O espaço para charges no blog é do José Renato e ninguém tasca, mas se depois do depoimento do ex-diretor da Petrobras Pedro Barusco, na CPI da Petrobras, na última terça (10/03), alguém (permeável à razão) ainda tem alguma dúvida, ou finge tê-la, o dedo indicador do traço do mestre Chico Caruso sempre ajuda…
Brasília — A Procuradoria Geral da República (PGR) encaminhou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) os pedidos para abertura de inquéritos que investigarão o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), o ex-governador do estado Sérgio Cabral (PMDB) e o governador do Acre, Tião Viana (PT). O relator dos casos no STJ, ministro Luiz Felipe Salomão, deve autorizar a abertura dos procedimentos ainda nesta quinta-feira. A exemplo dos casos no Supremo Tribunal Federal (STF), os processos vão tramitar sem sigilo. A PGR, nas petições, já fez os primeiros pedidos de diligência.
Governadores têm foro privilegiado junto ao STJ, e não ao STF. Entre os envolvidos nas delações premiadas da Operação Lava-Jato, uma outra autoridade tem foro junto ao STJ: o ex-ministro das Cidades Mário Negromonte, que exerce atualmente o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) da Bahia. Negromonte, porém, será investigado em inquéritos no STF, por conta da conexão a fatos supostamente cometidos por parlamentares do PP.
Na Suprema Corte, os inquéritos foram instaurados na noite da última sexta-feira. São 49 investigados, entre eles 12 senadores e 22 deputados federais. Os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), estão na lista.
Um dos delatores, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, afirmou em depoimento que arrecadou R$ 30 milhões em recursos desviados da Petrobras para caixa dois da campanha de Sérgio Cabral para governador e de Pezão para vice em 2010. Segundo o delator, os recursos para campanha de Cabral e Pezão vieram de empresas que atuavam na obra do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).
Conforme Paulo Roberto, o consórcio Compar, formado pelas empreiteiras OAS, Odebrecht e UTC, contribuiu com R$ 15 milhões. O restante foi pago por outras empresas, como Skanska, Alusa e UTC, disse o delator. O ex-diretor afirma que os pagamentos eram “propina”. Pezão e Cabral vão ser investigados num mesmo inquérito.
O outro governador a ser investigado, também por meio da instauração de um inquérito, é Tião Viana (PT), do Acre. Ele é suspeito de ter recebido R$ 300 mil do esquema, conforme os delatores Paulo Roberto e o doleiro Alberto Youssef.
Atualização às 14h59:Aqui, antes mesmo do dublê de blogueiro e secretário de governo de Campos, Anthony Garotinho (PR), o jornalista Arnaldo Neto foi o primeiro na blogosfera goitacá a adiantar que o ex-governador fluminense Sérgio Cabral (PMDB) e o atual, Luiz Fernando Pezão (PMDB), deveriam estar na lista enviada pela Procuradoria Geral da República (PGR) ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), visando a abertura de inquérito para investigar denúncias do Petrolão
Por Chico Otávio, Cristina Tardaguila, Ruben Berta, Fernando Rodrigues e Bruno Lupion
Envolvidos em escândalos de corrupção milionários no Brasil estão entre as milhares de pessoas que guardaram dinheiro em contas secretas na Suíça. No acervo de 8.687 brasileiros que foram correntistas do HSBC em Genebra, surgem ao menos 23 personagens de dez casos de suspeita de desvio de dinheiro público ou fraudes em instituições financeiras, incluindo o caso Alstom, a operação Lava-Jato e fatos mais antigos, como a máfia que desviou US$ 310 milhões entre 1989 e 1991 da Previdência Social.
A revelação dos nomes, que faz parte de uma detalhada apuração conduzida nas últimas semanas pelo GLOBO em parceria com o UOL, é o ponto de partida de uma série de reportagens sobre as contas secretas do HSBC, que ficaram conhecidas no mundo como SwissLeaks (vazamentos na Suíça). Os personagens foram descobertos em consulta a um conjunto de dados vazados em 2008 de uma agência do “private bank” da sede da instituição financeira em Genebra. O acervo contém informações, que datam de 2006 e 2007, sobre 106 mil clientes de 203 países. Juntos, eles movimentaram valor superior a US$ 100 bilhões.
Como as informações vazadas são incompletas, não se sabe precisamente o montante do dinheiro que circulou pelas contas dos 23 brasileiros. O levantamento, com base nos valores disponíveis, encontrou saldos que variaram de US$ 1,3 mil a US$ 6,9 milhões. Ter uma conta numerada na Suíça não pressupõe, a princípio, nenhum crime, desde que haja declaração à Receita Federal e ao Banco Central. Mas a natureza das contas garante a seus donos anonimato, o que chamou a atenção de autoridades brasileiras que investigam o caso.
Na lista de antigos correntistas aparece o nome do empresário Henry Hoyer de Carvalho, ex-dirigente da Associação Comercial e Industrial da Barra da Tijuca, citado em fevereiro em depoimentos tomados pela Operação Lava-Jato como operador do esquema de pagamento de propinas por contratos da Petrobras para parlamentares do PP. De acordo com os delatores Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef, Hoyer, ex-sócio do empresário e ex-senador Ney Suassuna, passou a atuar como repassador do dinheiro ao partido após a morte de José Janene, em 2010.
Outro escândalo recente com personagens no acervo do HSBC é o caso Alstom, suposta formação de cartel para licitações no Metrô de São Paulo e do Distrito Federal e na Companhia Paulistana de Trens e Metrô (CPTM). Dois ex-engenheiros, que foram dirigentes do Metrô, Paulo Celso Mano Moreira da Silva e Ademir Venâncio de Araújo, abriram contas na Suíça na época em que a estatal assinou um controverso contrato com a multinacional francesa Alstom.
Três personagens-chave de um esquema que ficou marcado como a maior fraude já cometida contra a Previdência Social no Brasil também aparecem na lista: o juiz Nestor José do Nascimento, o advogado Ilson Escossia da Veiga e o procurador do INSS Tainá de Souza Coelho (os dois últimos já falecidos). O escândalo foi revelado em 1992 e, segundo cálculos da época, houve um rombo de pelo menos US$ 310 milhões aos cofres públicos. O grupo transformou pequenas indenizações trabalhistas em quantias vultosas, que eram divididas pelos fraudadores.
Casos de supostas fraudes no mercado financeiro também têm personagens com contas no HSBC. É o caso do banqueiro Ezequiel Nasser, do Excel, que adquiriu em 1996 o Banco Econômico, vendido numa crise de liquidez em 1998. Em seguida, passou a ser alvo da Justiça, ao lado de outros membros da família Nasser. Até hoje, Ezequiel e Jacques devem à Comissão de Valores Mobiliários multas que, somadas, passam de R$ 45 milhões. Recentemente, Ezequiel foi condenado pelo TRF da 1º Região a cinco anos, dois meses e 12 dias de reclusão por supostas fraudes na gestão do banco, mas ainda cabe recurso. O ex-gerente do Excel nas Bahamas, denunciado pelo Ministério Público Federal mas absolvido, Alain Bigio, também aparece na lista do HSBC.
Cinco outros correntistas brasileiros figuram em esquema de fraude em licitações do Ministério da Saúde investigado, entre 2005 e 2011, pelo Ministério Público e PF, nas operações Roupa Suja e Sexta-Feira 13: os empresários Vittorio Tedeschi e Ettore Reginaldo Tedeschi, e os doleiros Henoch Zalcberg, Dario Messer e Rosane Messer. Os escândalos na saúde incluem ainda Joaquim Pizzolante, ex-presidente da Fundação Pró-Into, acusado pelo MP de integrar a quadrilha que fraudou licitações entre 1997 e 2001 no Into (Instituto de Traumatologia e Ortopedia).
Fazem parte da lista dos correntistas envolvidos em casos de fraude e desvio de recursos três ex-diretores do fundo de pensão complementar do Serpro (Ministério da Fazenda), José Pingarillho Neto, Jorge da Costa Ponde e Ricardo José Marques de Sá Freire, condenados administrativamente por gestão temerária. Eles abriram contas no mesmo dia, em 8 de dezembro de 2005, apresentando como titulares empresas sediadas nas Ilhas Virgens, paraíso fiscal.
A Justiça Eleitoral aparece com o escândalo protagonizado, em 1998, pelo casal Marco Tulio Galvão Bueno e Alexandrina Formagio, assessores do então presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Rio, que valeu-se de sua influência para fraudar licitações. O Caso Portocred, banco de crédito no RS, com José Alexandre Guilardi de Freitas; e a Operação Vampiro, com Laerte de Arruda Corrêa Júnior, completam a lista.
Dois engenheiros que trabalharam para o Metrô de São Paulo abriram contas no banco HSBC (foto de Marcos Alves – Agência O Globo)
Caso Alstom
Dois engenheiros que trabalharam para o Metrô de São Paulo abriram contas no banco HSBC da Suíça justamente no período em que se suspeita de que a estatal paulista fez negócios ilegais com a empresa francesa Alstom, um de seus fornecedores.
Paulo Celso Mano Moreira da Silva, hoje com 70 anos, foi diretor de operações do Metrô de São Paulo, e Ademir Venâncio de Araújo, de 62 anos, diretor administrativo do Metrô e diretor de obras da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Hoje são acusados de improbidade administrativa pelo Ministério Público do Estado São Paulo.
Os dois aparecem na lista de brasileiros que têm contas no HSBC de Genebra. Silva surge como “engenheiro do metrô de São Paulo” e proprietário da conta numerada 22544FM, aberta em 12 de outubro de 1994. Em 2007, ele tinha US$ 3 milhões. Sua mulher, Vera Lúcia Perez Mano Moreira da Silva, que já morreu, constava como co-titular.
Araújo consta, por sua vez, como “diretor técnico do metrô de São Paulo” e dono de três contas numeradas: uma aberta em nome da Jemka Investments Limited, outra em nome da Mondavi Holding Trading Ltd. e uma terceira com o número 29233SC. Segundo as planilhas do HSBC, somando as três, Araújo dispunha de US$ 6,9 milhões em 2007. Seus co-titulares eram a mulher, Sumaia Maria Macedo de Araújo, e suas filhas Fernanda Mano Moreira da Silva, 41 anos (hoje Fernanda Mano de Almeida, nome de casada), e Mariana Mano Moreira da Silva, de 38 anos.
Em 10 de abril de 1997 Silva e Araújo assinaram contrato para que a Alstom fornecesse, sem licitação, um sistema de sinalização e controle da linha Norte-Sul (Vermelha) do Metrô de São Paulo. Eles recorreram a um termo aditivo sobre um contrato firmado oito anos antes entre o Metrô e Alstom.
Processos em andamento — Silva entrou na mira do MP em agosto de 2014, no âmbito de investigações de contratos firmados entre o Metrô e a Alstom. A multinacional francesa reconheceu ter pago propina a funcionários públicos brasileiros para fechar negócios na áreas de energia e responde pela mesma prática no setor de transporte sobre trilhos.
Araújo era conhecido dos promotores paulistas há mais tempo. Em novembro de 2013, ele teve seus bens bloqueados pela Justiça Federal, sob suspeita de atuar para favorecer a Alstom em licitações. Em dezembro de 2014, foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito do cartel dos trens.
O Ministério Público pede na Justiça que Silva, Araújo e outros dois ex-diretores do Metrô devolvam R$ 4.079.451 aos cofres públicos. A ação também atinge quatro executivos que trabalhavam na Alstom.
O outro lado — O UOL entrou em contato com Silva na 3a feira (10.mar.2015). Ele não quis se manifestar sobre a conta no HSBC e solicitou que a reportagem contatasse Guilherme Braz, seu advogado. Braz, por sua vez, disse que seu cliente não foi citado em nenhum inquérito ou ação relativos ao cartel de trens e metrô em SP e ressaltou que a ação proposta pelo Ministério Público ainda não foi julgada. Sobre a conta no HSBC, afirmou que Moreira da Silva “só se manifestará em juízo”.
O UOL também entrou em contato na manhã de 4a feira (11.mar.2015) com o escritório Luiz Fernando Pacheco, que defende Araújo, e não obteve resposta até o momento.
O empresário Henry Hoyer está na lista de contas secretas na Suíça (foto de Márcio Alves – Agência O Globo)
Lava Jato
Além de 11 integrantes da família Queiroz Galvão (donos de empreiteiras citadas na Lava Jato) com contas secretas no HSBC, surgiu agora na investigação do escândalo da Petrobras mais um nome que aparece no SwissLeaks.
Trata-se de um empresário do Rio de Janeiro, Henry Hoyer de Carvalho, que acaba de completar 65 anos. Ele teria substituído o doleiro Alberto Youssef como repassador de valores de propinas a políticos ligados ao Partido Progressista –a legenda que mais teve integrantes citados pelo Ministério Público até agora no escândalo da Petrobras. A informação sobre o papel desempenhado por Hoyer consta de depoimentos prestados no âmbito da Lava Jato.
Nos documentos do “private bank” do HSBC em Genebra, Henry Hoyer aparece como titular da conta secreta 7835HH. O saldo está zerado em 2006 e 2007, período ao qual os dados bancários se referem.
Há uma curiosidade sobre Henry Hoyer. Sua conta existiu apenas por um breve período no HSBC de Genebra: a abertura foi em 20 de julho de 1989; o encerramento, em 29 de agosto de 1990. Por que razão o HSBC teria mantido os registros de Hoyer ativos até 2007?
Há várias hipóteses para isso ter acontecido. Por exemplo, o empresário teria aberto outra conta colocando como titular uma empresa ou outro representante legal — o que parece ser a praxe para milhares de outros correntistas que aparecem no acervo do SwissLeaks. Essa era a forma de tornar mais difícil a identificação de quem era, de fato, dono do dinheiro. Só mais investigações poderão esclarecer o que se passou.
As menções a Henry Hoyer no caso de desvios da Petrobras aparecem em depoimentos coletados em fevereiro pela Procuradoria Geral da República. O empresário do Rio é citado pelo ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa e pelo doleiro Alberto Youssef.
No termo de sua delação premiada, Paulo Roberto Costa descreve Hoyer como o “operador financeiro do PP que sucedeu [a] Alberto Yousseff”. Costa compromete-se a apresentar provas que possam sustentar essa afirmação, “especialmente a sua relação [de Hoyer] com contratos da Petrobras e empreiteiras, e a relação destas com o PP”.
Num outro trecho do seu depoimento, Costa relata ter ido a “uma reunião na casa de Henry Hoyer, da qual também
participaram Ciro Nogueira, Agnaldo Ribeiro, Arthur de Lira e Eduardo da Fonte”. Todos esses são políticos do PP e foram incluídos na lista de investigados pelo Supremo Tribunal Federal.
Segundo Costa, a reunião na casa de Hoyer com os políticos serviu para definir um “novo caminho para o repasse de comissões acerca dos contratos da Petrobras ao PP”. Hoyer teria dito a Costa que já havia mantido outros encontros com os congressistas “a fim de tratar da questão dos valores”.
O objetivo da entrada de Hoyer no esquema foi tentar pacificar a relação entre os integrantes do PP participantes do desvio de dinheiro da Petrobras. Teria ocorrido uma desagregação entre os políticos desse partido num período posterior à morte de José Janene, em 2010, o deputado que até então organizava a distribuição de valores.
Hoyer é citado também como um ex-assessor do ex-senador Ney Suassuna, do PMDB da Paraíba. Teria operado por pouco tempo na função de repassador de dinheiro, apenas durante o ano de 2012, segundo os depoimentos da Lava Jato.
O outro lado — A reportagem tentou o celular e o telefone residencial de Hoyer, mas não conseguiu localizá-lo.
O juiz Nestor José do Nascimento liderou a Máfia da Previdência (foto de Roberto Stuckert Filho – Agência O Globo)
Máfia da Previdência
Em 1992, o Brasil assistiu atônito à descoberta da maior fraude já cometida contra a Previdência Social do país. Um grupo composto por 131 pessoas – entre elas três juízes, 62 advogados, 19 peritos, sete procuradores do INSS, um auditor, um contador judicial e 38 serventuários da Justiça – havia descoberto uma brecha no sistema previdenciário e passado a fraudar ações por acidente de trabalho de forma sistemática.
Liderados pelos advogados Jorgina de Freitas, Ilson Escóssia da Veiga, pelo juiz Nestor José do Nascimento e o então procurador-geral do INSS, Tainá de Souza Coelho, o grupo transformou pequenas indenizações, que deveriam ser repassadas a trabalhadores de origem humilde, em quantias vultosas, que eram divididas pelos fraudadores. Segundo cálculos da época, o rombo deixado no INSS foi de pelo menos US$ 310 milhões, quantia “suficiente para construir duas Linhas Vermelhas ou urbanizar boa parte da favela da Rocinha”, destacaram os jornais daquele período.
Nascimento, Veiga e Coelho estão na lista de brasileiros que mantiveram contas numeradas na Suíça nos últimos anos. Segundo registros do HSBC, Nascimento constava no banco como sendo um advogado brasileiro, morador de Copacabana e dono da conta numerada 17605NV. Ela esteve ativa de 31 de janeiro de 1991 a 14 de março de 1991 – justamente no auge do escândalo.
Nascimento atuava na 3 Vara Cível de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, e seu papel na quadrilha era deferir sentenças que estabeleciam pagamento milionários, no prazo de 24 horas, a trabalhadores supostamente acidentados. Em julho de 1992, ele foi condenado por unanimidade pelos 24 desembargadores do Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio e pegou 15 anos e seis meses de prisão, além de ter perdido o cargo. Meses mais tarde, Nascimento teve um segundo problema com a Justiça: foi condenado por tráfico de entorpecentes e recebeu uma sentença de mais seis anos.
Nos registros dele no HSBC da Suíça, não há informações sobre valores movimentados naquele banco. Mas é fato que Nascimento mandou parte do dinheiro desviado da Previdência para o exterior. Certa disso, a Justiça brasileira chegou emitiu cartas rogatórias a diversos países e conseguiu recuperar R$ 4,7 milhões que estavam em seu nome no exterior. Esse total havia sido depositado no Union Bancaire Privée, outra instituição financeira sediada na Suíça.
O advogado Ilson Escossia da Veiga também teve conta numerada no HSBC. Tido como braço-direito de Jorgina, o rosto mais visível do escândalo, ele, sozinho, foi responsável pela obtenção da maior indenização (fraudada) da história da Previdência brasileira. Em nome do operador de empilhadeira Alaíde Ximenes e com a ajuda da quadrilha, Veiga recebeu US$ 128 milhões numa única ação.
Segundo registros da época, com o dinheiro obtido de forma ilegal, Veiga comprou apartamentos, terrenos, vagas de garagem e 522 quilos de ouro. Jornais que cobriram o escândalo noticiaram a existência de possíveis contas no exterior, mas isso só fica comprovado agora, com os dados do HSBC.
De acordo com o banco, Veiga era um advogado brasileiro, com endereço na Avenida Delfim Moreira, endereço nobre do Leblon, e dono da conta numerada 17603EV, que ficou aberta entre 28 de dezembro de 1990 e foi fechada no mesmo dia do encerramento da conta de Nascimento, em 14 de março de 1991.
A Justiça brasileira condenou Veiga a 14 anos de prisão. Em junho de 2006, ele ficou doente e morreu no Hospital Penitenciário de Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
O ex-procurador-geral do INSS Tainá de Souza Coelho foi outro com conta no HSBC suíço. Em vez de contestar judicialmente os valores exorbitantes pedidos pelos advogados e autorizados por Nascimento e outros juízes da quadrilha, Coelho mantinha-se calado. Por esse motivo, teve prisão preventiva decretada em 1994 e ficou preso por dois dos 17 anos a que foi condenado. Em abril de 1996, depois de tomar quatro tranquilizantes enquanto estava embriagado, morreu de insuficiência respiratória.
Nos registros do HSBC, no entanto, uma surpresa: a conta numerada 12207ZTS foi aberta em seu nome em 19 de julho de 2000 e mantida ativa até, pelo menos, 15 de julho de 2004, bem depois de seu falecimento. Não há informações, no entanto, sobre os montantes movimentados nem o endereço de correspondência ou o número telefone de contato do responsável pela abertura conta.
O outro lado — Veiga e Coelho já faleceram.
O Globo procurou ligou para todos os telefones listados como sendo de “Nestor José do Nascimento”, mas não conseguiu localizá-lo. Além disso, tentou, por dois dias, contato com os advogados que o defenderam no caso. Remo Lainetti já faleceu, e Alexandre Alberto Leal de Serpa Pinto deixou o caso e disse ter perdido o contato com o antigo cliente.
O banqueiro Ezequiel Nasser, do Excel (foto de Sergio Berezowsky)
Caso Econômico
Com um discurso agressivo de expansão, o banqueiro Ezequiel Nasser, do Excel, adquiriu em 1996, pelo preço simbólico de R$ 1, o Banco Econômico. Na época, a instituição estava sob intervenção do Banco Central.
Dois anos depois, no entanto, o negócio fez água. Em outubro de 1998, diante da iminente crise de liquidez do Econômico e da pressão do BC, Ezequiel vendeu o banco por R$ 1 ao espanhol Bilbao Viscaya. Em seguida, passou a ser alvo da Justiça, ao lado de outros membros da família Nasser.
Ezequiel aparece na lista de correntistas brasileiros do HSBC na Suíça. Sua conta, a de número 1114ZZ, era conjunta com Jacques Nasser, ex-vice-presidente do Excell Econômico, e Rahmo Nasser Shayo, que também estava ligado ao banco. Entre 2006 e 2007, quando já tinham quase 20 anos como clientes do HSBC, os três dispunham de US$ 1.328 em Genebra.
Até hoje, Ezequiel e Jacques Nasser devem à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) multas que, somadas, passam de R$ 45 milhões. Entre as acusações da comissão, estão a realização de investimentos em prejuízo do Excel Econômico e “exercício abusivo do poder de controle”.
As penalidades da CVM foram mantidas pelo Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional em 2013. A comissão prepara agora a cobrança judicial dos valores.
Em setembro de 1999, Ezequiel Nasser foi denunciado pelo Ministério Público Federal da Bahia à 17a Vara Criminal da Justiça Federal sob a acusação de gestão fraudulenta e de manipulação de balancetes para manter de forma fictícia o antigo Excel Econômico entre as principais instituições financeiras do país. O objetivo, segundo alegou o MP à época, era atrair clientes e investidores. A denúncia se baseou num relatório do BC, que colaborou com o MP na ação. O processo falava em prejuízos de US$ 124 milhões por irregularidades como a concessão de empréstimos sem garantia.
Em 2006, Nasser foi condenado em decorrência da ação do MP. Segundo a assessoria de imprensa do BC, em 1ª instância, o banqueiro pegou três anos e três meses de cadeia. A pena foi aumentada pelo TRF da 1º Região para cinco anos, dois meses e 12 dias de reclusão. No Superior Tribunal de Justiça (STJ), um agravo interposto pelos réus não foi aceito. Ainda cabe novo recurso.
Uma curiosidade: na lista do HSBC suíço está o nome de Alain Bigio, ex-gerente da agência do Excel Econômico nas Bahamas. Ele também foi um dos denunciados pelo MP Federal, mas acabou sendo absolvido no caso.
O executivo aparece com a identificação “diretor do Banco Excel”, com duas contas: 14873DD e 24241DD. A primeira foi aberta em 17 de maio de 1990 e fechada em 20 de setembro 1991. A segunda surgiu em 17 de março de 1997 e acabou em 20 de fevereiro de 1998, período que coincide com a época em que o Econômico estava sob o controle do Excel.
As duas contas são conjuntas com Sara Bígio. Dov Bigio, filho de Alain, também consta nos registros do HSBC. Sua conta era a de número 24241DD. Em nenhum dos dois casos é possível saber os valores movimentados em 2007.
O outro lado — Desde a terça-feira, O Globo tenta localizar representantes da família Nasser. Nos telefones que constam na internet, ninguém atendeu. A advogada Sônia Ráo, que aparece como uma das defensoras de Edmond Nasser no ação do MP Federal, foi procurada três vezes, mas não retornou.
Dov Bigio, filho do ex-gerente do Excel nas Bahamas, foi localizado e, por e-mail, classificou como “uma piada” o fato de constar como cliente do HSBC suíço.
“Não sei de onde você tirou estas informações, mas isso não faz o menor sentido. Em 1997, eu estava no 3º ano de faculdade, nem fazia estágio ainda e, no máximo, fazia uns trabalhos como freelancer desenvolvendo sites para alguns amigos… Minha renda na época devia ser de uns R$ 300 por mês ou até menos”.
O Globo pediu para que ele entrasse em contato com Alain, seu pai, mas Dov afirmou que não via “nenhum motivo para envolvê-lo em algo que parece mais uma piada de mal gosto e sem fundamento”.
O empresário Vittorio Tedeschi em seu escritório, em 2002 (Simone Marinho – Agência O Globo)
Roupa Suja/Sexta-feira 13
Em 2005, a Polícia Federal deflagrou no Rio de Janeiro e em São Paulo uma operação batizada como Roupa Suja para desbaratar duas quadrilhas especializadas em fraudar licitações como as que o Ministério da Saúde fazia para importar insumos necessários à fabricação do coquetel anti-HIV.
Quatro anos depois, no dia 13 de novembro de 2011, o trabalho investigativo derivou numa segunda operação: a Sexta-feira 13, focada na suposta evasão de divisas e na lavagem de dinheiro do mesmo grupo. Nove pessoas foram presas. Delas, cinco aparecem nas planilhas do HSBC suíço: os empresários Vittorio Tedeschi e Ettore Reginaldo Tedeschi,e os doleiros Henoch Zalcberg Chaim, Dario Messer e Rosane Messer.
Na época da operação e com o intuito de repatriar os valores desviados, os procuradores da República Carlos Aguiar e Luís Eduardo de Castro chegaram a solicitar a diversos bancos no exterior informações sobre os envolvidos. Os dos Estados Unidos colaboraram. Os da Suíça, não.
No registros do HSBC, Vittorio Tedeschi aparece como “importador e exportador de produtos químicos e mármore” e tem residência na Avenida Vieira Souto, em Ipanema. Em seu nome, o HSBC registrou cinto contas: uma em nome da Floridoro Foundation, entidade domiciliada em Nassau, nas Bahamas, uma em nome da Golden Floridoro, e as de número 27509ZDL, 25429ZRT, 11021ZVB. Delas, a única que continuava aberta em 2007 era a terceira (25429ZRT), que tinha Ettore Reginaldo Tedeschi, filho de Vittorio, como co-titular. Naquele ano, segundo o banco, estava armazenado US$ 1,3 milhão.
No HSBC, o doleiro Henoch Zalcberg aparecia, por sua vez, como um advogado brasileiro com endereço na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio. Ele foi correntista numerado por quase 14 anos. A conta identificada como “34550ZAB (EX: 11042ZCH)” esteve ativa de 15 de novembro de 1989 a 29 de agosto de 2003. Não há, no entanto, informações sobre a quantia guardada nela.
O casal de doleiros Dario e Rosane Messer também aparece como correntistas numerados no HSBC. Ele responde por uma conta aberta em nome da empresa Bartoli World Corp, do Panamá, no dia 11 de fevereiro de 2000 e ativa até 9 de junho de 2005, além da conta numerada 29083JP, que foi aberta em 23 de junho de 1998 e que, em 2007, tinha US$ 69,8 mil.
Rosane, por sua vez, aparece como psicóloga com endereço na Rua do Rosário, no Centro do Rio. Em seu nome foi registrada uma conta 14639DM, que ficou aberta entre 31 de outubro de 1990 e 4 de maio de 1992. Não há informações sobre quanto Rosane tinha no HSBC em 2007.
Os outros lados — Na terça-feira, O Globo tentou contato com Luciano Saldanha Coelho, que representa Dario e Rosane Messer na ação referente às operações da PF e do MP. A reportagem enviou perguntas por email, seguindo indicações dadas por telefone em seu escritório.
O advogado Ubiratan Guedes, que representa Salcberg na ação ligada as duas operações, afirmou que seu cliente, atualmente com 92 anos, aguarda ansiosamente uma decisão da Justiça para provar sua inocência: “Ele é a pessoa mais injustiçada que eu conheço, um homem ilibado, com mais de 60 anos de exercício da advocacia. Nos autos do processo, ele já comprovou sua inocência, mas espera a decisão para que possa ter uma sequência de vida adequada”. Já sobre a conta numerada na Suíça, Guedes disse não ver qualquer ilegalidade: “Está se criando um mito em torno dessas contas. Ter dinheiro no exterior não é algo proibido. Não há nenhum ilícito, e ele não responde na Justiça por isso”.
Beth Tedeschi, que responde pela família, atendeu a telefonema do Globo e negou a existência de qualquer conta na Suíça: “Nós não temos nenhum conta. Não temos nada com isso”.
José Luiz Pingarilho Neto, quando ainda era superintendente do Serpros, em 1997 (Givaldo Barbosa – Agência O Globo)
Caso Serpros
Em 2005, a Secretaria de Previdência Complementar do Ministério da Previdência Social abriu um processo administrativo por suspeitar de que o Serpros, fundo de previdência complementar do Serviço Federal de Processamento de Dados (orgão ligado ao Ministério da Fazenda), havia sido alvo de gestão temerária por parte de cinco diretores que atuaram na entidade entre 1999 e 2001.
A condenação deles por “compra de ações sem estudos técnicos que demonstrassem a viabilidade”, “deixando de observar as normas legais quanto à liquidez, segurança e rentabilidade dos investimentos”, saiu cinco anos depois, em 4 de agosto de 2010.
Três dos condenados – José Luiz Pingarillho Neto, Jorge da Costa Pondé e Ricardo José Marques de Sá Freire — tiveram que multas. Agora, eles aparecem na lista de brasileiros que tinham contas numeradas no HSBC da Suíça em 2007.
Curiosamente, as três contas foram abertas no mesmo dia — em 8 de dezembro de 2005, pouco depois de o processo administrativo ser instaurado contra eles — e têm nomes muito semelhantes. A de Pingarilho Neto está relacionada a uma empresa chamada Green River Global Assets Ltd. A de Ponde, à Yellow River Global Assets Ltd., e a de Sá Freire, à Blue River Global Assets Ltd. Essas três empresas estavam domiciliadas na paraíso fiscal das Ilhas Virgens.
Entre 1996 de 2001, Pingarillho Neto foi diretor-superintendente do Serpros. No HSBC, ele aparece como morador da Barra da Tijuca, no Rio, e, em 2007, mantinha na Suíça US$ 1,1 milhão. A conta era conjunta com outras três pessoas. Todas elas de sobrenome Pingarilho.
Pondé e Sá Freire foram gestores do Serpros no mesmo período do colega. Pondé foi diretor de investimentos, e Sá Freire, diretor de benefícios. Os três deixaram o fundo de previdência complementar no mesmo mês: em março de 2001.
Nos registros do HSBC suíço, Pondé surge como morador do Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio, e dono de uma conta numerada que, em 2007, tinha US$ 790 mil. Outras três pessoas de sobrenome Pondé também tinham acesso a ela, como co-titulares.
Sá Freire tinha registros semelhantes. A conta em nome dele também foi aberta em 8 de dezembro de 2012 e era conjunta com outras três pessoas de sobrenome Sá Freire. Em 2007, ela guardava outro US$ 1,1 milhão.
Em 2013, a Secretaria de Previdência Complementar entrou com três ações de execução fiscal na Justiça Federal do Rio de Janeiro: uma contra Pingarilho Neto (na 7 Vara), um contra Pondé (na 5 Vara) e mais uma contra Sá Freire (na 9 Vara). Nas três, pedia o pagamento da multa que lhes havia sido imposta em 2010. Num dos ofícios do caso, os juízes determinam que o oficial de justiça verifique “a existência ou não de bens penhoráveis”. As ações seguem abertas.
O outro lado — O Globo contatou por telefone o advogado Rogério Maia de Sá Freire, que é filho de Ricardo José e que defende os três ex-diretores na ação referente ao Serpros. A reportagem enviou a Rogério um email com uma lista de perguntas, mas, até a noite de terça-feira, não havia recebido retorno. Vale destacar que o defensor também está entre os correntistas do HSBC. Ele compartilha com o pai a titularidade de uma das contas. Rogério também foi questionado sobre isso e não retornou dentro do prazo fixado.
Marco Tulio Galvão Bueno, entre Miriam Gagliardi e Roberto Vasconcelos (reprodução)
Caso TRE-RJ
O casal Marco Túlio Galvão Bueno e Alexandrina Formagio, titulares de duas contas numeradas e conjuntas abertas no HSBC da Suíça em 25 de agosto de 2006, foi acusado pelo Ministério Público Federal do Rio de comandar, em 1998, um esquema de desvio de recursos instalado dentro do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ). Segundo o MPF, que levou o caso à Justiça em 2003, Bueno e Alexandrina, que ocupavam os cargos de diretor de Comunicação e de chefe de gabinete do presidente do órgão, respectivamente, impulsionavam licitações fraudulentas, o superfaturamento de obras e o pagamento por serviços não realizados e a funcionários fantasmas.
Nos registros do HSBC da Suíça, Bueno aparece como sendo jornalista e fazendeiro, morador da Estrada da Gávea, endereço nobre da Zona Sul do Rio de Janeiro. Alexandrina divide com ele o mesmo endereço e consta nos dados do banco como sendo advogada. Juntos, em 2007, os dois acumulavam US$ 1,8 milhão na Suíça. Na conta numerada 45233GB, o casal chegou a ter US$ 1,1 milhão. Na de número 45234RF, outros US$ 709 mil.
Nove anos antes, Bueno e Alexandrina haviam provocado uma crise entre o então presidente do TRE, o desembargador Martinho Campos, e os outros seis magistrados do órgão, que acusavam o casal de se valer do fato de trabalharem no gabinete da presidência para aplicar golpes.
O sucessor de Martinho Campos, o desembargador Luiz Carlos Guimarães, assumiu o tribunal em 1999 e, logo em seguida, mandou que fosse investigado o destino de cerca de R$ 4,5 milhões que deveriam ter sido empregados na reforma de 126 zonas eleitorais do estado.
Uma auditoria realizada logo a seguir por três engenheiros do tribunal concluiu que apenas R$ 527.372,52 (10,34% da verba de R$ 5.101.000,32 destinada a essas obras) haviam sido gastos. E, pior: em seu relatório, os engenheiros classificaram o trabalho executado pela vencedora da licitação, como decepcionante. Em suas palavras: “poucos itens foram atendidos, devendo praticamente todos serem refeitos”.
Na época, o desembargador Guimarães também determinou a abertura de uma correição (apuração) interna para descobrir por que, dos R$ 94 milhões do orçamento para 1999, cerca de R$ 93 milhões (98% da verba) já haviam sido gastos até o dia 4 de maio. Entre outros pontos, o trabalho constatou que a empresa responsável pela reforma das zonas eleitorais trabalhava apenas com informática e que só tinha se transformado numa firma de engenharia 23 dias antes de vencer a licitação do TRE-RJ.
A pedido da Procuradoria da República do Rio de Janeiro, a Justiça Federal instaurou três ações civis públicas em 2003. De acordo com o site da Justiça, duas delas ainda estão em andamento, sem decisão em primeiro grau. Sobre a terceira, não há dados disponíveis.
O outro lado — A advogada Alexandrina Formagio, que respondeu pelos dois, foi contata pelo Globo por telefone na tarde de terça-feira. A reportagem encaminhou-se um email com uma lista de perguntas sobre o caso. Até a noite do dia 10, ela ainda não havia retornado.
Instituto Nacional de Traumato Ortopedia, o Into (foto de Márcia Foletto – Agência O Globo)
Caso Into
Em 2006, o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro denunciou à Justiça Federal onze integrantes de um grupo que supostamente havia fraudado licitações e prestações de serviço entre 1997 e 2001. Na lista denunciados estava Joaquim Pires e Albuquerque Pizzolante, ex-presidente da Fundação Médica Pró-Into, órgão privado de apoio ao Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia, ligado ao Ministério da Saúde.
Pizzolante e sua mulher, Iza Helena Carvalho Pires e Albuquerque Pizzolante, aparecem com sendo donos de uma conta conjunta numerada no HSBC suíço, a 7831JP. Ela foi aberta em 27/06/1989 e fechada em 12/09/2003. Nos registros bancários, não há referência sobre valores nela depositados.
Para o MPF, a Fundação Pró-Into foi usada para desviar recursos do Into da seguinte forma: permitia que leitos do instituto fossem usados por clientes de planos de saúde privados sem que os valores pagos pela prestação dos serviços médicos fossem devidamente repassados ao Into. A fundação também teria cobrado próteses e outros materiais médicos, usados por pacientes privados, sem reverter ao instituto o montante. A fundação também teria usado produtos do estoque público sem fazer sua reposição ou pagar por eles.
O esquema instalado no instituto, segundo o MPF, pode ter deixado um rombo de cerca de R$ 8,6 milhões. Hoje em dia, os acusados responderam por peculato, corrupção passiva, falsificação, fraude em licitação pública e formação de quadrilha. Pizzolante, no entanto, conseguiu trancar seu processo na segunda instância (TRF-2).
O outro lado — Joaquim Pizzolante disse por telefone ao Globo que não se recorda de ter tido qualquer conta na Suíça, mas que “procuraria em suas anotações”: “Seria até bom, aposentado, na fase em que estou vivendo, descobrir uma conta na Suíça”.
Seu advogado Leonardo Paradela garantiu que Pizzolante foi absolvido da denúncia criminal no processo envolvendo as fraudes no Into.
Operação Vampiro
Suposto líder de uma quadrilha que agia no Ministério da Saúde, Laerte de Arruda Correa Júnior foi preso pela Polícia Federal em 2004 durante a Operação Vampiro. Após passar 136 dias na carceragem, foi denunciado pelo Ministério Público Federal por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro
Em 2006 e 2007, Correa Júnior tinha US$ 1,1 milhão depositados em seu nome na agência do HSBC em Genebra. Ele havia aberto a conta banco em novembro de 2003, identificando-se como “consultor farmacêutico”.
Correa Júnior transitava desde os anos 80 entre políticos de diferentes governos. Em 1987, foi acusado por médicos de trazer ao Brasil o AZT, na época um coquetel revolucionário para tratar Aids, sem autorização do Ministério da Saúde. Correa Júnior morreu em outubro de 2011, em sua fazenda em Campinas, de causas naturais.
Segundo depoimentos à PF, Correa Júnior se apresentava para empresários do setor de medicamentos como alguém que teria “fortes ligações” com funcionários do governo federal e intermediava acordos para fraudar licitações na Saúde.
O outro lado — O UOLentrou em contato na 3 feira (10.mar.2015) com Vladimir Rossi Lourenço, que advogou para a viúva de Correa Júnior, Paloma Helene Abecassis de Arruda Correa. Na noite de 4 feira (11.mar.2015), Lourenço sugeriu que a reportagem procurasse o advogado José Eduardo Alckmin, o que foi feito.
Já bem tarde na noite de 4 feira (11.mar.2015), José Eduardo Alckmin respondeu ao UOL que não era mais advogado de Paloma Correa.
Caso PortoCred
Em outubro do ano passado, José Alexandre Guilardi de Freitas, ex-administrado do PortoCred SA CFI – instituição de crédito criada nos anos 1990 -, foi condenado em primeira instância pela 7 Vara Federal de Porto Alegre (RS) por crimes contra o sistema financeiro cometidos entre 2002 e 2007. Freitas está na lista de brasileiros com contas numeradas na Suíça. Segundo dados do banco, ele abriu uma conta em 18/09/1998 e a fechou em 24/07/2003. Em 2007, ela estava zerada.
Na decisão judicial de 2014, Freitas foi condenado por três crimes: operação de instituição financeira sem autorização devida; evasão de divisas e formação de quadrilha. A pena fixada foi de seis anos e quatro meses de prisão em regime semiaberto, mas, como cabe recurso, o réu responde em liberdade.
De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), o grupo no qual Guilardi foi denunciado atuava em um sistema bancário paralelo, sem autorização do Banco Central, realizando ações de câmbio; manutenção de contas de investimento no território nacional e fora dele; além de remessas irregulares de valores para o exterior. A investigação apontou um rombo de mais de R$ 2 bilhões em operações financeiras.
Guilardi também já havia sido denunciado pelo MPF por supostas fraudes cometidas entre 1999 e 2000 também no Portocred. Segundo a denúncia, ele teria montado dentro da empresa uma instituição financeira paralela, clandestina, que captava de forma irregular recursos de terceiros, para serem lavados.
O outro lado — O advogado Felipe Pozzebon, que representa Guilardi, disse ao GLOBO por telefone que não tem conhecimento de qualquer conta de seu cliente no HSBC suíço e que não há qualquer referência à conta em nenhum processo do qual o ex-administrador do Portocred é alvo.
Sobre as ações contra Guilardi, que há vários anos já não atua no mercado financeiro, o advogado disse ter como postura não dar detalhes sobre processos em andamento, mas que não há qualquer decisão com trânsito em julgado. “Há o princípio da presunção de boa fé, de inocência até que haja o trânsito em julgado. Já estamos em fase de recursos com grandes chances de reversão em tribunais superiores”.
Dilma pode entrar no livro nos recordes com uma avaliação negativa. Por que não?
Por Ricardo Noblat
Será tão difícil assim para a presidente Dilma, seus principais auxiliares, o ex-presidente Lula e o PT admitirem que a insatisfação generalizada dos brasileiros se deva acima de tudo ao fato de que se sentem enganados?
Acreditaram no que ouviram principalmente de Dilma — que o país ia bem; que ela não deixaria que ele se desviasse do rumo seguro do crescimento; e que votar na oposição seria pôr tudo a perder. Tudo que fora conquistado nos últimos 12 anos.
E deu no que deu. A perda do poder dos salários só fez aumentar. Assim como aumentaram preços que estavam sendo “administrados pelo governo”.
Isso quer dizer: preços que o governo segurou para Dilma poder se eleger. Soltou depois.
É só o que basta para entender o que se passa. O resto é firula. E, no caso do PT que se esgoela para negar o inegável, o resto é mais uma tentativa de se enganar e de enganar o distinto público. Não aprende. Mente para justificar mentiras.
Anotem o que o PT e sua turma dirão se as manifestações contra o governo no próximo domingo forem um sucesso: bem, pior não poderá ficar. Daqui para frente, Dilma irá se recuperar na avaliação dos brasileiros. Esperem para ver.
A seis meses de sua queda, Fernando Collor tinha 15% de ótimo e bom. E havia metido a mão na poupança dos brasileiros, congelando-a.
Há menos de três meses de empossada, Dilma tem 7% de ótimo ou bom, segundo Merval Pereira, de O Globo.
Corre o risco de entrar para o livro dos recordes como o primeiro presidente a exibir uma avaliação negativa. Faria algum sentido.
Se o crescimento do país no ano passado foi negativo, por exemplo, por que a avaliação de Dilma também não poderia ser?
Dilma perdeu uma oportunidade, se não boa, no mínimo razoável, de se levantar do banquinho no córner, onde está acuada pela crise política e pelo péssimo desempenho da economia, e, pelo menos, voltar ao ringue, no pronunciamento à Nação por TV e rádio no Dia Internacional da Mulher, domingo. Seu discurso inócuo, boboca e incompreensível teve o que merecia (aqui): panelaço, vaias e xingamentos pelo País inteiro. Só não se decepcionou com ela quem não viu.
De fato, não havia muito espaço para manobra. Mas pedir paciência a uma plateia que dela só tem ouvido mentiras autoindulgentes não poderia deixar de soar tolo, inútil, arrogante e alienado. Poderia ter começado com um pedido de desculpas por tudo quanto prometeu na campanha e começou a descumprir quando foi divulgada a vitória na reeleição. A continuação inevitável poderia ser uma demonstração de que a paciência exigida dos cidadãos, que ela trata como súditos, seria compensada por algum sacrifício: redução de ministérios, cujo número é absurdo, por exemplo. Nem fez a velha proposta de pacto. Talvez porque padim Lula se tenha recusado a apertar as mãos estendidas na eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral, no apoio à Constituição, que o Partido dos Trabalhadores (PT) assinou amargamente constrangido, e no governo de união nacional de Itamar Franco, depois da queda de Fernando Collor.
Em vez disso, preferiu adotar a tática stalinista de reescrever o passado para garantir as boquinhas por um tempo longe de ser promissor para ela, seu governo e, sobretudo, para o País. Atribuiu a conjuntura “à maior crise econômica desde a recessão de 1929”, a de 2008, que, para Lula, passaria por aqui feito uma “marolinha” e ela jura que paira sobre nós há sete anos, como nos sonhos das vacas magras de José do Egito. E à seca, desgraça perene do Nordeste, que, ela esquece, faz parte do Brasil, apesar de ter-lhe garantido, com milhões de votos, a permanência no trono. Lá se sabe que a chuva é incerta e caprichosa.
Os tomates imaginários jogados pelos “podres burgueses golpistas” partem do pressuposto de que a piada do barítono que anuncia um tenor pior à plateia que o apupa nem sequer servirão de metáfora para a crônica de seu desgoverno abortado: este, ao contrário do Cassino do Chacrinha, já acaba quando mal começou. Tudo indica que a militância armada contra a ditadura a impediu de frequentar aulas de História do Brasil, cujo aprendizado lhe faz falta. E mais ainda ao populacho, que verga sob sua inépcia. O desastrado discurso em que a mulher, festejada domingo no mundo todo, foi aqui celebrada às avessas evidencia que nossa experiência da dona da casa no poder será apenas um “duela a quién duela” coletivo.
Reconheça-se que os citados episódios históricos têm algumas diferenças em relação aos eventos destes idos de março em que o cego Tirésias teria a bendizer os temporais eventuais, prenunciados pelo cheiro. Nestes 61 anos foram aplicadas três soluções pessoais para resolver crises políticas. Em 1954, Getúlio Vargas disparou contra o próprio peito para não morrer afogado no “mar de lama” de uma corrupção de aprendiz, comparada com o caso Celso Daniel, o mensalão e as petrorroubalheiras — o crime continuado que ora corrói as bases da republiqueta sob os petralhas. Sabe-se que Getúlio era um suicida vocacional. O tiro foi o único jeito que teve para abortar o golpe dos militares da geração dos tenentes de 1930. Ao “sair da vida para entrar na História” adiou o golpe, sim, mas por apenas dez anos.
Contra o manhoso estancieiro de São Borja havia também a oratória inflamada e eficiente da UDN de Affonso Arinos de Mello Franco e de Carlos Frederico Werneck de Lacerda. A retórica, a ação parlamentar e a capacidade de construir caminhos para desviar o País da crise a que foi levado pela insana gula petista passam longe do perfil da oposição de hoje, indigna até dessa denominação.
Seis anos após o suicídio no Catete, um presidente popular, eleito acima dos partidos, com a vassoura feita símbolo e a faxina como missão, renunciou para livrar-se das dificuldades impostas por um Congresso dominado por partidos que desprezava. A renúncia de Jânio Quadros foi um autogolpe que falhou por conta da fé cega em si mesmo. “Renuncia, Dilma”, prega quem lhe atribui idêntico defeito. Mas ela não tem a persistência suicida revelada nos Diários de Getúlio, nem o perfil nobre de quem renuncia para facilitar a saída pela qual um governo de união nacional possa impedir a tragédia que se prenuncia com as fraturas da Nação, expostas na disputa eleitoral e agravadas com a determinação do grupo no poder de se agarrar ao que restar de bife no osso descarnado.
Fala-se ainda mais em deposição, repetindo a solução dada em 1992, 31 anos após os nove meses de Jânio, com 20 anos de ditadura militar no meio. Lá se vão apenas 23 anos, mas urge lembrar que o impedimento inevitável cedeu lugar à renúncia consentida do presidente, que, como Jânio, tentou em vão pôr de joelhos o Congresso (de 300 “picaretas” de Lula e 400 “achacadores” de El Cid Gomes?). Ao contrário de Dilma, a cujos propósitos ele serve, o ex-presidente tentou o lance do “Ministério ético”. Mas foi defenestrado sem dó.
Sábado O Globo informou que, conforme delação premiada, Mário Negromonte foi trocado no Ministério das Cidades por Aguinaldo Ribeiro por pressão de seus correligionários acusados de se abastecerem no propinoduto da Petrobrás. Foi Dilma quem assinou nomeações e demissão de ambos. Dizer que era assunto interno de aliados e não lhe diz respeito em nada vai ajudar a suspender a queda de sua reputação. Para piorar, a dupla protagoniza a mesma investigação, na qual ela não figura.
Mas, com os militares de 1930 mortos e sepultados e a oposição incapaz de apunhalá-la politicamente, Dilma depende do Imponderável da Silva nas ruas para escapar aos idos de março — chova ou faça sol.
Com um dígito de aprovação popular, Dilma e o PT não podem mais culpar só os ricos pela insatisfação generalizada do brasileiro
Jornalista, blogueiro e escritor Merval Pereira
Popularidade de Dilma no chão
Por Merval Pereira
As vaias de ontem (aqui) no 21º Salão Internacional da Construção, no pavilhão do Anhembi, em São Paulo, e o panelaço de domingo são exemplares do sentimento generalizado de rejeição ao governo Dilma que pesquisas de posse do Palácio do Planalto mostram com exatidão.
Lendo-as, não é possível continuar dizendo que as manifestações públicas contra o governo refletem apenas a posição dos ricos. O mesmo autoengano foi cometido pelo governo durante a Copa do Mundo, quando as vaias no jogo inaugural foram inicialmente atribuídas aos setores mais abastados da população.
As medições diárias indicam que o índice de avaliação boa/ótima do governo chegou a um dígito nesta semana, jogando no chão a popularidade da presidente Dilma, que despencou de 42% em dezembro de 2014, depois da eleição, para 23% em fevereiro, segundo o Datafolha.
E agora chega a um dígito, menor do que o índice de popularidade do ex-presidente Collor seis meses antes de a Câmara dos Deputados autorizar o processo de impeachment. Naquela ocasião, Collor chegou a 15% de avaliação positiva, depois de ter tido, no início do seu governo, a expectativa de 71% da população de que faria um governo bom/ótimo.
Três meses depois, no entanto, só 36% mantinham a avaliação, percentual que caiu para 24% no primeiro ano e, ao final de dois anos apenas 15% mantinham esta avaliação positiva.
A trivialização do roubo
Espanta tanto a trivialização da roubalheira no relato do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco (aqui) ontem na CPI, quanto a normalização do fato feita pelo relator petista deputado federal Luiz Sergio, que não viu “dados novos” no depoimento do delator.
Ora, a repetição de dados antigos que abrangem sempre milhões de dólares, o tratamento banal dado às negociações sobre as propinas, tudo isso é escandaloso demais para que se procure tratar dentro do terreno da normalidade o que Barusco descreveu nas muitas horas de depoimento na CPI.
Foi um verdadeiro circo de horrores o desfiar de detalhes do esquema que está sendo investigado pela Operação Lava-Jato, e o raciocínio de Barusco é cartesiano: se ele, que era gerente, ganhou os milhões de dólares que ganhou, por que seu superior imediato Renato Duque e o tesoureiro do PT João Vaccari, com quem se reunia para fazer a divisão do butim, deixariam de receber o que estava previsto nas planilhas?
É claro que Barusco não pode afirmar quanto Vaccari levou para o PT, só estimar, pois não era ele quem dava o dinheiro, e sim Duque. Mas pelas porcentagens acertadas, é fácil estimar que entre US$ 150 a 200 milhões de dólares entraram no cofrinho petista no período em que vigorou o esquema.
Assim como foi patético o esforço do relator e de alguns deputados petistas de tentar fazer Baruco dizer que o esquema criminoso começou ainda no governo de Fernando Henrique. O ex-gerente da Petrobras foi até involuntariamente cômico quando reagiu com veemência dizendo que até 2003-2004, o que ganhava de propina era de sua atuação pessoal, sem que ninguém soubesse.
Essa propina própria está misturada à propina institucionalizada pela gestão petista a partir do momento em que o partido chegou ao poder central com Lula, em 2003, e Barusco quase lamentou que, não podendo definir o que era o que, resolveu devolver os US$ 97 milhões aos cofres públicos, depois de sua colaboração premiada ter sido homologada pelo Supremo Tribunal Federal.
Pelo seu relato, confirmando a informação dada por Paulo Roberto Costa em outro depoimento em Curitiba, a campanha de Dilma Rousseff de 2010 está necessariamente maculada pelas doações ilegais, desviadas dos cofres da Petrobras e muitas vezes lavadas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como doações legais.
Na sexta-feira, quando o repórter Lucas Reis telefonou para o vice-governador da Bahia, João Leão, do PP, pedindo-lhe um comentário a respeito de sua inclusão na lista de políticos arrolados pela Procuradoria-Geral da República, ouviu (aqui) o seguinte:
“Estou cagando e andando, no bom português, na cabeça desses cornos todos.”
João Leão acumula o cargo de vice-governador do estado com a Secretaria do Planejamento, para a qual foi nomeado pelo governador petista Rui Costa. Feito o estrago, dois dias depois Leão desculpou-se de forma tortuosa, explicando “a exata dimensão das minhas palavras”:
“Foram considerações feitas num momento de profunda indignação e surpresa. (…) Não há, da minha parte, nenhuma intenção de ofender o Ministério Público, o Poder Judiciário, ou quaisquer outras instituições essenciais na manutenção do Estado Democrático de Direito, nem pessoas.”
Se o doutor tivesse explodido ao sair de um bar ou mesmo de uma missa, tudo bem. Sua declaração foi dada numa resposta à indagação do repórter. Pode ter sido influenciada pela contrariedade, mas a “exata dimensão das minhas palavras” é só uma.
Faz tempo, as pessoas iam para a rua com os versos de Geraldo Vandré:
“Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não”
O doutor Leão ofereceu dois novos gerúndios para a velha letra, mas desta vez os “iguais” são outros. Foi a percepção da diferença que provocou os protestos de domingo, enquanto a doutora Dilma falava.
Passados alguns dias do episódio, sem que se possa atribuir qualquer conteúdo emocional ao que disse, o governador Rui Costa justificou as palavras de Leão: “No momento de dor e revolta você pode acabar pronunciando palavras que não sejam as mais adequadas”. Antes fosse. Nesse caso, seria compreensível que chamasse de “cornos” sabe-se lá quem. (Corno só não era ofensa para Andrew Parker Bowles, o marido de Camilla, namorada do príncipe Charles, atual duquesa da Cornualha.) A essência dos gerúndios seria então “estou pouco ligando”. Sairia a vulgaridade e permaneceria a soberba. Se um cidadão disser isso a um delegado em Salvador, toma uma cana por desacato a autoridade.
O comissário Rui Costa não tem poderes para demitir o vice-governador eleito em sua chapa. Contudo, o doutor Leão é seu secretário de Planejamento e ele informa: “Não vejo motivo nenhum para afastá-lo. Ele foi citado por alguns dos delatores. O que o STF fez foi autorizar o início do processo de investigação”. Não é bem assim. A simples abertura da investigação poderia, a juízo do governador, ser motivo insuficiente para afastá-lo. Tomado ao pé da letra, Leão informou que estava “cagando e andando” para o procedimento que um ministro do Supremo Tribunal Federal autorizou que fosse instaurado em relação a ele.
A linda canção de Vandré, com os gerúndios originais, era um hino para a rua e por isso foi proibida. Com os gerúndios de Leão, ela se torna um hino para o andar de cima:
Dilma Rousseff é vaiada no Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo (divulgação)
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
Por Ricardo Noblat
No meio do caminho do auditório do Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo, onde abriria, ontem, com uma palestra, o 21º Salão Internacional da Construção, a presidente Dilma Rousseff
ouviu as primeiras vaias e decidiu dar meia volta.
— Vamos voltar — ordenou de cara amarrada ao seu obediente séquito.
Foi então que as vaias se multiplicaram e aumentaram. Acompanharam Dilma durante mais de cinco minutos. Só cessaram quando ela sumiu da vista dos manifestantes.
Ninguém ali havia sido convidado para vaiar Dilma. A maioria nem sabia que ela honraria o compromisso assumido há algum tempo.
O público não era branco nem rico. Era um público jovem, de classe média baixa. Justamente aquele que na última eleição, em peso, votou em Dilma no Norte e Nordeste, de preferência.
Golpista? Talvez fosse, sim, a se acreditar no delírio do PT.
Na palestra, Dilma não comentou as vaias. Nem empresários, que a vaiaram também, comentaram.
O que ela disse?
E de fato importa?
O governo está em pânico com o risco de as manifestações contra ele marcadas para o próximo domingo levarem às ruas grandes multidões.
Até o discurso de Dilma, no último domingo, o governo apostava no fracasso das manifestações. Depois do discurso, e das vaias de ontem, teme o pior.
Se dependesse dele, a Central Única dos Trabalhadores cancelaria as manifestações que marcou para a próxima sexta-feira. Elas serviriam para protestar contra o ajuste fiscal.
Serão reorientadas para que sirvam de defesa à Petrobras e ao governo.
O governo cultiva outro temor: o de que as manifestações patrocinadas pela CUT fracassem.
O peemedebista Eduardo Cunha entra em uma das salas de seu gabinete rodeado por seguranças e assistentes. Na sala de onde despacha, responde aos questionamentos do EL PAÍS entre uma ligação e outra, em meio a diversas trocas de mensagens pelo celular. Ainda que em alguns momentos fale depressa e feche os olhos ao se incomodar com algumas perguntas, aparenta calma, apesar de toda a pressão dos últimos dias.
O presidente da Câmara dos Deputados, que desde que chegou ao comando da Casa, em fevereiro, impôs uma série de derrotas a então aliada Dilma Rousseff (PT), é um dos 54 nomes que serão investigados nos processos relativos à operação Lava Jato.
Cunha será investigado por formação de quadrilha, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo as apurações iniciais, um dos delatores, o policial federal Jayme Alves de Oliveira Filho, conhecido como “Careca”, afirmou ter entregue dinheiro na casa de um aliado de Cunha a mando do doleiro Alberto Youssef, um dos operadores do esquema.
Segundo reportagem do jornal O Globo do último domingo, Youssef também teria afirmado em sua delação premiada que Cunha era um dos beneficiários da propina da estatal em um contrato de aluguel de um navio-plataforma das empresas Samsung e Mitsui. Ele nega tudo.
Pergunta. O Psol fez uma representação para que os envolvidos na Lava Jato com cargo de mando deixem seus postos.
Resposta. O inquérito é um pedido de investigação inicial. Não podemos culpar ninguém previamente. Estão querendo pegar uma carona política para criar constrangimento.
P. O requerimento o afetaria diretamente. Vai renunciar?
R. Não cogito nada disso e não o farei.
P. Quem tem que colocar o requerimento em votação é você…
R. Não vai ser colocado em votação. Para ser colocado em votação tem que pedir um regime de urgência. Para ter o regime de urgência tem que ter a assinatura dos líderes que representem a maioria. Tem que ter votação nominal no Plenário com 257 deputados. Isso não vai acontecer, não tem apoio para isso. Não é um partido com cinco deputados numa bancada de 513 que vai ditar a pauta da Casa.
P. Não pode haver conflito de interesse pelos cargos que ocupam os da lista? Há deputado investigado, inclusive, na CPI da Petrobras.
R. É juízo de valor de cada um. O que está na CPI, aí sim, tem uma vedação regimental. Não se pode investigar algo em que você está sendo investigado. Não precisa criar nada novo.
P. Parlamentares investigados da Comissão de Ética também?
R. Não, desde que não participe do julgamento em relação à matéria. Se ele se declarar impedido em relação a esse tema, segundo for julgado, não vejo nada demais.
P. Mas não sente, como presidente da Câmara…
R. Eu me sinto, por acaso, perseguido! O procurador escolheu a quem investigar. Não tenho a menor preocupação com o conteúdo do pedido da minha investigação. Ninguém está imune à investigação. Aliás, eu já respondi dois inquéritos e uma denúncia. Os dois inquéritos foram arquivados e fui absolvido da denúncia. Ninguém pode fazer juízo antecipado de quem quer que seja. A nossa Constituição assegura o direito da presunção da inocência.
P. Por que se sente perseguido pela Procuradoria?
R. Porque a Procuradoria escolheu a quem investigar. Ela não teve o mesmo critério para todos e a petição que foi feita em relação ao meu caso é uma piada.
P. Por quê?
R. Porque os fatos são absolutamente… para você rir. Porque ele fala da casa. Reconhece a comprovação de que a casa não é minha, que é de alguém ligado a uma pessoa que supostamente é minha aliada e, então, tem que me investigar. Eu vou rebater ponto por ponto na quinta-feira, na CPI e em todos os foros apropriados, por quem demandar, sem nenhuma dificuldade. O procurador começa citando uma parte do delator Youssef, falando do suposto aluguel de um navio-plataforma da Samsung em 2006, quando eu era oposição ao Governo. Depois, cita como referência a pessoa que teria supostamente pago o benefício [propina]. Essa pessoa também é delator, mas na delação dele não citou nada sobre isso. Existem muitas incoerências.
P. Por que o procurador-geral o perseguiria?
R. Não sei. Acho que é uma tentativa clara de enfraquecer o Poder Legislativo. Não há dúvidas.
P. Uma tentativa por parte de quem? Da Presidência?
R. De quem quer que seja. Pode ser do Governo, propriamente dito, em atuação com a Procuradoria-geral da República. Acho que há um interesse de colocar todo mundo na mesma situação.
P. Acha que o ministro da Justiça fez isso?
R. Não acuso nominalmente ninguém. Acuso o Poder Executivo. Quando saiu a matéria no jornal O Globo eu coloquei no meu Twitteruma nota que desmontava as razões do pedido de arquivamento do senador Delcídio do Amaral [do PT]. No entanto, o procurador optou pelo arquivamento no caso dele. Não que eu queira acusar o Delcídio de nada, mas os critérios foram diferentes.
P. Com tantos parlamentares envolvidos na lista, a vida parlamentar do país não vai ficar insustentável?
R. Acho que não. A pauta vai ser tocada normalmente. Esse é um esquema do Poder Executivo. A corrupção está no Governo, não está no Parlamento. Eventualmente, alguém do Parlamento pode ter se beneficiado da corrupção do Governo, o que é uma coisa que está sendo investigada. Há um esquema sistêmico de corrupção da Petrobras.
P. Mas os parlamentares receberam dinheiro.
R. Isso que vai ser comprovado e, quem o fez, vai responder por isso. Mas a corrupção não existiu pelo Poder Legislativo. Alguns parlamentares até podem ter apoiado sem saber que era corrupção, pela natureza política. Outros, podem ter compartilhado. Essa crise é do Poder Executivo, não é daqui. Há uma nítida tentativa de transferir ela para cá. Como se fosse aqui que se assinasse a contratação de plataforma, que construísse refinaria, que convidasse cartel de empreiteiras para participar de licitação. Onde se faz isso é lá.
P. Acha que ainda há muito mais coisa escondida?
R. Em um esquema de corrupção dessa monta, com certeza deve haver ainda muita coisa a ser investigada. Deve ter muito mais corrupção dentro da Petrobras que ainda não chegou a público. A investigação está apenas em uma diretoria. É o maior esquema de corrupção já divulgado no mundo segundo os montantes envolvidos.
P. Você falou que é um esquema sistêmico, que acontece há muitos anos…
R. Desde que alteraram o regulamento de licitações da Petrobras. Ela deixou de obedecer a Lei 8666 [das licitações públicas] e passou a ter um regulamento próprio, por carta convite. A partir disso se formaram os carteis e foi a porteira da corrupção.
P. E isso aconteceu em que ano?
R. No Governo Fernando Henrique Cardoso. Foi um decreto do Governo Fernando Henrique.
P. Então o governo Fernando Henrique tem que ser investigado?
R. Eu acho que ninguém está imune a investigação. Todos podem e devem ser investigados.
P. Mas você sinalizou que governo tucano não será investigado na CPI.
R. O que eu falei em relação à CPI é que a ementa que pediu a criação dela tinha uma destinação. E eu sou regimentalista, não vou alterar. Se quiserem investigar o Governo Fernando Henrique façam uma ementa da CPI e colham as assinaturas para a investigação que envolva o Governo Fernando Henrique.
P. Você nunca tinha ouvido falar desse esquema de corrupção tão amplo antes de ele vir a público?
R. Eu não fazia parte desse processo, não tinha nomeação na Petrobras. Não tenho absolutamente nada com isso.
P. O delator Paulo Roberto Costa afirmou que a corrupção está ligada às doações de campanha. O que acha?
R. Acho que o Paulo Roberto não tem credibilidade. Não tenho que concordar, nem discordar.
P. Mas e na sua opinião: existem doações inocentes?
R. Eu acredito simplesmente que existe uma Lei que prevê a forma dos partidos receberem as doações legais. A menos que se comprove que efetivamente alguma doação foi pagamento de propina disfarçado, o que não se tem, não tem razão de desqualificar isso.
P. O PT diz que quer proibir o financiamento privado.
R. O PT tenta mudar, mas, no entanto, um ano antes da eleição, em 2013, foi o partido que arrecadou 83 milhões de reais de contribuições privadas, sem eleição. Então, falta ao PT ter coerência entre seus atos e seu discurso. Receber isso em um ano não eleitoral causa muita estranheza. Isso, sim, tem que ser objeto de apuração. Na eleição, acho normal.
P. Não acha que a conta pela doação vem depois?
R. Na minha vida, em todas as eleições que eu participei, de todas as doações que eu recebi, nunca ninguém me apresentou a conta ou me pediu nada antecipadamente. Doaram pela minha posição política, pelas minhas opiniões e por aquilo que eu defendo. E eu acredito que deva ser assim com todos.
P. O presidente da CPI da Petrobras, Hugo Motta, indicação da liderança do PMDB, recebeu na última eleição doações da Andrade Gutierrez por meio do partido, além de outros R$ 200 mil da Odebrecht, também por meio do partido.
R. Garanto que ele sequer sabia de onde estava vindo a doação. O partido que recebeu e distribuiu entre os parlamentares que achava que precisavam.
P. Isso não denota um conflito de interesses no futuro? Ele é presidente da CPI que vai investigar o esquema que envolve essas empresas.
R. Ele sequer vota na CPI.
P. Mas não é uma relação perigosa?
R. Se partirmos desse princípio, a presidenta da República não poderia ser presidenta da República porque ela recebeu doação das empreiteiras. O candidato de oposição também recebeu e não pode criticar. Não acho que querer criminalizar a doação eleitoral é o caminho para resolver o problema. Se você vir que ele efetivamente recebeu alguma vantagem indevida e está protegendo na CPI alguma dessas empresas… Essas empresas não são nem as que têm executivos presos.
P. Acha que o PMDB a partir de agora está mais enfraquecido com os seus dois principais nomes na Casa investigados?
R. Eu não acho que é o PMDB. Eu acho que é o poder Legislativo. Eu acho que não vai enfraquecer o PMDB. Nós vamos continuar atuando como temos que atuar.
P. Mas você e o presidente do Senado, Renan Calheiros, ambos do PMDB, vinham batendo de frente desde o inicio com a presidenta Dilma…
R. Eu não quero falar pelos atos do presidente Renan. Ssobre isso fala ele, eu falo pelos meus atos.
P. O PMDB hoje é aliado ou é oposição?
R. Não é oposição.
P. É aliado?
R. Faz parte da base aliada, mas com bastante pimenta de independência.
P. Essa pimenta gerou uma crise…
R. Você acha que ser independente é ruim?
P. A Presidência talvez ache…
R. Quero deixar bem claro que isso não tem nada a ver com o ajuste fiscal. Não existe da nossa parte nenhuma vontade de querer explodir o país. A minha responsabilidade é manter o mínimo de governabilidade para que a economia não seja afetada.
P. Mas a economia está sendo afetada.
R. Não pelos meus atos. Não fui eu que me coloquei na lista. Não fui eu que inventei a corrupção da Petrobras. Então eu não posso ser culpado por isso. Eu sou presidente da Câmara. Aqui na Câmara eu não tenho nenhuma matéria sobre ajuste fiscal a ser votada. Se tiver, ponho para votar na hora.
P. Está de acordo com o ajuste? Acha que é necessário?
R. Fundamental.
P. E como vê, então, a reação de Calheiros?
R. Volto a dizer: pergunte a ele.
P. Mas vocês fazem parte de um mesmo partido político.
R. Sim, mas as razões que o levaram a tomar a decisão foram razões de natureza não só política, mas também jurídicas e regimentais. Não posso criticar a interpretação dele.
P. Como começou essa crise entre PT e PMDB?
R. Nós não participamos das discussões daquilo que ia acontecer. Não fomos partícipes da formulação, não podemos ser partícipes na sua execução. Se tinha um ajuste fiscal para fazer, por que não nos chamaram previamente? Pelo menos para comunicar o que ia ser feito antes de ser feito. Essa é uma crítica que fazemos. Estamos no direito de dar opinião.
P. Onde acha que o PT começou a errar na articulação política? Quando tentou enfrentá-lo pela presidência da Câmara?
R. Aí já deve ter sido o segundo, o terceiro ou o quarto erro.
P. E qual foi o primeiro?
R. A articulação política que foi montada, deixando o PMDB completamente fora dela. E uma articulação política completamente atabalhoada. A própria tentativa de criar um partido para enfraquecer o PMDB [O PL, que o ministro Gilberto Kassab quer recriar] foi a principal razão de estresse entre os dois lados. Esse é um erro político. Você não parte para buscar a destruição do seu aliado. É como se estivesse dormindo com o inimigo. E, ao mesmo tempo, vai esfaquear o inimigo de manhã.
R. Não é isso. Acho que o fim de ciclo está acontecendo mesmo, mas não é porque a gente está achando isso e se afastou. A gente não vai fazer isso com um Governo no primeiro mês se você está junto no projeto, e tem o vice-presidente da República. Agora, ficar sócio só do ônus… Só nos chamam para poder tomar ovo na cabeça. Não nos chamam para poder discutir se a gente quer tomar o ovo na cabeça. É essa a diferença.
P. O que o PT precisa fazer para melhorar a relação?
R. Quebrar a desconfiança generalizada que existe nas intenções de cada um.
R. Ainda falta a presidente sancionar. Aí acho que enterra. Desde que ele não protocole o pedido antes.
P. O vice-presidente Temer foi chamado para fazer parte do círculo que discute com Rousseff as questões importantes.
R. Espero que haja tempo para que isso tenha resultados. Tomara que dê certo.
P. Acha que o PT tem condições de vencer em 2018?
R. Não sei nem quem é o candidato… Eu pretendo que o PMDB tenha candidato. Se depender da minha vontade pessoal terá. Eu defendo o nome do Eduardo Paes.
P. Acha que o PMDB consegue ter um nome nacional?
R. Por isso que estou defendendo o nome do Eduardo Paes. Depois das Olimpíadas, é um bom nome.
P. Mas as articulações nos Estados como ficam? Em cada Estado o PMDB é alinhado com um partido.
R. Nós temos situações de alinhamento com o PSDB, situações de alinhamento com o PT, em vários Estados, cada um com a sua realidade. Essas realidades se constroem independentemente da realidade nacional.
P. Então esse enfrentamento com o PT já é o início da campanha de 2018?
R. Ainda falta muito tempo. Até lá tem tanta água pra rolar, tanta coisa pode acontecer…
R. Uma manifestação popular, natural, legítima. É a expressão de uma perda de popularidade dela, que pode aumentar ou diminuir dependendo do momento.
P. A impopularidade vai crescer mais?
R. Já chegou num nível de 2013, segundo a última pesquisa que eu vi. Então, consequentemente, a manifestação é um reflexo. Ela está com um número baixo de apoio. Todas as vezes que isso acontece, há manifestações contrárias. No Governo Sarney, Fernando Henrique… Em todos eles aconteceu.
P. Há a possibilidade de ocorrer impeachment?
R. Não tem. E eu sou contrário a isso. Acho que é golpe.
Para sempre Alice — A fusão de arte e vida, em que ambas são diariamente misturadas e se confundem, é uma questão indiscutível. A temática do Mal de Alzheimer é um assunto corriqueiramente abordado — tanto superficial quanto minuciosamente —, no cinema, em filmes como A Separação (2011), de Asghar Farhadi, e Há tanto tempo que te amo (2008), de Philippe Claudel; e na literatura, na obra O lugar escuro, da jornalista Heloísa Seixas. Novamente o tema retorna às telas, no filme Para sempre Alice, dirigido por Richard Glatzer e Wash Westmoreland.
Baseado na obra de ficção homônima de Lisa Genova, Para sempre Alice, por meio de cenas ricas que afloram perturbadores sentimentos no público, mostra a realidade dos pacientes diagnosticados com mal de Alzheimer — somente no Brasil, segundo dados da Associação Brasileira de Alzheimer, há mais de 1,2 milhão de enfermos. Alice Howland, interpretada por Julianne Moore, é uma renomada professora americana de Linguística, que leciona na Universidade Columbia, conhecida pelas produções acadêmicas e incontestável inteligência.
Os primeiros traços da doença aparecem suavemente durante o jantar em comemoração ao aniversário da docente, no momento em que ela confunde uma conversa sobre as filhas e se refere à irmã, morta na juventude. No entanto, a confusão, como ocorre diariamente em quadros clínicos ainda não diagnosticados, passa despercebida por todos os presentes.
O avanço do Alzheimer começa a ser notado pela mulher durante uma palestra proferida na universidade, quando lhe falta uma palavra comumente utilizada. A partir de então, Alice se perde, conforme ela própria afirma, e seu lugar é tomado por uma mulher emocional, física e
mentalmente frágil e debilitada. À medida que a doença evolui rapidamente, percebe-se ainda mais a semelhança com o cotidiano no qual vivem os enfermos. Nesses momentos, o diálogo entre ficção e realidade se torna ainda mais nítido, ao mostrar as degradações e perdas, tanto emocionais quanto físicas, trazidas com a passagem do tempo.
Notando-se cada vez mais incapaz de exercer suas funções cognitivas normais, Alice recorre a mecanismos eletrônicos e manuais que possam ajudá-la a manter-se conectada ao mundo real e às suas memórias. Os dias de linguista tornam-se tão nebulosos quanto as lembranças que
permearam seu cérebro por 50 anos, idade em que foi diagnosticada com mal de Alzheimer.
Os danos causados são apresentados por meio de cenas turvas e pouco nítidas, equivalentes à confusão mental da professora, fazendo o espectador enxergar o mundo através dos olhos vagos de uma Alice abatida e lívida, sem o ar sóbrio que lhe era característico. Em uma sequência, enquanto a personagem caminha pela praia, a captação das imagens é feita em plano aberto, colocando-a sozinha diante da areia e do mar. A sensação de vazio, causada pela ausência de outros elementos cênicos, é a representação imagética da situação da mulher, em que os detalhes mais íntimos desaparecem por completo de sua memória, deixando-a órfã de si mesma e entregue à solidão absoluta.
Em um discurso proferido na Associação de Alzheimer, Alice Howland traduz a percepção das pessoas enfermas acerca da nova realidade e, também, o sentimento dos espectadores que acompanham, em aproximadamente 1h40 min, a curva descendente da vida da protagonista. Brilhantemente montado e dirigido, o filme facilita a empatia entre o público e a personagem.
A temática, embora recorrente, é abordada com total verossimilhança, e o longa-metragem destaca-se, sobretudo, pela atuação de Julianne Moore, que incorpora plenamente a personagem após o diagnóstico de Alzheimer da linguista. O papel rendeu à artista os merecidos prêmios de Melhor Atriz do Oscar, do BAFTA e do Prêmio Critic’s Choice, e, também, de Melhor Atriz em Filme de Drama do Globo de Ouro.
No decorrer do filme, a troca entre o público e a protagonista é plena, fazendo doer em nós, sujeitos passivos e meros receptores, todas as limitações e receios da mulher, visto que, dia a dia, também deixamos para trás um pouco de nossa história.
O ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) classificou como “chocante” o depoimento do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco à CPI montada na Câmara dos Deputados para apurar irregularidades na estatal.
Barbosa foi ao Twitter na madrugada desta quarta-feira (11) comentar o depoimento. “Como milhões de brasileiros, vi a programação da TV Câmara ontem. Chocante”, escreveu.
Barusco, que admite o recebimento de propinas e a divisão delas com o PT,detalhou nesta terça-feira (10) seu relacionamento com o tesoureiro do partido, João Vaccari Neto — citando jantares em hotéis e contatos por mensagens telefônicas — e contou que, a pedido do petista, providenciou o repasse de US$ 300 mil para a campanha da presidente Dilma Rousseff em 2010.
O ex-gerente também revelou que o Ministério Público está fazendo o levantamento dos registros telefônicos, para fazer o cruzamento e comprovar esse elo com Vaccari. O telefone que usava na época, porém, era seu funcional, e não pessoal -por isso diz não ter mais detalhes. Ele ainda confirmou que começou a receber propina da SBM entre 1997 e 1998, época da gestão Fernando Henrique Cardoso, mas não entrou em detalhes porque, segundo ele, está sendo investigado pelo Ministério Público Federal e pela Justiça holandesa.
A secretaria de Finanças do PT — chefiada por Vaccari Neto — contestou o depoimento afirmando que Barusco não apresentou prova ou indício que liguem o tesoureiro do partido ao recebimento de propinas.
Antes de postar a mensagem, o ex-ministro do STF afirmou ser importante falar um pouco de história “no momento atual”. E escreveu: “1) Quem diria em maio de 1789 que aquele convescote estranho realizado em Versalhes iria desembocar na terrível revolução francesa? 2) Em 15/11/1889, nem mesmo o general Deodoro da Fonseca tinha em mente derrubar o regime imperial sob o qual o Brasil vivia. Aconteceu. 3) nem o mais radical bolchevique imaginaria lá pelos idos de 1914 que a 1a guerra mundial facilitaria a queda do regime czarista da Rússia.”
Segundo Barbosa, a história no Brasil “pouca gente pensa nas ‘voltas’ e nas ‘peças’ que a História dá e aplica’. Ele avaliou ser um “tremendo erro” ver o depoimento de Barusco à CPI apenas sob a ótica partidária.
“Partidos são meros instrumentos. Nossa nação não se construiu e tampouco se define à luz de momentâneos interesses partidários”, finalizou.
Cunha e Grabrielli
Nesta quinta (12), será a vez do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do ex-presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli prestarem depoimento à CPI.
Cunha foi acusado pelo doleiro Alberto Youssef de ter recebido propina referente a um contrato da petroleira. Ele nega e afirma que o governo atuou para que ele fosse alvo da investigação.
Apesar de o PPS e o Psol terem apresentado requerimentos pedindo a convocação de Cunha, o presidente da comissão, deputado Hugo Motta (PMDB-PB) afirmou que foi procurado pelo próprio presidente da Câmara, que disse querer ir “espontaneamente” à comissão.
“Ontem (9/3) à noite recebi uma ligação do presidente [Eduardo Cunha] expressando seu desejo de vir até esta comissão”, anunciou Hugo Motta.
A decisão, porém, foi questionada pelo deputado Ivan Valente (PSOL-SP), que argumentou que a CPI “deveria escolher o melhor momento para este depoimento”, e não imediatamente, porque ainda poderiam surgir novos fatos.
Motta rebateu e confirmou o depoimento do peemedebista.