Opiniões

Poema do domingo — Whitman, amarelo como a blusa de Maiakóvski

Walt Whitman, primeiro autor no mundo a publicar sua foto em seu livro, “Folha da Relva”, único que escreveu, acrescido a cada edição de novos poemas
Walt Whitman, primeiro escritor no mundo a trazer a foto em seu livro, “Folhas da Relva”, único que publicou, acrescido de poemas inéditos a cada nova edição

Sei que você, leitor, já se acostumou a buscar e encontrar poesia neste blog, aos domingos. E tenho disso tanto consciência, quanto orgulho. Mas, não sem algum constrangimento, confesso que, exaurido por uma semana de muito, mas muito trabalho, não preparei nada previamente para este domingo. Talvez fosse o caso de simplesmente postar um poema, sem muito contexto sobre autor e obra. Afinal, como bem sentenciou o poeta Manoel de Barros (1916/2014): “A poesia não serve para nada. Só é bela”.

Dentro desse espírito, para ter neste domingo a folga que julgo merecer, pretendia deixar você, leitor, apenas com toda poesia que pude colher no pôr do sol de ontem, em Atafona, amarelo na floração das minhas orquídeas, como a blusa de Vladímir Maiakóvski (1893/1930). Mas do poeta maior da Revolução Russa (1917), a ponte se fez ao canto coletivo do grande bardo da Revolução Americana, que começou na Guerra de Independência dos EUA, no séc. 18, para ser concluída pela Guerra de Secessão, no séc. 19, na qual Walt Whitman (1819/92) serviu como enfermeiro numa luta de sangue contra a escravidão.

Criador do verso livre, sem rima ou métrica, que seria tão mal copiado mundo afora, e pai de tudo aquilo que este mesmo mundo depois chamaria de Modernismo, “With The Man”, como versejava seu nome o “maldito” curitibano Paulo Leminski (1944/89), foi também a grande influência confessa de um tal Álvaro de Campos, mais modernista dos heterônimos do português Fernando Pessoa (1888/1935), que sentenciou em seu inacabado “Saudação a Walt Whitman”:

 

“Abram-me todas as portas!

Por força que hei-de passar!

Minha senha? Walt Whitman!”

 

Se, como cantou o Caetano, “minha pátria é minha língua”, a senha pessoana é abre alas à compreensão em “esperanto” do que afirmava outro grande poeta modernista, o estadunidense Erza Pound (1885/1972): “Whitman é para minha pátria o que Dante é para a Itália”.

Abaixo, a você, leitor, o canto de Whitman, na tradução do José Paulo Paes, e a foto de Atafona, amarela como a blusa de Maiakóvski, em seus “três metros de entardecer”:

 

 

Você, Leitor

 

Você, leitor, que pulsa

de vida e orgulho e amor,

assim como eu:

para você, por isso,

os cantos que aqui seguem!

 

 

 

Atafona, pôr do sol de 24/10/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, pôr do sol de 24/10/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

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Este post tem 12 comentários

  1. É para quadro na parede a foto e o poema.

    1. Caro Nino,

      Concordes qt ao poema, agradeço por sua generosidade para com a foto.

      Abç e grato pela participação!

      Aluysio

  2. Meu caro:

    Ler um poema de qualidade, se prender numa bela foto, ver o que viu um outro olhar, ler o que é ditado pelo sentimento.

    Hoje em dia se enquadra nas “necessidades básicas” da sobrevivência! Afinal, amanhã é segunda-feira, o sujeito tem que se cuidar, planejar como levanta e encara o dia, a semana, porque não tá fácil!

    É mais saudável ler poesia pra criar coragem, beber otimismo, porque se for pensar bem, não sai de casa! Ou lê, ou ouve uma música que o faça se sentir bem, ou mete o pé, tanto na jaca quanto no balde e manda logo duas talagadas, não esquecendo jamais, de “benzer” ao santo…

    1. Caro Savio,

      A segunda-feira já chegou. E, governados pelo garotismo em Campos, ou pelo lulopetismo, no Brasil, nada está fácil para ninguém. Mas é nas imagens colhidas num poema, uma foto, um pôr do sol, no brilho nos olhos do outro, é que recarregamos as baterias para seguir na luta.

      Abç e grato pela chance do diálogo!

      Aluysio

  3. Também passei o final de semana no meu exílio e lá, entre flamboyants e acácias, às margens do riacho do Colégio, na Sesmaria de São Fidélis de Sigmaringa, pensei e escrevi este poeminha, que longe das criações dos gigantes citados por ti, me acalmam e me dão a lisonja de achar que sigo seus passos:

    JARDINEIRO

    Preparo uma palavra
    que ainda não foi dita.
    Qual artesão, modelo no barro
    o jarro da nova palavra,
    pra colher a água viva
    do seu significado
    Por enquanto, a palavra
    é ardente semente,
    imberbe germe
    no subterrâneo da língua.
    O que inaugura a palavra é a fala,
    silêncio é túmulo do termo,
    ermo de intenções e desejos.
    A nova palavra será como musgo no muro,
    pétala rompendo o submundo,
    flor do futuro.

    FLF

    Boa semana!

    1. Caro Fernando,

      Hipocrisia às favas, ao dividir seu (belo, belo) poema do final de semana fidelense, vc honra não só a mim, ao blog e ao leitor, como a todos os mestres aqui citados. No eco a Whitman: “para você, por isso,/ os cantos que aqui seguem”.

      Abç e grato pela comunhão!

      Aluysio

  4. corrigindo: (…) me acalma(…) (…) e me dá lisonja(…)

    1. Fernando,

      Com todo o respeito, não dou ou empresto a lisonja que é minha, do blog e do leitor.

      Abç fraterno!

      Aluysio

    1. Caro Ocinei,

      No eco ao gigante literário e literal:

      “Mulheres que amais minha carcaça gigante
      E tu, que fraternalmente me olha, donzela.
      Atirai vossos sorrisos ao poeta
      Que, como flores, eu os coserei
      À minha blusa amarela”

      (Vladímir Maiakóvski)

  5. …Você ,leitor, que pulsa de vida e orgulho e amor…Lindo isso Aluysio tal qual a fotografia.Parabéns ,transbordou na poesia.

    1. Cara Sandra,

      É de vc, leitora, que o poema fala.

      Abç e grato pela chance da extensão!

      Aluysio

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