Poemas do domingo — Homem culpado de ser homem

“O que menos fazia vida literária, o mais retirado, aquele que fazia uma poesia mais independente de qualquer modismo (…) Ele vivia para a poesia no sentido de viver em poesia, e não no sentido de se dar a conhecer como poeta. Ele era sob certo ponto de vista, vamos dizer, moral, o poeta puro por excelência”.

 

“A popularidade nada tem a ver com a poesia. A popularidade pode acontecer. Mas um grande poeta também pode passar despercebido. Temos um poeta de quase noventa anos que mora em Petrópolis e ninguém o conhece. Ele é da geração modernista, um grandíssimo poeta. Chama-se Dante Milano”.

 

 

Dante Milano por Candido Portinari
Dante Milano por Candido Portinari

 

Ambas referentes ao mesmo poeta, quando levado em consideração que a primeira declaração é de João Cabral de Melo Neto (1920/99), e a segunda, de Carlos Drummond de Andrade (1902/87), é possível projetar não só o valor do verso de Dante Milano (1899/1991), como antecipar algumas das suas principais características. Carioca, de formação autodidata, trabalhou na imprensa do Rio de Janeiro, antes que as relações de amizade e admiração por sua poesia e traduções lhe rendessem um emprego público, destino seguro à subsistência da maioria dos grandes poetas brasileiros da época.

Recluso desde que morava no Rio, de onde acompanhou o Modernismo de 1922 à distância, ele se exilaria em Petrópolis a partir de 1985, quando um acidente de automóvel lhe custou uma fratura no fêmur. Embora amigo de outros grandes poetas modernistas, como Manuel Bandeira (1886/1968) e Ribeiro Couto (1898/1963), também nunca foi de frequentar círculos literários, embora fosse neles conhecido e admirado por seus contemporâneos. Avesso à fama, justificava-se em prosa e verso:

 

“A fama tira a sua privacidade. Não gosto de ser apontado na rua, não gosto que ninguém me reconheça. Quanto à glória, é uma ilusão, é algo que muda como mudam as folhas de uma árvore. Um dia você é famoso, daqui a pouco não é mais (…)  A glória é, ou era, a ambição de ser admirado por toda a humanidade. A admiração da humanidade por um indivíduo exigiria uma correspondente admiração do indivíduo pela humanidade, falsa, porque a humanidade não é digna de admiração mas de piedade”.

 

“Tanto rumor de falsa glória

Só o silêncio é musical,

Só o silêncio,

A grave solidão individual,

O exílio em si mesmo,

O sonho que não está em parte alguma”.

 

Conhecido como a maior “vocação póstuma” de toda a literatura brasileira, só seria publicado pela primeira vez já perto de completar os 50 anos, e à sua inteira revelia. Um amigo, Queirós Lima, pediu-lhe emprestado os originais e levou-os por conta própria à Imprensa Nacional. Dois meses depois, voltou com as provas, comunicou a Dante e pediu-lhe que fizesse as emendas. Mas estas foram tantas que a Imprensa Nacional declinou da publicação. Um ano depois, em 1948, o livro foi finalmente lançado pela editora José Olympio, tornando-se o acontecimento literário daquele ano e rendendo ao seu autor o prêmio Filipe de Oliveira, espécie de Jabuti da época.

Sempre com acréscimo de novos poemas e depois também das suas traduções e parte da sua prosa jornalística, o livro seria reeditado em 1958, 71, 79 e, de maneira realmente póstuma, em 94. Em 98, na coleção “Melhores Poemas” da editora Global, uma sua coletânea foi reunida e prefaciada por Ivan Junqueira (1934/2014), outro grande poeta, jornalista e tradutor. Foi com este último livro que pude me aprofundar na obra de Dante Milano, cujo contato inicial, através do marcante poema “Imagem”, havia travado em outra coletânea: “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século”, em compilação do professor e crítico Italo Moriconi, editado pela Objetiva em 2001.

Poeta de sólida formação clássica, tinha como mestres os antigos romanos Virgílio (70 a.C./ 19 a.C.) e Horácio (65 a.C./ 8 a.C.); o português Luís de Camões (1524/80); os italianos Dante Alighieri (1265/1321), Francesco Petrarca (1304/74) e Giacomo Leopardi (1798/1837); e os franceses Stéphane Mallarmé (1842/98) e Charles Baudelaire (1821/67). Aliás, do seu xará autor de “A Divina Comédia”, além de admirador, Milano traduziu “Três Cantos do Inferno”, lançados em 1953 e considerados pela crítica a mais precisa versão em português que o pai da língua italiana já teve de um brasileiro.

Alguns anos depois, em 1988, o poeta reuniria em outra tradução uma coletânea de Mallarmé e Baudelaire, destacados nomes do simbolismo e do pré-modernismo na França e no mundo. No mesmo ano, receberia o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, conferido pela Academia Brasileira de Letras, onde, como Drummond e Manoel de Barros (aqui, aqui, aqui e aqui), sempre se recusou em ocupar uma cadeira.

Junto dessa herança clássica, os 141 poemas que Dante Milano publicou em vida eram também frutos de uma dicção moderna, marcada pelo ritmo semântico, ditado não só pelo som, mas pelo sentido. Quase sempre apoiado no tripé temático “morte/amor/sonho”, com preocupação formal manifesta na cinzelagem de cada consoante e vogal, em busca do Absoluto e sem tempo para o lirismo do cotidiano, a poética milaneana apresenta uma unidade inconfundível, talvez melhor definida pelo amigo Manuel Bandeira:

 

“Exemplo singularmente raro em nossas letras, parece o poeta escrever seus versos naquele inconfundível momento em que o pensamento se faz emoção”

 

Ou, no dito do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902/82), pai do Chico:

 

“Em outras palavras, seu pensamento é sua forma”

 

E se a vida é tempo perdido, não percamos mais o nosso deste domingo de sol com tanta prosa, caminhando o quanto antes aos versos de um homem culpado de ser homem:

 

Coletânea de Dante Milano reunida e prefaciada por Ivan Junqueira

 

 

Cantiga

 

A vida é tempo perdido.

O que se ganha é bem pouco.

Que vale ao morto o vivido?

Que vale ao vivo, tampouco?

 

E nunca me sai do ouvido

Esse rumor incessante:

“A vida é tempo perdido”…

Oh, que marulho distante,

 

Voz de sepultos oceanos

Num caracol aturdido.

Longos dias, breves anos.

A vida é tempo perdido.

 

 

Atafona, pôr do sol de 29/08/15
Atafona, pôr do sol de 29/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Tercetos

 

Eu sou um rio, a água fria de um rio.

Profundo, cabe em mim todo o vazio,

Um reflexo me causa um calafrio.

 

Sou uma pedra de cara escalavrada,

Uma testa que pensa, e sonda o nada,

Uma face que sonha, ensimesmada.

 

Sou como o vento, rápido e violento,

Choro, mas não se entende o meu lamento.

Passo e esqueço meu próprio sofrimento.

 

Sou a estrela que à noite se revela,

O farol que vê longe, o olhar que vela,

O coração aceso, a triste vela.

 

Sou um homem culpado de ser homem,

Corpo ardendo em desejos que o consomem,

Alma feita de sonhos que se somem.

 

Sou um poeta. Percebo o que é ser poeta

Ao ver na noite quieta a estrela inquieta:

Significação grande, mas secreta.

 

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Poema do domingo — “Some daqui e procura teu jantar/ Na tua ralé”

Tudo que tinha a dizer sobre a vida e a obra de Robert Burns (1759/96), poeta nacional da Escócia, escrevi em 2009 no blog “Cantos”, que dividia com os professores e também poetas Adriano Moura e Fernanda Huguenin, em texto republicado dois anos depois aqui, neste “Opiniões”.  À poesia do bardo escocês, fui apresentado na segunda metade dos anos 1990, a partir de edição bilíngue da Relume Lumará, comemorativa do whisky Teacher’s, com introdução e tradução da poeta brasileira Luiza Lobo, que me foi dada de presente pelo jornalista Celso Cordeiro Filho. E o que apreendi pela leitura, mesmo mais de 200 anos após a vida de quem escreveu, me serviria de guia ainda atual ao que vi, ouvi, cheirei, tateei e provei das Terras Baixas e Altas da Escócia, numa viagem que fiz em 2007, como mochileiro por boa parte daquele belíssimo país.

Em prosa própria, pouco ou nada tenho a acrescentar ao que escrevi em 2009 e republiquei em 2011. Em relação à poesia, porém, apenas uma de Burns, é sempre muito pouco. Assim, no misto de fábula, sátira social, de costumes e religiosa, antes que os fiéis de hoje se reúnam na tradição das missas e cultos dominicais, convém dar uma espiadela nos versos de “A um piolho”, mas sem confiar muito na moral elitista das seis estrofes iniciais. Afinal, só quando o protagonista do poema desce do Lunardi — gorro em forma de balão criado em homenagem ao italiano Vicenzo Lunardi (1759/1806), que realizou cinco vôos de balão nos céus da Escócia — rumo ao pescoço da bela Jenny, se desvela o erro fatal não apenas dela, mas que a vaidade costuma aplicar sobre todos nós: “Oh, se algum Poder nos concedesse/ Vermo-nos a nós como nos vêem!/ Nos livraríamos de tantos vexames,/ E tão falsas impressões”…

Abaixo, na tradução sem “gestos e roupagens” da Luiza Lobo:

 

Vitral da Universidade de Glasgow
Vitral da Universidade de Glasgow

 

 

A UM PIOLHO

AO VER UM NO CHAPÉU DE UMA DAMA NA IGREJA

 

I

Oh! onde vais, criaturinha rastejante?

Tua impudência te protege fortemente,

Só te posso dizer que estranhamente

Andas em gaze e renda,

Embora, oh Deus! tema que hás de jantar

Num tal lugar.

 

II

Oh tu, animalito feio, malfazejo e andejante,

Detestado, desprezado por pecadores e santos!

Numa dama tão fina, como ousas

Pousar o pé!

Some daqui e procura teu jantar

Na tua ralé.

 

III

Fora! vai rastejar nas têmporas de um mendigo,

A arrastar, estirar e escarrapachar as patas

Pulando no gado, entre teus semelhantes,

Em grupos ou enxames;

Onde chifre ou osso jamais perturbarão

Tua vasta plantação.

 

IV

Agora, queda-te aí! estás fora de vista,

Firme e confortável sob os ornamentos;

Não, por minha fé, não ficarás contente

Enquanto não te alçares

Ao píncaro, ao ponto mais elevado

Do chapéu de madame.

 

V

Homessa! ousas mostrar o focinho,

Como uma groselha, cinzento e roliço:

Oh, uma pasta mercurial e pestífera,

Ou algum pó vermelho mortífero

Em tal dose te daria, que a catinga

Do teu traseiro consertaria!

 

VI

Surpresa não me faria te encontrar

Na touca de flanela de uma velha;

Ou talvez nalgum moleque maltrapilho

Em sua jaqueta;

Mas no elegante Lunardi de madame pousar?!

Como ousas? Fora!

 

VII

Oh, Jenny, não vira tua cabeça

A pavonear e exibir tua beleza!

Mal imaginas a maldita presteza

Com que este ínfimo ser rasteja!

E já de seus olhos odientos e agudas garras

Começas a te aperceber!

 

VIII

Oh, se algum Poder nos concedesse

Vermo-nos a nós como nos vêem!

Nos livraríamos de tantos vexames,

E tão falsas impressões:

Sem mais nos exibir com gestos e roupagens,

Até nas devoções!

 

1786

 

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Quem vai torrar a herança dos irmãos na Câmara de Campos?

“Caim assassina Abel” (1608/10), óleo sobre painel de carvalho, de Peter Paul Rubens (1577/1640)
“Caim assassina Abel” (1608/10), óleo sobre painel de carvalho, de Peter Paul Rubens (1577/1640)

 

 

Gustavo Alejandro Oviedo, advogado, publicitário e crítico de cinema
Gustavo Alejandro Oviedo, advogado, publicitário e crítico de cinema

Por Gustavo Alejandro Oviedo

 

Nesse sábado, Garotinho voltou a explicar, na Radio Diário, a necessidade de antecipar os royalties futuros como a única saída para poder enfrentar a crise que o município está atravessando. Insistiu no seu exemplo de que a operação de crédito seria parecida à situação de uma pessoa obter um empréstimo onde pagaria apenas 1% ao ano, o que evidentemente demoraria 100 anos em quitá-lo. Isto, claro, se o banco fosse tão generoso de não cobrar juros durante um século.

Vou fazer uma previsão mais realista, onde não se subestime a inteligência do público. Tomemos como referência o empréstimo já obtido pelo município em 2014 junto ao Banco do Brasil. O banco entregou 250 milhões, e a prefeitura o devolverá em duas parcelas de 150 milhões, uma este ano e a outra em 2016. Ou seja, pagará ao todo 300 milhões, sendo 50 milhões de juros (10% ao ano).

Num eventual novo empréstimo, onde as condições sejam semelhantes, o município iria tomar emprestado aproximadamente 1 bilhão de reais, pois essa é a previsão de queda de arrecadação deste ano. Pela resolução nº 43 do Senado Federal, que agora autoriza a operação, essa antecipação só poderia ser devolvida em parcelas anuais que não ultrapassem 10% da receita obtida do petróleo (Royalties e Participações Especiais).

Suponhamos, então, que somos o banco que irá emprestar dinheiro ao município de Campos. O negocio é interessante, pois a quitação está garantida por recursos oriundos da ANP e não há chance de que uma instabilidade política local ameace o pagamento. É mais ou menos como um empréstimo consignado. O lado ruim é que não tem como se saber o quanto o município receberá de Royalties e PE no futuro. O que ingressa depende do preço do barril e da produção na bacia local.

Como será calculado o valor dos juros, então? Embora não possa ter ideia disso, não seria estranho pensar que fariam alguma coisa similar ao feito na operação de 2014: estabelecer um valor determinado (o emprestado + juros) e que este seja pago até sua quitação, sem que se tenha certeza de quando acontecerá isso.

Imaginemos o que o banco pensaria: se vou emprestar 1 bilhão, e o cliente só pode devolver entre 50 e 80 milhões ao ano, a amortização do capital se fará, no melhor dos casos, em 13 anos. Se cobrarmos um juro de 10% ao ano (afinal, somos um banco), teremos de somar 130% a 1 bilhão de reais, o que daria um montante a ser devolvido de 2,3 bilhões de reais. Esse valor demoraria 29 anos em ser pago, considerando que se devolvesse ao banco 80 milhões a cada ano.

Repito, não sou um expert em finanças, mas a conta que estou fazendo é a mais otimista para a Prefeitura. O mais provável é que as condições sejam piores (no meu exemplo, o banco aplicou juros apenas pelos primeiros 13 anos).

29 anos para pagar o déficit de 2015.

E o ano que vem? Como será a situação financeira do próximo ano, se a uma eventual queda de arrecadação teremos que descontar a parcela do empréstimo de 2014 (150 milhões) além da parcela deste novo empréstimo. Será que vamos ter que fazer uma nova operação similar, comprometendo outros 10% dos royalties durante mais 29 anos, e assim por diante?

Garotinho desafia os críticos a apresentar uma outra solução, pois essa é a única que ele vê possível no presente cenário local. Se se trata de apresentar solução para o problema financeiro da Prefeitura, pediria a ele e a sua mulher para que, primeiro, nos informem qual o tamanho do rombo, a quem está se devendo e como pensam gastar o dinheiro que pretendem pedir emprestado. Mas suspeito que o que Garotinho pede é uma solução para ele próprio sair da crise em que, junto com a prefeita, voluntariamente produziram, ao inchar a máquina pública para que se sustente com um recurso que, deveriam ter sabido, é volátil e finito.

Os administradores pródigos voltam amanhã à Câmara, não arrependidos, mas desejosos de torrar a herança de todos seus irmãos campistas.

 

Publicado originalmente aqui, na democracia irrefreável das redes sociais

 

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“Rosinha é a prefeita que mais realizou pelo município”

 

Por Aluysio Abreu Barbosa e Alexandre Bastos

 

Se continua a elogiar a passagem de Rosinha Garotinho (PR) pela Prefeitura de Campos nos últimos seis anos e oito meses, o deputado federal Paulo Feijo (PR) também admite que Campos poderia ser muito melhor com os royalties recebidos nos últimos 20 anos. Ainda assim, ele aposta na força do grupo governista, no qual vê o vereador Mauro Silva (PT do B) e o vice-prefeito Dr. Chicão (PP) como os dois nomes com mais chance para tentar manter a Prefeitura em 2016. Ao admitir estar fora dessa disputa, Feijó também calcula hoje ter 95% de chance de encerrar sua carreira política quando terminar seu quinto mandato na Câmara Federal. Sobre o que ocorre em Brasília, adverte que ninguém sabe onde a crise nacional pode acabar. Do Planalto Central à Planície Goitacá, o deputado defende o diálogo entre governistas e ex, enquanto considera a oposição desunida e desestruturada.

 

Paulo Feijó

 

Folha da Manhã – Como está hoje sua relação com o secretário municipal de Governo Anthony Garotinho (PR) e seu grupo? Trabalha com a possibilidade de vir candidato a prefeito de Campos pelo PR em 2016? 

Paulo Feijó – A minha relação com Garotinho é boa, muito embora tenha conversado muito pouco com ele, pelos meus afazeres em Brasília e os dele em Campos. Com o grupo político, a mesma coisa, com algumas exceções, como Dr. Edson Batista (PTB), presidente da Câmara, o vice-prefeito Dr. Chicão (PP), o vereador Mauro Silva (PT do B), líder na Câmara, e o vereador Jorge Rangel (PSB), com quem tenho mais contato. Em relação à candidatura em 2016, não vejo possibilidades, pois tenho 95% de chance de encerrar a minha carreira política após este meu quinto mandato de deputado federal. Acredito que já tenha oferecido uma importante parcela de contribuição a Campos e região nestes meus quase 30 anos de vida pública.

 

Folha – Os nomes mais fortes na disputa interna pela sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR) são mesmo de Chicão e Mauro Silva? Você, Edson Batista, Suledil Bernadino (PR), Fábio Ribeiro (PR) e Auxiliadora Freitas (PHS) correm por fora? Quem teria mais chances, no grupo e junto ao eleitorado?

Feijó – Eu vejo os nomes de Mauro e Dr. Chicão com mais possibilidades, até porque dentro do grupo vejo que os dois estão mais motivados. Eu estou fora. Os demais, não posso avaliar. O candidato do grupo será o candidato com grandes chances de vencer as eleições. No momento certo esse nome será anunciado. A partir daí vamos trabalhar para a vitória.

 

Folha – Em outubro de 2010, você disse (aqui): “Ganharemos de qualquer um. Oposição, em Campos, não existe”. E foi parcialmente confirmado em 2012, com a reeleição da prefeita em turno único. Mas na pesquisa do instituto Pro4, de junho deste ano, 70,2% dos campistas disseram que não votariam em nenhum candidato apoiado por Rosinha em 2016. Ainda acha que dá para ganhar de qualquer um? E a oposição ainda não existe?

Feijó – Não existe eleição fácil e na democracia é comum que o poder mude de mãos, mas acredito que o nosso grupo político fará o sucessor da prefeita, até porque a oposição é muito desunida e desestruturada eleitoralmente.

 

Folha – Em outra entrevista à Folha, em fevereiro 2014, você disse (aqui): “hoje considero Rosinha a prefeita de melhores resultados na história do município de Campos”. Um ano e meio depois, diria o mesmo? Por quê?

Feijó – Com certeza! Rosinha é a prefeita que mais realizou no nosso município, com fortes resultados, principalmente nas áreas econômicas e sociais. Mas vale destacar que, se levarmos em consideração o que Campos recebeu de royalties do petróleo nos últimos 20 anos, verificamos que o nosso município poderia ser muito melhor, até como uma referência de qualidade de vida pro Brasil.

 

Folha – Um fato que tem causado grande desgaste à prefeita é a antecipação de receitas, inclusive de administrações futuras, estimada em até R$ 1,2 bilhão, autorizada pela Câmara (aqui) numa manobra governista julgada ilegal (aqui) pela 3ª Vara Cível de Campos, na última quinta. A ação já tinha sido repudiada por 88,5% da população, na mesma pesquisa Pro4, rejeição próxima das enquetes da Folha (84,7%) e InterTV (90%). Vale a pena insistir em pagar para ver?

Feijó – Quero ressaltar que a crise brasileira é muito forte, a crise na indústria do petróleo idem, com consequências pesadas para nossa região. Em relação ao quadro financeiro do nosso município não conheço os números para fazer esta avaliação.

 

Folha – Em entrevista recente, o vereador Gil Vianna disse (aqui) que foi a manobra governista para autorizar a chamada “venda do futuro” de Campos, e sua esmagadora rejeição entre os campistas, que fez com que ele e outros cinco outros edis abandonassem a bancada rosácea. Diante de tanta sangria na base de apoio popular e legislativa, há alternativa?

Feijó – Há alternativa sim, o diálogo! Acredito que a saída destes vereadores da base tenha ocorrido não por estes motivos, mas principalmente pela falta de conversa. Dou como exemplo a presidente Dilma, que enfrenta um desgaste sem precedentes, mas tem procurado conversar com os partidos políticos, governadores, líderes partidários, movimentos sociais, e está ganhando fôlego. Em Campos, o nosso grupo tem que ir pelo mesmo caminho, o da conversa. Fazendo isso, tenho certeza que traremos vários desses vereadores de volta.

 

Folha – Em março de 2014, Garotinho previu que você se reelegeria deputado federal: “No seu caso, Feijó, aposto em 150 mil votos para cima”. Porém, seus 48.058 votos se aproximaram de um terço da previsão. Até que ponto a entrada de Clarissa Garotinho (PR) em Campos, onde acabou a mais votada, pode ter atrapalhado, já que na cidade você também ficou atrás de Alexandre Tadeu (PRB) e Nelson Nahim (então no PSD)?

Feijó – O que importa é que vencemos as eleições, e bem. O PR elegeu seis deputados federais e eu fui o terceiro mais votado. Claro que eu esperava fazer de 80 a 100 mil votos, pelos serviços prestados que tenho em Campos e região. Furou muito no Noroeste e em Campos. Tive uma votação, principalmente, de reconhecimento e amizade, praticamente sem apoio de máquina administrativa nenhuma.

 

Folha – Por falar em Clarissa, como está a situação dela na bancada do PR na Câmara Federal, onde colegas teriam lhe dado um ultimato para que deixasse de partido? O PSDB deve mesmo ser o destino dela?

Feijó – Ela ocupa hoje um dos mais importantes cargos do PR na Câmara Federal, como presidente da Comissão de Aviação e Transportes. Acho que não é hora dela falar em troca de partido, até porque o pai é o presidente regional do PR no Estado do Rio.

 

Folha – Como alguém no quinto mandato de deputado federal, já viu algo parecido com que se assiste hoje na capital federal, com um governo refém da crise econômica, política, de popularidade e moral? Onde isso pode acabar? Enxerga algum paralelo entre as situações da presidente Dilma Rousseff (PT) e da prefeita Rosinha?

Feijó – A crise política e moral do governo da presidente Dilma é muito grave, o Brasil está acompanhando. É imprevisível onde isso pode acabar, até porque eu acho que a Operação Lava-Jato não vai acabar tão cedo, trazendo resultados trágicos para o governo e o Congresso Nacional. Me posiciono de maneira a contribuir para que o Brasil vença essas dificuldades. Já a crise vivida pelo município na gestão da prefeita Rosinha advém, principalmente, destas dificuldades enfrentadas pelo país e também pela região, em função da queda da receita proveniente dos royalties do petróleo.

 

Folha – Logo após o primeiro turno da eleição de governador do Rio em 2014, com Garotinho excluído do segundo, você recebeu uma ligação de Francisco Dornelles (PP), vice do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), pedindo pela neutralidade. Garotinho ignorou, decidiu sozinho pelo apoio a Marcelo Crivella (PRB) e vocês acabaram derrotados não só no Estado, como em cinco das sete zonas eleitorais de Campos. Arrependeu-se de ter aconselhado? E Garotinho, por não ter seguido seu conselho? 

Feijó – Realmente isso aconteceu, mas no domingo, logo após o primeiro turno, o Garotinho já tinha decidido apoiar Crivella. Na segunda-feira cedo, quando fui conversar com ele, a decisão já está tomada. Fiz o meu papel.

 

Folha – Em 2008, Geraldo Pudim foi fundamental na ponte para que você passasse a integrar o grupo de Garotinho. Agora, Pudim tem sua saída anunciada para ser candidato a prefeito de Campos pelo PMDB. Como viu o movimento e como será enfrentá-lo em 2016?

Feijó – Na minha opinião, sem entrar no mérito da relação com Garotinho, que é uma coisa pessoal, Pudim tem todo direito de buscar o seu caminho. Em relação ao ano que vem, é lógico que eu estarei apoiando o candidato do nosso grupo político.

 

Folha – Vê possibilidade do afastamento entre Pudim e Garotinho ser uma jogada ensaiada, uma espécie de Cavalo de Tróia? E é possível que, a apenas 14 meses da eleição, o eleitor mude uma percepção formada nos últimos 30 anos da parceria política entre os dois?

Feijó – Não, possibilidade zero, houve sim o afastamento. Em relação ao eleitor, só o tempo poderá dizer.

 

Folha – O anúncio da candidatura de Pudim a prefeito pela oposição tem dividido reações. Em artigos publicados ao longo da semana na Folha, o jornalista Fernando Leite saudou (aqui) a iniciativa, questionada pelo também jornalista Ricardo André Vasconcelos (aqui), além do advogado José Paes Neto (aqui) e do médico Makhoul Moussallem (aqui). A oposição já começa a se dividir? Ou isso já estaria previsto na tal “jogada ensaiada”?

Feijó – Acredito que não tenha nenhuma jogada ensaiada e, como já disse anteriormente, dificilmente a oposição se unirá para a eleição do ano que vem.

 

Folha – Um dos pontos levantados no artigo de Ricardo foi a formação de uma pauta de princípios a ser estabelecida junto à sociedade, que seria seguida por quem, independente de nome ou corrente política, seja eleito prefeito de Campos. O que pensa da ideia?

Feijó – A ideia é boa, só que o nosso grupo político vai elaborar o futuro plano de governo da mesma forma, discutindo com a sociedade organizada, como foi feito nos dois mandatos anteriores, da prefeita Rosinha.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

 

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