Faltou Dilma pedir desculpas pelo erro do seu governo no Bolsa Família

Salgaram a Santa Ceia

É um exagero sugerir que o governo deflagrou a maratona do Bolsa Família nos últimos dias 18 e 19 unicamente para atribuir sua autoria à oposição, responsável por ela mediante a difusão de boatos. O risco seria demasiado grande. E se a movimentação inesperada de cerca de um milhão de pessoas em 13 Estados tivesse resultado em mortos e feridos? E se ao invés de um milhão tivessem sido quatro, cinco ou seis a se movimentarem?

O vilão Félix, interpretado por Mateus Solano, da novela “Amor à vida”, cria bordões
O vilão Félix, interpretado por Mateus Solano, da novela “Amor à vida”, cria bordões

Tudo bem, como adiantou Gilberto Carvalho, secretário-geral da presidência da República: o bicho vai pegar este ano, véspera da reeleição de Dilma ou de uma improvável derrota dela. Está pegando. Faz-se o diabo para ganhar, disse a própria Dilma recentemente. Mas ninguém em sã consciência rasga dinheiro. Vence quem erra menos. Ousadia em excesso é para quem está desesperado. Ou aloprou.

Em 2006, candidato à reeleição, Lula bateria fácil Geraldo Alckmin no primeiro turno. Havia sobrevivido ao escândalo do mensalão graças ao erro de cálculo da oposição que, ao impeachment, preferiu esperar que ele sangrasse sozinho até a última gota. Mas aí funcionários da campanha de Lula alopraram, encomendando um falso dossiê contra Alckmin e José Serra.

Foi um lance com direito a mala abarrotada de dinheiro, batida da Polícia Federal em hotel no meio da noite e prisão do coordenador da campanha de Aloizio Mercadante, candidato ao governo de São Paulo e adversário de Serra. Para não responder sobre os aloprados, Lula fugiu ao último debate dos candidatos a presidente promovido pela TV Globo. Sua vitória acabou adiada.

O caso dos aloprados ficou por isso mesmo. Ao do Bolsa Família parece reservado o mesmo destino. Tudo indica que não estamos diante de um crime ardilosamente concebido. O mais provável é que tenha ocorrido na Caixa um absurdo erro administrativo. E que em seguida se tenha tentado aproveitá-lo para desgastar a oposição. Nada de surpreendente, por suposto.

O presidente da Caixa afirmou que só soube de parte do que acontecera na segunda-feira 20. Lorota: soube na tarde do sábado 18 que a Caixa adiantara na véspera o pagamento do benefício de maio de quase 700 mil pessoas. Por fim, disse que precisou de cinco dias para se inteirar dos detalhes do desastre. Lorota: bastou o fim de semana, dispensado até um pulo ao prédio da Caixa para uma reunião de emergência.

De quantos dias precisaria a oposição para armar uma operação de telemarketing capaz de atingir um milhão de pessoas distribuídas por 13 Estados? Vazou da Caixa o cadastro com os números de telefones de uma fatia dos clientes do Bolsa? Ou a empresa de telemarketing disparou telefonemas aleatórios, tendo a sorte de alcançar quem mais tarde disseminaria boca a boca o boato do fim do programa?

Há pontos obscuros de sobra a respeito do episódio. Um jornal paulista cobrou do governo respostas para todos eles. Ouviu de volta: os esclarecimentos já foram dados. Ora, evidente que não foram. Se a imprensa não existisse os governos seriam mais felizes. Em compensação, o distinto público seria mais enganado do que costuma ser – dia sim, outro não. Ou dia sim e outro também.

A dona do gatilho mais rápido do cerrado, a justiceira implacável que nada perdoa e cultiva o medo nos seus domínios, autorizou a publicação de uma nota em defesa da direção da Caixa. Se assim não procedesse reconheceria que seu governo erra – e como erra! A cada dia erra mais. O passo seguinte seria o de livrar-se de auxiliares tão descuidados. Um deles, o presidente da Caixa, pediu desculpas aos brasileiros. Dilma é quem deveria ter pedido.

Publicado hoje (03/06), aqui, no Blog do Noblat.

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O Ministério Público é o inimigo comum de quem?

Jornalista Elio Gaspari
Jornalista Elio Gaspari

Por Elio Gaspari

A Câmara poderá votar no próximo dia 26 a chamada PEC 37, que tolhe a iniciativa do Ministério Público e da Receita Federal de iniciar processos em defesa do patrimônio da Viúva. Se ninguém se mexer, ela passa. Na semana passada, o Senado mandou que os delegados de polícia recebessem o tratamento de “Excelência”. Na Câmara, outro projeto veda ao MP a capacidade de responsabilizar agentes públicos por negligência, além de dificultar o congelamento dos bens de malfeitores. Em São Paulo, um projeto quer impedir os promotores de investigar e processar por improbidade administrativa prefeitos, deputados e secretários estaduais. Essa atribuição seria concentrada no procurador-geral, nomeado pelo governador. Se isso fosse pouco, o Tribunal de Justiça quer despejar os promotores dos fóruns do estado.

Há mais iniciativas parlamentares e administrativas querendo limitar a atividade do Ministério Público do que projetos tratando do combate à malária. Nenhuma delas se destina a inibir os malfeitores. É como se o Ministério Público fosse uma espécie de inimigo comum. De quem?

Publicado ontem (02/06) na edição impressa de O Globo.

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FHC: “Já passou a hora do governo PT beijar a cruz”

Beijar a cruz

Por Fernando Henrique Cardoso

Já passou da hora de o governo do PT beijar a cruz. Afinal, muito do que ele renegou no passado e criticou no governo do PSDB passou a ser o pão nosso de cada dia da atual administração. A começar pelos leilões de concessão para os aeroportos e para a remodelação de umas poucas estradas.

No início, procurava mostrar as diferenças entre “nós” e “eles”, em seu habitual maniqueísmo. Nossos leilões, diziam, visam a obter a menor tarifa para os pedágios. Ou então, afirmavam, nossos leilões mantêm a Infraero na administração dos aeroportos.

Dessas “inovações”, resultou que as empresas vencedoras nem sempre foram as melhores ou não fizeram as obras prometidas.

Pouco a pouco, estão sendo obrigados a voltar à racionalidade, como terão de fazer no caso dos leilões para a construção de estradas de ferro, cuja proposta inicial assustou muita gente, principalmente os contribuintes. Neles, troca-se a vantagem de a privatização desonerar o Tesouro pela obsessão “generosa” de atrair investimentos privados com o pagamento antecipado pelo governo da carga a ser transportada no futuro…

Ainda que renitente em rever acusações feitas no passado (alguns insistem em repeti-las), a morosidade no avanço das obras de infraestrutura acabará por levar o governo petista a deixar de tentar descobrir a pólvora. Já perdemos anos e anos por miopia ideológica.

O PT não conseguiu ver que os governos do PSDB simplesmente ajustaram a máquina pública e as políticas econômicas à realidade contemporânea, que é a da economia globalizada.

Tomaram a nuvem por Juno e atacaram a modernização que fizemos como se tivesse sido motivada por ideologias neoliberais e não pela necessidade de engajar o Brasil no mundo da internet e das redes, das cadeias produtivas globais e de uma relação renovada entre os recursos estatais e o capital privado.

Sem coragem para fazer autocrítica, o petismo foi pouco a pouco assumindo o programa do PSDB, e, agora, críticos do mais variado espectro cobram deste o suposto fato de não ter propostas para o Brasil… Entretanto, a versão modernizadora do PT é “envergonhada”. Fazem mal feito, como quem não está gostando, o que o PSDB fez e faria bem feito se estivesse no comando.

Agora chegou a vez dos portos. Alberto Tamer — e presto homenagem a quem faleceu deixando um legado de lucidez em suas colunas semanais —, na última crônica que fez em “O Estado de S.Paulo”, “Foi Fernando Henrique Cardoso que abriu os portos”, recordava o esforço, ainda no governo Itamar Franco, quando Alberto Goldman era ministro dos Transportes, para dinamizar a administração portuária, abrindo-a à cooperação com o setor privado pela Lei 8.630 de 1993.

Caro custou tornar viável aquela primeira abertura quando eu assumi a Presidência. Foi graças aos esforços do contra-almirante José Ribamar Miranda Dias, com o Programa Integrado de Modernização Portuária, que se conseguiu avançar.

Chegou a hora para novos passos adiante, até porque o Decreto 6.620 do governo Lula aumentou a confusão na matéria, determinando que os terminais privados só embarcassem “carga própria”. Modernizar é o que está tentando fazer com atraso o governo Dilma Rousseff.

Mas, aos trancos e barrancos, sem negociar direito com as partes interessadas, trabalhadores e investidores, sem criar boas regras de controle público nem assumir claramente que está privatizando para aumentar a eficiência e diminuir as barreiras burocráticas.

Corre-se o risco de repetir o que já está acontecendo nos aeroportos e nas estradas: atrasos, obras mal feitas e mais caras etc. No futuro, ainda dirão que a culpa foi “da privatização”… Isso sem falar do triste episódio das votações confusas, tisnadas de suspeição e de resultado final incerto no caso da última lei dos portos.

A demora em perceber que o Brasil estava e está desafiado a dar saltos para acompanhar o ritmo das transformações globais tem sido um empecilho monumental para as administrações petistas. No caso do petróleo, foram cinco anos de paralisação dos leilões.

Quanto à energia em geral, a súbita sacralização do pré-sal (e, correspondentemente, a transformação da Petrobras em executora-geral dos projetos) levou ao descaso no apoio à energia renovável, à de biomassa (como o etanol da cana-de-açúcar) e à eólica.

Mais ainda não houve preocupação alguma com programas de poupança no uso da energia. Enfim, parecem ter assumido que, já que temos um mar de petróleo no pré-sal, para que olhar para alternativas?

Ocorre, entretanto, que a economia norte-americana parece estar saindo da crise iniciada em 2007/8 com uma revolução tecnológica (de discutíveis efeitos ambientais, é certo) que barateará o custo da extração dos hidrocarburetos e colocará novos desafios ao Brasil.

A incapacidade de visão estratégica, derivada da mesma nuvem ideológica a que me referi, acrescida de um ufanismo mal colocado, dificulta redefinir rumos e atacar com precisão os gargalos que atam nossas potencialidades econômicas ao passado.

Não é diferente do que ocorre com a indústria manufatureira, quando, em vez de perceber que a questão é a de reengajar nossa produção nas cadeias produtivas globais e fazer as reformas que permitam isso, se faz uma política de benefícios esporádicos, ora diminuindo impostos para alguns setores, ora dando subsídios ocultos a outros, quando não culpando o desalinhamento da taxa de câmbio ou os juros altos (os quais tiveram sua dose de culpa) pela falta de competitividade de nossos produtos.

As dificuldades crescentes do governo em ver mais longe e administrar corretamente o dia a dia para ajustar a economia à nova fase do desenvolvimento capitalista global (como o PSDB fez na década de 90) indicam que é tarde para beijar a cruz, até porque o petismo não parece arrependido. Melhor mudar os oficiantes nas eleições de 2014.

Publicado ontem (02/06) na edição impressa de O Globo.

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Clarissa defende seu direito de pedir votos em Campos e o pai a governador

“Política não é matemática”. Com esta declaração, a deputada estadual Clarissa Matheus (PR), pré-candidata a federal em 2014, refutou as projeções aritméticas feitas aqui por Geraldo Pudim, seu colega de bancada na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e concorrente na pretensão à Câmara Federal, no sentido de estabelecer um teto de votos para ela em Campos, visando permitir sobra suficiente para garantir também a eleição dele, Pudim, bem como a reeleição do deputado federal Paulo Feijó (PR). Ao mesmo tempo em que concorda com este, ao ressaltar a importância da eleição dele e Pudim, Clarissa advoga a justiça de uma deputada que defendeu Campos na Alerj ter direito de pedir votos na cidade pela qual lutou. Assumindo a condição de puxadora de votos na nominata federal do PR em todo o Estado, ela diz, no entanto, não ter a pretensão de repetir a votação histórica de Anthony Matheus (PR) em 2010, eleito deputado em 2010 com 694.862 sufrágios. Ainda sobre o pai, a filha não tem dúvida: ele será candidato à sucessão do governador Sérgio Cabral (PMDB). Quanto à mãe, também aventada como pré-candidata a governadora, Clarissa garante ser vontade da própria Rosinha (PR) concluir seu governo em Campos.

Clarissa (foto de Mariana Ricci - Folha da Manhã)
Clarissa (foto de Mariana Ricci - Folha da Manhã)

Folha da Manhã – Consta que sua reação inicial não foi das melhores à pré-candidatura do deputado estadual Geraldo Pudim à Câmara Federal, postulação que também é sua. O lançamento do nome dele já foi assimilado por você e sua equipe?

Clarissa Matheus – Nunca fui contrária à candidatura de Pudim à Câmara Federal. Apenas avaliei que a eleição dele para a Assembleia Legislativa seria melhor, até para dar organicidade à bancada que vamos eleger. Evidente que respeito as decisões dos companheiros de partido. Todos as candidaturas serão definidas nas convenções do ano que vem, inclusive a minha.

Folha – Em entrevista à Folha, Pudim disse que Campos tem entre 100 mil a 120 mil eleitores para deputado federal do PR. Segundo ele, se você fizesse entre 10 a 15 mil desses votos, o restante, dividido entre ele e Feijó, seria suficiente para que estes dois saíssem de Campos com as eleições praticamente asseguradas. Concorda com essa aritmética?

Clarissa – Política não é matemática. Não tenho como combinar com os eleitores quem vai votar em quem. Tem espaço político para todo mundo. Tem gente que vai se identificar mais comigo, outros com Pudim, outros com Feijó e outros com a oposição. Isso é natural do processo democrático.

Folha – Em entrevista ao jornalista Alexandre Bastos, na Folha, em resposta a Pudim, você afirmou que “essa história de quererem me isolar como deputada da capital não cola”. Quantos votos, afinal, você projeta conquistar, em 2014, na sua cidade natal?

Clarissa – Não sei quantos votos irei conquistar. Apenas reafirmei que meu mandato é estadual. Trabalho pela capital, mas também pela Baixada e pelo interior. Não esqueci de Campos porque moro no Rio. Trabalho pela cidade. Participei ativamente do movimento em defesa dos nossos Royalties, estou engajada na instalação de uma delegacia da Jucerja na cidade, fizemos audiência pública sobre a situação das escolas estaduais em Campos, visitamos as obras do Liceu de Humanidades, aprovei uma emenda que pode destinar mais de R$ 1 bilhão em recursos para nossa região no projeto que cria a taxa de fiscalização do petróleo e gás, e lidero na Alerj a luta pela duplicação da BR 101. Campos não está apenas no meu coração, faz parte da minha luta!

Folha – Também jornalista da Folha, Esdras Pereira escreveu aqui: “Os eventuais futuros candidatos em Campos viram com preocupação a disposição da bela deputada Clarissa Matheus, dona de muitos votos no Rio, de disputar os votos locais. Alguns acham que é olho grande, outros também”. Noves fora o elogio à beleza, como vê esse tipo de crítica?

Clarissa – Agradeço a gentileza do elogio. Mas com relação àqueles que criticam a minha postura, o que eu disse é que não é justo que eu trabalhe pela população de Campos durante todo o meu mandato e depois seja impedida de fazer campanha na região. É nas eleições que recebemos o reconhecimento da população. E esse reconhecimento é a maior retribuição que um político pode receber.

Folha – Mais sutilmente, em outra entrevista à Folha, o deputado federal e pré-candidato à reeleição Paulo Feijó disse aqui, se referindo a você: “Pela sua experiência política, com certeza ela entende a importância da minha eleição e a de Pudim para consolidação do nosso grupo político”. Há um teto matemático de votos para você em Campos, fixado no limite à sobra necessária às eleições de Feijó e Pudim?

Clarissa – Feijó tem toda razão! Reconheço a importância da eleição dos nossos companheiros de partido. Feijó, aliás, tem sido um importante aliado em Brasília. Politicamente falando e também na defesa das causas do Norte e Noroeste fluminense. Eles não devem se preocupar com a minha candidatura. Eu terei que rodar muitos municípios. Eles terão mais tempo na região.

Folha – Campos tem mesmo caixa para contribuir de forma capital à eleição de três deputados federais do seu grupo?

Clarissa – Existe espaço para a eleição de mais deputados federais na nossa cidade. Acredito que nosso grupo faça três.

Folha – Como enxerga a possível competição com as pré-candidaturas da oposição, como Makhoul Moussallem (PT), de Arnaldo Vianna (PDT), ou até do seu tio, Nelson Nahim, hoje no PPL, como aventou aqui o vice-governador e pré-candidato ao governo Luiz Fernando Pezão (PMDB)?

Clarissa – Makhoul foi candidato a prefeito e conquistou uma parcela do eleitorado. A população majoritariamente escolheu a continuidade do governo Rosinha. Mas ele tem um capital político que não vai desperdiçar. Acho natural. Arnaldo, até onde eu sei, continua inelegível. Com relação à candidatura de Nahim, prefiro não comentar. As urnas falam, a gente ouve se quiser.

Folha – Independente de Campos e região, todos apontam você como a puxadora de votos do PR no Estado, na disputa à Câmara Federal em 2014. Dentro desse contexto, é possível bater a marca do seu pai, deputado federal mais popular da história fluminense, quarto do país em todos os tempos, ao ser eleito em 2010 com 694.862 votos?

Clarissa – Não tenho essa pretensão. Garotinho teve uma votação recorde, a maior da história do Rio de Janeiro. Vai demorar muito pra algum dia alguém conseguir repetir. Garotinho foi um governador que marcou a história do Estado, tem serviços prestados à população nos 92 municípios. Ninguém constrói uma história de realizações da noite pro dia.

Folha – Ainda em relação ao seu pai, em resposta dada aqui ao colunista de O Globo Ilimar Franco (aqui), ele descartou publicamente a possibilidade da sua mãe, a prefeita Rosinha, vir como candidata ao governo do Estado. Concorda? Ele será mesmo o candidato do PR à sucessão de Sérgio Cabral (PMDB)? Em caso de desistência, a exemplo de 2010, como isso alteraria os planos das demais candidaturas do seu partido?

Clarissa – Rosinha ainda não concluiu a missão que tem com a cidade de Campos. Ela vai permanecer na Prefeitura e entregar as obras que ela iniciou. Esse é o desejo dela. Nosso pré-candidato é o Garotinho. Não trabalhamos com a hipótese da desistência. Ao contrário, queremos chegar fortes no ano que vem, com uma boa nominata de candidatos a deputado estadual e federal, com alianças organizadas e ratificar o nome do Garotinho na Convenção Partidária.

Folha – Voltando à entrevista de Pudim na Folha, nela ele disse que a pretensão do PR é fazer oito deputados federais e de 10 a 12 estaduais em 2014. É isso mesmo?

Clarissa – Concordo com Pudim. Afinal, elegemos nove estaduais sem um candidato forte ao governo do Estado. Agora vai ser diferente!

Folha – Após a entrevista de Pudim, assim como reações a ela, como a do vereador Abdu Neme, que aqui disse que será candidato à Alerj, com ou sem o PR, o secretário de Governo Suledil Bernardino (PR) divulgou por e-mail: “ninguém está autorizado a assumir compromissos com candidatos, principalmente a eleição de deputado em 2014, antes que seja definido quem terá o apoio das nossas duas principais lideranças políticas: ROSINHA e GAROTINHO”. É isso mesmo? No seu grupo, só quem decide são eles?

Clarissa – Eu respeito o desejo de Abdu, como de todos aqueles que querem assumir o desafio de uma nova candidatura. É preciso respeitar os projetos pessoais. Mas é também preciso compreender que nossos projetos precisam se encaixar dentro de uma estratégia de grupo. Foi isso que Suledil quis dizer. Talvez ele tenha se expressado mal. É importante destacar que em qualquer partido as lideranças políticas são decisivas na organização das nominatas. Não é exclusividade do PR.

Folha – Quanto à eleição à Alerj, na entrevista ao Bastos, você tergiversou quando o repórter indagou sobre a possibilidade de dobrada sua, para federal, com seu irmão, para estadual. Mas se ambos confirmarem as candidaturas, não seria estranho, até antinatural aos olhos do eleitor, se fosse de maneira diferente?

Clarissa – A candidatura de Wladimir (PR) ainda não está consolidada e está tão subordinada às discussões partidárias quanto à de Abdu ou qualquer outro postulante que já não tenha mandato de deputado, onde a reeleição é vista como natural. Por isso disse que não é preciso antecipar o debate.

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Amanhã, na Folha, Lindbergh e Clarissa em entrevistas exclusivas

(Na montagem de Elaina Galdino, as fotos de Edu Prudêncio e Mariana Ricci - Folha da Manhã)
(Na montagem de Elaina Galdino, as fotos de Edu Prudêncio e Mariana Ricci - Folha da Manhã)

Amanhã, em sua edição dominical, a Folha trará duas entrevistas exclusivas: Lindinho e a Bela. Se o vice-governador e pré-candidato ao governo Luiz Fernando Pezão (PMDB) já frisou que eleição não é concurso de beleza, nem os eleitores do senador Lindbergh Farias (PT), também pré-candidato ao governo do Estado, nem os da deputada estadual Clarissa Matheus (PR), pré-candidata à Câmara Federal, ou tampouco os próprios, parecem ter queixas dos dotes de beleza física a realçar a embalagem do conteúdo político de ambos.

Na entrevista com Lindbergh, feito em seu escritório na cidade do Rio, por este blogueiro e o também jornalista Alexandre Bastos, destaca-se a certeza da candidatura petista à sucessão do governador Sérgio Cabral, em que pesem todos os esforços em contrário aos quais este tem se dedicado abertamente. Ele falou sobre a violência, defendendo as UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadora) e prometendo instalá-las também em Campos e Macaé, além de garantir a manutenção do próprio José Maria Beltrame na secretaria estadual de Segurança, caso se eleja governador em 2014. Após apontar o fim do ciclo Sérgio Cabral (PMDB) no Estado, na contrapartida federal, Linbdbergh não se constrangeu na aparente contradição de afirmar que o PT, após 10 anos no poder, estaria ainda no começo de um novo ciclo, na qual garante não projetar ele mesmo na presidência da República. Farto em elogios aos correligionários de Campos Makhoul Moussallem, pré-candidato a deputado federal, e o vereador Marcão, o petista, no entanto, apontou alguém de outro partido como nova liderança regional: Dr. Aluizo, do PV, prefeito de Macaé. Se no Estado Lindbergh ambiciona ocupar o lugar de Cabral, na região, o espaço a ser preenchido se encontra ora ocupado pelo deputado federal Anthony Matheus (PR), que por suas práticas políticas sempre baseadas na agressão pessoal aos adversários, na visão do senador do PT, estaria “completamente superado”.

Maior esperança de que o grupo político dos Matheus tenha sucessão e sobrevivência ainda por algumas décadas, a deputada estadual Clarissa Matheus (PR), em entrevista concedida ao blogueiro, demonstra ter herdado, além do inegável talento político, a mesma ambição do pai, ao defender seu direito de buscar também em Campos os eleitores que a credenciem nas urnas de 2014 como puxadora de votos do seu partido em todo o Estado à disputa à Câmara Federal. Neste sentido, mesmo admitindo a importância das eleições de Geraldo Pudim e Paulo Feijó, todos do mesmo PR, ela elencou várias de suas iniciativas parlamentares na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) que a credenciam a pedir votos em sua cidade natal. Quanto aos eventuais concorrentes locais de oposição para deputado federal, ela demonstrou respeito ao enxergar a lógica política na pré-candidatura de Makhoul, mas não teve a mesma atitude em relação a Arnaldo Vianna (PDT), sobre quem se limitou a dizer que permanece inelegível, ou ao seu próprio tio, Nelson Nahim (PPL), para quem recomendou ouvir a voz das urnas de 2012, antes de se arriscar em 2014. Sobre a eleição a governador, Clarissa reafirmou o nome de Ahthony como pré-candidato do PR, dizendo que é desejo pessoal da sua mãe, a prefeita Rosinha (PR), também apontada como opção à sucessão de Cabral, concluir seu governo em Campos. Todavia, de tudo que a jovem deputada falou, a própria entrevista em si responde pelas distinções democráticas da filha em relação ao pai, depois que este disse em “entrevista” a rádio Diário, no último dia 25: “Se a pessoa toma café comigo e diz que é meu amigo, não pode dar entrevista para a Folha”.

Como a entrevista foi por e-mail, dessa vez não houve a oportunidade do café. Mas diante do exemplo pluralista da filha certamente mais bela que o pai, talvez fosse o caso de se ecoar aos ouvidos deste a paródia do refrão da música “Jorge Maravilha”, composta por Chico Buarque sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide, criado pelo gênio da MPB para driblar uma outra tentativa tacanha de censura, da Ditadura Militar Brasileira (1964/85): “Você não fala com a Folha, mas sua filha fala”…

Aliás, como a pedida é boa, sobretudo num sábado, enquanto a entrevista de Lindbergh não é publicada amanhã, no Blog do Bastos, e a de Clarissa aqui, neste “Opiniões”, e ambas na edição dominical da Folha impressa, fica a música de Chico para provar que o destino inexorável de qualquer censura, sobretudo quando ao arrepio da lei, é ser descumprida e publicamente ridicularizada…

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