Não se conhecem os protagonistas do futuro. Mas já se sabe quem será atropelado por ele

Onde está a saída

 

 

Jornalista e escritor Fernando Gabeira
Jornalista e escritor Fernando Gabeira

Onde está a saída?

Por Fernando Gabeira

 

Tirei terno e gravata do armário e fui a Brasília. Onde está a saída para a crise? Levei a pergunta para uma dezena de políticos experimentados. Nenhum deles apontou a saída imediata. É um cuidado razoável. O máximo que se consegue é apontar variáveis que possam definir os rumo da crise. Comportamento do governo, ajuste econômico, curso da Operação Lava-Jato são as mais citadas.

Asensação predominante é a de que algo vai acontecer, e ninguém sabe precisamente o que é. A hipótese de um governo sangrando até 2018 é a mais improvável, embora seja esse o desejo de uma parcela de observadores, dentro e fora do Congresso. Marchamos para o desconhecido. É uma fase delicada. Os conservadores tendem a achar que o diabo desconhecido é sempre pior do que o existente. Querem mudança, mas dentro de um quadro planejado, com resultados previsíveis. Mas, nesses casos, sempre existe o argumento de que, muitas vezes, é preciso caminhar, mesmo sem saber o que nos espera, com uma abertura para a novidade. Quanto ao ajuste econômico, deve ser objeto de muita discussão, basicamente sobre quem paga a conta. A tendência é de dias mais duros, com possibilidade de racionamento de energia. É o que os técnicos propõem. Não porque faltará energia para o consumo em 2015. Mas porque é preciso poupar, pois, sem oferta adequada de energia, não existe retomada em 2016.

De qualquer forma, o ajuste econômico passou a ser de interesse nacional, não só por causa da realidade interna, mas também da percepção externa. Graças à expectativa do ajuste, o Brasil não foi rebaixado à condição de país especulativo, com inevitável fuga do capital. Sou pessimista quanto aos passos do governo. O documento que vazou da Secretaria de Comunicação mostra como estão perdidos. Falam de tudo, de robôs, redes sociais, blogueiros, propaganda, mas não falam da mensagem. Dilma tem os microfones à disposição. Mas não sabe usá-los. Em alguns casos é possível aprender. Pessoas tímidas, executivos de grandes empresas fazem um treinamento, chamado media training. Mas não há treino que possa criar um líder para conduzir o país numa tempestade.

Não há mensagem nem presidente capaz de comunicá-la. O panelaço segue como a batida da temporada. A saída de Dilma é usar a tática de guerrilha: falar quando o adversário está desprevenido e recuar quando ele está atento. A outra variável é a Operação Lava-Jato, outro dado positivo que teve peso para que o Brasil não fosse rebaixado pelas agências internacionais. No momento, o foco é o PT.

Os políticos deram azar em ter o juiz Sérgio Moro pela frente. Especialista em lavagem de dinheiro, sabe que rastrear o curso da grana é o caminho real nas investigações. Com base na informação dos delatores e em recibos de empresas, as investigações demonstram o golpe do PT: transformar propinas em doações legais. Leio que o Planalto quer que o PT demita o tesoureiro. O PT hesita. É difícil passar a ideia de que foi tudo culpa de um só homem. É gente muito calejada para fingir que João Vaccari era uma fada de barba que produzia fortunas apenas com o toque de sua vara de condão. Isso irá parecer um pouco aquela lenda urbana da filha de família que trabalha fora e volta sempre com presentes caros para casa. E aí os parentes descobrem, um dia, que a menina faz programas.

A variável mais importante é pouco discutida em Brasília. Dois milhões de pessoas foram às ruas, sem nenhum incidente. A sociedade brasileira ganhou maturidade nas demonstrações e mantém-se vigilante porque sua sorte está em jogo. O agravamento da crise, a dureza do ajuste econômico e a mobilização social podem nos levar a um novo momento. Não ouso descrevê-lo. Sinto apenas que o dilema brasileiro poderá ser esse: fazer um omelete sem quebrar os ovos. Essa tarefa que parece impossível para os estrangeiros não é tão distante assim das soluções históricas no Brasil. Se os culpados pela corrupção na Petrobras forem punidos e chegarmos a um consenso mínimo sobre o ajuste econômico, abre-se a possibilidade de um governo de unidade nacional. O PMDB tem ocupado o lugar do PT. Mas está encalacrado na Operação Lava-Jato. Teria, em caso de sobrevida, a possibilidade de um aceno nacional. O PT, que sempre dividiu o país entre pobres e ricos, brancos e negros, reacionários e progressistas, não tem chance de tentar esse caminho.

O momento é verde-amarelo. Sem nenhum juízo de valor sobre símbolos históricos, quem o confundiu com o vermelho cometeu um erro decisivo. O Estado não é um partido, uma política externa não pode refletir a cabeça da minoria, os direitos humanos não englobam apenas os escolhidos. Quando desenharam uma estrela no jardim do Palácio e tiveram que removê-la, deveriam ter compreendido que é insuportável viver num país que tem dono, seja ele um partido ou um demagogo.

Não se conhecem os protagonistas do futuro. Mas já se sabe quem será atropelado por ele.

 

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Ajuste fiscal de Dilma para sair da crise tem 85% bancado pelo bolso do brasileiro

Infográfico do Estadão (clique na imagem para ampliá-la)
Infográfico do Estadão (clique na imagem para ampliá-la)

 

 

Por Alex Salomão

 

A maioria das pessoas não sabe para que serve o superávit primário — economia de recursos feita pelo governo para manter as contas no azul e garantir um extra que cobre o pagamento da dívida pública. Neste ano, porém, todos os brasileiros vão tirar dinheiro do bolso para ajudar nessa economia. Do bolo de recursos que o governo já garantiu para o superávit, 85% são bancados pela população.

Segundo cálculo do economista Mansueto Almeida, feito a pedido do Estado, as medidas anunciadas pela nova equipe conseguiram reunir até agora R$ 45 bilhões dos cerca de R$ 66 bilhões que fixou como meta para 2015 (o compromisso é fazer o equivalente a 1,2% do Produto Interno Bruto do ano). Ocorre que apenas R$ 7 bilhões são cortes na máquina pública, basicamente de despesas de custeio, como cafezinho e xérox.

O grosso dos recursos, R$ 38 bilhões, vai sair do orçamento das famílias (veja quadro acima). Uma parte virá da cobrança de tributos, como a volta da Cide nos combustíveis e a mudança no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), com o fim da desoneração de veículos e a alta na taxa para cosméticos. Um estudo da LCA Consultores, encomendado pelas indústrias do setor, concluiu que um simples batom — que pelas estimativas vai subir mais de 12% — dará um quinhão ao ajuste fiscal. “Não tinha como ser diferente porque esforço fiscal se faz com corte de gasto ou alta de tributo”, diz Mansueto. “Ainda assim, o governo terá dificuldades para cumprir a meta.”

Para o economista, nem tudo que é esperado virá. Os R$ 18 bilhões estimados com as mudanças em benefícios sociais, como pensão das viúvas jovens e seguro-desemprego, devem cair a R$ 3 bilhões. Outras despesas, como o Bolsa Família, vão crescer e reduzir os ganhos da medida. O fim da desoneração da folha de pagamento, por sua vez, gerou tanta polêmica que, para Mansueto, é uma incógnita. Ele nem a considerou na estimativa. “Para fechar a meta, o governo terá de fazer um corte brutal de investimentos ou elevar carga tributária, punindo o já comprometido crescimento.”

Contas engessadas. Matematicamente, o superávit primário se dá quando a receita é maior que a despesa (excluindo-se gastos com juros). Assim, ele sinaliza que não vai deixar a dívida pública fugir do controle, o que fortalece a confiança dos investidores e gera um ciclo virtuoso na economia.

O Estado brasileiro sempre gastou demais. Em parte, com a proliferação de órgãos e funcionários. Pesam também as obrigações com a população, principalmente após a Constituição de 1988. O governo deve garantir previdência, saúde e educação universais sem ter mecanismos financeiros adequados. “Os benefícios criados na Constituição atentam contra a aritmética”, diz William Eid Junior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas.

Para os economistas, após a crise de 2008, a política adotada pelo governo aprofundou as distorções: houve excesso de desonerações e benefícios setoriais, além de outros mecanismos de intervenção na economia que levaram à queda da arrecadação, do investimento e do crescimento. “O descontrole dos últimos anos foi grave”, diz o economista Marcos Lisboa.

O governo sinaliza que pode cortar ministérios para dar a sua contribuição. A medida, porém, diz o economista Fábio Klein, da Tendências Consultoria, é “simbólica”. Os ministérios virariam secretarias. Não haveria demissões. A conta em pouco cairia. Só uma reforma no Estado mudaria o cenário.

 

Publicado aqui, no estadao.com

 

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É a economia, estúpido! — De reduto do PT, Nordeste dá 55% de ruim ou péssimo a Dilma

Doméstica desempregada Jaguaraci Freitas, de Salvador (fto de Raul Spinassé - Folhappress)
Doméstica desempregada Jaguaraci Freitas, de Salvador (fto de Raul Spinassé – Folhappress)

Por Fernando Canzian e João Pedro Pitombo

 

O forte aumento da rejeição ao governo Dilma Rousseff no Nordeste ocorre no mesmo momento de uma perda importante do dinamismo na região, que chegou a crescer a velocidades “chinesas” ao longo da década passada.

Segundo o Datafolha, o índice de ruim/péssimo de Dilma saltou de 11% para 55% de outubro a março no Nordeste. O período coincidiu com a disparada da inflação medida regionalmente e com a primeira queda em vários anos do saldo líquido de empregos formais na região.

Embora ainda conserve desempenho superior à média nacional, a atividade no Nordeste vem convergindo para o baixo ritmo do resto do país.

A região também perde terreno em áreas intensivas em mão de obra, como a construção civil. Alguns grupos regionais já reveem abruptamente suas expectativas.

Em 2014, o Nordeste concentrou 30% das demissões na construção civil, setor que cortou 106 mil vagas no país. O recuo de 3,4% na média nacional foi menor que o de 4,6% na região nordestina.

Cortes nas verbas e nos pagamentos de obras de infraestrutura e do Minha Casa Minha Vida são alguns dos principais motivos para o aumento das demissões na região, avalia Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção da FGV/Ibre.

Diante do novo cenário, um dos principais grupos do setor de material de limpeza do Norte e Nordeste, o Raymundo da Fonte — detentor da popular marca Brilux —, readequou sua projeção de crescimento para 2015, de 12% para 5%.

“Há uma acomodação do mercado e queda no consumo. Se conseguirmos manter o ritmo de produção e não demitir, já vai ser muito bom”, diz o diretor comercial do grupo, Romero Longman.

“As pessoas colocaram o pé no freio, comprando em quantidade menor e buscando marcas mais baratas”, afirma Teobaldo Costa, presidente da Associação Baiana de Supermercados e dono do grupo Atakarejo, o maior do segmento na Bahia.

Segundo o Datafolha, o Nordeste concentra a maior proporção de eleitores que votaram em Dilma em outubro e que agora consideram seu governo ruim/péssimo: 24% estão “frustrados”, ante a média nacional de 16%.

“A rejeição maior vem da frustração com a economia, do medo do desemprego e da percepção da inflação fora do controle. Tudo temperado pelos escândalos de corrupção”, afirma Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha.

 

Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com

 

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Empresas do Petrolão financiaram mais da metade do Congresso Nacional

Funcionários limpam a lama do espelho d’água do Senado (foto de Ailton de Freitas - O Globo)
Funcionários limpam a lama do espelho d’água do Senado (foto de Ailton de Freitas – O Globo)

 

 

Por Daniel Haidar

 

Mais da metade dos deputados federais em atividade no país recebeu doações dos grupos empresariais acusados de participar do megaesquema de corrupção que assaltou os cofres da Petrobras. Levantamento feito pelo site de Veja aponta que 286 dos 513 parlamentares tiveram parte de suas campanhas financiadas pelas empresas do clube do bilhão, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

No total, as empresas investigadas ou suas subsidiárias doaram R$ 67 milhões para deputados federais na campanha do ano passado. Despontam na lista 45 parlamentares do PT que se beneficiaram com R$ 10,8 milhões, a bancada mais favorecida com contribuições eleitorais das empresas do cartel. O partido é apontado em depoimentos de delatores da Operação Lava Jato como o principal responsável pelo propinoduto. PMDB e PP, que também eram abastecidos no esquema, receberam respectivamente R$ 8,9 milhões e R$ 7,9 milhões em doações oficiais no ano passado. Deputados do PSDB amealharam R$ 8,1 milhões.

O levantamento considera as contribuições oficiais feitas diretamente aos parlamentares e também recursos repassados por diretórios ou comitês para eles. Isoladamente, as doações não representam nenhum problema já foram declaradas à Justiça Eleitoral. Mas uma das descobertas dos investigadores da Operação Lava Jato foi que parte do pagamento de propina das empresas do cartel foi desviado dos cofres da Petrobras e transformado em financiamento de campanha. Em depoimentos prestados no acordo de delação premiada, o empresário Augusto Mendonça Neto, sócio do grupo Toyo Setal, afirmou que o ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque exigia que parte dos recursos superfaturados em obras da estatal fossem repassados como contribuições partidárias. Recentemente, o vice-presidente da Camargo Corrêa, Eduardo Leite, que também fez acordo em troca de possível punição mais branda da Justiça, também assumiu que pagou propina disfarçada em doações eleitorais.

Dos 22 deputados investigados no Supremo Tribunal Federal (STF) por envolvimento no petrolão, 15 receberam doações das empresas do esquema de corrupção. O deputado federal Nelson Meurer (PP-PR) foi quem mais faturou, com 1,1 milhão de reais da Galvão Engenharia. Vander Loubet (PT-MS), outro parlamentar na mira do STF, ganhou 327.283 reais, da Andrade Gutierrez e da Engevix.

Herdeiros de políticos investigados também foram beneficiados. Filho do ex-ministro José Dirceu (PT), o deputado Zeca Dirceu (PT-PR) levantou 760.000 reiais de Engevix, Carioca Engenharia e UTC. Os pagamentos chamam atenção porque o Ministério Público investiga a legalidade de 2,3 milhões pagos pela UTC e 1,1 milhão de reais desembolsados pela Engevix para José Dirceu por supostos serviços de consultoria. Filho do ex-ministro das Cidades Mário Negromonte (PP-BA), que é investigado no STF, Mário Negromonte Júnior ganhou 427.752,14 reais do clube do bilhão em doações.

As corridas eleitorais das principais lideranças foram bancadas no ano passado pelas empresas do clube. Estrelas do duelo da conflagrada base aliada da presidente Dilma Roussef, o líder do PMDB, Leonardo Picciani (RJ), obteve 799.000 reais, e o líder do PT, Sibá Machado (AC), ganhou 120.000 reais. O líder do governo, José Guimarães (PT-CE), não ficou atrás: 285.000 reais.

CPI – Os beneficiados com doações do clube são maioria em praticamente cada reduto importante da Câmara. Na CPI da Petrobras, dos 54 integrantes, entre suplentes e titulares, 29 receberam contribuições de empresas investigadas no esquema. O presidente da comissão, Hugo Motta (PMDB-PB), e o relator, Luiz Sérgio (PT-RJ), faturaram respectivamente 454.572 reais e 962.500 reais.

No Conselho de Ética, também foram beneficiados 24 dos 34 integrantes já empossados. O presidente do colegiado, José Carlos Araújo (PSD-BA), recebeu 20.817 reais, de Odebrecht, OAS e UTC. O corregedor da Casa, Carlos Manato (SD-ES), ganhou 200.351 reais das empresas do petrolão. Dos 11 integrantes da Mesa Diretora, seis receberam contribuições do cartel e, entre eles, o primeiro-secretário, Beto Mansur (PRB-SP), foi quem mais levantou fundos: 533.944 reais. Investigado no STF, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), não declarou doação das empresas do petrolão no ano passado, mas recebeu 500.000 reais da Camargo Corrêa na campanha de 2010.

Entre os conglomerados investigados na Operação Lava Jato foi a Odebrecht quem mais contribuiu para campanhas de deputados federais em atividade. Repassou 12,1 milhões de reais só no ano passado. O grupo tenta, com um time de advogados, impedir que o Ministério Público tenha acesso a dados bancários da Suíça. De lá pode vir a confirmação do relato do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa. Ele confessou em acordo de delação premiada que recebeu mais de 20 milhões de dólares do grupo empresarial.

Mas a empreiteira que mais preocupa os parlamentares no momento é a UTC. O sócio-controlador da empresa, Ricardo Pessôa, está preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba desde o dia 14 de novembro e negocia um acordo de delação premiada com os investigadores. O grupo doou 7,1 milhões de reais a deputados federais em atividade na última eleição. Como revelou VEJA, Pessôa diz ter repassado 30 milhões de reais para candidatos do PT na campanha eleitoral de 2014, sendo que a maior parte percorreu caminhos legais e foi declarada como doação eleitoral.

Responsável pela revelação de que a propina transitava no sistema financeiro como doação eleitoral, o grupo Toyo Setal diminuiu as doações na última eleição. Mas o empresário Mendonça Neto ainda deve esclarecer por que abriu o bolso no ano passado antes de fechar acordo de delação premiada para evitar a prisão. Distribuiu 200.000 reais, somente para deputados do PT. Quem mais faturou foi a deputada Benedita da Silva (PT-RJ), que ganhou 100.000 reais da Toyo Setal Empreendimentos e da Energex. Luiz Sérgio, relator da CPI da Petrobras, levou 50.000 reais e Henrique Fontana (PT-RS) faturou outros 50.000 reais.

 

Publicado aqui, na veja.com

 

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Entre 2007 e 2013, empreiteiras do Petrolão fizeram 40% das doações de PT, PMDB e PSDB

Info estadão - doações empreiteiras
Infográfico do Estadão (clique na imagem para ampliá-la)

 

 

Por Daniel Bramatti e Valmar Hupsel Filho 

 

O conjunto das empreiteiras investigadas pela Operação Lava Jato foi responsável, em média, pela doação de 40% dos recursos privados canalizados para os cofres dos três principais partidos do País – PT, PMDB e PSDB – entre 2007 e 2013. No período, as legendas, somadas, receberam pelo menos R$ 557 milhões de 21 empresas envolvidas no escândalo.

Em valores absolutos, o PT foi o principal beneficiado pelos repasses oficiais do cartel acusado de superfaturar obras na Petrobras. Mas o cerco ao grupo também ameaça as finanças do maior partido de oposição: 42% das doações privadas recebidas pelo PSDB vieram das empresas investigadas.

É nesse contexto de crise de financiadores que o Congresso decidiu triplicar a destinação de recursos públicos para o Fundo Partidário, que banca parcialmente o funcionamento das legendas. Na votação do Orçamento da União, há duas semanas, a dotação do fundo foi elevada de R$ 290 milhões para R$ 868 milhões.

No período de sete anos analisado pelo Estadão Dados, o PT recebeu R$ 321,9 milhões das empreiteiras investigadas, em valores atualizados pela inflação. O PSDB recebeu menos da metade: R$ 137,9 milhões. Os dados se referem somente às doações feitas aos diretórios nacionais dos partidos.

A Operação Lava Jato, que investiga desvios e superfaturamentos de contratos de empreiteiras com a Petrobras, desvendou a existência de um cartel formado por quase todas as grandes empresas de construção do País. Cinco delas – Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa, Grupo Odebrecht e OAS – respondem por quase 77% dos repasses feitos pelas empresas investigadas aos três partidos nos últimos anos.

 

Foco

As doações do chamado cartel da Lava Jato estão sob os holofotes da Justiça por causa da suspeita de que camuflavam pagamentos de propina. Com base em depoimentos de envolvidos no escândalo, o Ministério Público Federal afirma que repasses oficiais feitos ao PT eram, na verdade, pagamento em troca de benefícios em contratos firmados com a Petrobrás. Outros partidos, como o PMDB e o PP, teriam se utilizado de canais diferentes para coletar recursos desviados.

Augusto Mendonça, diretor do grupo Setal, entregou à Justiça Federal recibos de doações partidárias e eleitorais feitas por suas empresas para o PT entre 2008 e 2012. Segundo ele, era dessa forma que se dava o pagamento de propinas desviadas da Petrobrás. Mendonça foi preso e assinou um acordo de delação premiada com os promotores.

O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que também colabora com as investigações em troca de redução de penas, já declarou em depoimento que as doações aos partidos são, na verdade, “empréstimos” cobrados posteriormente na forma de benefícios em seus negócios com o governo.

Líderes do PT negaram o envolvimento em irregularidades e acusaram os procuradores do caso Lava Jato de tentar criminalizar doações feitas conforme as determinações legais – com recibo e registradas no Tribunal Superior Eleitoral. Petistas também alegaram que as empresas acusadas financiaram diversos partidos, inclusive os de oposição.

No PT, o principal alvo dos procuradores é o tesoureiro João Vaccari Neto. Segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público e acolhida pela Justiça, Vaccari participou de reuniões com Renato Duque, então diretor de Serviços da Petrobrás, nas quais teriam sido acertados pagamentos de propinas ao PT na forma de doações legais.

Segundo o Luiz Flávio D’Urso, advogado de Vaccari, o tesoureiro “não recebeu ou solicitou qualquer contribuição de origem ilícita destinada ao PT”.

 

Publicado aqui, no estadao.com

 

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Senador do PT: “governo Dilma pune trabalhador, mas não cuida da corrupção”

Paim e Dilma rachados
Petista histórico, senador Paulo Paim está cada vez mais distante do governo Dilma e do partido que ajudou a consolidar e levar ao poder (arte de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Por Laryssa Borges

 

Petista histórico, o ex-deputado constituinte e senador Paulo Paim (RS) está prestes a deixar o partido (aqui) a que se filiou há 30 anos. Ele integra a lista de pelo menos 16 senadores que apresentaram recentemente ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) consultas sobre regras de migração partidária. Mas, ao contrário das motivações político-eleitorais que regem os interesses, por exemplo, da senadora Marta Suplicy (PT), que pretende disputar a prefeitura de São Paulo, Paim admite se filiar ao PMDB, PDT ou PSB e até mesmo fundar uma nova sigla se o governo insistir em aprovar, no Congresso Nacional, medidas que endurecem as regras para concessão de benefícios trabalhistas — como seguro-desemprego, pensão por morte e seguro-defeso. Para o senador, a população se sente “enganada” pelo governo, que nas eleições de outubro prometera manter intactas as conquistas previstas em lei. “Em vez de aumentar a fiscalização contra a corrupção, o trabalhador é mais uma vez chamado para pagar a conta”, diz. Leia a entrevista:

 

Como o senhor pretende atuar nas duas medidas provisórias que afetam os direitos dos trabalhadores? 

Eu fiquei constrangido e perplexo com as duas medidas provisórias que tiram direito dos trabalhadores. E essa não é uma reação só minha, é de todas as centrais, de todas as confederações, sindicatos, associações de trabalhadores, que não concordam com o que o governo fez. Sou o último dos parlamentares do PT que participou da Constituinte e hoje ainda está em atividade, sempre em uma linha de coerência. Como é que a essa altura do campeonato eu vou votar contra pescador, contra a viúva, contra o trabalhador desempregado? Não tem sentido. Não tem como mexermos nesses direitos trabalhistas. O governo alega que são apenas correções e não supressão de direitos adquiridos. Claro que sou a favor de medidas moralizadoras. Mas a questão é ampliar a fiscalização, cruzar os dados nesses tempos de tecnologia para detectar as irregularidades. A gente sabe que dá para fazer. Podemos combater casos específicos de irregularidades, mas não fazer como o governo, mudar a lei e diminuir o valor dos benefícios dos trabalhadores. Não podemos aceitar que o governo use a desculpa de moralizar quando na verdade quer trazer prejuízo para o conjunto dos assalariados brasileiros e aposentados. Está aí o PIB de 0,1%. Em época de recessão, todos sabemos que o desemprego está aumentando. No Rio Grande do Sul, mais de 22.000 trabalhadores no polo naval foram demitidos. Como vou aceitar essa nova quarentena para o seguro-desemprego quando sabemos que a alta rotatividade é real?

 

Por que acha que a presidente Dilma decidiu editar as MPs contra os trabalhadores? 

Essas MPs vão na contramão de tudo que pregamos ao longo de nossas vidas. A base está, de fato, constrangida. Talvez a máquina do governo não quis enfrentar um outro debate, que é reforma tributária profunda para que de fato quem ganhe mais pague mais. Mas nesse país parece que é tudo ao contrário. Poderíamos ter enfrentado o debate de aumentar a fiscalização, mas o governo Dilma foi pelo caminho mais fácil. Poderíamos discutir como tributar fortunas, uma proposta defendida até pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Deveríamos chamar os empresários, os trabalhadores, a base do governo, a oposição e dialogar sobre esses temas.

 

A presidente Dilma então optou por punir os trabalhadores? 

Não usaria esse termo. Conheço Dilma há mais de 30 anos, como conheço o Lula há mais de 30 também. Na minha primeira candidatura à Presidência do sindicato dos metalúrgicos, a presidente Dilma e o então marido dela Carlos Araújo me ajudavam a entregar boletim na porta de fábrica. Por isso, não consigo assimilar que ela tenha optado por essas medidas contra os trabalhadores. Acho que o núcleo duro dentro do governo, liderado pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy, ganhou o debate interno e defende esse lado, que nos preocupa muito.

 

O senhor manifestou interesse de deixar o PT por causa do pacote de ajuste fiscal? 

Nos debates internos do PT me disseram que, como eu discordava tanto do pacote antitrabalhador, eu deveria sair do PT. Se tiver que sair, eu saio mesmo, não tem problema nenhum. Não vou votar contra aquilo que eu escrevi durante toda a minha vida. O PT também escreveu esse discurso a favor do trabalhador durante toda a vida e agora mudou. Se não houver negociação, eu não tenho outro caminho a não ser deixar o PT. Será meio que natural, como as águas do rio irem em direção ao mar A luta interna no PT é muito forte e muito dura. Se o Lula, com toda a popularidade que tinha na época, negociou a reforma da Previdência no seu governo e acabou concordando em votar um texto alternativo que ficou conhecido como PEC Paralela, por que nesse momento de crise a gente não negocia?

 

Que consequências projeta para a imagem do governo caso as medidas sejam aprovadas e diminuam os direitos do trabalhador? 

Ainda que o governo ganhe e consiga emplacar as medidas de ajuste fiscal, isso vai ser um tiro no pé. O povo humilde, que já está indignado, quando vir que o próprio Congresso consolidou esse desastre, vai se rebelar e alguém vai ter que pagar a conta politicamente. E quem vai pagar são todo o Congresso e os partidos aliados. Como vão explicar que votaram contra o trabalhador? Não tem como explicar. Principalmente diante da promessa nas eleições de não mudar os direitos trabalhistas. Isso é fato e é real. Com essas medidas, o governo está se voltando contra eleitores que o apoiaram. E não tenho nenhuma dúvida de que essa fatia da população pode engrossar os protestos de rua marcados para 12 de abril. Sou um defensor da democracia, mas estamos colocando o próprio regime em xeque com medidas que não cabem.

 

Como o senhor avalia a situação do governo, que quer rever os benefícios trabalhistas ao mesmo tempo em que tem de lidar com escândalos de corrupção? 

Nesse escândalo do Carf, por exemplo, estimam fraudes de R$ 19 bilhões. Devemos combater a impunidade e a corrupção e aprovarmos uma lei dura para que aquele que roubou dinheiro da saúde, da educação e da habitação, além de condenações de cadeia, seja penalizado a devolver pelo menos o dobro do que roubou. Temos que assustar os corruptos. Já apresentei emenda à Constituição para tornar o crime de corrupção inafiançável e sem prescrição. Veja esse escândalo da Petrobras. Todos nós, em sã consciência, temos obrigação de exigir que se aprofunde a investigação doa a quem doer. Quem se apropriou do dinheiro público vai ter que responder pelo que fez. Será que cortar o 14º salário a pessoas que ganham até dois salários mínimos é o que dá o impacto negativo nas contas da Previdência? Ou são os bilhões e bilhões que são desviados em escândalos de corrupção? Em vez de aumentar a fiscalização, o trabalhador é mais uma vez chamado para pagar a conta.

 

O senhor acha que o eleitor vai se insurgir contra essas medidas? 

O governo vai ficar em uma situação muito difícil se não buscar uma saída negociada nessas medidas trabalhistas. Queiramos ou não, a população se sente enganada. Essa população que tanto nos apoiou e que sempre votou no PT se sente enganada. Vai ser muito ruim e o reflexo vai ser já nas eleições do ano que vem, com o povo rejeitando os políticos que ele vincula a este governo. Seria muito mais fácil eu ficar quietinho no meu canto vendo a tempestade passar e dar uma de avestruz, mas aí o povo vem e dá um chute na bunda. É o que vai acontecer.

 

Publicado aqui, na veja.com

 

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Para Edinho, financiamento da campanha de Dilma o “credencia como homem público”

Novo ministro da Comunicação de Dilma disse ter “orgulho do financiamento da campanha de Dilma”, que contou com doações de empreiteiras ligadas ao Petrolão, sob investigação da Justiça Federal do Paraná
Novo ministro da Comunicação de Dilma disse ter “orgulho” do financiamento da campanha da reeleição da presidente, que coordenou como tesoureiro e contou com doações de empreiteiras ligadas ao Petrolão, sob investigação da Justiça Federal do Paraná

Por Luiza Dame e Simone Iglesias

 

O novo ministro da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva (aqui e aqui), disse nesta sexta-feira, em entrevista ao Globo, que a presidente Dilma Rousseff pediu que ele estabelecesse um “diálogo” com a mídia. Ele ressaltou ainda que não teve conhecimento do documento de seu antecessor, Thomas Traumann, com críticas à condução do governo no setor.

Abaixo, a íntegra da entrevista:

 

O que é preciso mudar em meio à crise que o governo enfrenta?

A presidente Dilma foi direta. Pediu que eu estabeleça o diálogo com os veículos (de comunicação). A prioridade é estabelecer o diálogo com os veículos para que a informação chegue à sociedade. Este governo conduziu o Brasil em momentos difíceis. Este governo tem credibilidade para dizer que os ajustes são necessários para o Brasil voltar a crescer e continuar gerando renda e emprego.

 

O que foi determinante para sua escolha?

Estão dizendo que fui escolhido para o cargo para direcionar as verbas de publicidade. Só quem não me conhece pode achar que vou ocupar um cargo público para manipular recursos. Só quem não me conhece pode achar que vou ocupar cargo público para fazer algo que não seja de interesse da sociedade.

 

Leu o documento de Thomas Traumann com críticas ao governo?

Não, não conheço o documento, não tive acesso a ele, mas liguei para o Thomas e combinamos de tomar um café. Ele se colocou à minha disposição. Eu vou usar o legado dele na pasta, mas vou conduzir a comunicação olhando para a frente.

 

Pretende fazer mudanças na secretaria?

Fui convidado ontem (quinta-feira), o anúncio ocorreu hoje (ontem). Então, vou tomar conhecimento do orçamento, do ministério e construir minha equipe. A presidente me deu autonomia. Temos um trabalho de primeira grandeza para fazer.

 

O senhor teme que o fato de ter sido tesoureiro da campanha da presidente seja usado politicamente, já que a Justiça Eleitoral aprovou as contas com ressalvas?

O financiamento da campanha da presidente não tem problema algum. É transparente e legal. Foi aprovado por unanimidade.

 

Não houve ressalvas?

Todos têm ressalvas. O importante é que foi aprovado por unanimidade. Isso é algo positivo. O financiamento da campanha é algo que me credencia como homem público. Eu me orgulho.

 

Publicado aqui, na globo.com

 

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Levy: “Há um desejo genuíno (de Dilma) de acertar, às vezes, não da maneira mais fácil”

Em evento fechado na terça, em São Paulo, para alunos da universidade de Chicago, Levy disse e a  Folha de São Paulo vazou ontem (28/03): “Acho que há um desejo genuíno da presidente (Dilma) de acertar as coisas, às vezes, não da maneira mais fácil”
Em evento fechado na terça, em São Paulo, falando em inglês para alunos da Universidade de Chicago, Levy disse e a Folha de São Paulo vazou ontem (28/03): “Acho que há um desejo genuíno da presidente (Dilma) de acertar as coisas, às vezes, não da maneira mais fácil”

 

 

Por Bernardo Carame, Ricardo Della Coletta e Celia Froufe 

 

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, afirmou em evento fechado na terça-feira, em São Paulo, que a presidente Dilma Rousseff demonstra um “desejo genuíno” de acertar, mas não o faz “da maneira mais fácil” e “efetiva”. Na noite deste sábado, ele divulgou nota em que diz ter sido mal interpretado.

A frase, divulgada neste sábado pelo portal da Folha de S.Paulo, foi dita em inglês, para dezenas de alunos da escola de negócios da Universidade de Chicago — e segundo várias lideranças políticas pode contribuir para enfraquecer o governo em um momento em que ele já está fragilizado. Políticos de vários partidos já admitiam, na  noite deste sábado, que ele será convidado a se explicar melhor na audiência a que comparecerá, terça-feira, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.

Aos estudantes, Levy afirmou na terça: “Acho que há um desejo genuíno da presidente de acertar as coisas, às vezes, não da maneira mais fácil… Não da maneira mais efetiva, mas há um desejo genuíno”. No original, segundo alguns dos presentes, mencionou “a genuine desire by the president to get things right, sometimes not the easiest way, but…Not the most effective way, but there is this genuine desire”. Era um comentário paralelo, quando ele abordou pontos do ajuste fiscal.

 

Sem reação

A presidente Dilma Rousseff foi informada sobre a fala de Levy por volta das 18 horas deste sábado. O Palácio do Planalto avisou que não se pronunciaria a respeito. Os ministros responsáveis pela articulação política do governo também não quiseram comentar.

No início da noite, o ministro reagiu à divulgação de sua fala com uma nota “pessoal” em que lamentava a interpretação dada ao que havia dito. Ele afirmou: “O ministro sublinha que os elementos dessa fala são os seguintes: aqueles que têm a honra de encontrarem-se ministros sabem que a orientação política do governo é genuína, reconhecem que o cumprimento de seus deveres exige ações difíceis, inclusive da exma. sra. presidente, Dilma Rousseff, e eles têm a humildade de reconhecer que nem todas as medidas têm a efetividade esperada”.

 

Cobranças 

A avaliação entre lideranças da oposição, assim que a fala de Levy foi divulgada, era de era de que os desafios para o governo só vão aumentar. Para o deputado Antonio Imbasshy (PSDB-BA), a declaração de Levy joga mais peso na audiência que o ministro terá na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, na próxima terça-feira. Segundo o parlamentar, os senadores certamente pedirão que ele detalhe seu comentário. “A única coisa de que eu discordo (na fala de Levy) é que, ao invés de ser “às vezes”, é “quase sempre” (que Dilma não age de forma eficaz). O ministro foi muito generoso”, ironizou o parlamentar baiano.

Segundo Álvaro Dias (PSDB-PR), “o principal ministro dizer isso publicamente desarruma o governo”. O peemedebista Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) atribuiu à falta de formação política de Levy o seu novo “sincericídio”. Esta não é a primeira vez que o ministro faz comentários negativos para o Planalto. Há um mês, ele chamou de “grosseira” a iniciativa de se desonerar a folha de pagamentos. No dia seguinte, Dilma Rousseff disse que o ministro tinha sido “infeliz”ao usar a expressão.

 

Publicado aqui, no estadao.com

 

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Mundo entre petismo e antipetismo atropela as ideias — e pessoas

atropelamento

 

 

Jornalista José Roberto Toledo
Jornalista José Roberto Toledo

O atropelamento das ideias

Por José Roberto Toledo

 

Partidarizar toda e qualquer ideia equivale a classificar, obrigatoriamente, cada proposta, programa ou pessoa como petista ou antipetista. É um jeito fácil de simplificar o mundo, mas transforma debate em bate-boca, sufoca a argumentação sob o coro das torcidas e desintegra a sociedade ao dividi-la em guetos. Além de tudo, é suicida, pois inviabiliza os próprios partidos.

Nunca, desde o fim da ditadura militar, tão poucos brasileiros se identificaram com uma agremiação partidária. O Datafolha mostrou que 3 a cada 4 não têm, hoje, simpatia ou preferência por qualquer partido. E não é por falta de opção: nunca houve tantas siglas partidárias no Brasil. Para 75% dos brasileiros, os 32 partidos cheiram igual – e, embora rime, não é a perfume.

Grande parte dessa aversão se deve ao PT, que, após a recessão e a Lava Jato, despencou da preferência de um terço dos eleitores para a vala comum das demais agremiações, todas com apenas um dígito de simpatizantes. Tucanos e peemedebistas podem comemorar a anemia petista, mas não têm nada para mostrar a seu favor. Não ganharam nenhum ponto de simpatia com a desgraça do concorrente.

Nem parecem preocupados com isso. A política, para caciques do PSDB, do PMDB e – sob Dilma Rousseff – também do PT, se resume a Brasília. Não por acaso, são sempre surpreendidos pelas ruas e têm extremo cuidado – para não dizer temor – ao pisá-las.

A perda de prestígio dos partidos é só um dos sintomas. Todas as instituições democráticas têm dificuldades para passar pelas narinas da população. O Executivo raramente foi tão mal avaliado. E a impopularidade não é apenas o governo federal. Governadores e prefeitos também sofrem tendência de baixa.

Os novos deputados e senadores mal tomaram posse, mas metade dos brasileiros já acha que eles são ruins ou péssimos em seus mandatos. Apenas 9% acham que fazem um trabalho bom ou ótimo, segundo a mesma pesquisa Datafolha que deu 62% de ruim/péssimo para o governo Dilma, contra só 13% de opiniões positivas.

Pesquisa de opinião feita em 2014 pelo Barômetro das Américas, da Universidade Vanderbilt (EUA), concluiu que apenas 38% dos brasileiros confiam no sistema judicial nacional, uma das cinco taxas de confiança mais baixas entre 25 países do continente. Menor do que as dos EUA, Canadá, México, Argentina e até Haiti.

Um gráfico da mesma pesquisa causou algum furor na semana passada nas redes sociais. Ele mostra que 48% dos brasileiros acham um golpe militar justificável diante de muita corrupção. É o dobro do que no Chile e dois terços mais do que na Argentina e no Uruguai. É preocupante, mas menos extraordinário se tomarmos os EUA como base. Lá, um terço concorda com a tese golpista.

Tudo isso se resume em uma ideia, cada vez mais frequente e popular entre os brasileiros: o sistema político não funciona. Isso ficou muito claro nas manifestações de 2013, mas sempre é bom colocar as coisas em perspectiva e comparar com outros países. O apoio ao sistema político no Brasil é o mais baixo do continente: 38%. Perde até para a dividida Venezuela (42%). Toma de goleada da Costa Rica (62%), Canadá (60%) e Argentina (55%).

Pode-se constatar isso tanto na pesquisa do Barômetro das Américas quanto, de forma mais prosaica, na discussão sobre as ciclovias paulistanas. Só a partidarização irracional das ideias é capaz de tratar uma tendência global, que vai de Paris a Nova York com escala em Londres, como “coisa de petista”. Ainda mais quando duas das maiores ciclovias de São Paulo foram construídas pelo governo tucano, nas margens dos Rios Pinheiros e Tietê.

Antecipando a disputa de 2016, demoniza-se uma ideia porque ela pode – talvez – ajudar o prefeito do PT a se reeleger. Assim, todo ciclista é tratado como petista e, por oposição, todo motorista vira um antipetista. Vai acabar em atropelamento.

 

Publicado aqui, no estadao.com

 

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Na mira de Moro pela campanha de Dilma, Edinho nas Comunicações é perigo anunciado

Numa rara demonstração de afeto, a presidente Dilma e seu ex-tesoureiro de campanha e novo ministro das Comunicações, Edinho Silva
Numa rara demonstração de afeto, a presidente Dilma e seu ex-tesoureiro de campanha e novo ministro das Comunicações, Edinho Silva

 

 

Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat

Dilma gosta de viver perigosamente. Assim como o PT

Por Ricardo Noblat

 

Eu não disse que o PT, seu governo ou os dois juntos gostam de viver perigosamente?

Foi a propósito da manifestação convocada para o próximo dia 31 de março, destinada a se opor à manifestação de 12 de abril que deverá pedir novamente o impeachment de Dilma.

Pois bem: ontem, Dilma escalou para ministro da Secretaria de Comunicação Social da presidência da República o petista Edinho Silva, tesoureiro da campanha dela à reeleição.

O juiz Sérgio Moro, que investiga a corrupção na Petrobras, coleciona referências e indícios sobre a origem suja de parte do dinheiro doado por empresas para a campanha de Dilma.

E se tais elementos ganharem corpo e se transformarem em provas, complicando a vida de Edinho? Ele ficará no governo até ser condenado ou inocentado? O governo suportará o desgaste?

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

 

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Cara mais conhecida do Petrolão, Cerveró é também investigado em escândalo na Receita

 

Por Fábio Fabrini e Andreza Matais

 

A Operação Zelotes investiga o envolvimento do ex-diretor Internacional da Petrobras Nestor Cerveró com o grupo acusado de corrupção no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), espécie de “tribunal” que julga recursos de grandes contribuintes em débito com a Receita Federal.

Os investigadores suspeitam que Cerveró atuou perante advogados e conselheiros investigados como representante de fornecedores da estatal endividados com a Receita. Cerveró também é alvo da Operação Lava Jato, que investiga corrupção na Petrobras. Ele está preso, acusado de cobrar propina de empreiteiras em troca de contratos na diretoria que comandava na petroleira.

E-mails. Uma das evidências colhidas na Operação Zelotes são e-mails trocados entre advogados e empresários com Edison Pereira Rodrigues, apontado pelos investigadores como um dos mentores do esquema. Ele presidiu o 1.º Conselho de Contribuintes — órgão que antecedeu ao Carf —, deixando as funções em 2005.

Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras e cara mais conhecida do Petrolão, agora investigado também na operação Zelotes, da PF
Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras e cara mais conhecida do Petrolão, agora investigado também na operação Zelotes, da PF

 

Cerveró aparece como destinatário de algumas dessas mensagens, de 2010, quando era diretor da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras. Os responsáveis pela Zelotes estão em contato com a força-tarefa encarregada da Lava Jato para aprofundar as investigações sobre a ligação do ex-diretor com o esquema.

Edison Rodrigues é descrito como um gênio na área tributária e atuaria em parceria com a filha, Meigan Sack Rodrigues, conselheira do Carf e dona de um escritório. Rodrigues seria procurado pelas grandes empresas por causa das relações que mantém no órgão e de seu amplo conhecimento.

Procurado pelo Estado, o advogado de Cerveró, Edson Ribeiro, disse que a suspeita de envolvimento de seu cliente em fraudes no Carf não passa de uma “ilação fantasiosa”, despida de elementos probatórios.

Ele afirmou que não pode se pronunciar com base em “hipóteses”, mas adiantou que falará com o ex-diretor a respeito, em visita marcada para a próxima semana no Complexo Médico Penal em Curitiba.

O Estado telefonou para o escritório Sack Rodrigues nesta sexta-feira, mas a atendente, que não se identificou, disse que tanto Meigan quanto o pai estavam viajando e não poderiam dar entrevista.

 

Carros de luxo 

A Polícia Federal apreendeu na quarta-feira, em Brasília, R$ 1,8 milhão em dinheiro com acusados de envolvimento no esquema de corrupção no Carf. Além do dinheiro, também foram apreendidos 16 carros de luxo, alguns das marcas Porsche e Mercedes-Benz, três motocicletas e joias.

O diretor de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal, Oslain Santana, disse na quarta-feira que conselheiros do Carf deixavam o órgão para montar escritórios de advocacia e cooptar empresas para o esquema de corrupção. Segundo ele, a PF poderá utilizar a delação premiada nas investigações.

 

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Tesoureiro das doações de empreiteiras da Lava Jato agora dita o verbo nas Comunicações

Novo ministro das Comunicações, Edinho ecoa o discurso dos “aloprados” petistas, para os quais as manifestações de rua são coisa dazelite
Novo ministro das Comunicações, Edinho ecoa o discurso dos “aloprados” petistas, para os quais as manifestações de rua são coisa dazelite

 

 

Jornalista, escritor e blogueiro Merval Pereira
Jornalista, escritor e blogueiro Merval Pereira

O PT com a verba e o verbo

Por Merval Pereira

 

Mais importante que a constatação de que a economia brasileira está estagnada desde o ano da eleição, o que foi escondido do povo brasileiro por uma ação publicitária que distorceu números e fatos numa clara agressão ao sistema democrático, é saber que a culpa pelos nossos males é coisa nossa, não de crises internacionais.

Um levantamento do professor Reinaldo Gonçalves mostra que o Brasil em 2014 ficou em 172ª posição num conjunto 188 países, o que quer dizer que nada menos que 91% dos países tiveram melhor desempenho que o nosso.

Em relação ao quadriênio de Dilma Rousseff (2011-14), nossa posição tem uma melhora relativa: ficamos na 126ª posição, sendo superados por 67% dos países.

No plano interno, a presidente Dilma continua na mesma posição constrangedora de ser a presidente com a terceira pior média de crescimento do PIB da República brasileira, ao lado de Venceslau Brás, com 2,1% de crescimento, superando apenas dois presidentes que tiveram média negativa de crescimento em seus mandatos: Fernando Collor -1,3; Floriano Peixoto -7,5.

Se as previsões se confirmarem para este ano, com uma retração do PIB que pode chegar a até 1% segundo alguns economistas, a média para cinco anos cairá abaixo de 2%. Como a situação política é fortemente influenciada pela economia, dificilmente a presidente Dilma encontrará este ano condições de recuperação de sua popularidade, que as pesquisas de opinião mostram estar num momento crucial, provavelmente na casa de um dígito de aprovação se tomarmos a média dos institutos de pesquisa.

Foi sob o impacto da informação de que o nível de aprovação da presidente Dilma estava em 7 pontos num tracking encomendado pelo Palácio do Planalto que o ex-ministro da Comunicação Social Thomas Trauman escreveu aquele já famoso relatório que afinal o derrubou.

Entre as ilegalidades que defendia, destacam-se o uso dos blogs sujos para atacar os adversários do governo. No que via como uma “guerrilha de comunicação”, o documento lamentava que os robôs que atuaram na campanha presidencial para espalhar boatos e elogios a favor de Dilma tivessem sido desativados, e recomendava que o Planalto desse “munição” para “os soldados de fora” dispararem.

Há também a defesa do uso da Voz do Brasil e da televisão oficial para mostrar os feitos do governo, numa confusão clara entre órgãos do governo e do Estrado brasileiro. A demissão de Trauman, ao contrário do que se podia supor, não foi devida ao conteúdo do documento, mas ao seu vazamento.

Infere-se isso pela escolha por Dilma de seu tesoureiro de campanha, o petista Edinho Silva, para o cargo, entregando ao PT a verba e o verbo da comunicação do governo. Como nos governos petistas as pessoas importam mais que os cargos que ocupam, Edinho quase foi nomeado para diretor da Autoridade Pública Olímpica, mas a presidente Dilma desistiu ao constatar que ele não seria aprovado pelo Senado.

Como a nomeação para o ministério é de inteira responsabilidade da presidente, lá se vai Edinho Silva tratar da imagem do governo federal. Logo ele, que foi tesoureiro da campanha de 2014 de Dilma e, segundo anotações atribuídas a Ricardo Pessoa, dono da UTC, “está preocupadíssimo”. E segue texto de Pessoa: “Todas as empreiteiras acusadas de esquema criminoso da Operação Lava-Jato doaram para a campanha de Dilma. Será que falarão sobre vinculação campanha x obras da Petrobras?”.

Esse e outros textos encontrados se parecem com chantagem, no momento em que delações premiadas estão sendo negociadas. Mas Edinho Silva pode trazer também mais problemas políticos para Dilma. Ele afirmou recentemente que as manifestações de rua são coisa da elite golpista, e que é preciso “combater a direita” em todo o continente.

Coroando seu pensamento, antes mesmo de assumir a missão palaciana ele já havia dito o que pensava especificamente sobre a área em que vai atuar: “Temos que criar efetivamente condições para que haja uma democratização da comunicação no país. E isso passa pela democratização da propriedade dos veículos”.

Mesmo que tenha salientado que esse debate “deve ser feito com muita tranquilidade, sem partidarismo e em parceria com a sociedade”, Edinho já disse a que veio.

 

Publicado aqui, no Blog do Merval

 

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