Em Campos, o ato contra a presidente Dilma Rousseff (PT) reuniu, de acordo com a Polícia Militar (PM), cerca de 800 pessoas e transcorreu de forma pacífica. Vestidos de verde e amarelo, os manifestantes se concentraram na Praça São Salvador, caminharam pela Avenida Alberto Torres, passaram pela Beira Valão e encerraram os protestos na Pelinca. Confira algumas imagens do ato na planície goitacá:
Atualização às 16h50 – Por volta das 10h, a concentração para a manifestação contava com cerca de 200 pessoas. Neste momento, representantes da indústria e do comércio, como Acic e CDL, exibiram faixas contra a política econômica da presidente Dilma Rousseff. Posteriormente, por volta das 11h30, com a chegada de jovens, a maioria da chamada “pedra”, a manifestação ganhou mais corpo. Na saída, de acordo com a PM, cerca de 800 pessoas seguiram o mini-trio elétrico até o final da Pelinca. Durante o percurso, por conta do calor, pelo menos 200 manifestantes deixaram o ato. Na página do ato no Facebook, 4,7 mil internautas haviam confirmado presença.
No trio elétrico, Igor Franco, Roger Azevedo e Fabrício Lírio usaram o microfone para protestar e puxar gritos de guerra como: “Fora, PT”, “Povo nas ruas, Dilma a culpa é sua”, “De verde e amarelo, sem foice nem martelo”. Os manifestantes também alfinetaram os manifestantes pró-Dilma, que teriam recebido R$ 80 para participar de ato no Rio (aqui). “Aqui ninguém recebeu R$ 80 para protestar. Estamos lutando pelo nosso país, sem bandeira partidária, usando verde e amarelo”, diziam os manifestantes que estavam no trio.
Provocação (I) – Durante o protesto, um eleitor da presidente Dilma exibiu bandeira com o nome da presidente na varanda de um luxuoso apartamento próximo ao Palácio da Cultura. A provocação foi recebida com bom humor pelos manifestantes, que rebateram mostrando bandeiras do Brasil.
Provocação (II) – Após a manifestação nas ruas, o debate esquentou nas redes sociais. Simpatizantes do PT e da presidente Dilma debocharam sobre o número de campistas no ato. “Quando eu ia na praça trocar figurinhas da Copa, tinha mais gente!”, ironizou Sandre Antunes.
Para quem se acostumou a buscar aqui, dentre todas as opções na blogosfera goitacá, as últimas notícias e opiniões mais relevantes acerca do Brasil do Petrolão, o blog pede licença neste domingo abafado de passeatas contra o governo Dilma Rousseff (PT), em Campos, no Brasil e no mundo, para rolar a bola ao craque do time dos blogueiros hospedados na Folha Online. Até amanhã, quando espero voltar à ativa, você pode acompanhar tudo, em tempo real, no Blog do Bastos.
O sétimo filho — No universo quase ilimitado da computação gráfica, a partir de meados dos anos 1990, com as inovações revolucionárias da Pixar Studios, praticamente não há fantasia humana que o cinema não possa conceber. Com o sucesso de público e crítica da trilogia inicial de “O senhor dos anéis” (2001, 2002 e 2003), que no conjunto faturou quase três bilhões de dólares de bilheteria, além de receber 30 indicações ao Oscar, arrebatando 17 estatuetas douradas, o tradicional gênero aventura de capa e espada foi reinventado, polvilhado por todo tipo de criaturas fantásticas.
O problema é que nem sempre se tem uma material rico como o do escritor britânico J. R. R. Tolkien (autor da trilogia homônima na qual os filmes se baseiam) para se trabalhar, tampouco a competência do diretor, roteirista e produtor neozelandês Peter Jackson para adaptar com sucesso as fantasias da literatura ao cinema. Frutos deste dilema, filmes descartáveis como “Caça às bruxas” (2011, de Dominic Sena), “João e Maria: Caçadores de bruxas” (2013, de Tommy Wirkola) e mesmo “Jack: O caçador de gigantes” (2013), do talentoso diretor estadunidense Bryan Singer, têm sido empilhados na prateleira dos blockbusters de 15 dias, incapazes de imprimir qualquer memória duradoura no espectador, aturdido em meio a tantos efeitos especiais.
É o mesmo caso de “O sétimo filho”, que estreou esta semana nos cinemas de Campos. Nele, Jeff Bridges vive Master Gregory, o último cavaleiro da ordem dos Falcões, composta apenas por sétimos filhos de sétimos filhos, especializada na caça de bruxas e criaturas sobrenaturais. Apesar dos elementos de cristianismo, o mundo em que vivem é fantasioso, misturando chineses e seus típicos chapéus num cotidiano que remete à Europa medieval.
Anos atrás, Gregory prendeu a poderosa feiticeira Mother Malkin (Julianne Moore) numa solitária escavada no meio da rocha de uma montanha. Com a chegada da lua vermelha, ela se fortalece e se liberta, incorporando no corpo de uma menina. Na nova batalha com a bruxa, o cavaleiro perde seu devotado aprendiz Bill Bradley (Kit Harington, o Jon Snow da brilhante série de TV “Game of thrones”). Para substituí-lo, Gregory compra o passe do camponês Tom Ward (Ben Barnes), outro sétimo filho de um sétimo filho, acometido por visões que não entende ou consegue controlar.
Dividido por sua paixão pela jovem bruxa Alice (Alicia Vikander) e a lealdade ao seu novo mestre caçador de bruxas, assim como por sua verdadeira origem, descoberta no decorrer do filme, Tom vai perdendo aos poucos sua pureza, assim como aconteceu no passado com os próprios Master Gregory e Mother Malkin, fazendo de ambos o que se tornaram. Talvez, se fosse buscado algum significado mais profundo, o filme pudesse revelar o caráter misógino e machista de homens caçando mulheres que tanto a eles se impõem, quanto os seduzem.
Mas se “O sétimo filho” merece algo de maior profundidade é o lamento pela maneira como os efeitos especiais em 3D conseguem roubar quase completamente o espaço que poderia ser dividido com grandes atores. Oscar de melhor ator por “Coração louco” (2010, de Scott Cooper), Jeff Bridges consegue ter seu momento, quando Gregory, diante do túmulo da esposa, revela ao jovem aprendiz como e porque se tornou um homem velho, amargo e solitário. Já a Julianne Moore, Oscar de melhor atriz este ano por “Para sempre Alice” (de Wash Westmoreland e do recém-falecido Richard Glatzer, também em cartaz nos cinemas da planície, cuja excelente crítica da Paula Vigneron você pode conferir aqui), é permitida uma única nesga da intérprete que de fato é, em sua expressão física após o fratricídio, já perto do final do filme.
Mas a melhor definição dessa predominância acéfala da computação gráfica sobre a interpretação, fica por conta do ator beniense Dilmon Hounsou. Depois de impressionar meio mundo por sua intensidade dramática em “Amistad” (1997, de Steven Spielberg) e de ser indicado ao Oscar de coadjuvante por “Terra dos sonhos” (2002, de Jim Sheridan), o africano não tem rigorosamente nenhuma chance de mostrar seu talento na pele de Radu, chefe dos assassinos aliado de Malkin. É que, toda vez que ele poderia fazê-lo, no lugar do grande ator, vê-se apenas as três dimensões de um dragão.
O filme hollywoodiano do diretor russo Sergey Brodrov é feito para vender pipoca e ponto. Mas para quem gosta de cinema, sobretudo da arte da interpretação, talvez fosse o caso de cuspir fogo.
Dos cerca de 41 mil participantes do protesto liderado pela CUT (Central Única dos Trabalhadores) em São Paulo na sexta-feira, 63% acham que a presidente Dilma Rousseff sabia da corrupção na Petrobras, segundo dados de uma pesquisa do Datafolha divulgados neste domingo pelo jornal “Folha de S.Paulo”. O Instituto realizou 313 entrevistas, e a margem de erro é de seis pontos para mais ou para menos.
Para 36% dos entrevistados, a presidente sabia da corrupção, mas não poderia fazer nada. Outros 27% acreditam que ela sabia e deixou que os malfeitos ocorressem; e 32% entendem que ela não tinha conhecimento de nada.
Entre os participantes do ato, 71% afirmaram ter votado em Dilma no segundo turno de 2014. De cada 10 presentes, 4 afirmaram que têm o PT como partido de preferência. Ao todo, 25% dos entrevistados disseram estar na rua para protestar contra medidas recentes do governo que tiram direitos trabalhistas. E 22% mencionaram necessidade de aumento salarial para os professores. A reforma política foi citada por 19%, e a defesa da Petrobras, por 18%. Em um questionário em que cada entrevistado poderia marcar mais de um motivo para estar protestando, só 4% mencionaram estar na rua em apoio à Dilma.
No universo dos participantes, 68% disseram ter ensino superior. Estima-se que o total de participantes do ato tenha sido de cerca de 41 mil, também segundo o Datafolha.
Nas palavras do Nelson Motta no contravapor ao anacrônico Juca Kfouri, entre os conceitos de esquerda e direita fundamentados no parlamento da França do séc. XVIII, que esse seja o pensamento de quem hoje sair às ruas ou ficar dentro de casa:
Tranquilo como a manhã de domingo. Cantávamos isso nos anos 1980. Espero que todo dia de domingo seja tranquilo. No domingo passado, lia revistas quando ouvi panelaços e gritos de “fora Dilma”. Não sabia que ela apareceu na tevê. Pensei: esses caras estão errando de domingo, o protesto é dia 15. Rapidamente, percebi que era manifestação espontânea da elite branca, como diz o PT. Em Ipanema, com tanto sol, a elite é morena, mas bateu panelas com a mesma intensidade.
O problema das manifestações de hoje não é a leveza do domingo, nem mesmo ter números expressivos. O problema, como em 2013, é evitar a violência e isolar os desordeiros, que se aparecerem agora serão, claramente, uma força auxiliar do governo.
Muita gente pede o impeachment de Dilma. Dizem que é golpismo. Não é. Está previsto em lei e passa por um ritual democrático: existem razões concretas? E por uma reflexão política: se cai o presidente, o que virá depois? Vivemos a mais complexa crise dos últimos 30 anos. Não vejo capacidade em Dilma para liderar o país na sua retomada. Nem vejo o PT com instrumentos para entender a realidade.
Conheço as lentes ideológicas. Elas se tornam mais poderosas quando está em jogo o próprio emprego. O PT tende a afirmar que os protestos vêm dos ricos. Tudo o que vem dos ricos é suspeito, logo deve ser rejeitado pelos pobres. Com o tempo, vão se assustar com o número de ricos no país, ou, finalmente, admitir que rejeição ao PT é um fato nacional. Os intelectuais acham que há um ódio contra o PT. Não se perguntam nunca se o partido fez alguma coisa errada. Pelo contrário, criam a seguinte imagem: os ricos nos odeiam porque os pobres passaram a consumir, frequentar universidades e viajar de avião.
De todos os processos mentais, um dos mais eficazes é esse: localizar uma virtude, no caso a distribuição de renda, e atribuir a ela as razões do ódio ao PT, suprimindo nesse processo mágico a roubalheira, o cinismo e a incompetência. Presidente incapaz, partido corrompido até a medula não têm condições de conduzir o país para fora do buraco em que nos meteram.
As manifestações de hoje não vão resolver sozinhas esta parada. Mas podem discutir direções. Impeachment, renúncia? Os tucanos não gostam de saídas conflitivas. Querem que Dilma sangre quatro anos. Pra que tanto sangue, meu Deus? Se os tucanos querem isso, imaginem os vampiros.
Os meandros da política tendem a desidratar os pedidos de impeachment. Em muitos lugares do mundo o povo dispensou a oposição e os políticos nesta fase. Ao invés de impeachment, que passa por um rosários de crivos necessários, simplesmente adotou “o pede para sair”.
Por mais profunda que seja a crise, agarrado aos cargos e ao poder, o PT jamais aceitaria uma renúncia. E que valor ela teria se no seu lugar fosse instalado o PMDB? Todas as certezas vão passar por uma prova. Como diz o poeta, segunda-feira ninguém sabe o que vai acontecer. Não me refiro apenas ao dia de amanhã, 16 de março. Se a crise se aprofundar, se as pessoas sacudirem a árvore com intensidade, eles acabam saltando por uma questão de sobrevivência. Aí, sim, nesse momento, será possivel falar de união nacional, de trazer as forças da sociedade para contribuir com a ideia de renovar.
Desde adolescente participo de manifestações. Aprendi a vê-las como algo não linear. Elas têm fluxo e refluxo, como o movimento da marés. Não salvaremos o país neste domingo. É só o começo de um novo processo. Será longo e difícil, porque a crise econômica vai roubar também muitos dos nossos sonhos. E não são apenas sonhos de consumo. Sonhos de crescimento, atualização, competividade profissional. Sacudir a árvore é um antídoto à ideia que as vezes nos assalta: meu país fracassou, logo também sou um fracasso.
Domingos são tranquilos e às vezes repetitivos. Desde a macarronada da infância ao futebol, os programas de auditório. Nos domingos, às vezes morremos, pelo menos esta é a sensação que a mesmice nos traz. O panelaço de domingo passado e as manifestações de hoje abrem uma nova fase. Não estamos em 2013. Naquela época, havia apenas uma sensação difusa de revolta contra todo o sistema político.
Nesse momento, as pessoas têm um foco. Sentiram-se enganadas na campanha. Exigem reparos. Estão conscientes de que a Petrobras foi assaltada: querem investigação e cadeia para os culpados. Em 2013, o objetivo parecia apenas exigir serviços públicos decentes em troca dos impostos. Agora o buraco é mais embaixo. Parece que as pessoas perceberam que isso só é possível com uma sacudida maior e focalizada. Não estamos em 2013 simplesmente porque a crise não nos deixará viver essa ilusão.
Não se trata apenas de desabafar num domingo tranquilo. Eles acreditam que esqueceremos tudo durante a semana. Sempre jogaram com o esquecimento. Mas a crise nos dará a memória de um elefante.
Ao pronunciar a palavra impeachment, Dilma trouxe o tema para dentro do governo.
Mas não foi apenas em público que ela pronunciou a palavra.
Em pelo menos uma ocasião, falando a amigos de longa data, a presidente foi explícita: disse que não renuncia de jeito nenhum e que não será afastada do cargo.
Se você estava pensando em sair às ruas amanhã contra Dilma, petrolão e grande elenco, não precisa mais. Pode ficar em casa. Tudo será resolvido no Supremo Tribunal Federal pelo ministro Dias Toffoli, que presidirá (aqui) o julgamento da Operação Lava-Jato.
Toffoli é o homem certo no lugar certo. Ex-advogado do PT, ex-assessor da Casa Civil de Lula, defensor implacável dos companheiros no julgamento do mensalão, ele foi o presidente do TSE que proibiu a propaganda da “Veja” na véspera da eleição — porque a revista informava (aqui) que Dilma e Lula sabiam de tudo. Alguma dúvida de que Dias Toffoli defenderá você, cidadão, contra a máfia progressista e humanitária que depenou a Petrobras e o Estado brasileiro?
Pronto. Agora que você tem certeza de que a justiça será feita, e que os autores do maior escândalo de corrupção da República serão punidos, relaxe. Economize a garganta e a sola do sapato, porque passeata é muito desgastante. Alugue um desses filmes sobre Al Capone, e viaje para aqueles tempos estranhos em que uma quadrilha tomava o poder constituído e tinha até juiz próprio… Que horror!
E já que você está com o domingo livre, desobrigado de se mandar para as ruas — o que é coisa da elite branca, e você não vai querer se misturar com essa gente que nunca deveria ter saído da cozinha —, aproveite para botar a leitura em dia. Há verdadeiras joias na literatura nacional recente. Comece pelo épico “Pedro Barusco na CPI da Petrobras” (aqui). É emocionante. O ex-gerente da estatal (que está disposto a devolver uns 100 milhões de dólares) contou que era uma espécie de freelancer da corrupção até começar o governo petista. A partir daí, o roubo foi “institucionalizado”, explicou o ex-gerente, que se reportava ao já famoso Renato Duque, diretor inoculado pelo PT na Petrobras.
“É chocante”, reagiu (aqui) Joaquim Barbosa — aquele representante da elite branca que não manda mais nada, para alegria do Brasil progressista e amigo dos pobres. Quem manda agora é Dias Toffoli, e ele não há de permitir que a direita golpista ataque uma instituição que está funcionando tão bem desde 2003, como explicou Barusco.
E esse Brasil que dá certo há mais de década, com mensalão, petrolão e demais benfeitorias socialistas, continuou funcionando por um detalhe singelo: a cabeça da “institucionalização” jamais foi cortada. Joaquim Barbosa, esse golpista, botou em cana vários guerreiros do povo brasileiro — mas nenhum deles estava mais com a mão na massa, ou melhor, na máquina. No que Dirceu foi flagrado, passaram-no imediatamente para a penumbra, dando lugar a Dilma Rousseff. Esta foi eleita presidente sem jamais deixar de prestar solidariedade ao mensaleiro julgado e condenado — e todos sabem que solidariedade é uma marca dos companheiros. Especialmente quando faz chover centenas de milhões de reais do esquema nas duas campanhas presidenciais da candidata solidária.
Resumindo: para se sustentarem no poder, Lula e Dilma foram fartamente beneficiados pelo mensalão e pelo petrolão, esquemas montados e operados em seus governos, com a regência de seus sócios partidários — esses aos quais Lula e Dilma permaneceram publicamente solidários mesmo com toda fama, com toda grana, com toda lama. A gente vai levando, e o Brasil, esbofeteando o óbvio, resolveu aceitar que a presidente e o ex não sabiam de nada. Aí vem o doleiro do petrolão, sob os juramentos da delação premiada, informar: “Sim, eles sabiam de tudo”.
O que está faltando? O que mais precisa acontecer para que o país exija a investigação direta desses governantes que presidiram a “institucionalização” do roubo? Não, não… Ainda é cedo. Espere o PT bater na sua porta e pedir uma comissão para manter a sua luz acesa. Aí, talvez, quem sabe, seja a hora de agir.
Enquanto você assiste chocado ao DVD do Al Capone, o ministro da Justiça, o procurador-geral e o ministro relator da Lava-Jato fazem seu jogral da inocência, anunciando aflitos que não há fundamento para investigar Dilma Rousseff. O médico mandou não contrariar, mas tem muita gente querendo desobedecer — e responder o disparate nas ruas. Deve ser essa gente esbranquiçada que não sabe o seu lugar, e agora deu para sair da cozinha batendo panelas contra o Império do Oprimido.
Um teólogo de esquerda disse que o movimento de 15 de março é coisa das elites que não ouviram a mensagem de Jesus. Pelo visto, o céu também já é deles. Nesse ritmo, seus branquelos, para vocês só vai sobrar mesmo a rua. Corram para lá — antes que seja tarde.
Algumas semanas em férias dos acontecimentos e, na volta, a sensação de que o país está, como no mapa, de cabeça pra baixo. Não sei se essa é a pior crise dos últimos tempos, como se diz — a presidente (aqui) acha que não —, mas é uma confusão poucas vezes vista, em termos de paradoxos e subversão de valores, papéis e sinais. O Brasil nunca foi um país para principiantes, já ensinava Tom Jobim, mas há momentos em que não é nem para catedráticos, como em 1963/64, por exemplo, que deu no que deu. A História não se repete, tudo bem, mas há agora algo parecido — de radicalismo, intolerância, agressividade e ódio. Espera-se que o desfecho não seja igual, embora a discordância seja tanta que nem os próximos se entendem mais, como Dilma e Lula. E o que dizer do PMDB, o maior partido de apoio à presidente, que é o que lhe causa mais embaraços? Quem a acusou de querer atrair “sócio para a lama” não foi um oposicionista grosseiro, mas o próprio presidente da Câmara (aqui), hóspede da “lista de Janot” (saudade dos tempos em que lista de dinheiro sujo era só a dos bicheiros). No seu depoimento na CPI da Petrobras, ele foi homenageado por vários colegas, inclusive do PT e PSDB. Coube a Clarissa Garotinho o espanto: “O que vi aqui foi uma reunião de felicitações. E achei que estava numa CPI”. De fato, o acusado parecia ser o procurador da República.
Em compensação, a melhor defesa do PT não foi feita por um petista, mas pelo ex-ministro de FH Bresser-Pereira. Recorrendo à velha luta de classes, o tucano atribuiu a onda de protestos a “um ódio coletivo dos ricos contra um partido e uma presidente”. O melhor símbolo, porém, da inversão de papéis talvez seja mesmo Paulo Malufn (aqui), que em 2000 Lula queria ver “atrás das grades” e em 2013 foi procurado em sua mansão pelo próprio Lula, em busca de apoio para Haddad. Criticado por este gesto, o ex-presidente declarou em comício: “Dizem que o companheiro Maluf é ladrão, mas isso é uma demonstração de ‘cleptomaníacofobia’ inaceitável nos dias de hoje”. Procurado pela Interpol por desvio de dinheiro, o deputado do PP, o partido com mais figurantes na tal lista, 31, manifestou-se indignado com a corrupção. “Estou com Janot: se alguém deve, tem de pagar. Em 48 anos de vida pública, sempre fui correto”. Que tal?
De que maneira essa confusão política, misturada com o escândalo do petrolão e com os sérios problemas econômicos, tudo isso agravado pela insatisfação geral, vai chegar às ruas amanhã? O comportamento das manifestações será um teste decisivo para a democracia. Tomara que seja um protesto legítimo, não o ensaio de uma arriscada derrubada da presidente Dilma.
A retórica do comandante do Movimento dos Sem Terra (MST) João Pedro Stédile é muito mais eficaz que a ação de seu “exército”, convocado por Lula (aqui) para ir às ruas contra os críticos do governo Dilma, que chamam de golpistas. Ele mesmo tratou de dar corda a esse viés militarista e conclamou seus liderados (aqui) a “engraxarem as botas” por que a luta apenas começou.
Um vídeo espalhado pela internet mostra um discurso recente de Stédile na Venezuela, confraternizando com o companheiro Maduro, onde afirma que uma “elite de mierda” na América Latina está tramando contra os governos populares.
Pela demonstração de ontem, a luta começou mal para os movimentos sociais que atenderam ao chamamento de Lula, que declarara esperar muita gente nas ruas ontem. Por qualquer regra que se meça, não é possível dizer que as manifestações (aqui) foram um sucesso, embora tenham se espalhado por vários Estados. Foram um reflexo do que constatam as pesquisas atuais: uma minoria de 7% (aqui) apóia o governo Dilma.
Essa capilarização do movimento serviu até para evidenciar a fraqueza da organização, pois em algumas cidades poucas dezenas de manifestantes se dispuseram a sair às ruas num protesto ambíguo, que defendia a presidente Dilma, mas criticava sua política econômica.
Uma está umbilicalmente ligada à outra, e não é possível neste momento apoiar a presidente e ser contra as medidas de equilíbrio fiscal que o ministro da Fazenda Joaquim Levy está apresentando. Quem age assim, como as centrais sindicais, na verdade está sabotando o segundo governo da presidente Dilma, e pouco importa que diga que faz isso por apoiá-la.
O fato é que a própria presidente já admitiu que as medidas para incentivar o consumo perderam o efeito, e que agora é hora de fazer justamente o contrário, isto é, cortar gastos e reequilibrar as contas públicas. Mesmo que seja um equívoco reiterado da presidente, que continua dizendo que as medidas que tomou no primeiro governo estavam corretas para aquela ocasião, e já não servem no momento atual, quando já está provado que foram elas que ocasionaram a situação que vivemos hoje, de qualquer maneira ela reconhece que tem que fazer diferente hoje para recuperar a credibilidade de seu governo.
O fracasso do movimento de ontem ganhará uma dimensão maior caso as manifestações de amanhã, nas diversas versões contrárias ao governo Dilma, sejam maiores. A medida pode ser São Paulo, onde ontem houve a maior manifestação a favor da presidente Dilma e contra o impeachment. Segundo cálculos oficiais da Polícia Militar, cerca de 12 mil pessoas participaram da manifestação em seu pico.
O Palácio do Planalto está trabalhando com a expectativa de que a manifestação de amanhã será maior em São Paulo, que se tornou o centro político antipetista, e fraca nos outros Estados. No Rio de Janeiro, por exemplo, ontem a manifestação a favor da Petrobras e contra o golpismo reuniu (aqui) cerca de 1000 pessoas. Amanhã, em Copacabana, os organizadores da manifestação contra o governo nas redes sociais esperam número maior.
Por isso mesmo o Palácio do Planalto tentou até o último momento cancelar as manifestações das centrais sindicais e dos movimentos sociais atrelados ao governo, pois sabia que as conseqüências seriam ruins.
Se fossem fortes, poderiam estimular as manifestações contrárias ao governo. Fracas, como foram, exibiram a incapacidade de mobilização desses movimentos que já foram vistos como uma ameaça à democracia. Hoje, são apenas (aqui) movimentos de pelegos transportados em ônibus, com diária e comida. A incapacidade de arregimentação da CUT já fora demonstrada meses atrás quando, com Lula de garoto propaganda, tentaram dar um abraço na sede da Petrobras do Rio e faltaram braços.
Um fato positivo foi que não houve violência em nenhuma manifestação pelo país, o que indica que a radicalização política está limitada às redes sociais e aos chamados “gritos de guerra”, sem se transformar em conflitos de rua.
Amanhã, nas manifestações contra o governo, saberemos se o mesmo espírito pacífico prevalecerá, ou se os Black blocs arregimentados pelas milícias governistas tentarão repetir a ação de 2013, quando conseguiram dispersar os manifestantes recorrendo deliberadamente às depredações e à violência física.
Levantamento da empresa francesa de pesquisa Ipsos, realizado em São Paulo, Recife e Porto Alegre, entre 9 e 11 deste mês, revela dados alarmantes para o governo: 50% da população consideram a gestão de Dilma ruim ou péssima. A avaliação negativa de Dilma supera a positiva inclusive no Nordeste, onde ela teve grande votação. A pesquisa também aferiu o engajamento aos protestos de domingo (15).
Luz vermelha
O percentual de pessoas que souberam dos protestos do dia 15 disparou nos dois últimos dias da pesquisa, subiu de 70% para 82%.
Lorota
A ladainha de que a crise atual se deve à crise econômica internacional não cola mais para 73% dos entrevistados.
#Vemprarua
Nas motivações para o protesto aparecem: Corrupção (67%), Inflação (52%) e Impeachment (32%).
Diferentes do passado recente, quando a classe artística apoiava em peso o PT e as candidaturas de Lula à presidência, a crise econômica, política, administrativa e moral que se abala sobre o Brasil neste segundo mandato de Dilma Rousseff (PT), fez com que muitos artistas usassem a democracia irrefreável das redes sociais para convocar o povo brasileiro a sair às ruas de todo o país amanhã, em protestos que terão a presidente, seu governo e seu partido como principais alvos. Confira abaixo: