores. Menciono ao menos três. O primeiro deles: voz e voto. A bancada terá direito a voz e voto nas reuniões do Colégio de Líderes. Isso representa a legitimidade para definir qual a pauta entrará para votação no Plenário e a ordem que será votada. Certamente, o poder de negociação na agenda legislativa sobre temas que lhe são caros terá outra configuração.

O segundo: tempo de fala. Durante o período destinado às Comunicações de Liderança, a bancada terá direito de usar a palavra por 5 minutos por semana. Isso garantirá maior visibilidade institucional, além de abrangência — através de edições/cortes — nas mídias sociais que, no output para a sociedade, fortaleceria os argumentos da bolha.

Por fim, votação. Os votos são realizados de forma individual — e isso não será alterado. A formalização da bancada aumentaria a articulação de projetos de seu interesse para, consequentemente, influenciar o resultado das votações com pressão política.

Atores políticos desfavoráveis ao projeto têm se pronunciado nas redes apresentando aspectos como o princípio da laicidade (CF, 1988, art. 19, I): a Câmara estaria privilegiando uma religião sobre outras. Além de discriminação de minorias religiosas (desequilíbrio na representação) e o conflito com o Regimento Interno que, ainda que permita a criação de blocos parlamentares e comissões (diferentemente de comissões permanentes, como educação e saúde), a formalização de bancadas temáticas seriam ponto de tensão institucional.

Por outro lado, os grupos favoráveis ao projeto entendem que haverá uma maior representatividade, uma vez que 83,6% da população brasileira, segundo o Censo 2022, se declarou cristã. Os proponentes acreditam que a bancada daria voz formal a essa parcela, sobretudo no que diz respeito aos temas morais e de costumes — o que fortaleceria a representação dos valores. Teoricamente, há razão nesse ponto, no entanto, pesquisas realizadas no cenário da 55ª Legislatura apontaram que os representantes cristãos na Câmara dos Deputados não votam com os interesses da maioria cristã no plano político-econômico.

Os últimos anos demonstram complexidade quanto à questão representação. Em pesquisas realizadas pelo Datafolha[1], foram colhidas opiniões que, durante minha tese de doutorado, separei em dois blocos.

O primeiro foi sobre temas morais e de comportamento, como acreditar em Deus para tornar as pessoas melhores, proibição do uso de drogas, pena de morte para crimes graves, legalização do porte de armas, homossexualidade (que deve ser desencorajada). O segundo bloco, opinião sobre plano político e econômico, cujos assuntos passavam por: pena de morte, pobreza, maioridade penal, posse de armas, questões econômicas, benefícios de programas governamentais, dentre outros[2].

Seguindo diretamente do plano da moral comportamental[3] para o plano político-econômico, a pesquisa registrou a opinião sobre as questões econômicas e governamentais de três classes: Congresso Nacional; FPE (pentecostais e não pentecostais) e Congressistas pentecostais. O segundo grupo se refere às opiniões do eleitorado: Evangélicos não pentecostais; Evangélicos pentecostais e Sem religião/ateus.

Ainda que a FPE não seja homogênea, o próprio nome já sugere uma representação maior entre evangélicos. Ora, a progressiva candidatura e eleição de políticos evangélicos demonstrou esse “sucesso” de representação. Todavia, as opiniões da maioria dos parlamentares desta frente se distanciaram da opinião dos eleitores evangélicos no que se refere aos temas político-econômicos[4].

Em vista do Art. 2º do Estatuto da FPE (nota 3), parece-nos que a combinação do exercício do processo legislativo com “os propósitos de Deus, e conforme a Sua Palavra”, por fim, sugere uma interpretação, em um quadro geral, de que a FPE se inclina mais ao liberalismo econômico do que a favor da defesa dos direitos trabalhistas e afins, diferentemente da posição mais comum entre os eleitores evangélicos.

Isso está larga e teoricamente comprovado. Sociólogos franceses, Luc Boltanski e Ève Chiapello já destacavam na obra “O Novo Espírito do Capitalismo” (2009) que é comum determinados religiosos (na política ou não) serem “progressistas” em assuntos ligados a determinados grupos minoritários, e “conservadores” quanto ao comportamento social.

Caberá, portanto, a partir desse novo movimento na Câmara, o silêncio (nada inocente) dos cristãos, deixando nas mãos do Congresso a decisão pelo Projeto a fim de fortalecer questões morais e de comportamento, ou a pressão nas ruas, para que questões como saúde, educação, leis trabalhistas, mais intervenção do Estado, sejam vistas como temas importantes a serem debatidos. A distância entre vontade popular e preferência de congressistas tem sido demonstrada na recente história do país.

 

[1] Realizadas em setembro de 2014, com uma amostra de 10.054 eleitores e, em outubro de 2015, com uma amostra de 340 parlamentares.

[2] Em 2015, catorze jornalistas de Brasília, São Paulo e Pernambuco, realizaram uma pesquisa com o objetivo de um levantamento sobre a religião dos deputados(as). Dos quinhentos e treze, quatrocentos e vinte e um responderam. Destes, apenas 68 (16%) afirmaram ser evangélicos (LELLIS, 2017, p. 98-99), sendo que a FPE era composta por 87 deputados(as) e 3 senadores. Isso confirma que a composição da FPE abriga membros de outras denominações religiosas, com a Igreja Católica.

[3] Quanto às questões morais e de comportamento, o próprio Estatuto da Frente Parlamentar Evangélica ajuda a orientar aos seus membros, em seu Art. 2º, inciso III: Procurar, de modo contínuo, a inovação da legislação necessária à promoção de políticas públicas, sociais e econômicas eficazes, influindo no processo legislativo a partir das comissões temáticas existentes nas Casas do Congresso Nacional, segundo seus objetivos, combinados com os propósitos de Deus, e conforme Sua Palavra (FRENTE PARLAMENTAR EVANGÉLICA, 2015, n. p., grifo meu). O Estatuto da FPE, apresentado em abril de 2019, manteve o artigo citado (cf. FPE, 2019). Contudo, o Estatuto de 2023 (atual) realizou uma série de modificações (disponível em: https://www.camara.leg.br/internet/deputado/Frente_Parlamentar/54477-integra.pdf).

[4] Como contribuição para o debate, cf. Cunha (2018).

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Flamengo, Palmeiras e eleições 2026 no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Jornalista, servidor municipal e palmeirense, Antunis Clayton é o convidado do Folha no Ar desta quinta (23), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele analisará a reta final do Brasileirão e da Libertadores da América, que tem Palmeiras e Flamengo, até aqui, como protagonistas.

Antunis também analisará os papéis do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), e do prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (PP) nas eleições do RJ a governador (confira aqui, aqui, aqui e aqui), senador (confira aqui, aqui e aqui) e deputados (confira aqui) na região.

Por fim, com base nas pesquisas (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), ele tentará projetar as eleições a presidente do Brasil em 4 de outubro de 2026, daqui a pouco mais de 11 meses.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta quinta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

Diversidade: Literatura na quinta do IFF e cana na sexta da UFRRJ

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Asflucan nesta sexta na UFRRJ

A Associação Fluminense dos Plantadores de Cana (Asflucan) completa 80 anos neste sábado (25). Para marcar a data, promoverá nesta sexta (24) o VIII Seminário da Cana-de-Açúcar. No campus da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) em Campos, a programação se estenderá das 8h às 18h30.

 

Objetivo do Seminário

“Reuniremos os melhores especialistas do setor para compartilhar conhecimento e debater as variedades de cana para plantio no Brasil. O Seminário será fundamental para quem busca inovação, produtividade e sustentabilidade na agricultura, especialmente na nossa região Norte Fluminense”, resumiu Tito Inojosa, presidente da Asflucan.

 

Literatura nesta quinta no IFF

Como prova da diversidade de Campos, nesta quinta (23), um dia antes do evento da Asflucan, o IFF comemora os 20 anos do curso de pós-graduação em Literatura, Memória Cultural e Sociedade. Para tanto, traz programação (confira aqui) aberta à população, das 13h30 às 21h, no auditório Miguel Ramalho do campus Campos Centro.

 

Objetivo da pós

“O curso atua na formação de profissionais de diversas áreas, mas também forma cidadãos que queiram e estejam dispostos a pensar a memória cultural, a sociedade e a própria cultura do nosso país, especialmente a de Campos e região”, resumiu a professora do IFF Érica Luciana de Souza e Silva, coordenadora da pós.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Crianças da II Guerra e a perda de Geraldo no gol de Pedro

 

Geraldo Machado e Aluysio Cardoso Barbosa (Fotos: Divulgação e Diomarcelo Pessanha/Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Perda de Geraldo Machado

“Sua dedicação exemplar ao Direito e sua trajetória brilhante serão lembradas com respeito e admiração. Sua memória permanecerá viva na história da advocacia”. Foi a manifestação da OAB Campos à morte do seu ex-presidente Geraldo Machado, aos 87, vítima de um câncer contra o qual lutava há anos, na noite da última quarta (15).

 

Coincidência?

Anunciada (confira aqui) pela Folha, da qual Geraldo foi articulista e advogado, a notícia da sua morte ecoou rapidamente em grupos de WhatsApp. Quase no mesmo momento em que os rubro-negros, como ele, comemoravam o gol de Pedro naquela mesma noite de quarta no Nilton Santos, primeiro dos 3 a 0 do Flamengo sobre o Botafogo no Brasileirão.

 

Geraldo e Aluysio

A relação de Geraldo com a Folha, intensa desde que esta foi lançada há 47 anos, derivou da amizade ainda mais antiga com o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa. Fundador do jornal e titular desta coluna até sua morte em 2012, aos 76, Aluysio foi colega de Geraldo no Liceu de Humanidades de Campos dos anos 1950.

 

Amigos diferentes

Geraldo e Aluysio eram diferentes. Além de Flamengo, o primeiro era alto, foi atleta de basquete, combativo como advogado e engajado militante de esquerda. Tricolor, o segundo era baixo, foi atleta de futebol, um jornalista marcado pelo equilíbrio e sutil em suas posições políticas de centro. Opostos unidos em amizade sincera e completa.

 

Forma crítica de ver o mundo

Além da advocacia, Geraldo foi produtor rural, presidente da Cooperleite em Campos e membro da Academia Campista de Letras (ACL). Que também se manifestou em sua morte: “Seus artigos e crônicas, publicados na Folha da Manhã e nas redes sociais, sempre foram marcados por sua forma crítica de ver o mundo”.

 

Alternativa à bipolaridade do ódio

Distintas, as formas de ver o mundo de Geraldo e Aluysio tinham algo geracional em comum. De crianças da II Guerra (1939/1945), jovens na esperança do Brasil dos anos 1950 e adultos na ressaca ditatorial dos anos 1960 e 1970. Cuja amizade entre homens diferentes tanto faz falta como alternativa viva à bipolaridade do ódio deste novo século.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Homenagem da SFMC a Carlos Bacelar hoje no Trianon

 

Carlos Bacelar (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Homenagem a Carlos Bacelar

Às 19h de hoje, no Teatro Trianon, o biólogo e empresário Carlos Mothé Bacelar da Silva será homenageado pela Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia (SFMC). Por seus serviços à frente do Laboratório Plínio Bacelar, principal de Campos e região, Carlos receberá o prêmio Associação Fluminense de Medicina e Cirurgia de 2025.

 

Gerações à frente do Plínio

O blog Ponto de Vista, do diretor da Folha Christiano Abreu Barbosa, adiantou (confira aqui) na última quinta (16) a homenagem nesta quarta a Carlos. Da 2ª geração familiar à frente do Plínio Bacelar, no qual trabalha há 58 anos, ele assumiu seu comando nos anos 1980, que hoje divide com os filhos Leonardo, Renato e Pedro Bacelar.

 

Currículo

Formado em ciências biológicas em 1969, Carlos é membro das Sociedades Brasileiras de Microbiologias, para o Progresso da Ciência e de Análises Clínicas. Como também integra a internacional Association for Diagnostics & Laboratory Medicine (ADLM, Associação de Diagnóstico e Medicina Laboratorial), sediada nos EUA.

 

Excelência = trabalho

Com 31 unidades entre Campos, São João da Barra, São Francisco de Itabapoana, Macaé, Rio das Ostras, Cabo Frio, Quissamã, Cardoso Moreira, Italva e São Fidélis, o Plínio Bacelar é uma referência de excelência profissional na região. Condição que deve muito às quase seis décadas do trabalho de Carlos, em seus 77 anos de vida.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Brasileiro e Libertadores 2025 e eleições 2026 no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O carioca Orlando Thomé Cordeiro é estrategista político, articulista do Correio Braziliense e botafoguense. O campista Roberto Dutra é sociólogo, professor da Uenf e flamenguista. Os dois são os convidados do Folha no Ar desta terça (21), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Roberto e Orlando tentarão projetar a reta final do Brasileirão e da Libertadores da América, que tem Palmeiras e Flamengo, até aqui, como protagonistas.

Eles também analisarão os papéis do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), e do prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (PP) nas eleições do RJ a governador (confira aqui, aqui, aqui e aqui), senador (confira aqui, aqui e aqui) e deputados (confira aqui) na região.

Por fim, os dois falarão da “química” (confira aqui) entre os presidentes Donald Trump e Lula e, com base nas pesquisas (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) tentarão projetar as eleições presidenciais do Brasil em 4 de outubro de 2026, daqui a pouco mais de 11 meses.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

Virada do Japão e trabalho de Ancelotti com o Brasil até a Copa

 

Técnico italiano do Brasil, Carlo Ancelotti, em coletiva após a derrota na merecida virada de 3 a 2 para o Japão (Foto: Reprodução de TV)

 

 

Vencedor no futebol da Europa

Como treinador, o italiano Carlo Ancelotti é um vencedor nos quatro maiores campeonatos nacionais da Europa: campeão da Itália pelo Milan em 2004, campeão inglês pelo Chelsea em 2010, campeão da França pelo Paris Saint-Germain em 2013, campeão da Alemanha pelo Bayern de Munique em 2017 e campão da Espanha pelo Real Madrid em 2022 e 2024.

 

Currículo de Ancelotti fala por si

Além desses e outros títulos nacionais do melhor futebol do seu continente, Ancelotti ganhou cinco vezes a Champions da Europa como técnico: em 2003 e 2007 pelo Milan, e em 2014, 2022 e 2024 pelo Real. Seu currículo de vencedor fala por si próprio. E tem como principal característica moldar seu esquema de jogo de acordo com os seus jogadores e o adversário.

 

Classificado de mal a pior

Antes de Ancelotti assumir a Seleção Brasileira em maio, ela vinha tombando nas Eliminatórias da América do Sul à Copa do Mundo de 2026. Após passagens ruins dos treinadores brasileiros Fernando Diniz e Dorival Júnior, estava em 4º lugar na tabela. Sob o comando do italiano, terminou as Eliminatórias em 5º. Até 2022, teria que disputar repescagem para ir à Copa.

 

Ducha de água fria do Japão

Com um empate (0 a 0 com o Equador), duas vitórias (1 a 0 no Paraguai e 3 a 0 no Chile) e uma derrota (1 a 0 para a Bolívia) nos últimos quatro jogos do Brasil de Ancelotti nas Eliminatórias, a trajetória errática parecia sublimada com os 5 a 0 sobre a Coreia do Sul, no amistoso de sexta (10). Mas foi reforçado na derrota de ontem, na merecida virada de 3 a 2 do Japão.

 

Recordes negativos do Brasil

Com a sua pior campanha na história das Eliminatórias, o Brasil também bateu outra marca negativa: a primeira derrota em 14 jogos contra o Japão. De quem nunca havia tomado dois gols num mesmo jogo. E os três que levou ontem se tornam mais preocupante sob o comando de um técnico italiano, escola de futebol que tem na defesa sua maior virtude.

 

Muitas dúvidas, uma certeza

Nada estava ganho com os 5 a 0 sobre a Coreia e nada está perdido após a derrota por 3 a 2 para o Japão. Até a Copa do Mundo entre 11 de junho e 19 de julho, Brasil tem mais seis amistosos agendados, contra adversários ainda desconhecidos: 10 e 18 de novembro, 23 e 31 de março e 1 e 9 de junho. E, entre muitas dúvidas, uma certeza: Ancelotti terá muito trabalho.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Bebê de 10 meses na UTI após ataque de cão revela problema

 

 

 

Bebê de 10 meses na UTI após ataque de pit bull

Um cão da raça pit bull atacou (confira aqui) ontem (14) duas crianças pequenas, uma de 10 meses, outra de 2 anos, além de uma mulher de 29 anos, na localidade de Baixa Grande, em Campos. O caso mais grave é do bebê mais novo. Com ferimentos na cabeça, face, abdômen, tórax e pernas, passou por cirurgia e está internado na UTI Pediátrica do Hospital Ferreira Machado (HFM).

 

Outras vítimas

A criança de 2 anos teve uma lesão nas costas, enquanto a mulher foi mordida na panturrilha. Foram atendidas, receberam curativos, tomaram vacina antitetânica e tiveram alta. O cão é da própria família dos três feridos.

 

Despreparo humano

O caso revela um problema, reincidente em Campos e no Brasil: o despreparo de muitas pessoas para criarem cães. Que é inversamente proporcional ao número de veterinárias, pet shops e lojas de ração que proliferam em todos os bairros do município e do país.

 

Homem e cão há 30 mil anos

O maior erro de quem pretende criar um cão é o desconhecimento da espécie. O homem teria domesticado o lobo há cerca de 30 mil anos, antes de qualquer outra espécie animal ou vegetal, de lavrar a terra e se tornar sedentário. Nessa correlação de milênios, o cão foi sendo moldado em diferentes raças e funções humanas: caça, pastoreio, guarda, companhia.

 

Homem com dois cães presos por guia diante de um leão, pintura rupestre de 9 mil anos na Arábia Saudita (Foto: Reprodução)

 

Sociologia do cão

Animal social como o ser humano, o cão identifica neste o macho alfa da sua matilha, como quem o guia, o protege e alimenta. Num núcleo familiar humano, ele escolhe quem reproduz essas características sobre ele. Se quem cuida do cão for um empregado, este será o escolhido. E, se ninguém se impuser ao cão, seja ele macho ou fêmea, o macho alfa será ele próprio.

 

Amigo ou dor de cabeça

Um humano que não impõe limites, desde filhote, ao seu cão, cria não um amigo leal, mas uma dor de cabeça. Para si e quem mais o cerca. Quem não tem um vizinho com um cão, de raça pequena ao famoso vira-latas caramelo, que late neuroticamente e tenta avançar sobre estranhos? E cujo desequilíbrio social não seja fruto da sua péssima criação humana?

 

Paliativos

Quanto maior o cão e as falhas na sua criação, maior a dor de cabeça. Fazer leis para restringir a circulação de cães considerados perigosos, tende a mascarar o problema. No caso de um pit bull, por exemplo, o legislador ou o agente da lei seriam capazes de distinguir a raça de outras aparentadas e mais dóceis, como um staffordshire ou um american bully?

 

Bebê imaginário = bebê real na UTI

Qualquer cão só pode transitar em espaço público com coleira, guia e mão humana responsável. Qualquer cão e um lobo são geneticamente o mesmo animal. Quem cria um cão como um bebê humano imaginário, para transferir suas próprias carências, cria um problema. Como um bebê real de 10 meses que luta pela vida, em estado gravíssimo, na UTI do Ferreira.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

William Passos — Lula e Paes lideram a 1 ano da urna de 2026

 

A pouco menos de 1 ano da urna de 4 de outubro de 2026, Lula e Eduardo Paes lideram as pesquisas, respectivamente, às eleições a presidente da República e governdor do RJ (Foto: Divulgação)

 

 

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE

Brasil e RJ a menos de um ano da urna de 2026

Por William Passos

 

A menos de um ano da urna de 4 de outubro de 2026, Lula vive sua melhor aprovação (confira aqui) desde dezembro de 2024, vencendo oito cenários de 1º turno e nove de 2º turno, com boa vantagem (confira aqui) sobre todos os adversários. Foi o que revelou a Quaest nacional de outubro de 2025, divulgada na última quarta (8) e quinta (9). Nela, os nomes de Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Michelle Bolsonaro, Ratinho Júnior, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Eduardo Bolsonaro foram testados, mas foi o desempenho de Ciro Gomes, um conhecido nome da centro-esquerda, que chamou a atenção. No 2º turno, a diferença entre Lula e Ciro é de apenas 9 pontos percentuais, ante uma margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

A diferença entre Lula e Tarcísio, que era de 8 pontos na pesquisa de setembro, subiu para 12 pontos agora na pesquisa de outubro. Entre os integrantes da família Bolsonaro, Michelle Bolsonaro é a mais competitiva, com diferença de apenas 8 pontos. Parte dessa diferença, que era de 15 pontos na pesquisa de setembro, pode ser atribuída ao recall de Jair Bolsonaro, que, apesar de inelegível, segue testado pelos institutos de pesquisa. Na Quaest de setembro, a diferença entre Lula e Jair no 2º turno era de 13 pontos. Agora na Quaest de outubro caiu para 10 pontos, superando a margem de erro de 2 pontos percentuais.

A Quaest nacional de outubro de 2025 também mostrou Lula crescendo entre os mais ricos, especialmente aqueles com renda familiar mensal acima de 5 salários-mínimos (SM). Na classe média baixa e entre os mais pobres, que, tradicionalmente, concentram um eleitorado mais lulista, a aprovação ao Lula 3 variou muito pouco, assim como sua desaprovação, com ambas mantendo-se dentro do intervalo de 2 pontos percentuais para mais ou para menos da margem de erro, tanto entre os brasileiros com renda familiar mensal até 2 SM quanto entre aqueles com renda de 2 a 5 SM.

Entretanto, cabe ponderar que apesar de viver sua melhor aprovação em 2025, o Lula 3 ainda é desaprovado por 49% dos brasileiros. Em queda, já que eram 51% na Quaest nacional de setembro, a desaprovação supera numericamente os 48% que o aprovam (em setembro, eram 46%), o que abre (confira aqui) um flanco matemático, até aqui, ainda não convertido em intenção de voto pelos adversários. Nesse aspecto, cabe chamar a atenção para o desconhecimento de Tarcísio por 33% do eleitorado brasileiro, percentual que é ainda maior com Ratinho Jr. (37%), Romeu Zema (52%) e Ronaldo Caiado (54%). Assim como a rejeição, que é de 51% entre os brasileiros que conhecem Lula, mas não votariam nele de jeito nenhum, o desconhecimento do eleitorado pode abrir espaço de crescimento numa eventual campanha eleitoral.

Por sua vez, na corrida ao Palácio Guanabara, o céu da política mantém tempo firme e ensolarado para Eduardo Paes, que lidera nos quatro cenários testados (confira aqui) pela Real Time Big Data de outubro de 2025, com margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. Flávio Bolsonaro, que tem, até aqui, a primeira cadeira ao Senado assegurada nas projeções de todos os institutos confiáveis (confira aqui e aqui), incluindo (confira aqui) a Real Time Big Data, é o candidato com a menor diferença para Eduardo Paes, o que pode colocá-lo, em caso de não candidatura ao executivo estadual, como um cabo eleitoral importante na campanha e na composição da chapa aliada e mesmo das chapas adversárias.

No entanto, a grande novidade da Real Time Big Data é o desempenho do ex-governador Anthony Garotinho, que, com 16% de intenção, apresenta a menor diferença para o atual prefeito do Rio, com a exclusão do nome de Flávio Bolsonaro. Garotinho, porém, lidera a rejeição múltipla (52%), seguido por Flávio Bolsonaro (44%), Eduardo Paes (32%), Rodrigo Bacellar (31%), Monica Benício (30%), Washington Reis (24%) e Ítalo Marsili (16%).

Com maioria do eleitorado concentrado na Região Metropolitana, as cidades do Rio de Janeiro (4.871.615 eleitores), Duque de Caxias (659.160), São Gonçalo (649.126), Nova Iguaçu (605.835), Niterói (401.210), São João de Meriti (361.814), Campos dos Goytacazes (364.227) e Belford Roxo (341.395) concentram o maior número de eleitores, sendo as mais decisivas dentro do Estado. A cidade do Rio, aliás, tem o segundo maior colégio eleitoral do país, perdendo somente para a cidade de São Paulo. Niterói, por sua vez, apesar da menor população residente que Campos, tem mais eleitores aptos a votar, de acordo com o cadastro do TSE.

Ainda na Real Time Big Data da última quinta-feira (9), com a liderança de Flávio Bolsonaro, que já é Senador e deve tentar a reeleição, a segunda cadeira ao Senado segue em disputa. Quando colocado, o nome do atual governador Cláudio Castro encontra-se bem-posicionado, alcançando 22%, ante os 29% de Flávio, o que poderia significar uma dobradinha do PL. Quando excluído, aparecem com segundo melhor posicionamento os nomes de Benedita da Silva (chega a 17%), Carlos Portinho (alcança 15%) e Washington Reis (chega a 12%). Sem Benedita, o destaque fica para Silas Malafaia (chega a 14%), Pedro Paulo (também chega a 14%), Washington Reis (alcança 11%) e Neguinho da Beija-Flor (chega a 10%).

Ainda na disputa do Senado, cabe destacar que o nome de Anthony Garotinho também chegou a ser testado em dois cenários da Real Time Big Data da última quinta-feira, com a presença de Flávio Bolsonaro e Cláudio Castro. Considerando o conjunto dos cenários, a intenção de Flávio vai de 26% a 32%, com Castro variando entre 20% e 22% e Garotinho, sem mandato e com recall bastante consolidado, oscilando entre 8% e 10%.

 

A Virtù, a Fortuna e as fiandeiras —  Lula, Trump e Tarcísio na mesa de bar

 

(Imagem gerada por IA)

 

— E aí? Viu a nova pesquisa Quaest? — indagou Jorge, já sentado à mesa do bar, copo americano de cerveja à mão.

— Rapaz, vi, sim. São as fiandeiras dos gregos. Se a eleição fosse hoje, você ganharia a nossa aposta. Lula abriu outubro, quando as eleições de 2026 passam a ser contadas só em meses, ampliando sua liderança, fora de qualquer margem de erro, nos oito cenários ao 1º turno e nos nove ao 2º turno da Quaest — resumiu a ópera Aníbal, enquanto se sentava à mesa, antes de pedir um copo ao garçom.

— É, você foi apostar em Tarcísio e não contava com a reação do velhinho de Garanhus. Que está mais vivo do que nunca.

— Eu também dizia a você: “Mas tem o Canadá”. Lá, os conservadores tinham 20 pontos de vantagem nas pesquisas às eleições de abril. Aí, Trump assume em janeiro. E volta à Casa Branca ameaçando aumentar as tarifas e anexar o país vizinho como 51º estado dos Estados Unidos. Resultado? Virou as pesquisas de ponta-cabeça. E, três meses depois, os canadenses elegeram Mark Carney, da esquerda deles, como o seu primeiro-ministro.

— Pois é. Antes de subirem ao palco da manifestação de Copacabana, para ajudarem a enterrar a PEC da Bandidagem e junto o PL da Anistia, ao lado de Chico, Paulinho da Viola e Djavan em 21 de setembro, Caetano e Gil tinham cantado: “O Haiti é aqui”. Ao que parece, o Canadá também.

— Quando apostei com você que Tarcísio venceria a eleição a presidente em 2026, era o que todas as pesquisas mês a mês indicavam, desde a virada de 2024 a 2025. No início de junho, o jornalista Thomas Traumann, ex-ministro da Comunicação de Dilma, reconheceu ao analisar a pesquisa Quaest daquele mês: “Lula deixou de ser o favorito para a eleição em 2026”.

— Isso eu sou obrigado a reconhecer. Naquela Quaest de junho, Lula não passava do empate técnico na simulação de 2º turno não só com um Bolsonaro inelegível, mas também com Tarcísio, Michelle, Ratinho Junior e Eduardo Leite.

—  Pois é. E não estava melhor em nenhuma outra pesquisa. De dezembro de 2024 até junho de 2025, a queda de Lula em intenção de voto e aprovação de governo vinha aumentando gradativamente, a cada nova pesquisa nacional, com medição quase semanal, por vários institutos. O turning point de Lula, a virada da guerra na batalha de Stalingrado contra a Alemanha de Hitler ou a de Midway contra o Japão de Tojo, foi a carta de Trump em 9 de julho, ameaçando taxar o Brasil por conta do julgamento de Bolsonaro no STF.

— Mas a reação de Lula também foi muito boa. Chamou para si a defesa da soberania nacional. Com um trabalho muito bom do Sidônio Palmeira também nas redes sociais. Em que a esquerda tomou da direita a bandeira do Brasil dentro do campo virtual da direita. Como fez também no campo real, substituindo a bandeira dos EUA dos bolsonaristas pela anistia, no 7 de setembro da Paulista, pela do Brasil no 21 de setembro e na mesma Paulista.

— Sim. Sidônio trabalhou bem. Mas teve o que vender. Lula foi melhor ainda.

— Ele não abaixou a cabeça para o tarifaço dos gringos e ainda fez um discurso duro contra as ações do governo estadunidense no coração do Império, em Nova York, na Assembleia Geral da ONU. Para ser respondido na sequência por Trump. Que, em seu discurso longo, falou de improviso da tal “química” que teria rolado quando cruzou por segundos com Lula.

— Pois é. Só que, na Assembleia Geral, Lula se limitou a ler o discurso do teleprompter. Na coletiva de imprensa que deu dois dias depois, ainda em Nova York e novamente na ONU, ele não só confirmou a “química” com Trump, como respondeu todas as perguntas dos repórteres de todo o mundo falando de improviso. E, sem repetir nenhuma das batatadas verbais que já estavam marcando esse seu terceiro mandato de presidente, ele também foi muito bem.

— E depois ainda teve a conversa por videoconferência entre os dois, na segunda desta semana, já em 6 de outubro. Que a Quaest, feita de 2 a 5 de outubro, nem pegou. Pelo estilo errático de Trump, nada pode ser descartado. Nem a humilhação que ele impôs a Zelensky na Casa Branca. Mas se Lula conseguir derrubar as tarifas ao Brasil e tirar a aplicação da Lei Magnitsky de cima de Moraes e da mulher, vai crescer ainda mais nas pesquisas a 2026.

— Sabe qual é a verdade? E mesmo quem não gosta de Lula é obrigado a reconhecer? Como político, ele é jogador de jogo grande. Sempre cresce nos maiores palcos e diante dos maiores adversários. É quase como se precisasse disso para poder jogar tudo que sabe.

— É verdade. E que palco maior que a Assembleia Geral da ONU? E que adversário maior do que Trump? São o Maracanã e o Real Madrid da geopolítica.

— Enquanto isso, Tarcísio está parecendo o Wallace Yan na derrota do Flamengo para o Bahia. Inexperiente como político profissional, confundindo encarar responsabilidade com brigar com o juiz e o time adversário, falou em “tirania de Moraes” na Paulista do 7 de setembro, não foi à posse de Fachin como presidente do STF para ir visitar Bolsonaro em prisão domiciliar, e depois ainda falou aquela tremenda besteira da Coca-Cola na crise do metanol.

— Para quê? Para ter que pedir desculpas depois. Falou que não entendia de bebida alcoólica em provocação velada a Lula. Enquanto tem gente morrendo em seu estado envenenada por contaminação de metanol em bebida destilada. E, pior, é um risco de saúde pública e às redes de bares e restaurantes que São Paulo ainda exportou para outros estados.

— Um governante não pode fazer pouco caso da morte dos governados. Se foi menos debochado na forma, o conteúdo da fala de Tarcísio se assemelhou ao “E daí? Eu não sou coveiro!” de Bolsonaro diante das milhares de mortes de brasileiros por Covid.

— Parece mesmo com as molecagens do Wallace Yan contra o Bahia. Mas o que você quis dizer com as fiandeiras dos gregos, no início do papo? Ia perguntar e acabei esquecendo.

—  Que Lula pode até se atrapalhar em jogos pequenos e médios. Mas cresce nos grandes. As fiandeiras são as Moiras da mitologia grega, que tecem o destino dos homens em tapetes. Maquiavel véio de guerra, que fundou a ciência política sem nenhuma mitologia, dizia que o bom governante tem que ter Virtù e Fortuna. E que uma é tão importante quanto a outra.

— Beleza. A Virtù é capacidade do governante de se adequar às circunstâncias para permanecer no poder. E a Fortuna é o acaso, a sorte. Que Lula, inegavelmente, tem demais. Mas e as fiandeiras?

— Para nós e a maioria, elas tecem um tapete de “bem-vindo” de entrada de residência. Pela Fortuna de Lula, sua vida parece ser tecida pelas Moiras, desde Garanhuns, em um tapete persa — disse Aníbal, enquanto tentava ler a sorte das urnas de 2026 na espuma no fundo do copo americano de cerveja vazio, que tinha acabado de virar pela garganta.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.