Opiniões

Artigo do domingo — Da “venda do futuro” ao teatro de “O Inimigo do Povo”

O inimigo do povo

 

 

Gustavo Alejandro Oviedo
Gustavo Alejandro Oviedo

Uma antecipação longe demais

Por Gustavo Alejandro Oviedo(*)

 

Garotinho anunciou ontem (aqui), durante o programa “Entrevista Coletiva”, da rádio DiárioFM (que gentilmente lhe concede espaço semanal), que o dinheiro da antecipação dos royalties deverá aparecer nos cofres da Prefeitura “nos primeiros dias de novembro”.  Em setembro, no mesmo programa, disse (aqui) que o dinheiro chegaria em outubro. Em agosto, também lá, falou que os valores iam estar, no mais tardar, para meados de setembro.

Até dá pra entender o motivo da preocupação do secretário de Governo em prometer, a cada mês, a felicidade para o mês seguinte: a enorme insatisfação de empreiteiros e cidadãos campistas, que aguardam com ansiedade o momento em que a Prefeitura possa lhes pagar o que está devendo, seja para continuar as obras interrompidas, seja para regularizar os serviços e salários em atraso.

Em que pese o voluntarismo e o esforço de Garotinho, parece que, mais uma vez, o seu prognóstico não poderá ser cumprido. Restam ainda uma série de passos burocráticos a serem realizados a nível federal, que envolvem a Caixa Econômica e a Comissão de Valores, para somente depois, se tudo der certo, lançar a proposta de antecipação de royalties ao mercado internacional e, só então, aguardar que algum banco apareça para entregar a grana.

Mas, como não se duvida aqui da competência de Garotinho em atingir seus objetivos, mais cedo ou mais tarde essa operação financeira será efetivada. O problema, claro, são os objetivos de Garotinho.

No programa de rádio já citado, também ontem, o marido da prefeita disse que a antecipação dos royalties irá render aproximadamente R$ 1,18 bilhão. Esse valor será pago com, no máximo, 10% das receitas anuais de royalties. Garotinho confunde esse percentual com a taxa de juros, e declara, eufórico: “é menos de 1% ao mês!”.

O leitor me desculpará por ter que ler o que já escrevi em outra oportunidade, mas, dado que Garotinho repete a sua explicação, eu repito a minha refutação:

— Dez por cento (10%) ao ano não é a taxa de juros, mas o limite da parcela a ser paga a cada ano. Garotinho sabe disso: a taxa de juros será determinada pelo mercado, em função do risco da operação. Ou seja, não está definida.

— Sendo que o valor da parcela anual a ser paga variará a cada ano, dependendo da quantia a ser recebida de royalties, não há como saber quanto tempo se demorará em liquidar a operação. Mas uma coisa é certa: se pegar mais de R$ 1 bilhão, a administração Rosinha comprometerá, no mínimo, na melhor das hipóteses, com vento a favor e no aclive, os próximos 20 anos.

— Se Garotinho precisa desesperadamente esse dinheiro para fechar as contas deste ano, pois, como ele mesmo reconheceu, as escolas estão sujas por falta de funcionários (ciente disso, é curioso que priorize 10 milhões pagos recentemente à publicidade, não à manutenção das escolas) cabe perguntar: será que o empréstimo resolve também a situação para o próximo ano. Ou em 2016 será necessário acudir a outra antecipação? Reparem que ano que vem há de se pagar a primeira parcela desta antecipação, mais a segunda parcela do empréstimo contraído ano passado.

Diante do exposto, qualquer campista com um mínimo de preocupação em relação ao futuro do município tem que, no mínimo, se inquietar. Ainda mais quando o governo municipal se nega a explicar com transparência uma operação financeira que será suportada em mais de 90% pelas próximas administrações — pensando bem, talvez a falta de esclarecimento de deva precisamente a isso.

Nesse sentido, há de se destacar a atitude (aqui) do promotor de justiça Victor Queiroz que, na ação movida pelos vereadores da oposição visando barrar a operação financeira, recomendou intimar a Prefeitura para que apresente à Justiça todas as informações pertinentes à antecipação. O pedido do Ministério Público não passa do razoável, mas, em Campos, é exatamente por isso que deve ser celebrado.

Para Garotinho, os vereadores autores dessa ação são (aqui) inimigos do povo campista, assim como este jornal e qualquer pessoa que seja contrária a antecipação dos royalties. É bom lembrar ao secretário que, para poder fechar as contas de 2015, ele reduzirá em 10% os royalties de Campos durante, insisto, pelo menos as próximas duas décadas. Também, não estaria mal que, considerando o seu passado teatral, recordasse o enredo de uma obra de Henrik Ibsen chamada, justamente, “O Inimigo do Povo”.

 

(*) Advogado, publicitário e crítico de cinema

 

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Este post tem 4 comentários

  1. enquanto lia esse artigo fiquei analisando! se no ano de 2016 a arrecadação está prevista pra no maximo um bilhão e setecentos milhões como a prefeita eo secretário vão conseguir fechar as contas se terá: vinte sete milhões de juros do empréstimo dos trezentos milhões do ano passado, terá também mais uns setenta milhões no minimo por ano de juros da venda do futuro! somando: 27 mais uns 70 da venda do futuro, soma em torno de cem milhões só de juros em 2016. se arrecadará menos de um bilhão e setecentos milhões já se ver que: no ano que vem 2016 o governo rosado terá menos de 1 bilhão e 600 milhões, deu pra entender o soma? se no ano passado com 2 bilhões e meio eles pegaram 250 milhões a mais que totalizou 2 bilhões e 750 milhões e estão terminando o ano com o pires na mão! como fechará as contas no ano que vem com ama arrecadação de menos de 1 bilhão e 600 milhões: com certeza vão entrar em desespero e buscar contrair mais empréstimos!

  2. Olha sabe o que eu tenho a dizer com tudo isto, se vocês acha que eles estão vendendo o futuro de CAMPOS, eu acredito que não vai ter mas quem queira se candidatar a prefeito, com medo da divida, aviso a todos os futuros candidatos a prefeito cai fora gente vai ser uma furada, a divida pra o futuro prefeito vai ser muito grande, este e meu conselhos, samba fora futuros candidatos, vai ficar feia a coisa!

  3. Preocupante. A nota não deixa dúvidas, esse empréstimo é uma caixa de Pandora. Parabéns ao autor por alertar a população.

  4. Caro Gustavo, a falta de competência administrativa e a forma irresponsável de gerir recursos públicos, não é novidade quando o casal está no poder. Porém, fico muito triste em ver um Legislativo omisso, que abre mão do seu dever constitucional de fiscalizar o Executivo. Por isso, em 2016 vou votar em um vereador independente e consciente politicamente, ou seja, Cláudio Andrade.

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