Opiniões

Artigo do domingo — Oração em árabe a um Deus de paz

 

O AFERIDOR

(Manoel de Barros)

 

Tenho um Aferidor de Encantamentos.

A uma açucena encostada no rosto de uma criança

O meu Aferidor deu nota dez.

Ao nomezinho de Deus no bico do sabiá

O Aferidor deu nota dez.

A uma fuga de Bach que vi nos olhos de uma criatura

O Aferidor deu nota vinte.

Mas a um homem sozinho no fim de uma estrada

sentado nas pedras de suas próprias ruínas

O meu Aferidor deu DESENCANTO.

(O mundo é sortido, Senhor, como dizia o meu pai)

 

 

França

 

 

Apesar da sexta-feira 13, tudo corria muito bem. Primeiro foi o Leonardo Moreira, motorista da Folha, quem me levou um exemplar do jornal Lance! do dia anterior, que trazia em suas páginas 6 e 7 uma excelente reportagem sobre os 120 anos de história do Flamengo e uma entrevista com Zico, ídolo maior do clube e do menino que fui.

Depois, numa dessas lembranças involuntárias, eis que o Facebook traz, na lembrança das postagens de 13 de novembro de 2014, alguns escritos sobre a morte naquele dia do poeta Manoel de Barros (1916/2014). Ao lado de João Cabral de Melo Neto (1920/99), Manoel esteve entre as maiores influências ainda contemporâneas e conterrâneas em brasilidade aos meus versos.

Pelo refinamento das suas artes, pela dedicação a elas devotada e pela generosidade pessoal que sempre demonstraram para além da obra, aprendi a gostar de Zico e Manoel como dois amigos chegados de data longa. Pensando nas alterações à órbita da minha vida pelo peso da gravidade de ambos, feliz e grato ao artesão da bola e do verso, cheguei a comentar com mais de uma pessoa próxima: “Hoje, apesar da sexta-feira 13, nada vai estragar meu dia”.

E vai daí que chegou, na vertigem de uma bofetada, a notícia do atentado em seis pontos de Paris, com tiroteios e explosões, matando 129 pessoas e ferindo 352, incluindo dois brasileiros, 90 delas em estado grave, depois assumido pelo Estado Islâmico (EI). A ação chocou um mundo politicamente repartido entre esquerda e direita na capital da França, a partir da posição das bancadas na Assembleia Nacional da Revolução Francesa (1789) — separando a defesa da Liberdade na destra e da Igualdade, na canhota, até os dias de hoje.

Por certo, para quem possui a Fraternidade hasteada dentro de si, não cabe nenhuma comparação mesquinha de tragédias, entre a parisiense com a ocorrida em Mariana (MG). Foi lá, na divisa com o também município histórico de Ouro Preto, que duas barragens de resíduos da mineradora Samarco se romperam, no último dia 5, ao saldo de oito pessoas mortas, 12 desaparecidas e 632 desabrigadas, além de comprometer toda a vida animal e vegetal do rio Doce, que corta a região.

Para além dos animais e plantas, uma vida humana é uma vida humana. Tem o mesmo valor em Paris, Minas ou Síria, na qual o Estado Islâmico reuniu muçulmanos sunitas radicais e vicejou numa guerra civil que já matou 250 mil pessoas, provocando o êxodo de outras 11 milhões, no vácuo da tentativa desastrosa das potências ocidentais de derrubar o ditador local Bashar al-Assad. Alinhado geopolítico da Rússia de Vladímir Putin, ele sucedeu ao pai, Hafez al-Assad, que governou a Síria por 30 anos, até morrer e deixar o país de herança.

Não creio que quem aproveita a noite de sexta-feira na Cidade Luz para, sem aviso prévio, ser abatido a tiros de fuzil disparados por um radical religioso, agonize menos do que alguém afogado na lama tóxica de Mariana ou nas belas águas azul turquesa do Mar Egeu. Ou será que, na sucessão (e banalização) das tragédias, você, leitor, já se esqueceu (aqui) do menino sírio Aylan Kurdi, de apenas três anos, cujo corpo pálido, inerte, com rosto enfiado no cascalho da praia de Bodrum, deu no balneário turístico da Turquia, há pouco mais de dois meses? Ou que aquela criança apenas deu cara aos mais de 2.300 afogados só neste ano, fugitivos da guerra e da fome, no Oriente Médio e na África, num total de duas mortes por hora no Mar Mediterrâneo — o “Mare Nostrum” (“Mar Nosso”) dos antigos romanos?

Ontem, um pouco antes de escrever este artigo, nas entrevistas com testemunhas dos atentados em Paris, li que os terroristas gritavam em árabe, enquanto matavam seus semelhantes ou antes de fazê-lo a si mesmos: “Allahu Akbar!” (“Deus é grande!”). Também ontem, acompanhando a repercussão do caso na democracia irrefreável das redes sociais, notei que o advogado, publicitário e crítico de cinema Gustavo Alejandro Oviedo, argentino caído em Campos, tinha postado em seu mural no dia 12, véspera da tragédia francesa, uma foto do interior da belíssima Mesquita Azul, em Istambul, construída por ordem do grande sultão Ahmed I (1590/1617) para ser maior que a bizantina e cristã Igreja de Santa Sofia, uma diante da outra.

Embora de criação católica na infância e alguma convivência evangélica na adolescência, não tenho religião. Mas creio, sinceramente, na ideia de Deus, em sua força aglutinadora e civilizatória para a humanidade ao longo da História. E, certamente, raras vezes estive num lugar criado pelo homem tão lindo quanto a Mesquita Azul. Fui lá em julho de 2009, com meu filho Ícaro, então com 10 anos, numa viagem de mais de um mês pela Grécia Antiga, hoje dividida entre os estados modernos da Grécia e da Turquia.

Segundo a tradição islâmica, nos descalçamos, lavamos pés, mãos e rostos numa das muitas fontes públicas ao lado do portal de entrada. Ganhamos o interior do templo e, sobre o imenso tapete persa que cobre todo o piso, inebriados pelas orações cantadas dos seis minaretes, naturalmente nos prostramos, até encostar nossas testas ao chão, como faziam os fiéis ao redor. Foi quando repetimos em oração a única frase em árabe que eu sabia e ensinei ao meu filho: “Allahu Akbar!”

Com felicidade e gratidão muito próximas às ensejadas pela arte de Zico e Manoel de Barros, tive a certeza de que estávamos curvados diante de um Deus de paz.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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