Opiniões

Brasil de Mano — Na busca de uma referência de jogo, procura-se uma referência de área

Após improvisar Alexandre Pato como referência de área na Copa América, Mano Menezes admitiu na coletiva de hoje que não temos mais atacantes com a mesma qualidade de ontem (foto: Mowa Press)
Após improvisar Alexandre Pato como referência de área na Copa América, Mano Menezes admitiu na coletiva de hoje que não temos mais atacantes com a mesma qualidade de ontem (foto: Mowa Press)

 

Como o blog apostou aqui antes do jogo, baseado nas estatísticas dos últimos confrontos entre Brasil e Paraguai, prevaleceu o equilíbrio nas quartas-de-final que eliminou o time de Mano Menezes da Copa América. O que ninguém, no entanto, poderia prever, seria o desperdício dos quatro pênaltis cobrados pela Seleção Brasileira. Fruto da megalomania canastrona do ex-presidente Lula, tão afeita aos demais brasileiros quando o assunto é nossa pretensa superioridade mundial no futebol, o “nunca antes na história deste país” pôde ser perfeitamente aplicado ao que todos viram após o empate sem gols nos 90 minutos da partida, mantido nos outros 30 da prorrogação.

Culpar o péssimo estado do gramado do estádio Ciudad de La Plata, que levantava golfos de areia do solo, após cada toque mais firme na bola, não pode valer, simplesmente porque não valeu para os paraguaios Estigarribia e Riveros. Ambos conseguiram achar o caminho das redes de Júlio César com a mesma bola e da mesma marca do pênalti em que se deram as cobranças desperdiçadas por Elano, Thiago Silva (único brasileiro que, pelo menos, bateu em gol), André Santos e Fred.

Coletivamente, o Brasil conseguiu superar a “proeza” individual de Martin Palermo, atacante e ídolo do Boca Juniors recentemente aposentado, que perdeu três pênaltis pela seleção argentina, na Copa América de 1999. E quando se constata que os batedores brasileiros estavam entre os jogadores mais experientes do jovem time de Mano, também a atenuante da inexperiência do grupo se desfaz.

Em coletiva no final da manhã de hoje, ainda na Argentina, Mano dividiu o mundo da bola, sobretudo no que se refere à crítica especializada e a torcida, em duas opiniões predominantes: os que privilegiam o resultado e aqueles que buscam a beleza do jogo. Para o técnico da Seleção, esse segundo grupo (no qual este blogueiro se inclui), à parte do placar final, deveria estar feliz com o volume de jogo apresentado ontem pelo Brasil. Bom, sim e não.

Sim, na medida em que penso que Mano está teoricamentre correto ao objetivar, sobre o resultado puro e simples, o reencotro com um estilo de jogo pelo qual ainda somos mundialmente conhecidos, mas que na verdade não praticamos, em Seleção, desde a Copa de 1982. Nesse período de quase três décadas, como já historiografei aqui, a queda de qualidade do meio-de-campo, em sua capacidade de criação, se deu em favor da marcação, da “pegada”. Na Copas que vieram depois, essa opção muito clara foi parcialmente disfarçada por uma linha direta de três atacantes extra-classe: Careca (Copas de 86 e 90), Romário (90, como reserva, e 94) e Ronaldo Fenômeno (94, como reserva, 98, 2002 e 2006) — os dois últimos, não por coincidência, protagonistas dos nossos últimos Mundiais conquistados.

Como também já disse ateriormente, embora bons jogadores, Luís Fabiano (centro-avante titular na Copa da África do Sul, em 2010) e Pato não têm a mesma capacidade de definição dos seus antecessores. Aliás, tituar de Mano, Pato sequer é centro-avante de ofício. Não exercia essa função em seus tempos de Internacional, tampouco agora, no Milan, onde se destaca como eficiente garçon do goleador sueco Ibrahimovic. 

E foi justamente a carência de um homem de área que mais padeceu a Seleção Brasileira. Contra o Paraguai, Fred, único jogador com essas características entre os 23 convocados por Mano para a Argentina, não atravessa boa fase e talvez tenha entrado tarde demais, aos 35 do segundo tempo. Diante das estatísticas de um jogo no qual a Seleção tentou o gol paraguaio 22 vezes, com pelo menos nove oportunidades claras, não é nem preciso entender muito de futebol para saber o que ficou faltando.

Última Seleção Brasileira que, de fato, praticou o futebol-arte numa Copa do Mundo, até cair diante do futebol de resultados que deu aquela Copa à Itália, a inesquecível equipe de Telê Santana, em 1982, tinha como referência e base o Flamengo de Zico, campeão da Libertadores e Mundial Inter-Clubes no ano anterior. Quem quiser, como este blogueiro já teve a oportunidade de fazer, pergunte a Zico, ou a Leandro, ou a Júnior, ou a Andrade, ou a Adílio, ou a Mozer, ou a Tita, ou a Lico, naquele time cheio de jogadores habilidosos, com quem é que eles contavam na hora de colocar a bola para dentro: o limitado Nunes, quase sempre efetivo em seus galopes em incisão pela área.

Lógico que Nunes, contemporâneo de Careca, além de outro centro-avante de exceção, Reinaldo (ídolo do Atlético Mineiro e titular da Seleção na Copa de 1978), não pode ser a referência do centro-avante para uma equipe que busca se reencontrar com suas tradições lúdicas de jogo. Mas tecnicamente dotado ou não, o que a Seleção de Mano claramente precisa — além, logicamente, de não perder quatro pênaltis — é de uma referência de área.

Desclassificados precocemente da Copa América, os próximos amistosos que este ano ainda reserva ao Brasil, diante de Alemanha, Argentina, Itália e Espanha (esta, hoje, a melhor seleção do mundo) podem e devem servir para continuar buscando esse jogador, desde que todos estejam devidamente cientes de que não será alguém do mesmo nível de Romário ou Ronaldo.

Em relação aos quatro semi-finalistas da Copa América, nenhum deles favorito nas quartas-de-final, resta a quem, além da técnica, sabe apreciar também o que o futebol pode oferecer de épico, torcer pelo Uruguai de Diego Forlán e Luizito Suárez.

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