Brazuca de cristal e as chances de surpresa na Copa

 

A França do clássico meia Pogba, que bateu a Holanda num amistoso em março, é a maior candidata a surpresa da Copa
A França do clássico meia Pogba, que bateu a Holanda num amistoso em março, é a maior candidata a surpresa da Copa

 

Em artigo publicado no último domingo (aqui), disse que as seleções da Espanha, Alemanha, Argentina e Brasil eram mais cotadas para ganhar a Copa do Mundo que começa amanhã. Como não há novidade nisso, pois as quatro integram a lista de favoritos de qualquer um que entenda algo de futebol, embora em tempos de Copa todos achem entender, passemos às especulações que nos restam neste limbo passageiro entre o encerramento dos amistosos e a hora da bola rolar para valer: Qual time poderá surpreender? Que jogadores podem se destacar?

Ao falar do favoritismo espanhol, já havia listado no domingo o Chile como uma possível surpresa no mesmo Grupo B, composto ainda por Holanda e Austrália. Pessoalmente, por mais que o futebol chileno tenha evoluído, não apostaria na eliminação precoce de espanhóis ou holandeses em 2014, campeões e vice, respectivamente, em 2010. Mas se vier a ser, improvável que o Chile caminhe às oitavas sem ser pelos pés do seu jovem atacante Alexis Sánchez, concorrente de Neymar no ataque titular do Barcelona. De qualquer maneira, mesmo que o Chile passe em segundo lugar no grupo, pegaria nas oitavas o primeiro colocado do Grupo A — do também favorito Brasil, que tem os chilenos anotados e sublinhados no caderninho da freguesia mais fiel.

Sinceramente, se tivesse que apostar em “surpresa” nesse torneio curto, de no máximo sete jogos, sendo os último quatro eliminatórios (perdeu, volta para casa), empilharia minhas fichas sobre a França. Nas eliminatórias europeias à Copa, os franceses só ficaram em segundo na sua chave porque perderam o jogo de volta pelo placar mínimo diante da Espanha, após terem empatado o primeiro confronto em 1 a 1 contra os campeões do mundo.

Na fase de amistosos deste ano, “Les Bleu” venceram bem a Holanda (2 a 0) em março, antes de massacrarem a Jamaica (8 a 0) no último domingo, exorcizando o trauma pelo corte do meia-atacante Frank Ribéry, dois dias antes. Eleito terceiro melhor jogador do mundo em 2013, atrás apenas do português Cristiano Ronaldo (Real Madri) e do argentino Lionel Messi (Barcelona), o francês do Bayer de Munique faria falta em qualquer time do mundo.

Mas quem queria ver Ribéry no Brasil, aconselha-se prestar atenção no incisivo atacante Karin Benzema, do Real Madri, no e no clássico meia Paul Pogba, da Juventus de Turim. Com apenas 21 anos, este último tem sido o principal artífice do jogo técnico e eficiente apresentado pela França. Apesar de treinar a seleção italiana do maestro Andrea Pirlo (também jogador da Juventus), Cesare Prandelli não teve dúvida ao afirmar no último domingo ao jornal francês L’Equipe: “Pogba é o melhor meio-campista do mundo”.

E ninguém melhor do que o Brasil, favorito eliminado da Copa de 2006 pela conexão direta Zinédine Zidane/Thierry Henry, sabe os estragos que podem ser causados pela união de um meia elegante e um atacante matador numa seleção francesa. Ademais, a França caiu no grupo E, completo pela cabeça de chave Suíça, pátria da tática do “ferrolho”, além de Equador e Honduras. Foi uma sorte oposta à de outros três ex-campeões mundiais, reunidos no “Grupo da Morte” (o D): Uruguai, Inglaterra e Itália — com a Costa Rica a fazer-lhes figuração.

A Itália é sempre Itália. E ninguém, em nenhuma Copa, pode excluí-la do grupo de favoritos. Mas se Uruguai, Inglaterra, ou ambos chegarem à segunda fase, podem surpreender. Até porque o primeiro e o segundo do forte Grupo D, pegarão nas oitavas de final, respectivamente, o segundo e o primeiro do fraco Grupo C, composto de Colômbia (que perdeu o atacante Falcão García, sua principal estrela, por contusão), Grécia, Costa do Marfim e Japão.

Ou seja, quem do “Grupo da Morte” (o D) passar às oitavas, nelas enfrentará um time do “Grupo da Baba” (o C), para tentar o acesso às quartas de final. Com um time jovem, mais voltado à preparação para 2018, mas ainda tutelado pela experiência dos volantes Frank Lampard (Chelsea) e Steve Gerrard (Liverpool), além do atacante Wayne Rooney (Manchester United), a Inglaterra pode ganhar impulso numa ladeira das circunstâncias.

Já o Uruguai, pelo contrário, tem um time envelhecido, com uma defesa razoável, um ataque excelente e um meio de campo indigente. Caso o veterano atacante Diego Forlán (eleito melhor jogador da Copa de 2010) ainda tenha pernas, não lhe faltam inteligência e categoria para recuar ao meio e tentar municiar na frente os letais Edinson Cavani (Paris Saint-Germain) e Luizito Suárez (Liverpool) — este, recuperando-se de contusão. E se os uruguaios conseguirem sua difícil vaga às oitavas de final, com acesso em tese menos complicado às quartas, a própria torcida brasileira pode passar a ser assombrada (e até possuída) pela poderosa mística de 1950.

Das seleções que nunca ganharam uma Copa do Mundo, a Bélgica é a que chega ao Brasil mais credenciada a surpreender. Dificilmente ganhará o título, mas pode chegar longe o suficiente para eliminar alguns favoritos. Criou esta expectativa a partir das oito vitórias, seis empates e nenhuma derrota da excelente campanha nas eliminatórias europeias, que lhe concedeu a condição de cabeça de chave do Grupo H.

Da segurança do goleiro Thibaut Courtois (Atlético de Madri) à habilidade do meia-atacante Eden Hazard (Chelsea), os belgas têm um time jovem e equilibrado, capaz de resgatar seus melhores dias em Copas do Mundo, nos anos 1980 (4º lugar em 86, no México) e 1990, quando sempre deixaram boa impressão pela técnica e vocação ofensiva. E a impressão presente é que não terão dificuldades em se classificar às oitavas, num grupo ainda composto por Argélia, Rússia e Coreia do Sul.

Por fim, bom não esquecer que um time africano e/ou do Leste Europeu têm costume de revelar surpresas positivas nas Copas. Da África, pode ser a Costa do Marfim do famoso atacante Didier Drogba (Galatasaray) e do meia de exceção Yaya Touré (do campeão inglês Manchester City), assim como a Gana dos elegantes volantes Michael Essien e Sulley Muntari, ambos do Milan.

Já entre as seleções dos povos eslavos, pode errar grosseiramente quem menosprezar a Bósnia do meia Miralem Pjanic (Roma) e do excelente centroavante Edin Dzeko, temido artilheiro do Manchester City. Todavia, a maior promessa do Leste Europeu vem mesmo da Croácia. Menos mal que apesar dos habilidosos meias Luka Modric (Real Madri) e Ivan Rakitic (comprado há dois dias pelo Barcelona), os croatas não poderão contar amanhã com seu arisco atacante Mario Mandzukic (Bayer de Munique), suspenso do jogo de estreia da Copa, contra o Brasil.

Como não se pretende ser uma Mãe Dináh, até porque ela mesma nunca foi de acertar suas previsões, resta torcer para que role logo a bola. Mas a Brazuca, não a de cristal.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

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