Opiniões

Artigo do domingo — Ao pai de Bárbara

esperança

 

“Gunga Din” é um filme de 1939, baseado no poema homônimo do britânico Rudyard Kipling (1865/1936), ganhador do Nobel de Literatura de 1907. Transposto dos versos às telas pelo diretor estadunidense George Stevens (1904/75) — que depois filmaria outros clássicos do cinema, como “Um lugar ao sol” (1951), “Os brutos também amam” (53) e “Assim caminha a humanidade” (56) —, foi estrelado por Cary Grant e Douglas Fairbanks Jr., na ambientação do séc. 19 que conta as aventuras de três sargentos indisciplinados do exército real britânico. Na Índia dominada colonialmente pela Inglaterra, o trio vira quarteto com o nativo Gunga Din, numa missão militar que se depara com uma seita de assassinos que existiu realmente, os adoradores de Kali, a deusa hindu da morte.

Não se sabe se Kali é a padroeira da BR 101, mas mesmo aos céticos não convém duvidar. Na tragédia que consternou toda a aldeia goitacá, uma colisão na altura de Silva Jardim, no último domingo, dia 16, tirou a vida da pequena Bárbara Aquino, de apenas 4 anos, matando ainda o condutor do Honda Civic, o engenheiro Alessandro Costa, de 38, e deixando em estado gravíssimo a mãe de Bárbara, a fisioterapeuta Karina Lucas, 33, que briga num hospital de Macaé para seguir vivendo, enquanto este artigo é escrito.

Na terça da mesma semana, dia 18, o diretor de Estradas e Vias Públicas da secretaria de Obras de Campos, Joci Vasconcelos, teve seus 56 anos de vida postos a termo pela mesma BR 101, numa colisão com seu Peugeot no trecho de Mimoso do Sul (ES). Carbonizado até a morte, teve que ter o corpo identificado por exame de DNA. Da mesma maneira, na quinta, dia 20, no mesmo trecho da BR 101 que matou Bárbara, um homem morreu queimado dentro do Fiat Uno que guiava. O corpo e o carro ficaram tão destruídos pela violência das chamas, que o motorista não pôde ser identificado.

Uma vida humana perdida, de maneira violenta, num serviço público deficiente pelo qual se é bi-tributado na cara dura, com IPVA e pedágio, é sempre trágico e revoltante. E tanto pior quando a vida foi perdida antes mesmo de ser vivida, como foi o caso de Bárbara. Mas, como sabiam os gregos desde a Antiguidade, é na tragédia que nascem também os atos mais nobres e corajosos, capazes de distinguir um homem dos demais.

Na quarta-feira, dia 19, na capela do cemitério Campo da Paz, durante a missa antes do sepultamento, o cirurgião plástico Victor Hugo Aquino, pai de Bárbara e marido de Karina, tomou a palavra e, dilacerado de emoção, comungou publicamente sua vida e sua dor, não para se lamentar, mas jurar sobre o corpo da filha menina que cuidaria da mãe dela. Diante da morte, da mais insuportável delas para qualquer pai, ele se apegou à esperança, à dignidade da vida.

Tinha por Victor Hugo, apesar do pouco contato nos últimos anos, amizade e gratidão, pela força que ele deu aos meus pais, num momento superlativo como o que agora enfrenta, mas de desfecho mais feliz. Como pai e como homem, só posso dizer agora que tenho também por ele a mais profunda admiração.

Como pai, pranteio e tremo até a alma de medo da sua dor. Como homem, só me resta repetir, diante do seu exemplo, os últimos versos do poema de Kipling, também a última fala do filme: “By the livin’ Gawd that made you,/ You’re a better man than I am, Gunga Din!” (“Pelo que você fez/ Você é um homem melhor que eu, Gunga Din”).

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

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Este post tem 22 comentários

  1. Meu caro, a bitributação não é tão culpada quanto a imprudência. Aliás, sejamos dignos para esquecermos ilações de cunho político apaixonadas, ao menos nestes momentos.

  2. Caro Aluysio,

    Como ensina Vinicius em seu “Poema de Natal”, fomos feitos para a esperança no milagre. Ao se apegar à dignidade da vida, o Dr. Victor Hugo confirmou as palavras do poeta.

    Seu texto me fez ir longe e lembrar de momentos difíceis da minha família. Em todos esses momentos o Dr. Victor Hugo esteve ao nosso lado, nos dando força para superar a dor.

    Com certeza, o pai e Bárbara é um homem melhor que eu.

  3. Victor Hugo,e’ com dor,imensa dor, que acompanho os fatos e a sua luta.’A cada manha abro a Folha na esperanca de uma boa noticia nova. A distancia nao permite abracar-te, nao que isso modificasse os fatos, mas mostrar o meu apreco e solidariedade.Tenho orado a Deus todos os dias pedindo a recuperacao de Karine e forca para voce.Voce nao esta sozinho, Deus esta contigo.Deus te abencoe.Um forte abraco do amigo.

  4. Artigo e sensibilidade belos. Parabéns, Aluysio!!!
    Que Deus dê forças a toda família!
    Abraços

  5. Caro Augusto,

    Tenha a dignidade de não fazer ilações numa tragédia. Inexistentes no artigo, elas estão circunscritas ao seu infeliz comentário, no qual parece pretender culpar quem guiava o carro e não está mais aqui para se defender.

    Aluysio

  6. Caro Augusto ,

    Com todo respeito a sua opinião mas existe momento que o melhor a fazermos é chorar com os que choram independente do que achamos e sobre a matéria deixo a minha solidariedade.

  7. Lindo e triste texto! Infelizmente uma fatalidade com a pequena Bárbara! Muito consternada, pois o Dr. Vitor Hugo é uma pessoa super humana! Não tenho nenhuma grande amizade com ele,embora o conheça a muitos anos, mas é uma pessoa que muito admiro como profissional e como pessoa. Tenho orado a Deus para que conforte o coração dele. Que o Senhor possa amenizar essa profunda dor.

  8. Fiquei muito emocionada com suas palavras.

  9. Solidarizo-me com a família do motorista, que infelizmente veio a óbito neste lamentável acidente. Entretanto, não vejo como criticar quem defende a prudência (se é que ela não existiu neste caso), como a principal forma de evitar acidentes como este.

  10. Lindo texto e você definiu o que um dia pude testemunhar. Ele é o médico mais humano que conheci. E tenho fé em Deus que a tragédia, não irá faze-lo mudar com esses momentos tão sofridos.Estamos todos orando por ele!

  11. TRISTE ACONTECIMENTO!!!!
    MAS NÃO PODEMOS DEIXA DE LEMBRA QUE 94% DOS ACIDENTES SÃO CAUSADOS POR IMPRUDÊNCIA DOS MOTORISTAS
    Contra nossa pressa do dia dia não a duplicação e que de jeito,o problema que todo mundo fala depois que acontece se o MOTORISTA estivesse lendo essa matéria ele ia acha como um HOMEM com uma criança e uma linda mulher no caro deixa acontece uma coisa dessa…
    TENHO UMA DÚVIDA O QUE ESSE (trecho excluído pela moderação)

  12. Caro amigo Dr. Victor, peço licença para chama-lo assim , pois quando o conheci, não tinha ideia da cura que iria me proporcionar após cirurgia nas suas mãos. Tenho imensa gratidão pelo que fez por mim como profissional e ainda vai fazer mais, pois Deus o colocou na minha vida. Conheci a pequena Bárbara pelas fotos que me mostrou em seu consultório e mostrei a minha filha Camila Gomes Mansur de Azevedo de 11 anos que também tem no sobrenome o da sua pequena filha. Jamais vamos esquecer dela e de vocês nesse momento de dor que também estamos sentindo, pois minha filha também esteve comigo e seu irmão na despedida dela no Campo da Paz durante os 3 dias de orações, pois Camila fez questão de estar lá e me pediu que a levasse . Passei admirá-lo mais ainda como pessoa também principalmente quando disse sensibilizadas, para sua pequena filha, palavras sobre sua vida em família na despedida da Bárbara. Um forte abraço do seu amigo André Mansur.

  13. Caros Augusto, Rosivaldo e, sobretudo, João,

    Imprudência é não ser prudente nos comentários, numa tragédia que causou tanta comoção na cidade e, tanto mais, nas famílias envolvidas. No dia em que tivermos uma estrada decente, que no caso do trecho Campos/Rio da BR 101, teria que ir muito além da simples duplicação, mas de um novo traçado que tirasse da estrada tantas curvas desnecessárias, podemos até falar em imprudência na pista. Até lá, bitributados por IPVA e pedágio, só se conformam com a situação as ovelhas caminhando (ou guiando?) e balindo contentes ao abate. Por fim, uso especificamente os trechos moderados no comentário do João para avisar a todos os demais que as pequenezas maledicentes, tão típicas desta planície de hipocrisias cortada pelo Paraíba do Sul, não serão aceitas neste blog. Aqui, por certo, prevalecerá o exemplo de dignidade dado por Victor Hugo. Miremo-nos nele e tentemos ser pessoas melhores.

    Aluysio

  14. Caros, a dor é imensa da família e de todos os que nutrem afeição pelos envolvidos. Só com muita Fé para superar o ocorrido. Mas, é preciso assumir que as pessoas são demasiadamente imprudentes nas estradas, em especial na BR 101 Rio-Campos, colocando suas vidas e de inocentes em risco. Vemos manobras inacreditáveis… No mais, por mais que nossa ira contra a falta de investimentos pelos governantes seja imensa, e totalmente justificada, do ponto de vista técnico não há bitributação (que tem sentido específico no campo tributário), tampouco o IPVA é destinado a melhorias e conservação de estradas. Não sou eu quem digo, é a nossa Constituição, o nosso sistema tributário nacional. Abs.

  15. Cara Marise,

    Para constatar que o IPVA, ou qualquer outro imposto que cidadãos e empresas pagam na taxa tributária mais alta do mundo, não é destinado a melhorias e conservação das estradas brasileiras, nem é preciso ler a Constituição. Basta trafegar nelas.

    Abç e grato pela chance do debate!

    Aluysio

  16. Barato Augusto
    Cujo nome não é esse, mas, um pseudônimo qualquer. Quanto ganhas para fazer parte da Tropa de Choque Rosalínea? Aquela a atacar tudo e todos que dos Rosalinhados não forem?

  17. A falta de prudência, a infantilidade das pessoas, chefes de famílias que colocam os filhos,a esposa dentro dos carros para viajar em alta velocidade, é isso que mata. Não é IPVA caro, não é falta de manutenção nas rodovias.

  18. Assim como a Felicidade a Tristeza também não dura tanto tempo, tudo é passageiro! A vida nos ensina a querer, a ter, porém quando se consegue além do esperado nos tornamos egoístas até mesmo incapazes de AMAR.
    A vida passa em uma constante velocidade…vamos amar mais uns aos outros, fazer o bem sem olhar a quem, vivermos em colaboração para o bem, assim a MORTE será menos dolorosa, apesar de ser a unica certeza que temos é a única que não desejamos, porém é preciso aceitar!
    VIVER e MORRER é uma vez só!

  19. Dr. Vitor Hugo, Deus é Deus do impossível!!!!Creia nisso, a ele pertece todas as coisas, mesmo na dor não devemos nos deixar abater por ela e duvidar em um só momento. Estamos orando por Karina e tenho fé que Ela viverá para contar o milagre que Deus fez em sua vida, mesmo com tamanha dor do ocorrido, mas ELE, só ELE sabe o porque de todas as coisas. Se apegue a Deus é a unica forma de amenizar a dor, Deus o abençõe…

  20. Caro Wellington Caetano,

    Como os carros que colidiram, resultando a morte de Bárbara, trafegavam em sentido contrário, não é preciso ser nenhum gênio para concluir que uma simples mureta de proteção entre as duas pistas impediria, por motivo óbvio, o contato entre os dois veículos. Tenha, pois, a prudência de se informar e pensar sobre o que pretende opinar.

    Grato pela chance de esclarecê-lo!

    Aluysio

  21. Luiza (IP: 189.24.97.62) e, pela última vez, João (IP: 200.214.45.66),

    Com todo o respeito aos demais leitores, mas vcs dois me dão asco. O péssimo nível de ambos os comentaristas, tão ruim qt o português que empregam, me faz excluir definitivamente quaisquer suas manifestações futuras neste blog. Aliás, deixaria de escrevê-lo se tivesse apenas leitores do nível de ambos, um pouco abaixo daquilo preso nas reentrâncias da sola da sandália com a qual se esmagou a barata. Felizmente, tenho a certeza de que vcs são a exceção, não a regra naqueles que acessam este espaço, se dando ao trabalho de comentá-lo. Por favor, busquem outro lugar para tentar usar a morte de uma criança e a dor de um pai na destilação covarde dos seus recalques.

    Grato pela chance de excluí-los!

    Aluysio

  22. Boa noite!
    Faz tempo, infelizmente, que não lia artigos tão bem escritos!
    Fiquei encantada com o uso corretíssimo do nosso lindo Português, que vem sendo terrível e impiedosamente massacrado por pessoas que, sabe-se lá quando, puseram as mãos e olhos num bom livro.
    Como se não bastasse, ainda pude sentir uma emoção indescritível ao perceber a enorme carga de sensibilidade pela dor alheia, contida nas palavras.
    Parabéns ao Aluysio, força ao Victor Hugo e saúde à Karina.

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