Pedrinho, “amigo-pai” na visão de uma mãe

Na edição de ontem da Folha impressa, além do meu texto (aqui) falando sobre a vida de Pedro Otávio Enes Barreto, falecido no último dia 9 de abril, publicado na página 8 do primeiro caderno, outro (belo) texto, também sobre Pedrinho, foi assinado pela professora Regina Tonelli, em seu espaço dominical, sempre à página 2 da Folha Dois. Regina é a mãe de Douglas, um dos tantos amigos dos filhos de Pedrinho, por ele indistintamente adotados, num convívio de igual para igual, sem pretensão a nenhuma condescendência, que tanta saudades deixou em todos.

Não por outro motivo, o blog pede licença à professora, para republicar abaixo sua visão de mãe, sobre a perda sentida desse “amigo-pai” do seu e de tantos outros filhos…

Filhos do coração

Por Regina Tonelli

Poucas pessoas têm a capacidade de amar incondicionalmente. É difícil controlar o egoísmo de querer, apenas para si, o que é melhor e não compartilhar emoções comuns, alegrias cotidianas, amizade e carinho desinteressados.

Poucas pessoas sabem dividir a vida familiar, a vida profissional e a vida pessoal. É difícil não se deixar levar pela lei da “oferta” e querer, apenas para si, tudo que está ao seu alcance, sem olhar para os lados, observando que existem tantos com tão pouco, alguns com muito e raros com o suficiente.

Poucas pessoas conseguem fazer dos amigos uma presença querida de verdade, dos filhos, amigos inseparáveis, da família, o que há de mais importante, do próximo, um irmão escolhido.

Tudo isso eu costumava ouvir daqueles que conheciam de perto Pedro Otávio, ou, o “tio Pedrinho”, ou o Dr. Pedro Otávio, sempre solícito, presente, prestativo, sempre olhando de perto aqueles que precisavam dele, confiantes na sua capacidade, na sua competência, na sua amizade, no seu desprendimento.

Íntegro, respeitado, “boa gente” de fato, foi um lutador. Venceu e tornou-se um grande homem, um profissional completo, um amigo como poucos. E passei a conviver, mesmo à distância, com esse pai que abraçou e adotou os amigos dos seus filhos, os “filhos do coração”, como ele mesmo dizia. “Tio Pedrinho” era uma alegria onde quer que estivesse. Bom papo, presença indispensável nas reuniões de família, nos churrascos dos finais de semana, sempre rodeado da “galera” jovem que o considerava uma espécie de “amigo-pai”, alguém que ria, contava piadas, tomava um chope com “todos” os filhos, muito querido, muito respeitado.

Resistiu bravamente à última batalha. Não se deixou abater e, até nesses momentos difíceis, foi exemplar. Estava sempre rodeado daqueles que soube cativar, daqueles que aprenderam a gostar dele gratuitamente. Os filhos “adotados”, filhos “do coração”, entre eles o meu, choraram a perda, sentiram profundamente a partida de alguém que era um companheiro, uma presença contagiante e que será uma saudade eterna.

Poucas pessoas conseguem ser tão especiais e inesquecíveis como o Dr. Pedro Otávio, como o “tio “ Pedrinho.

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Até outra mesa de bar

“Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir

Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar”

Na voz de Milton Nascimento, a “Canção da América” ecoou no final da manhã da última terça-feira, no auditório da Faculdade de Medicina de Campos (FMC), entre amigos, parentes, colegas e pacientes de Pedro Otávio Enes Barreto, que lotavam o amplo recinto, reunidos ali, mais do que em torno de um corpo, por um sentimento prenhe de vida, cuja culminância era comungada com rara exatidão pela música. Tomado pelo pranto, com o rosto recolhido no ombro protetor da minha mãe, não vi a expressão da mesma emoção nas muitas outras faces. E nem precisei!

Enquanto ouvia a música entrecortada por meu próprio soluçar, escutava também o coro choroso de dezenas de outros, espocados de todas as direções, num anonimato que desenhava aos meus ouvidos, mesmo em minha cegueira materna e momentânea, a face inconfundível de uma coletividade, do sentimento ancestral de uma tribo a reverenciar a partida de um seu grande homem, que fez da própria vida um sacerdócio à preservação da vida do outro.

No velório e no enterro de Pedrinho, ouvi muitas histórias de e sobre seus pacientes, a maioria contada por pessoas que até então sequer conhecia: “Ele salvou a vida da minha filha!”, me disse uma; “Ele salvou meu pai!”, revelou outro; “Ele fez tudo que pode para salvar e amenizar o sofrimento da minha mãe”, lembrou um terceiro; “Quando fiquei mal de grana e não pude mais pagar a consulta, ele me atendeu de graça e ainda me arrumou os remédios”, confessou uma quarta.

Em meio a essas e tantas outras histórias que narravam o alívio de tanto sofrimento em tantas famílias, em dado momento do velório, na terça, fui obrigado a me preocupar com o ente mais querido da minha própria. Ao perceber que meu filho, Ícaro, de apenas 12 anos, não conseguia conter a forte emoção de que fora acometido desde o dia anterior, quando soube da morte do seu adorado tio Pedrinho, saí com ele do auditório da FMC para a varanda do prédio.

Lá, junto também a meu pai, tentei consolar meu filho, lembrando-o que muito mais forte do que a morte de Pedrinho foi a sua vida integralmente dedicada à preservação das outras, que ali prestavam sua última homenagem. Neste momento, um sujeito aparentando mais ou menos a minha idade, enternecido pela dor da criança, se aproximou, virou para Ícaro e disse: “Seu pai está coberto de razão! A vida de Pedrinho tem que ser lembrada pelas muitas que salvou, inclusive a minha, que já estava desenganado por outros médicos, sem nenhum diagnóstico conclusivo, até ele entrar no caso, me tratar e dar a chance de hoje estar aqui, vivo e bem, falando com você!”.

Mesmo após sua morte, numa cura de Pedrinho ainda a parir outra, Ícaro parou de chorar.

Num documentário sobre jazz, lembro do trompetista estadunidense Wynton Marsalis fazendo a ressalva: “Shakespeare não vai descer a você, Beethoven não vai descer a você. É você que tem que fazer o esforço de se elevar para tentar compreendê-los. E quando consegue, quando chega lá, tem o ganho dessa elevação a que se forçou, dessa nova visão que ganhou a partir de um ponto mais alto”.

Independente à questão da genialidade, a têmpera do grande homem só é forjada quando a atuação individual em qualquer atividade toca aquele ponto coletivo, imutável ao longo dos tempos, que o historiador francês Fernand Braudel chamou de “humanidade de base”, aquilo que o filósofo grego Sócrates frisava ser comum entre mim e você, leitor, entre todas as nossas muitas diferenças, mas fundamentalmente aquilo que nos faz homens e não bestas.

A partir da comoção geral pela morte de Pedrinho, é até natural que todos nós, familiares, amigos e admiradores, busquemos nos elevar a um patamar de humanidade superior, aproximando nossas vidas da dele, nos tornando momentaneamente melhores, mais pacientes, dedicados e sensíveis uns com os outros. Mas e quando passar o tempo, nesse processo de cura mais poderoso que o receituário de todos os médicos? Quando a morte de Pedrinho já não doer tanto, será que continuaremos nos pautando por seu exemplo de altruísmo?

Para quem ama Pedrinho e de fato o admira, o grande desafio, além de não passar a conjugação dos verbos ao pretérito, talvez seja o de manter seus valores vivos em qualquer tempo presente que o futuro reserve. É difícil, mas seria um erro se admirar Pedrinho por aquilo que ele era e julgamos inalcançável para nós mesmos, pois sua grande lição foi justamente ensinar aquilo que cada um de nós pode ser se realmente quiser.

Quem abandonar essa busca estará aceitando que o legado de Pedrinho — “de ética, superação e amor ao próximo”, como sua esposa, Luiza Helena, ressaltou a todos em seu túmulo — tenha deixado esta vida com ele. Quanto a mim, como irrelevante exemplo, por mais que minha arrogância, vaidade, impaciência ao erro alheio e pretensa autossuficiência ora afastem em um universo a minha vida da dele, pretendo sinceramente trabalhar para encurtar essas distâncias.

Longe de se tratar de uma tentativa tola de se “beatificar” ou “canonizar” Pedrinho, guardo com muito carinho todos os momentos que tivemos juntos, incluindo a última vez na qual ele bebeu cachaça, mais Guilherme Guitton e Betinho Vianna, no final do ano passado, na minha casa em Atafona; a última vez em que ele tomou uma cerveja, já no início do verão, junto também do seu filho Pedro Henrique, no Restaurante do Ricardinho, à margem direita da foz do Paraíba; e da sua última noite de vida, de domingo para segunda, já no quarto do Prontocardio em que faleceria algumas horas depois, onde no lugar de qualquer bebida alcoólica, virei aquela madrugada umedecendo seus lábios com uma gaze molhada, contando os segundos entre suas respirações e as gotas d’água que pingava lentamente em sua boca.

Enquanto minhas respirações durarem, tentarei manter vivo seu legado. Se conseguir, talvez mereça acesso à cadeira que ele guarda para mim numa mesa de bar. Afinal, “qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar”…

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Mais para Buster Keaton do que para Charles Chaplin

Num mundo onde até monstros sagrados como Martin Scorsese já declararam que, doravante, só pretendem filmar em 3D, fazer um filme mudo foi sem dúvida uma aposta de risco do diretor francês Michel Hazanavicius. Todavia, como não é de hoje que os franceses têm no cinema e na música produzidos nos EUA, suas mais confessas admirações nas relações nem sempre de simpatia com aquele país, talvez não surpreenda tanto uma verdadeira ode de amor à era do cinema mudo de Hollywood, como é o caso de “O Artista”, ganhador de cinco estatuetas do Oscar deste ano, incluindo melhor filme, diretor e ator — Jean Dujardin, que já havia faturado o mesmo prêmio em Cannes.

Talvez para equilibrar o suposto obstáculo da mudez na grande maioria das cenas (embora não em todas), bem como para reforçar a paixão assumida pelo cinema estadunidense, os dois gêneros pelos quais “O Artista” transita não poderiam ser mais populares, nem mais tipicamente hollywoodianos: a comédia romântica e o musical — ainda que, no último caso, por motivos óbvios num filme mudo, com números restritos à dança. E ainda que essa mesma restrição não se repita no falado “Cantando na Chuva”, de 1952, é neste grande clássico dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly, que o filme mais recente, também roteirizado por Hazanavicius, bebe desavexadamente para conceber sua trama.

Ambos retratam o mesmo dilema, entre as décadas de 20 e 30 do século passado. Em “Cantando na Chuva”, Gene Kelly é a estrela do cinema mudo Don Lockwood, que encontra grandes dificuldades para fazer a transição ao cinema falado. Mesmo crítica da sua maneira de interpretar, baseado em expressões faciais e gestos exagerados, a dançarina e candidata a atriz Kathy Selden, interpretada por Debbie Reynolds, acaba se apaixonando por Loockwood. E, transposta à tela, a parceria amorosa salva a carreira do astro decadente, ao mascarar sua deficiência nas falas com suas habilidades na dança, transformando seu novo filme, de um constrangedor épico romântico de capa e espada, num musical de sucesso.

Em “O Artista”, Dujardin (muito parecido com Gene Kelly quando jovem) é George Valentin, estrela do cinema mudo que faz sucesso em pares românticos de Hollywood ao lado de “louras burras”, assim como Lockwood em “Cantando na Chuva”. A novidade fica por conta do acréscimo original do pequeno cão Jack (na verdade, chamado Uggy), parceiro inseparável de Valentin na vida e nas telas.

Também como Lockwood, o personagem de Dujardin tem dificuldades na passagem para o cinema falado. E aqui, algumas outras diferenças, já que o ator é de cara descartado pelo estúdio nessa transição, tentando, por conta própria, bancar sua insistência no cinema mudo. Embora com resultado igualmente desastroso, pelo menos o personagem de Gene Kelly chega a tentar atuar falando, enquanto Valentin se nega terminantemente, numa recusa que ganha um caráter obsessivo e quase suicida, gerando algumas interessantes alucinações em contraponto com a mudez do filme.

Embora em “Cantando na Chuva” a consumação do romance real na vida e sua consequente transição em musical nas telas sejam mais rápidas, e menos sofridas, é também uma dançarina e atriz iniciante, elevada à condição de estrela com o cinema falado, que acaba salvando a carreira (e a vida) de Valentin. No caso, a interessantíssima Peppy Miller, interpretada pela bela franco-argentina Bérénice Bejo, esposa na vida real do diretor/roteirista (e homem de sorte) Hazanavicius.

Elencadas todas as “coincidências” (aquelas que o filósofo alemão Friederich Nietzsche dizia não haver) com o falado “Cantando na Chuva”, se tivéssemos que buscar um paralelo para o caráter cômico de “O Artista” dentro do próprio cinema mudo, poder-se-ia dizer que o ganhador do Oscar de 2012, por seu humor mais sutil, está mais para Buster Keaton do que para Charles Chaplin.

Para a grande maioria que não tem a menor ideia de quem foi o primeiro, vale inclusive como possível primeiro passo no interesse para uma fase do cinema na qual muita gente boa da vida real, assim como o Valentin das telas, segue até hoje afirmando terem sido realizadas as maiores obras de uma tal de sétima arte.

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Lembranças de Pedro

Morreu, às 16h50 de hoje, vítima de um câncer na bexiga contra o qual lutava há cerca de um ano, o médico Pedro Otávio Enes Barreto, aos 55 anos. Era o primogênito orgulhoso de Dona Eneida e Seu Hercílio; irmão cuidadoso de Guilherme, Fátima, Frederico e Beatriz; marido apaixonado de Luiza Helena; pai carinhoso de Lívia, Luiz Otávio e Pedro Henrique; e avô babão da pequena Maria Eduarda. Era clínico geral e geriatra, diretor clínico do Hospital Manoel Cartucho, professor da Faculdade de Medicina de Campos e médico público deste município, além de ter sido secretário municipal em Saúde de São João da Barra, entre 2005 e 2006, na primeira gestão Carla Machado.

Foi, sobretudo, um médico humanista e caridoso, adorado pelas centenas de pacientes e ex-pacientes públicos e particulares, unanimente respeitado e admirado por todos os colegas, que colecionou uma legião de amigos verdadeiros em sua incansável lida na saúde, na vida, nas ruas, na mesa da sua casa, dos restaurantes, bares e botequins.

Abaixo, o blogueiro, seu “genro preferido”, por casado com sua única filha, mas também seu filho e seu irmão por afinidade de alma e adoção, republica o artigo postado originalmente aqui, no último dia 25 de janeiro, em virtude da homenagem que Pedrinho, como era carinhosamente conhecido, recebeu como “médico do ano”, pela Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia (SFMC)…

Quando a busca é o outro

Por Aluysio, em 25-01-2012 – 18h10

“Pois que, eu essência, não habito
Vossa arquitetura imerecida;
Meu Deus e meu conflito”

(carlos drummond de andrade)

sétimo selo

há os dias em que busco Deus
há aqueles em que topo o dedão
e O chamo de filho da puta
mas guardo na cômoda, por utopia
um pequeno grão de mostarda
e o amor da carpintaria

eu, quase sempre distante
como filho criado por outros
numa ilha sem fé no mar
e às vezes, meu Deus, tão seu íntimo
agarrado como uma criança
a quem a salvou de se afogar

minha imagem e semelhança?
falho demais para meu Deus
— teria mais em conta um gorila
ou a árvore que o aproxima do céu

caminho em sua vida
abençoado por sua sorte
encontro marcado com a morte
delirando chorar como hamlet
na certeza química dos anjos
nas dúvidas de antonius block

campos, 11/12/06

“O país não descoberto, de cujos confins/ Jamais voltou nenhum viajante”. Pela boca do príncipe Hamlet, em meio ao conhecido monólogo do “Ser ou não ser” (Ato III, cena 1), é assim que o dramaturgo William Shakespeare define a morte.

Desde o início do séc. 17, quando a mais famosa tragédia foi escrita, muito se tem debatido sobre o paradoxo da definição, proferida pelo atormentado príncipe num momento da peça em que ele já tivera contato com o fantasma do pai. Por óbvio, como “jamais voltou nenhum viajante”, após o espectro do rei surgir no mundo dos vivos para revelar ao filho homônimo que fora assassinado?

Da arte à vida que a imita, quem de fato já encarou a morte, e pode voltar com sua lembrança, não guarda dúvida sobre o divisado pelos olhos que transcendem à própria cara. Passa-se a integrar uma categoria diferente de gente — nem melhor, nem pior, mas diferente. Distinto à grande maioria dos que vivem, só a partir do renascimento se dá a gênese do sobrevivente, “viajante” sorteado com bilhete de ida e volta à fronteira do tal “país não descoberto”.

Todos que lá estiveram guardam suas cicatrizes. Não necessariamente visíveis em plano físico, embora sempre tangíveis diante de um igual em experiência.

Há pouco mais de seis anos, logo depois que comecei a namorar Lívia, minha esposa, conheci seu pai, Pedro Otávio Enes Barreto, Dr. Pedrinho dos amigos, vovô Pedinho da pequena Maria Eduarda. Se de cara distingui nele um igual, não demorou muito para que descobrisse se tratar de um tipo ainda mais especial de sobrevivente.

Do meu encontro com a morte, aos 19 anos, ficaram um buraco no lugar de testa e um apego radical a determinados valores pessoais, aos quais me agarrei para continuar vivo e busquei manter a despeito de qualquer necessidade de simpatia ou aceitação. Por sua vez, em Pedrinho, com apenas 16 anos, embora as consequências físicas tenham sido piores, aquelas operadas em seu caráter foram melhores, muito melhores.

Após mais de um ano integralmente submetido ao mais árduo trabalho de fisioterapia para tornar a andar, Pedrinho voltou a fazê-lo com limitações motoras. Diante delas, no lugar de se bastar em conceitos abstratos e ensimesmados, soube comungar sua própria luta pela vida numa peleja real por qualquer outra. Se a medicina e sua força de vontade o fizeram caminhar novamente, ele iria usar ambas, como as duas pernas, para fazer o mesmo por quem pudesse.

Quando o conheci, Pedrinho já era um dos clínicos gerais e geriatras mais conceituados de Campos. Ainda assim, acumulava seu concorrido consultório particular com a função de médico público municipal, professor da Faculdade de Medicina e diretor clínico do Hospital Manoel Cartucho. E, mesmo andando com o auxílio da surrada e inseparável muleta, nunca buscou esta em ninguém para deixar de cumprir sozinho os afazeres diários, guiando o próprio carro entre tantas frentes de trabalho e sua casa, da qual saía quase sempre de manhã cedo, para só regressar tarde da noite.

A medicina pública, na qual diz ter se dado sua verdadeira formação profissional, não teria exercício exclusivo no cargo conquistado mediante concurso. Também na prática privada, nunca se furtou em atender quem não pudesse pagar pela atenção de um profissional do seu nível. A muitos pacientes carentes, chegou por incontáveis vezes a fornecer acesso aos remédios que receitava, por meio de amostras grátis recebidas dos laboratórios.

Mesmo com a labuta incessante pela vida alheia, não se furtou em viver intensamente a sua própria. Amigo de primeira hora e necessidade de todos seus muitos amigos, nunca deixou de cultivá-los ou construir novos, em torno da mesa da sua casa, indiscriminadamente aberta a todos, ou nas dos restaurantes, bares e botequins. Afinal, como o poetinha Vinícius de Moraes, Pedrinho também “nunca viu uma boa amizade nascer em leiteria”.

A humanização que pregou à exaustão no exercício da medicina, sobretudo em sua atividade no magistério, era só uma extensão de todas as demais relações mantidas com seus semelhantes.

Por todos estes motivos e outros também, Pedrinho recebeu ontem o título de médico do ano pela Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia. Num auditório que o recebeu com palmas e ao final o ovacionou de pé, a entrega foi precedida pela fala de três colegas: Leonardo Bacelar, Makhoul Moussallém e Luiz Carlos Sell.

O primeiro deu o testemunho do pavor de uma paciente, ao saber, numa necessidade eventual, que não seria atendida por Pedrinho. Já o último fez a pertinente lembrança a Luiza Helena, minha sogra, para ressaltar que nenhum guerreiro lutaria com tanta coragem, diante de tantas dificuldades, se não tivesse ao lado uma camarada em armas da mesma têmpera.

Todavia, na minha opinião, partiu de Makhoul a definição mais precisa daquilo que todos que estavam ali, sentiam e sentem em relação ao homenageado da noite de terça. Antes de fechar sua fala com a aparência de superlativo, ao afirmar que Pedrinho não é o médico do ano, mas do século, o orador egresso de uma raça milenar endossou que sempre quando se vê diante de alguma dificuldade na vida e pensa em esmorecer, ministra para si mesmo a cura ao se mirar no exemplo do ex-paciente, ex-aluno e colega de lida.

Numa dessas coincidências da vida, daquelas que Nietzsche dizia não haver enquanto coincidências, Makhoul foi o neurologista que salvou a vida de Pedrinho e, anos depois, a minha. Se poucos, como nós dois, tiveram a sorte de ir e voltar, menos ainda, como ele, são os que dedicaram esse retorno à missão de adiar a inexorável partida daqueles que o cercam.

Pedrinho ensinou meu filho, a quem ele e Luiza adotaram como neto, a jogar xadrez. Ícaro já era fascinado pelo jogo desde que assistimos juntos a “O Sétimo Selo”, clássico do cinema de Ingmar Bergman, no qual o cavaleiro medieval Antonius Block, na pele do ator Max Von Sydow, assim que retorna das Cruzadas na Terra Santa para uma Europa arrasada pela peste, encontra a Morte, a quem propõe uma partida de xadrez, visando mais tempo à busca dos questionamentos existenciais aos quais, como Hamlet, dedicou sua vida sem achar respostas.

Com a modéstia do plebeu a humanizar uma alma das mais nobres, a busca de Pedrinho, após seu encontro com a morte, teve resposta pronta a indagações menos pretensiosas. Seu jogo, a partir dali, passou a ser estender a mão a quem estava do outro lado deste tabuleiro de nós todos e simplesmente precisava de ajuda.

Meio pai e meio irmão, meu e de outros tantos, é o melhor homem que já conheci.

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O helenismo em Heleno

São vários os motivos para se assistir ao filme “Heleno”, de José Henrique Fonseca, filho daquele que é considerado nosso maior prosista vivo: Rubem Fonseca. Serve para quem gosta de futebol e quiser conhecer um pouco mais da sua rica história. Serve para quem, como tantos têm feito, quiser traçar a analogia óbvia entre alguns de nossos atuais craques-problema, como Ronaldinho Gaúcho e Adriano, com seu mais glamoroso precursor. Serve para quem, mesmo sem gostar de futebol, simpatiza com a história dos heróis trágicos, no sentido grego (ou heleno) da palavra, aqueles que só gozam a vida vivendo-a no limite; aqueles, como cantou Adriana Calcanhoto, “que têm fome, que morrem de vontade, que secam de desejo, que ardem”. Serve para quem, como era o caso deste crítico de cinema bissexto, ainda tem alguma dúvida se Rodrigo Santoro é (no mínimo) um bom ator. Serve para quem quiser reconhecer o brilhantismo de um gênio do cinema brasileiro, o diretor de fotografia Walter Carvalho, realçado na adequada película em preto e branco, como foram o coração botafoguense e como se dividiu a vida do ex-atacante Heleno de Freitas (1920/59), gênio da área da mesma linhagem futebolística de Leônidas da Silva, Ademir Menezes, Pagão, Coutinho, Reinaldo, Careca, Romário e Ronaldo Fenômeno. Serve, de resto, a torcedores do Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco, ou de clube algum, mas desde que arquibaldos e geraldinos de uma tal de humanidade.

Numa época em que jogador de futebol era encarado como profissão marginal, Heleno inovou também fora dos campos. Filho de um rico fazendeiro de café mineiro, era formado em Direito, frequentador das altas rodas sociais cariocas, membro do Clube dos Cafajestes (que congregava, nos anos 40 e 50, os boêmios jovens e “bem nascidos” do Rio), amante do cinema, da boa música, de carros e motos possantes, das mulheres mais lindas e cobiçadas do seu tempo. Era também narcisista, irascível dentro e fora dos campos, marrento à medula, viciado em éter, marido e pai ausente, violento consigo e com ou outros, um caso clássico e extremado de bipolar, cuja sífilis que se recusou a tratar (“para não ficar frouxo ou brocha” como a personagem diz no filme) agravou até o ponto da loucura, levando-o à morte, no ostracismo de um sanatório em Barbacena, com apenas 39 anos.

Desde a final da Copa de 50, em que fomos derrotados por 2 a 1, pelo Uruguai de Schiaffino, Ghiggia e Obdúlio Varela, em pleno Maracanã, na “nossa maior tragédia nacional, tragédia maior que a de Canudos”, como bem definiu Nelson Rodrigues, rios de tinta já foram gastos na especulação: Se Heleno estivesse em campo, o Brasil teria perdido a Copa? Aguça a curiosidade, sobretudo quando constatado que, jogando por clubes, o único título conquistado pelo maior ídolo do Botafogo pré-Garrincha, como campeão carioca de 1949, foi pelo “Expresso da Vitória” de São Januário, que serviu de base àquela Seleção Brasileira da Copa de 50, cujo maior artilheiro (com oito gols) foi o já citado Ademir Menezes, o “Queixada”, companheiro de ataque de Heleno no Vasco do ano anterior.

O filme mostra o motivo, já que depois de ser barrado no Vasco pelo técnico Flávio Costa, que também dirigiria o Brasil em 50, por se recusar a treinar, quando já começava a pagar o preço físico pela vida boêmia, Heleno colocou um revólver na cabeça do treinador, que depois deu uma surra no jogador. Todavia, o fato é que, em 50, além do entrosamento com Ademir e os ex-companheiros do Vasco, o craque estava ainda no auge, jogando pela milionária liga pirata da Colômbia, na qual mesmo atuando junto de monstros sagrados como o argentino Alfredo Di Stéfano (que depois iria conquistar tudo pelo espanhol Real Madri, sendo comparado pelos europeus a Pelé), a classe e a elegância do seu futebol superior fizeram com que uma estátua em bronze de Heleno fosse erguida na cidade de Barranquila, onde está até hoje, na qual embaixo se lê apenas: “El Jogador” (“O Jogador”).

Todavia, mais do que na Colômbia, onde se atém a mostrar suas proezas na cama com duas prostitutas e sua reação à derrota brasileira na final de 50 (“O Costa se fodeu!), a passagem estrangeira a que o filme dá mais atenção foi pelo Boca Juniors da Argentina, onde, excêntrico, mas sem perder nunca a classe, Heleno treinava de sobretudo no frio de Buenos Aires. Nessa sequência, Rodrigo Santoro evidencia sua entrega física integral ao papel, já que ele próprio se definiu apenas como um “peladeiro esforçado” até fazer o filme, mas após a preparação para ele junto ao ex-atacante Cláudio Adão, o ator mata uma bola cruzada no peito e conclui a gol, com sobretudo e tudo (sic), com a aparente intimidade de um craque.

Entre as cenas no sanatório de Barbacena, e os dias de glória de jogador, nas duas linhas de tempo nas quais a narrativa do filme se divide, talvez seja do ocaso da vida de Heleno a grande cena dramática do filme, quando o tabagista inveterado insiste em oferecer seu cigarro a um colega interno, que acaba dando um tapa na mão do ex-craque e depois chora pelo ato da própria violência, sendo perdoado apenas pelo gesto de quem, num raro momento de lucidez, alcançado só em meio à loucura, finalmente aprendeu o perdão. Em gesto inverso, outra cena que passeia pela retina mesmo horas depois da exibição do filme, é a de Heleno caminhando descalço pelo alto da mureta do Copacabana Palace, tendo como fundo as nuvens do céu em preto e branco, enquanto observa todos seus semelhantes alheios lá embaixo e repete mentalmente, como um mantra de uma religião de si mesmo contra o mundo: “Bando de filhos da puta! Bando de filhos da puta!”.

Entre um oposto e outro, caminha à beira do abismo toda a humanidade tão bem resumida por helenos de outro tempo.

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