A revista britânica The Economist publicou um novo editorial sobre o Brasil na edição que chega às bancas neste final de semana. Intitulada “Lidando com Dilma”, a publicação aponta os motivos que deixam brasileiros “fartos” da presidente. Para a Economist, Dilma mentiu na campanha e os eleitores estão percebendo que foram vítimas de um “estelionato eleitoral”. “Mas um impeachment seria uma má ideia”, diz a revista.
“Não é difícil ver por que os eleitores estão com raiva”, afirma a publicação. “Ela presidiu o conselho da Petrobras de 2003 a 2010, quando os promotores dizem acreditar que mais de 800 milhões de dólares foram roubados em propinas e canalizados para os políticos do PT e aliados”, diz.
Além disso, a revista afirma que Dilma venceu as eleições presidenciais de outubro “vendendo uma mentira”. “De fato, como muitos eleitores estão percebendo agora, Dilma vendeu uma mentira”, diz o texto. A revista diz que os erros cometidos no primeiro mandato de Dilma levaram o Brasil à situação de crise atual, que exige corte de gastos públicos e aumento de impostos e juros. “Some-se a isso o fato de que a campanha de reeleição pode ter sido parcialmente financiada pelo dinheiro roubado da Petrobras. Os brasileiros têm todos os motivos para sentirem que eles foram vítimas de um equivalente político do estelionato”, diz o texto.
Apesar das palavras duras, o editorial da The Economist afirma que o impeachment pode ser “um exagero emocional“. “A legislação brasileira considera que presidentes podem ser acusados apenas por atos cometidos durante o atual mandato”, diz o texto. “E, ainda que muitos políticos brasileiros achem que a presidente é dogmática ou incompetente, ninguém acredita seriamente que ela enriqueceu. Contraste com Fernando Collor que embolsou o dinheiro.”
O editorial também afirma que as instituições estão trabalhando para punir os criminosos. “Um impeachment iria se transformar em uma caça às bruxas que enfraqueceria as instituições, que ficariam politizadas”, diz o texto, que pede que Dilma e o PT assumam as responsabilidades “pela confusão que ela fez no primeiro mandato, em vez de se tornarem mártires do impeachment”. “Ter Dilma no gabinete fará com que os brasileiros estejam mais propensos a entender que as velhas políticas é que são as culpadas, não as novas.”
Nos tempos em que recebia na Petrobras os “pleitos para atender a campanha da dona Dilma”, Paulo Roberto Costa até assinava na presidente, que assinava em Sergio Gabrilelli, enquanto Graça Foster observava tudo
Por Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo
O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, primeiro delator da Operação Lava Jato, disse que o doleiro Alberto Youssef, personagem central da trama de corrupção e propinas na estatal petrolífera, o procurou em 2010 e disse que o ex-ministro Antonio Palocci, da Fazenda, pediu uma contribuição de R$ 2 milhões para a campanha de Dilma Rousseff (PT) à Presidência. Os relatos de Costa na delação premiada foram todos gravados em vídeo pela força tarefa do Ministério Público Federal e da Polícia Federal.
Ao ser questionado sobre repasse de valores para a campanha de 2010 da Presidência da República, o ex-diretor da Petrobrás declarou. “Alguns fatos como esse específico, as pessoas falavam diretamente com o Youssef. Outros fatos, as pessoas falaram comigo. Ministro Lobão falou comigo. Pessoal aqui do governo do Rio falou comigo, não tem nada a ver com o Youssef. Senador Sergio Guerra, falecido, falou comigo.”
A ordem de investigação á amparada no depoimento de Costa. Ele disse que conheceu Palocci em 2004. Na ocasião, Palocci era membro do Conselho de Administração da Petrobrás. Dilma presidia o Conselho de Administração da estatal e ocupava o cargo de ministra das Minas e Energia.
Sobre o episódio em que cita Palocci, Costa declarou. “O Youssef me trouxe numa reunião que eu tive com ele. Ele falou: ‘ministro Palocci está pedindo aqui uma contribuição para a campanha da Dilma Rousseff em 2010 de R$ 2 milhões. Podemos dar? Pode, pode dar. Eu autorizei o Youssef a fazer. Mas quem me trouxe esse assunto foi o Youssef e quem operacionalizou foi o Youssef. Eu não tive nenhum contato nem com o Palocci e muito menos com a Dilma, sobre esse fato. Isso tudo veio pelo Youssef.”
“O Youssef falou comigo que o Palocci, não tenho certeza agora se foi o Palocci que falou com ele ou se foi um interlocutor, não posso te confirmar isso. Mas tinha esse pleito do ex-ministro Palocci para atender a campanha da dona Dilma Rousseff em 2010. ‘Paulo, pode fazer?’. ‘Faça’.”
Paulo Roberto Costa disse que não perguntou detalhes para Youssef sobre quem tinha mandado o Palocci fazer a solicitação. “Ele chegava com o pleito, fazia ou não fazia. Mas não entrava em detalhe, quem fez, como foi, tal.”
Os investigadores da Lava Jato perguntaram ao ex-diretor se as pessoas sabiam que Youssef trabalhava com ele. Ao responder essa pergunta Costa fez menção a outros quatro personagens emblemáticos da grande investigação sobre malfeitos na Petrobrás: João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, Renato Duque, ex-diretor de Serviços da estatal petrolífera, Fernando Soares, o Fernando Baiano, suposto operador do PMDB na Petrobrás, e Nestor Cerveró, ex-diretor de Internacional da Petrobrás – os últimos três estão presos.
“Notório. Como sabiam que o Vaccari trabalhava com o Duque, como sabiam que o Fernando Baiano trabalhava com o Nestor. Isso aí todo mundo sabia.”
Ex-ministro Antonio Palocci (foto de Dida Sampaio – Estadão)
Como foi feito o pagamento?, perguntaram os investigadores. ”Não sei. Não sei, porque isso o Youssef não me falava e nem eu perguntava para ele.”
Sobre o local da reunião em que Youssef falou sobre o pedido, ele disse. “Possivelmente em São Paulo.” Costa foi questionado se a presidente Dilma tinha conhecimento do esquema na Petrobrás quando exercia a função de ministra de Minas e Energia e também se Lula sabia, enquanto presidente. ”Não sei, não sei, não sei.”
Ele disse que nunca conversou sobre isso com Dilma e Lula. Também não conversou com Palocci sobre o assunto. Esse foi o único repasse para campanha presidencial que ele se recorda. Mas “não teve feedback” sobre o dinheiro, não soube se os R$ 2 milhões chegaram.
“Para mim, não. Era muito difícil alguém agradecer. O que normalmente acontecia era o cara não reclamar. O cara não voltar ao tema, mas agradecer, para ser sincero, não teve nenhum um caso.”
Paulo Roberto Costa disse que conheceu Palocci em 2004. Na ocasião, Palocci era membro do Conselho de Administração da Petrobrás. Dilma Rousseff presidia o Conselho de Administração da estatal e ocupava o cargo de ministra das Minas e Energia. O ex-diretor da Petrobrás, indicado para o cargo em 2004 pelo PP, afirmou que esteve em “várias reuniões” com Palocci, então ministro da Fazenda. Costa afirma que, em 2010, recebeu uma solicitação, por meio de Alberto Youssef, para que fossem liberados R$ 2 milhões do caixa do PP, para a campanha presidencial de Dilma.
Questionado sobre essas declarações do ex-diretor, que lhe atribuiu participação no caso, o doleiro Youssef foi taxativo. “Esta afirmação não é verdadeira.”
Para Batochio, a contradição põe abaixo a suspeita levantada contra o ex-ministro. “Palocci não conhece, nunca viu, nunca soube da existência de Alberto Youssef. Para ele a existência (do doleiro) era desconhecida.” Segundo o criminalista, Palocci “nunca conversou” com Paulo Roberto Costa.
Batochio destaca que Palocci, em 2004, como ministro da Fazenda, pertenceu ao Conselho de Administração da Petrobrás “seguindo a tradição de que todo ministro da Fazenda é membro do colegiado”.
“(Palocci) pode ter visto Paulo Roberto Costa lá (no Conselho), mas nunca tratou com ele assunto sobre campanha eleitoral, jamais, em tempo algum.”
A Polícia Federal iniciou na manhã desta quinta-feira, 26, a Operação Zelotes, que investiga crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, advocacia administrativa, tráfico de influência e associação criminosa no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), que é uma espécie de tribunal da Receita Federal. Investigadores acreditam que os desvios na Operação Zelotes podem superar os valores da Operação Lava Jato, estimados em R$ 10 bilhões.
Há suspeitas que os valores possam ultrapassar os R$ 19 bilhões, referentes a 70 processos investigados. Já foram apurados desvios de R$ 5,7 bilhões. Nas operações de busca realizadas durante a manhã em Brasília, São Paulo e Ceará, foram apreendidos R$ 1 milhão em dinheiro vivo e carros de luxo.
O termo Zelotes foi escolhido para descrever falso zelo ou cuidado fingido. Foram cumpridos mandados em dois gabinetes na sede do Carf, em Brasília. As investigações apontam para o suposto envolvimento do atual conselheiro Paulo Roberto Cortez e do ex-presidente do Carf em 2005, Edison Pereira Rodrigues. A PF cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços dos dois.
O Carf é um colegiado formado por funcionários do Ministério da Fazenda e representantes da sociedade, cuja função é julgar recursos em que contribuintes questionam a cobrança de tributos, multas e juros.
Segundo fontes informaram mais cedo, a organização atuava no órgão patrocinando interesses privados, buscando influenciar e corromper conselheiros com o objetivo de conseguir a anulação ou diminuir os valores dos autos de infração e da Receita, o que resultaria em milhões de reais economizados pelas empresas autuadas em detrimento do erário da União. Servidores repassavam informações privilegiadas para escritórios de assessoria, consultoria ou advocacia em Brasília, São Paulo e outras localidades para que realizassem captação de clientes e oferecessem facilidades no Carf.
Segundo notas divulgadas pela Receita e pela Corregedoria da Fazenda, “constatou-se que muitas dessas consultorias teriam como sócios conselheiros e ex-conselheiros do Carf”.
As investigações, iniciadas em 2013, apontaram que grupos de servidores estariam manipulando o trâmite de processos e o resultado de julgamentos no conselho. A investigação se estende sobre julgamentos suspeitos desde 2005.
Ao todo, foram expedidos 41 mandados de busca e apreensão e determinado sequestro de bens e bloqueio de recursos financeiros dos principais envolvidos. A Receita e a Corregedoria informaram que as operações se estenderam a escritórios de advocacia e a salas de conselheiros do Carf. A operação abrange Distrito Federal, São Paulo e Ceará, e conta com a participação de 180 policiais federais, 60 servidores da Receita e três servidores da Corregedoria Geral do Ministério da Fazenda.
Entenda — O Carf julga processos na esfera administrativa, em que contribuintes questionam a cobrança de tributos. É um colegiado formado por funcionários do Ministério da Fazenda e por representantes da sociedade. Ele é composto por três seções de julgamento, cada uma especializada em um grupo de tributos. Assim, por exemplo, a primeira seção julga casos relacionados ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Na segunda, vão os questionamentos sobre o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) e contribuições previdenciárias. Na terceira, estão os processos referentes ao PIS/Cofins, Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Imposto de Importação (II) e Imposto de Exportação (IE).
Joaquim Levy, ministro da Fazenda, e Renan Calheiros, presidente do Senado (foto de Antônio Cruz – Agência Brasil)
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
O novo eixo do poder em Brasília
Por Ricardo Noblat
Se alguém interessado em tomar o pulso da situação desembarcar por esses dias em Brasília não terá dificuldades em descobrir que mudou o eixo do poder dentro e fora do governo.
Dentro, o endereço mais privilegiado não está no terceiro andar do Palácio do Planalto, onde despacha a presidente da República. Muito menos no quarto andar onde funciona a Casa Civil.
Anote: Esplanada dos Ministérios, Bloco P, 5º andar. Esse é o endereço do gabinete do ministro Joaquim Levy, da Fazenda.
O que não passar por ali dificilmente contará com o aval de Dilma e, depois, com a boa vontade do Congresso.
Fora do governo, os endereços mais quentes estão no prédio do Congresso. A saber: os gabinetes dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).
Onde fica o gabinete do ministro responsável pela coordenação política do governo, Pepe Vargas (PT-RS)? No Palácio do Planalto. Mas, esqueça. Ele não tem importância.
Aloizio Mercadante, ministro-chefe da Casa Civil, ainda guarda alguma importância. Mas ele está mais para o Dilma da Dilma do que para uma espécie de primeiro-ministro.
O primeiro-ministro é Levy. E a centralizadora e arrogante presidente parece conformada com isso. Quando nada porque se ele resolver, de repente, ir embora, o governo dela desmoronará.
Em junho de 2013, quando milhões de brasileiros saíram às ruas e derrubaram pela primeira vez a aprovação de Dilma, ela prometeu muitas coisas, sendo a reforma política uma delas. Nada fez.
No último dia 15, quando milhões de brasileiros outra vez saíram às ruas e reduziram a pó a popularidade de Dilma, ela despachou para o Congresso o pacote de medidas contra a corrupção prometido em junho de 2013.
Na luta diária pelo poder não se admite espaço vago. Levy entrou no governo como a salvação da lavoura. Para aplainar um terreno cheio de buracos e de más elevações.
A fraqueza de Pepe, a crise de identidade de Mercadante e a falta de rumo de Dilma abriram espaço para que Eduardo e Renan batessem com o pé no chão e começassem a falar grosso.
Os dois estão envolvidos com o escândalo da Petrobras. O governo de Dilma também está. A avaliação do Congresso consegue ser pior do que a avaliação de Dilma, segundo a mais recente pesquisa Datafolha.
Mas Eduardo e Renan são ousados. Sabem o que querem. E estão fazendo por onde conseguir. Querem afirmar a autoridade do Congresso — e, por tabela, a deles mesmos. E aproximá-lo do que pede a voz das ruas.
Daí a reforma política possível, que os dois já dispararam. O ajuste fiscal possível, que negociam com Levy. E o reajuste da dívida de Estados e municípios, que discutem com Levy, governadores e prefeitos.
Enquanto isso, Dilma…
Enquanto isso, Michel Temer, o vice-presidente, vive a desejável atribulação de alguém que só cresce em prestígio na República. Toca em sintonia com Eduardo e Renan.
O primeiro governo de Dilma foi dela mesma e do PT. O segundo governo está sendo do PMDB até aqui.
Pelo segundo mês consecutivo, a taxa de desemprego subiu nas seis maiores metrópoles do país. Em fevereiro o índice foi de 5,9%.
Ele havia sido de 5,3% em janeiro, o que já era um aumento de um ponto percentual em relação a dezembro. Em fevereiro de 2014, a taxa foi de 5,1%.
O número é o resultado da PME (Pesquisa Mensal de Emprego) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apresentado nesta quita (26).
Esse resultado de 5,9% está acima das projeções de economistas compiladas pela agência Bloomberg.
A mediana (ponto central entre todas as estimativas, descartando as maiores e as menores) dessas estimativas apontava para uma taxa de 5,7%.
O número de pessoas ocupadas, 22,7 milhões, caiu 1% frente a janeiro e cresceu 0,9% se comparado com o mesmo mês de 2014.
Já o total de desempregados ficou em 1,4 milhão, com alta de 10% em relação a janeiro e com redução/aumento de 14,1% ante fevereiro de 2014.
Ao longo de 2014, a taxa de desemprego se manteve nas menores marcas da série histórica do IBGE, com uma média anual de 4,8%.
Em parte, isso aconteceu pela procura reduzida por trabalho, pois com a economia desaquecendo há um desestímulo à busca por uma vaga.
O crescimento da renda familiar nos últimos anos serviu como um “lastro” para que pessoas em idade para estarem economicamente ativas aguardassem oportunidades melhores e se dedicassem a outras atividades, como o estudo ou o cuidados da casa e dos filhos.
Quem deixa de procurar vaga não é considerado desempregado.
Até o dia 28 daquele mês, o trabalhador precisava ter permanecido no mínimo seis meses no emprego antes do desligamento para pedir o benefício.
A partir de março, só quem trabalhou durante pelo menos 18 meses consegue obter o seguro. Uma alta nos desligamentos pode ter influenciado o resultado.
Golpe duplo — Quando Will Smith aceitou protagonizar “Golpe Duplo” (“Focus”, 2015), uma história sobre um grupo de vigaristas escrita e dirigida por Glenn Ficarra e John Requa, parecia o prenúncio de uma guinada em sua carreira, composta principalmente por bons moços, impressão reforçada por sua escalação como o Pistoleiro de “Esquadrão Suicida” (“Suicide Squad”), que reunirá vilões dos quadrinhos da DC Comics no cinema — ele já havia feito Hancock, um super-herói alcoólatra, e o controverso boxeador Muhammad Ali, mas o primeiro é isto, um super-herói, e o segundo, uma lenda, o que dilui questionamentos acerca de seu comportamento. O ator, porém, evita passear pelas áreas mais cinzas do comportamento humano, e seu personagem jamais tem seus atos colocados em perspectiva.
Na trama, dividida em duas partes, Nicky Spurgeon (Smith) é renomado no submundo por ser herdeiro de uma estabelecida tradição de golpistas, que começou com seu avô, passando por seu pai. Carismático e cheio de truques, ele sabe como manipular homens e mulheres e tirar deles dinheiro, jóias, relógios e quaisquer outras coisas de valor comercial. Com sua equipe, que age com organização empresarial, Mellow, como é conhecido a contragosto, identifica alvos, se instala em locais estratégicos, aplica golpes pequenos e grandes, vende o espólio, apaga todos os rastros e desaparece apenas para reiniciar o ciclo. Sua sorte, porém, muda quando precisa recrutar e preparar uma novata (Margot Robbie) para um serviço envolvendo um milionário chinês durante o Super Bowl, em Nova Orleans.
Ecoando Neil McCauley, personagem de Robert De Niro em “Fogo contra Fogo” (“Heat”, 1995), outro metódico ladrão (neste caso, de bancos) da ficção, Nicky segue até aquele momento, uma regra importante: afeto não tem espaço no ramo. Mas, ao criar laços que não consegue “abandonar em 30 segundos”, o golpista nega a lição de Neil, em sua fuga do policial Vincent Hanna, encarnado por Al Pacino no clássico de Michael Mann. Ao fim do embuste, Nicky se separa dolorosamente de sua nova companheira, apenas para encontrá-la três anos mais tarde, quando o amor não curado o levou ao fundo do poço e a um novo esquema, que o coloca a serviço de Rafael Garriga (Rodrigo Santoro), o perigoso dono de uma escuderia da Fórmula 1.
A primeira metade de “Golpe Duplo” é dinâmica e bem editada. Mostra com eficiência o modus operandi do grupo de golpistas e estabelece de maneira suficientemente clara quem é Nicky. Porém, ainda que a dinâmica criada por Smith e Robbie funcione, o romance de seus personagens é rápido e superficial. Além disso, a dupla consome todo o tempo de tela, não sobrando qualquer espaço para que outros membros do bando sejam desenvolvidos — a maior parte sequer tem nome. Já a segunda metade, embora apresente um ator brasileiro como antagonista e se passe em Buenos Aires, capital argentina, conhecida por muitos dos espectadores nacionais, perde ritmo e apresenta reviravoltas artificiais, servindo somente para redimir, pelo amor, o casal de criminosos, que tem direito a final feliz.
Quem chegar à sala de exibição esperando um filme de assalto mirabolante, como aqueles dos tantos homens e segredos de Steven Soderbergh, ou um filme policial, que, como tal, necessariamente se estabelecesse como um conto moral, sairá decepcionado com uma película inofensiva dos pontos de vista crítico e criativo.
A tensão política só faz aumentar em Brasília, e reflete a disputa intestina dentro de um governo sem rumo e sem liderança. A coalizão governista, artificialmente montada, se desmonta a olhos vistos sem que exista alguém que possa dar um destino, um caminho, para a rearrumação da casa.
Há exemplos de desencontros por todos os lados, e necessariamente a presidente Dilma está no centro de todos eles, em vez de guia tornando-se descaminho. Pode ser que eu tenha perdido alguma coisa, mas há alguma explicação lógica para que uma decisão tomada em novembro do ano passado possa ser desautorizada quatro meses depois pelo mesmo governo?
A repactuação da dívida dos Estados e municípios foi feita durante a campanha eleitoral, e seria até normal que a presidente, para agradar cabos eleitorais importantes, tivesse prometido o que não poderia fazer. Eleita, porém, poderia simplesmente não sancionar o projeto, afirmando que os tempos eram outros. Seria mais um estelionato eleitoral, mas teria nexo.
Do jeito que foi feito, parece que só quando o novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, chegou ao governo é que os desmandos foram identificados. Nesse caso, a situação é mais grave do que parece. Se for verdade, Dilma estava convencida, até a chegada de Levy, de que a renegociação da dívida era perfeitamente possível, e que outras medidas que hoje o seu novo governo renega estavam certas.
Quando ela diz que fez tudo certo no primeiro mandato, não estaria mentindo, mas reafirmando convicções. Nesse caso, a continuação no cargo é um perigo potencial de repetição dos mesmos erros caso um dia a economia se recupere ainda em sua gestão.
E quando o ministro Joaquim Levy classificou de “brincadeira” a desoneração da folha de pagamentos de várias empresas, não estava fazendo uma metáfora, estava apenas revelando a qualidade das decisões econômicas tomadas pela equipe de Mantega e sua nova matriz econômica.
O que dizer do plano maquiavélico de usar mais uma vez o hoje ministro Kassab para criar um novo partido, o PL, que se fundiria ao PSD e assim permitiria que muitos deputados e senadores hoje no PMDB o deixassem, enfraquecendo-o na coalizão governista?
Como não são bobos, os líderes do partido viram longe a situação e começaram uma rebelião interna que não tem hora de acabar. Ainda mais quando detectam que a própria presidente Dilma participou diretamente da manobra, não sancionando a lei aprovada pelo Congresso que a impediria.
O tiro deve sair pela culatra, primeiro por que o PL acabou se inscrevendo no Tribunal Superior Eleitoral sem o número mínimo de assinaturas, prometendo remetê-las depois. Mas a impugnação da nova legenda, que parece provável, não apaga o fato de que o Palácio do Planalto continua tentando neutralizar a força do PMDB, que já sentiu para que lado o vento sopra e começa a saltar do barco, não como quem foge acovardado, mas como quem enfrenta os desmandos da capitã, afinal identificada como incapaz de levar o barco nessa tempestade que enfrenta.
A necessidade identificada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, de haver um plano econômico abrangente que possa dar um rumo à economia, e não apenas cortes de gastos que atingem os cidadãos mais desprotegidos e as empresas que geram empregos, é correta e vai ao encontro do que tem cobrado o presidente do PSDB, senador Aécio Neves.
Está também correta a exigência do PMDB de que o governo reduza para 20 o número de ministérios e corte os cargos em comissão de provimento direto, que são cerca de 25 mil DAS. Só que é uma ação populista, pois foi o mesmo Renan Calheiros, juntamente com Eduardo Cunha, que aceitaram que os partidos políticos mais que dobrassem a verba do Fundo Partidário, e aumentassem as verbas dos parlamentares.
É como diz o ditado: em casa em que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. No país desgovernado, faltam pão e quem dê o rumo.
A economia brasileira vai encolher neste ano e, ainda assim, a inflação vai estourar o teto fixado na legislação. As previsões, que já vinham sendo feitas por analistas independentes, agora foram corroboradas pelo Banco Central.
De acordo com projeções divulgadas nesta quinta-feira (26), o BC calcula que o PIB (Produto Interno Bruto) vá encolher 0,5% em 2015, na sequência de uma estagnação ou retração — queda estimada de 0,1% — no ano anterior.
Mesmo com a produção e a renda no chão, os preços deverão subir 7,9%, bem acima do limite máximo de 6,5%, consideradas as previsões de mercado para a variação dos juros e das cotações do dólar até dezembro.
Trata-se de uma combinação rara de resultados ruins. Embora o crescimento econômico do país esteja longe de ser brilhante, houve apenas três quedas anuais do PIB desde os anos 90, excluídas as projeções para 2014 e 2015.
A inflação medida pelo IPCA tem ultrapassado a meta de 4,5% desde 2010, mas vinha se mantendo abaixo do teto estabelecido na legislação — ultrapassado pela última vez em 2003, quando era de 6%.
A coexistência entre recessão e inflação em alta é conhecida entre economistas como estagflação, com a qual o país flerta desde o ano passado. Agora, o uso do termo tende a ganhar força.
As projeções do mercado são ainda mais pessimistas que as do BC: segundo pesquisa feita na semana passada, as estimativas centrais dos analistas são de que o PIB cairá 0,8%, enquanto a inflação será de 8,1%.
O BC afirma que poderá cumprir a meta em 2016, embora suas projeções apontem para um IPCA de 5,1%; o mercado é cético.
Os juros cobrados das famílias brasileiras pelas instituições financeiras quebraram novo recorde. De acordo com os dados divulgados nesta quarta-feira pelo Banco Central, as instituições financeiras aproveitaram para reajustar as modalidades emergenciais e cobrar mais de quem está no vermelho: a taxa do cheque especial saltou de 209% ao ano para nada menos que 214,2% ao ano. É a maior desde março de 1996.
Ainda de acordo com os dados, a média do custo financeiro de empréstimos com recursos livres (os que os bancos têm liberdade para escolher como emprestar) subiu de 52% ao ano para 54,3% ao ano em fevereiro. É o maior nível desde quando o BC passou a registrar os dados em 2011.
Já quem precisou entrar no crédito rotativo do cartão de crédito pagou uma conta ainda maior: os juros pularam de 334,6% ao ano para 342,2% ao ano, segundo os dados do BC.
No cenário mais restritivo para o crédito no país, as famílias diminuíram suas dívidas em 0,3% , ou seja, 2,4 bilhões no mês passado. Essa queda – a primeira registrada no período de um ano – foi vista, principalmente, porque as pessoas físicas gastaram menos no cartão de crédito.
— De fato, o que a gente vê é um arrefecimento no consumo — sintetizou o chefe do Departamento Econômico do BC, Túlio Maciel, que lembrou que isso é reflexo do ritmo de crescimento da economia e também do aumento dos juros.
Mesmo com os financiamentos mais caros, as empresas aumentaram o apetite por crédito de olho na alta do dólar e no que podem ganhar com as exportações. De acordo com a autoridade monetária, o aumento de 0,6% em fevereiro (subiu para R$ 783 bilhões) foi causado pelo influenciado pela depreciação cambial do período.
A inadimplência das operações de crédito ficou estável em 2,8%. No crédito às famílias, chegou a 3,8% (com uma leve alta de 0,1 ponto percentual no mês), enquanto, nas operações às empresas, permaneceu estável em 2%.
Airbus 320 da Germanwings se espatifou nas montanhas dos Alpes franceses
Copilto do voo 9525 da Germanwings, que teria derrubado o avião intencionalmente, Andreas Lubitz
Por Leandro Colon
O promotor de Marselha Brice Robin anunciou nesta quinta-feira (26) que as investigações apontam para um ato voluntário do copiloto para derrubar o Airbus 320 da Germanwings na última terça-feira (24). O avião caiu com 150 pessoas a bordo nos Alpes franceses.
Em entrevista coletiva, o promotor confirmou a informação de que um dos pilotos deixara a cabine momentos antes da queda, sem conseguir retornar, tendo ficado trancado do lado de fora.
Segundo ele, tudo indica que o copiloto “tomou um ato voluntário” para derrubar o avião, tendo provavelmente apertado um botão para levá-lo ao solo.
“O co-piloto queria destruir o avião, não sabemos o motivo”, afirmou Robin.
O piloto foi identificado como Andreas Lubitz, um alemão de 28 anos.
Brice Robin disse ainda que a cabine ficou em “absoluto silêncio” nos últimos 10 minutos antes da queda.
De acordo com reportagem publicada pelo The New York Times na noite de quarta (25), os áudios da cabine revelaram a ausência de um dos pilotos nos minutos finais que antecederam a tragédia. Um dos pilotos tentou retornar para o comando do avião, mas foi impedido por quem ficou do lado de dentro.
O promotor de Marselha informou que, provavelmente, os passageiros só perceberam nos momentos finais o que estava ocorrendo. O investigador disse que, por enquanto, não há elementos que apontam para um ato terrorista.
O promotor disse ainda que “quando há 150 pessoas a bordo do avião, isso não pode ser chamado de suicídio”.
Por trás da reprovação majoritária da população ao governo Dilma Rousseff, revelada pelo Datafolha após as manifestações de 15 de março, há diferenças importantes entre os eleitores que se posicionam contra a presidente.
Por meio de uma análise combinatória de duas variáveis — o voto declarado no segundo turno da eleição presidencial de 2014 e a avaliação que os entrevistados fazem do governo Dilma hoje —, o Datafolha dividiu a amostra de sua última pesquisa nacional em seis subgrupos.
Os três primeiros reúnem aqueles eleitores que optaram por Dilma no ano passado e que agora têm visões diferentes sobre o desempenho da presidente. São os eleitores “satisfeitos”, os “apreensivos” e os “frustrados”.
Os outros três grupos são compostos por pessoas que não votaram na petista, isto é, escolheram o senador Aécio Neves (PSDB-MG), votaram nulo ou em branco nas últimas eleições. São subdivididos em “surpresos”, “atentos0” e “refratários”.
Os eleitores “satisfeitos” avaliam positivamente o início do segundo mandato da candidata que elegeram. Atribuem à presidente nota 8,3 — a média na população é 3,7. Eles correspondem a 11% dos brasileiros, são mais velhos e muito mais petistas do que a média. Vivem principalmente no interior do país, estão mais otimistas com a economia e são os que menos acreditam em omissão de Dilma diante da corrupção na Petrobras. É o segmento mais fiel à presidente.
Os eleitores “apreensivos” não aprovam, mas também não reprovam o governo Dilma. Avaliam sua gestão como regular ou não souberam opinar. Totalizam 15% da amostra e, entre os que votaram na petista, são o grupo com mais moradores das capitais. Dão nota 6,1 à presidente e estão pessimistas com os rumos da economia, mas em proporção menor do que a média.
Em comum com os grupos que não rejeitam Dilma, os “apreensivos” estão mais otimistas em relação à sua situação econômica pessoal do que com as condições do país. Se sentirem em sua rotina os efeitos dos ajustes na economia, tendem a se frustrar. Caso contrário, podem voltar a apoiar a presidente.
Os eleitores “frustrados” votaram em Dilma, mas agora a consideram uma presidente ruim ou péssima. De todos os seis subconjuntos, é o que tem menor renda e mais moradores no Nordeste. Somam 16% e atribuem média 2,4 à petista, nota superior apenas à dos “refratários”.
É um estrato que demonstra bastante pessimismo com a economia e o mais inseguro com o emprego. Para reconquistá-los, o governo deveria minimizar os efeitos da recessão no mercado de trabalho e em benefícios sociais.
No universo dos que não votaram em Dilma na eleição, dois pequenos subconjuntos destacam-se pela avaliação que fazem da presidente.
Os “surpresos” representam apenas 2% do total, são menos escolarizados e mais pobres, e dão nota 7,1 à gestão da petista. Os “atentos”, que somam 10%, a consideram regular, com média 5,4. São mais jovens, a maioria tem ensino médio e é do sexo masculino, estão pessimistas com a economia do país, mas nem tanto em relação à situação econômica pessoal.
O maior grupo de todos é o dos “refratários”. Corresponde a quase metade da população (47%). É um contingente que não votou em Dilma e a reprova totalmente. Entre eles, a nota média obtida pela petista fica em 1,7. É o segmento mais escolarizado e com mais gente no Sudeste.
Exibe grande pessimismo na economia e é o que mais condena a presidente por omissão diante da corrupção na Petrobras. Foi o estrato mais presente nos protestos do dia 15 e parece blindado contra iniciativas do governo.
Impacto do ajuste
As variações na opinião pública daqui em diante dependerão principalmente do impacto do ajuste econômico no dia a dia dos brasileiros, especialmente nos segmentos “apreensivos” e “atentos” da população.
São estratos que percebem a gravidade da situação do país, mas ainda não o projetam para a vida prática. Para os “atentos”, ações ou confusões na área da educação, como a que aconteceu com o FIES, podem pesar bastante.
Para os “frustrados”, a questão é saber se o fantasma do desemprego se materializará. Isso pode ser determinante para a adesão desse segmento às manifestações de rua. Entre os eleitores “refratários”, o governo não encontra, por enquanto, espaço para manobras.
A rejeição que perdura desde as eleições, intensificada pela derrota do antipetismo nas urnas, anula, pelo menos por enquanto, qualquer tentativa de aproximação de Dilma com esse segmento. Resta saber quem da oposição preencherá essa lacuna.
Para atuar em outra frente jornalística, por certo mais prazerosa, como crítico de cinema, peço sua licença, leitor, para fazer uma pausa neste “Opiniões” até amanhã. Qualquer novidade relevante no preocupante quadro nacional em meio à crise do Petrolão, agora alastrada também aos Correios (aqui), você poderá acompanhar em tempo real, no Blog do Arnaldo Neto.