“Meu querido diário”, no Sesc, seis anos depois, como um camundongo pela sala

Era uma quinta-feira, 3 de setembro de 2009. De fato, como disse o diretor de teatro e cinema Domingos Oliveira: “o tempo é um camundongo passando pela sala!”. No Teatro de Bolso, hoje fechado há dois anos, se dava a estreia da peça “Meu querido diário”. O monólogo unia três criadores que tinha e mantenho na mais alta conta pessoal e artística: o ator Yve Carvalho, o autor Adriano Moura e, vivinho de Góis Cavalcanti, o diretor Antonio Roberto Kapi (1955/2015). Mesmo sem ser um espectador assíduo de teatro, fui conferir, usando meu conhecimento de cinema para me arriscar depois numa crítica, publicada na capa da Folha Dois do domingo seguinte, na tentativa de comungar o impacto do que vira e ouvira no palco.

Pois amanhã, nessa sexta-feira, dia 9, a partir das 20h, “Meu querido diário” finalmente volta a cartaz. Como o Teatro de Bolso, no qual Garotinho começou sua carreira política ao meter-lhe o pé na porta, no dinal dos anos 1970, para depois deixá-lo fechado há dois anos, como lamentavelmente se encontra, numa reforma a passos de cágado e sem perspectiva de ser devolvido aos artistas da cidade, o palco será o Sesc-Campos. Nele. novamente Yve interpreta o texto de Adriano, em direção ainda assinada por Kapi, numa bonita (e merecida) homenagem. Quem não pode conferir em 2009, aconselha-se que o faça agora. Quem já viu, a reencontro com risos, pele arrepiada e uma lágrima furtiva é uma excelente maneira de começar o final de semana.

Abaixo, o que senti  e escrevi há seis anos, tempo em que um camundongo passou pela sala:

 

Yve - Meu Querido Diário 1
(Foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Talento de Yve, Kapi e Adriano Moura hoje no Teatro de Bolso”. Este foi o título na capa da Folha da Manhã, na última quinta, relativo à estréia, naquele dia 3, da peça “Meu querido diário”. Titulagem da noite anterior, o editor pensava em equilibrar no mesmo patamar três grandes criadores, conhecidos de todos que militam com arte em Campos: Yve Carvalho, o ator; Antônio Roberto Kapi, o diretor; e Adriano Moura, o autor.

Na noite seguinte, não só um editor que nunca entendeu nada de teatro, mas todos os demais presentes à estréia puderam constatar que o equilíbrio buscado num título de jornal tratava-se de pleonasmo bobo diante daquilo visto e ouvido no palco. Na arte, Yve, Kapi e Adriano dispensam Dartagnan. Mesmo sendo três, são pares.

Atrás de seu primeiro monólogo já há algum tempo, Yve o agarrou com unhas e dentes, intenso como de hábito na pele do estressado professor de biologia Paulo e rasgadamente hilário na projeção da avoada supervisora escolar Regina. Na verdade, “Meu querido diário” é uma continuação retroativa de outro texto do professor Adriano, “Conselho de classe”, de 2005, encenado a partir daquele ano nos dois seguintes.

Na peça anterior, Paulo já estava lá, num hospício, internado junto aos colegas de magistério Pedro, Léo e Cristina, todos devidamente ensandecidos por seus alunos e pelas condições do ensino brasileiro. Regina, embora citada nos diálogos de “Conselho”, não tinha ainda a primeira pessoa da projeção de agora, em “Diário”, escrita ano passado para retratar a loucura de 2005 ainda em seu processo de semeadura.

Como o próprio autor admite, a peça mais recente que retrata um tempo mais distante é um trabalho de maior maturidade. E nele podemos ver também um intérprete superior, que soube pontuar sua conhecida visceralidade com um timing de comédia quase casual, servindo as deixas do texto ao riso do público numa fruição espontânea, sem fazer força, mesmo caudalosa.

E como, mesmo em prosa, trata-se de um texto de um poeta da desconstrução, quando o rir finalmente forra a cama à insônia de pensar por que se ri, quando o cotidiano das salas de aula se revela a nossa “Ilíada” de todo dia, o ator traz à tona toda a sua capacidade dramática, comungando com o público o tato doído da lágrima que escorre em sua face. Numa linha de passe com o cinema de Walter Salles, é mais ou menos: “Olha para minha cara, porra!”.

Como em qualquer trindade que se preze, pai e filho não podem fazer conexão sem um bom espírito santo, o fio condutor desencapado entre o texto de Adriano e a interpretação de Yve é a concepção de Antônio Roberto Kapi. Se ele costuma dizer que as más línguas das coxias campistas o classificam, enquanto diretor de teatro, como um bom cenógrafo, alguém sem grande intimidade com os palcos, mas com um mínimo de conhecimento das telas, pode afirmar, em contra-partida, que se trata mesmo é de um grande cineasta.

Desperdiçado num ostracismo a que pretenderam relegá-lo os podres poderes da planície, o diretor emergiu com soluções simples para uma composição tecnicamente difícil, num texto brilhante, mas prenhe de encruzilhadas cenográficas. Talvez cineasta frustrado e poeta certamente realizado, por um motivo e o outro também, Kapié um criador obcecado pela imagem. A idéia de usar o contraste entre luzes e cores para distinguir ambientes e graduar o crescente emocional de Paulo até sua próxima explosão escarlate, fez lembrar Nicholas Ray, em “Juventude transviada”, (“Rebel without a cause”, EUA, 1955), ao trajar de blusão vermelho os acessos de fúria e inconformismo de James Dean.

Godard já chegou a dizer: “O cinema é Nicholas Ray!”. Se não se pode afirmar o mesmo entre o teatro e Kapi, quem, no entanto, seria capaz denegar que o teatro de Campos é TAMBÉM Kapi?

Atrás dos palcos, necessário ressaltar a produção assinada e bancada por Yve. Traçando um caminho oposto ao de pedinte do rico poder público municipal, ele correu atrás até conseguir um grande texto, confiou a direção a um mestre da sua confiança, tomou o empréstimo necessário à montagem e — aposta difícil — empilhou todas fichas no próprio talento.

Apenas duas coisas a lamentar, que independem do talento, seja de quem escreve, interpreta ou dirige. A primeira é que tanta gente que se diz “da cultura” em Campos, ainda não tenha ido assistir à peça, muito embora seja uma comédia deliciosa, plenamente palatável à grande maioria que, na verdade, nunca foi tanto da cultura assim. Mas isso é fácil de resolver: basta ir hoje, às 21h, ao Teatro de Bolso, e conferir. Quem não achar tempo neste domingo, terá oportunidade ainda nas próximas quinta e sexta (às 20h), além do sábado e domingo seguintes (novamente às 21h).

O segundo dado, lamentável até para quem não é tão íntimo do teatro assim, é que “Meu querido diário” é apenas a segunda peça a ser encenada em Campos, este ano, por um grupo da cidade. Levado em conta que já se segue no nono mês do ano, agraciado com uma previsão orçamentária bilionária, num município governado por um grupo político egresso do teatro, alguém poderia até dizer que a comédia do palco, no mundo real, foi superlativizada à sátira.

Yve, por exemplo, antes de voltar a atuar em outra peça, poderá ter outro trabalho conferido no cinema, com o curta-metragem de ficção “Efígie”, sob direção de Carlos Alberto Bisogno, que estréia dia 11 de setembro, no Palácio da Cultura. Por motivos diversos, é uma evidência de que são cada vez menores as diferenças entre o teatro e o cinema produzidos na cidade.

Na boca de Yve, sob a luz de Kapi, em determinado ponto da peça ecoa o lamento poético de Adriano: “As minhas aulas foram ficando tão chatas, tão sem sapos”. Noves fora a cultura do próprio umbigo refletida na unidimensão dos festivais estudantis, o que se pode dizer de uma cidade tão sem teatro?

 

 

Capa da Folha Dois de 06/09/09
Capa da Folha Dois de 06/09/09

 

 

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