Prostituição de menores em Campos — Promotor dá entrevista ao blog sobre o caso

Promotor Leandro Manhães (foto de Ricardo Avelino, arquivo da Folha)
Promotor Leandro Manhães (foto de Ricardo Avelino, arquivo da Folha)

No último dia 13, este blog divulgou (aqui) informação de uma fonte, dando conta de que uma operação policial do Rio, para prender suspeitos de envolvimento com uma rede de prostituição de menores em Campos, aconteceria ainda no mês de maio. Pois entramos hoje em junho e a operação não se confirmou. Antes disso, no último dia 19, o blog enviou 10 perguntas sobre o caso ao promotor de Campos encarregado de investigá-lo, Leandro Manhães. Este, por sua vez, enviou suas respostas no dia 28, última sexta-feira. Como toda a atenção da mídia local estava. então, focada ao caso da condenação pelo TRE de Garotinho, Rosinha, Arnaldo e Mocaiber, no dia anterior, o blog optou por segurar a publicação da entrevista até o início desta semana.

Sobre a operação policial prevista para Campos, Leandro disse que nada pode falar. A economia nas respostas foi a tônica, quebrada ao fazer as devidas distinções entre prostituição de menores e pedofilia, ignorada pela maioria dos veículos que passaram a divulgar o caso depois que a Folha o revelou com exclusividade (aqui), desde 7 de junho de 2009. Garantindo a isenção política em seu trabalho, o promotor se disse favorável à abertura da CPI da Pedofilia, idealizada pela vereadora Odisséia Carvalho (PT), a quem disse que ainda vai receber para tratar do caso. Como a petista já havia assegurado (aqui), ele também garantiu que o vazamento e utilização de informações para tentativas de intimidação e extorsão de supostos envolvidos também faz parte da sua investigação.

 

Blog – Neste blog, no último dia 13, foi anunciada uma operação policial, vinda do Rio, que seria deflagrada mês passado e teria como alvo supostos envolvidos com a prostituição de menores em Campos, entre eles um político e pessoas conhecidas da sociedade. Até que ponto isso não foi apenas outra especulação sobre o caso?

Leandro Manhães – Não posso adiantar nada sobre o assunto.

 

Blog – Nos comentários à nota sobre a operação (aqui), fica clara a condenação prévia de todos os supostos envolvidos. Alguns comentaristas defenderam até a aplicação pena capital, que não está prevista na lei brasileira, mas evidencia em seu desejo uma espécie de morte social de todos os acusados, independente da condenação num tribunal. Isso aumenta sua responsabilidade? Por isso tanta precaução?

Leandro – A responsabilidade de um promotor de Justiça é sempre grande, notadamente em casos rumorosos. A precaução se dá para que não haja manipulação de informações sigilosas obtidas nas investigações nem se frustre a punição dos eventuais culpados.

 

Blog – Falando ao mesmo blog, em 30 de novembro do ano passado, você chegou a fixar em 19 de dezembro o limite para a entrega da acusação, adiantando que via elementos, então, para propô-la. Por que não cumpriu o prazo, alongado-o até o presente momento? Ainda enxerga os mesmos elementos? Em caso afirmativo, seria capaz de projetar outro prazo?

Leandro – Toda investigação começa de um jeito e, não raro, termina de outro. A complexidade do caso exigiu nova estratégia de investigação. Não há prazo definido.

 

Blog – Inegável que pelas notícias do suposto envolvimento de ex-integrantes do governo Rosinha, além de um ou mais vereadores, o interesse político também tem pautado a cobrança pela resolução do caso, bem como a veemência com que tem sido feita. Como isolar a investigação desse ingrediente político?

Leandro – Toda investigação deve ser técnica e uma eventual acusação deve ser feita com base em provas. Ouvir dizer nunca é suficiente para uma condenação. Na investigação não há espaço para política.

 

Blog – No caso da escola de base de São Paulo, em 1994, quando seus proprietários foram acusados de pedofilia e depois inocentados, grande parte da mídia que divulgou o caso foi condenada a pagar indenizações milionárias. Acredita que os veículos de mídia locais estão cientes desse risco?

Leandro – Todo meio de comunicação deve ter um departamento jurídico para orientá-los. Quem causa dano a outrem pode sofrer um processo para reparação.

 

Blog – Um dos fatores que condena a essa morte social é a repulsa à idéia do sexo com crianças. É o caso da rede de prostituição de menores em Campos que você investiga? Se o sexo consentido com menores entre 14 e 17 anos, já com vida sexual ativa, pode parecer socialmente menos condenável, existe diferença aos olhos da lei? Qual? Afinal, o que configura juridicamente a pedofilia?

Leandro – A rede de prostituição existente no Brasil e não só em Campos tem uma vertente que envolve crianças e adolescentes. Para o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), criança é aquela que possui até 12 anos incompletos e, adolescente, o que tem entre 12 e 18 anos de idade. Pelo artigo 244-A do ECA, é crime submeter criança ou adolescente à prostituição ou à exploração sexual. Este é o crime daquele que agencia menores para que um 3º tenha relação com ela. O art. 244-B do ECA também rotula de criminosa a conduta de corromper ou facilitar a corrupção de menor de 18 anos para a prática de infração penal. Este artigo também pune aquele coopta o menor que não está na prostituição, levando-o a tal. Já o artigo 217-A do Código Penal pune aquele que tem conjunção carnal ou pratica outro ato libidinoso com menor de 14 anos. Este é o crime do “consumidor” do serviço prestado pelo agenciador. A Jurisprudência flexibiliza um pouco este último dispositivo, analisando caso a caso se o menor tinha aspecto de um adulto, dentre outros. Em verdade, a pedofilia é conceituada como a atração de um adulto por crianças, genericamente consideradas. Na esfera penal, o termo pedofilia é adotado para todo dispositivo que trata de relação sexual ou ato libidinoso entre um adulto e uma criança.

 

Blog – Até que ponto a sexualização precoce nas roupas, danças, músicas, na programação de TV, pode também influenciar na geração de casos como o que você agora investiga? Vê alguma maneira para se equilibrar essa aparente contradição de uma sociedade que sexualiza cada vez mais cedo seus adolescentes e suas crianças, ao mesmo tempo em que cobra a preservação da sua inocência?

Leandro – Certamente que o ato de estímulo precoce da sensualidade faz com que as crianças achem o sexo uma coisa aparentemente normal para a idade delas, o que é um equívoco. O tempo do sexo e da exposição do corpo chegará no momento próprio, compatível com o amadurecimento da criança. A sociedade em geral busca o prazer a qualquer custo. É assim no estímulo ao consumismo desenfreado, às drogas lícitas ou não e também ao sexo. Em geral, não se pensa nas consequências de tais condutas e é aí que vêm os sofrimentos.

 

Blog – A vereadora Odisséia Carvalho (PT) deixou um ofício, no Ministério Público, dia 18 (aqui), para dar ciência do que foi debatido e acordado na audiência pública da Câmara no dia anterior, para tratar da exploração infantil, bem como para agendar uma reunião com você, para saber em que pé andam as investigações. Recebeu o ofício? Agendou a reunião?

Leandro – Em razão da mudança para nova sede do Ministério Público, alguns compromissos tiveram que ser reagendados. Recebi o ofício e será designada uma data para receber a nobre Vereadora.

 

Blog – Qual sua opinião sobre uma possível abertura de CPI da Pedofilia na Câmara de Campos? Sentiria-se pressionado por uma investigação além da sua? Em que a CPI poderia ajudar nas investigações do Ministério Público? Até que ponto seus inevitáveis componentes políticos poderiam atrapalhar?

Leandro – Todos que têm atribuição investigativa devem investigar e buscar soluções para uma sociedade melhor. Não teria reflexos sobre minha atribuição de investigar, já que cada órgão investigativo tem um enfoque diferente. Só iria somar. Não atrapalharia em nada.

 

Blog – Além dos crimes que teriam sido cometidos na rede de prostituição de menores em Campos, um aspecto consequente e igualmente criminoso vai também merecer investigação da CPI, segundo garantiu Odisséia: a manipulação de informações para tentativas de intimidação e extorsão. Encontrou indícios de que isso tenha ocorrido em algum momento? Isso também faz parte da sua investigação?

Leandro – Sim.

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Este post tem 8 comentários

  1. marcelo monteiro

    Sinceramente não acretido nessa justiça de Campos,se não fizeram nada ainda é que tem gente grande no meio, muito grande se estivesse só pobre já estariam na cadeia a tempos, mais uma vergonha para Campos, cadê o inquerito da compra de votos em Campos ??? sumiu???.

  2. jose carlos tavares

    TEM MUITO DINDIM NA JOGADA , VAI TERMINAR EM PIZZA !!!

  3. juliana

    Enquanto a justiça protege os “grandes” as crianças continuam aí, sem ter quem as defenda. Sou mãe e acho esse caso um absurdo, inclusive a postura do Sr. Promotor. Até quando os desprovidos de dinheiro irão pagar a conta?

  4. paulo césar

    Ah sim acho que já estou entendendo tudo….
    O que levaria um Promotor ainda não ter solucionado um caso que toda Campos já sabe, inclusive quem são os envolvidos??? Sei lá, alguém poderia responder?

  5. Aluysio

    Caros Marcelo, Jose Carlos, Juliana e Paulo César,

    Sinceramente, acho que Leandro e sua investigação são indiferentes à posição social e financeira dos supostos envolvidos. Como ele mesmo responsavelmente frisou, “ouvir dizer” não é saber nada de fato, tampouco provar num tribunal. Demos tempo ao tempo, pois acredito que o promotor merece o crédito de confiança.

    Abraços e grato pelas colaborações!

    Aluysio

  6. Roberto

    A eu sei quando a justiça vai ser feita, quando o sag. garcia preder o zorro.

  7. marcelo monteiro

    Caro Aluisio, me esforço para acreditar na justiça desse pais, não vamos longe desse município, mas infelizmente sabemos o que vai acontecer, e reafirmo se tivesse pobre no meio, já estaria preso e vc sabe disso, deve ter muita gente grauda nisso, é justiça é para pobre, eu sei, vc sabe e todos nós sabemos. Espero que eu esteja errado, o tempo dira como vc mesmo disse.

  8. Aluysio

    Caro Marcelo,

    Com todo o respeito: Não, eu não sei se “tivesse pobre no meio, já estaria preso”! Sobretudo quando a afirmação reside, como parece ser o caso da sua, no contraponto maniqueísta de que, por ouvir dizer, há pessoas de maior poder econômico envolvidas no caso, e que por isto mesmo ele não teria sido ainda resolvido. De qualquer maneira, como vc bem disse, o tempo dirá quem está certo ou errado…
    Em relação ao caso da prostituição de menores, só espero que quem tenha errado de fato, tanto por envolvimento, quanto por vazamento e manipulação de informações para tentativas de intimidação e extorsão, seja julgado, condenado e preso!

    Abraço e grato pela colaboração!

    Aluysio

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